Filmes que educam: “À Prova de Fogo”

Este filme nos faz refletir sobre o amor humano e sobre a indissolubilidade do matrimônio cristão, como um reflexo do relacionamento indissolúvel de Cristo com a Igreja, como um casamento. Vale a pena ver.

Resenha do filme:
O casamento está mal entre Caleb e Catherine. Discutem frequentemente. Ela passa a não deixar comida para ele, e reclama que ela é quem faz tudo em casa, apesar de trabalhar período integral em um hospital e que ele fica economizando dinheiro para comprar um barco.
Ele é bombeiro e tem plantões freqüentes, uma rotina de stress e muita responsabilidade pois frequentemente salva vidas em perigo de morte.
Eles têm uma discussão Ele resolve conversar com o pai que lhe pede, antes de tomar qualquer decisão radical (o divórcio) 40 dias de prazo e que o filho faça o que o pai vai lhe mandar pelo correio.
Chega um livro com dedicatória do pai de Caleb. É o “Desafio do amor” – um processo de 40 dias para salvar o casamento (que havia dado certo para os pais de Caleb, também em crise um época).
O livro consiste nas seguintes sugestões:
1º. Dia – Thiago 1, 19 – não dizer nada negativo ao outro
2º. Dia – verdadeiro amor não tem a ver com sentimento. Fazer ato inesperado de gentileza.
3º. Dia – Comprar algo para mostrar que estava pensando nela hoje.
4º. Dia – Se precisa de alguma coisa hoje. (amigas – ele está te enganando – fica bonzinho para pedir o divórcio depois). E ela acha que é isso mesmo, porque ela ficava espionando o histórico do computador. Sai uma discussão (ele se sente injustiçado porque estava se esforçando). Ele fica desesperado. O pai o acalma. Viver um dia de cada vez. O amor é uma questão de decisão e não de sentimento. Pais rezam pelo filho. Ela depois da discussão não sabe o que fazer. Ela se sente humilhada e acredita que ele não percebe isso. Ela se diverte no trabalho com o bom-humor de um médico colega de trabalho.
16º. – orar por ela
17º – ouvi-la
18º. – estudá-la para ganhar o coração dela (hábitos e hobbies). Deveria a aprender a ganhar o coração dela para a vida inteira.
Pula para 18º. Dia – Jantar à luz de velas e fazer uma lista de perguntas . O amigo acrescenta torne uma data memorável, comida boa de restaurante….
Ela pergunta o que significa isso e ele talvez queira jantar com minha esposa – ela replica – vou deixar bem claro eu não amo mais você. Ele liga ao pai. O pai – antes de atender – ah, filho é quando fica difícil…Ele diz que foi a parte mais difícil. Não se basear no que viu, porque ela a esposa viu que o filho tentou. O pai vai vê-lo no outro dia.
A mulher vai para o quarto e fica lá chorando.
20ª. Dia: Até aqui – a mulher dele estava ignorando.
Ele não estava lendo o mais importante, que eram os versículos que existiam no final de cada página.
O filho se recusa, não quer Jesus como “bengala”.
O pai insiste que precisamos de Jesus do Seu perdão e da Salvação que vem Dele.
O pai diz que o filho violou os padrões dele. A verdade, amor, devoção…Amar a Deus…padrões altos….a luxúria para ele é adultério e o ódio é como matar alguém…
Por que ele está tão frustrado com ela- é ingrata, vive reclamando…não demonstrou …não é bem vindo em sua própria casa… Ela jogou fora as flores…Ela não merece …como demonstrou amor por alguém que dia após dia vem me rejeitando….o pai diz – é uma boa pergunta….
Como demonstrar amor para alguém que me rejeita…
Não se pode…mesmo….amar merecendo o outro ou não. Como Deus. Ele nos ama, mesmo que cuspamos na sua cara…
Isso é amar de verdade.
O pai pede para o filho confiar a vida a Jesus Cristo, pedir perdão, ele precisa de Jesus em sua vida…
Ele procura o amigo que sempre vinha dando bons conselhos e diz que está dentro. O amigo fica feliz e o chama de irmão, porque agora têm o mesmo Pai.
O amigo é um convertido, já tinha sido casado com uma outra mulher. E se arrependeu de se divorciar, porque achou que estava seguindo o coração mas não estava, quando se deu conta, a ex já havia se casado com outro. Ele sugere ao Kaleb não se divorciar de modo algum. Diz que o casamento é para sempre.
Ele desiste de entrar em sites de mulheres. Aí ele pega o livro. É o dia 23º. O livro recomenda cuidado com os parasitas (tudo o que se agarra a um dos cônjuges) que sugam vida do casamento, prometem prazer mas crescem como uma doença e consomem pensamento, tempo e dinheiro…. e roubam sua lealdade e coração dos que te amam– destruir vícios que habitem em seu coração: jogos, pornografia, drogas…raramente os casamentos sobrevivem com os parasitas. Eliminar os vícios, se não eles nos destroem.
Ele depreda o próprio computador.
Ela chega e vê o computador no lixo da casa. No lugar do computador…um vaso de flores com os dizeres: Eu te amo ainda mais.
Ela também deixa uma carta. Ele acorda e vê, fica feliz, mas se trata da petição de pedido de divórcio.
Ele chora e fica arrasado e implora a Deus, conta tudo para o pai pelo telefone.
Enquanto isso…..aquele médico que a estava assediando, enviando cartas, flores…o Keller…Ele toma atitude e paga as cadeiras de roda que a mãe da esposa precisava. Ele pagou tudo, mas sem se identificar. Ela prevê que era o Keller, o médico que a estava assediando e acerta e o agradece. Ele também se declara a ela por carta.
Ele vai falar com o médico pessoalmente sobre a Catherine, depois de encontrar em casa a carta em que o médico se declara à esposa.
E o médico desmarca o encontro, diz que está ocupado.
Ela vai almoçar com uma amiga, que não a vê há um tempo – Ana – e desabafa com esta. Ela se sente vazia e quer alguém que a trate bem. Ela acha que Dr. Keller é um homem bom, a faz sentir importante…Ana a alerta – se ela está fazendo isso com a Catherine que é casada…pode ser que repita com ela…
Ele começa a limpar a casa…rezar…pensar na Cruz de Jesus…lavar a louça para a esposa…

43º. Dia:
Um dia ela fica meio deprimida e não vai trabalhar …ele pergunta o que é mais ela diz que vai ficar bem…aí ele sai..compra um café da manhã para ela e entrega para ela na cama…e verifica que ela está com febre…Ela pergunta por que ele está fazendo isso…e ele diz que aprendeu nunca deixar para trás um parceiro e daí ele conta sobre o livro que o pai dele havia entregue…Ela já tinha descoberto no dia anterior…e ela pergunta qual dia ele está…ele diz que está no 43…ela replica…mas só são 40 dias…e ele: quem disse que era para parar…..
Ela fica curiosa e ela diz que no início ele não queria…Ele diz que passou a querer quando entendeu o que era o amor….Ela quer acreditar que tudo é verdade…mas ela não consegue ainda…ele entende…
Ele diz – eu sinto muito – diz estar sendo egoísta, que a maltratou nos últimos 7 anos…que ele amou outras coisas…E ele disse que Deus deu um amor por ela que ele nunca tinha sentido antes e ele pediu perdão a Deus e esperava que ela o perdoasse também…não quer viver o resto da vida sem a esposa…
Ela fala sobre os documentos que deve entregar ao advogado..ela diz que precisa de um tempo para pensar…Ele concorda….
Ela volta para o local em que comprava as coisas para mãe doente….E a mulher conta que foi o marido dela que deu a cadeira de rodas, a cama hospitalar…que o Dr. Keller só havia doado 300,00….Ela chora ao saber….vai e resgata o anel de noivado que ela havia escondido em uma gaveta de roupas….e percebe quem a verdadeiramente a ama…o seu marido…Ela vai até o serviço dele (ele era bombeiro)…e diz que ele mudou e que ela deseja que ela também mude….Ela pede para ele envelhecer com ela….
O amigo que tanto torceu pelo Caleb…ficou muito feliz….
Ele a leva à Cruz em que ele meditava sobre Jesus…conta aos pais que ficam radiantes…
Ele conversa com o pai e diz que o Desafio do Amor mudou a sua vida….E o pai replica dizendo que só foi um instrumento.
E conta a verdade: foi a mãe dele que havia feito isso com o pai. Ele conta que ela o amou incondicionalmente e através dela chegou até Cristo….quem queria se separar era o pai do Caleb, mas pelo exemplo da esposa, dedicação e demonstração de amor incondicional tudo mudou….Ele se sensibiliza porque Caleb passou o mesmo que a mãe….isso cria um vínculo de amor mais forte com a mãe dele que ele de vez em quando criticava…Eles se casam na presença de Deus e perante testemunhas….

Texto para refletirmos sobre a indissolubilidade do matrimônio cristão, que é o grande tema de fundo do filme:

07/08/2013 13:51 | Categoria: Sociedade
A indissolubilidade do Matrimônio, reflexo do amor total de Cristo
A Igreja não pode renunciar à sua missão de acordar a consciência dos povos e chamar os casais ao sacrifício da Cruz e à salvação

Parece comum, em nossa época, uma tendência a separar o amor da verdade, como se aquele fosse “um sentimento que vai e vem”, e não uma realidade concreta, destinada a “superar o instante efêmero e permanecer firme para sustentar um caminho comum” (cf. Lumen Fidei, n. 27). As obras literárias, os filmes, novelas e seriados produzidos em larga escala e distribuídos ao grande público ajudam a promover esta “cultura do provisório”: exaltam-se personagens do tipo “solteironas”, “muito ocupadas em não fazer nada” (2 Ts 3, 11); modelam-se jovens sem perspectiva, dados a “aproveitar” a vida ao máximo, e adultos frustrados, cujo script se resume ou a um casamento infeliz ou a uma vida de traição e mentira. O cenário, assistido e copiado por muitos, parece indicar a impossibilidade de um relacionamento por toda a vida, de uma entrega definitiva, que nos comprometa totalmente e envolva toda a nossa existência.
O Catecismo da Igreja Católica reconhece que “pode parecer difícil, e até impossível, ligar-se por toda a vida a um ser humano”. No entanto, a Igreja não pode renunciar à sua missão de acordar a consciência dos povos e, ao mesmo tempo, chamar os homens à salvação e à felicidade. A teologia do sacramento do Matrimônio deve ser lida a partir do amor total que nosso Senhor demonstrou no sacrifício da Cruz, como indica o próprio São Paulo: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5, 25). Ora, é inconcebível que o amor de Cristo seja passível de negociação. Do mesmo modo, a aliança firmada entre um homem e uma mulher, com a intenção de criar e educar os filhos, não pode ser quebrada, como quando se prevê o divórcio legal ou dispositivos para facilitá-lo.
Neste ponto, muitas vezes, a Igreja é acusada de não acompanhar o zeitgeist (o espírito do tempo) ou a marcha da história. Como se ela fosse uma instituição meramente humana ou um vendedor à procura de clientes. Mas, afinal, a quem a Igreja deve servir: aos homens ou ao Evangelho? Quando Jesus falou da indissolubilidade do Matrimônio, foi categórico: “não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19, 6); a Igreja, fiel à palavra de Cristo, não pode simplesmente alterar esta doutrina ou anunciar realidade diferente desta. Como disse o Papa Bento XVI, em entrevista ao jornalista Peter Seewald, “o matrimônio contraído na fé é indissolúvel. É uma palavra que não pode ser manipulada: devemos mantê-la intacta, mesmo que contradiga os estilos de vida dominantes hoje”01.
Estes “estilos de vida dominantes” são impulsionados pela própria legislação civil, quando admite juridicamente o rompimento do vínculo conjugal. Os propugnadores do divórcio dizem ser esta uma questão do foro íntimo dos indivíduos, que devem ter reconhecido o seu direito a alterar o “contrato” do casamento. Aqui, sem entrar pormenorizadamente nas angústias e dificuldades específicas de cada relacionamento, prevalece, em maior parte, uma escolha egoística, hedonista. O casal é tentado a pensar em si, em seu conforto, em sua carreira, em seu ego ferido; do lado, porém, de tantos conflitos, estão os filhos, cuja dignidade se vê ameaçada pela decisão arbitrária de seus pais. De fato, não são poucas as crianças e adolescentes que veem seu desenvolvimento humano e afetivo comprometido pela separação e dissolução do casamento de seus pais.
Não menos dolorosa é a situação dos casais que vivem em segunda união. Bento XVI reconheceu tratar-se “dum problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira chaga02 do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos”03. Nesta dimensão, ao lado de recordar que o homem não pode separar o que Deus uniu, a Igreja acolhe a súplica de seus filhos e os convida a viver quotidianamente sua vocação, se não possível por meio da comunhão eucarística, pelo menos através da oração, da penitência e da educação cristã de seus filhos. Afinal, ao lado de lutar contra o erro e o pecado, a Igreja tem ciência de sua missão de anunciar o Evangelho e buscar a salvação de toda criatura.
Por: Equipe Christo Nihil Praeponere
https://padrepauloricardo.org/blog/a-indissolubilidade-do-matrimonio-reflexo-do-amor-total-de-cristo, acesso em 22.07.2014, às 11h 22m.
Referências
1. BENTO XVI, Papa. Luz do mundo: o Papa, a Igreja e os sinais dos tempos: uma conversa com Peter Seewald – São Paulo: Paulinas, 2011.
2. À época da publicação da carta, a palavra piaga, em italiano, foi traduzida no site da Santa Sé como “praga”, mas a expressão correta é “chaga”.
3. Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, número 29.

Aprendendo a fazer uma oração eficaz

Verdade incontestável sobre Deus e nós

 

Antes de falarmos sobre a oração, precisamos iniciar com uma verdade incontestável: Deus nos criou e nos cumulou de dons naturais como o nosso corpo, a visão, a inteligência, enfim, a nossa vida!

Mas, além disso, de toda a criação visível só nós somos capazes pela nossa inteligência, liberdade e vontade querer conhecer e amar a Deus,  de uma forma muito maior do que a nossa capacidade humana, porque Deus nos cumula, além dos dons naturais, de dons sobrenaturais, que é uma participação pela chamada GRAÇA da sua própria NATUREZA DIVINA.

Esse conhecimento de Deus e amor a Deus já se inicia aqui mesmo e continua no Céu, onde seremos felizes para sempre com Ele, porque seremos tratados como filhos de Deus-Pai (pela graça), no Filho de Deus (que é Filho por ser consubstancial ao Pai).

 

Consequência incontestável decorrente do conhecimento da Verdade sobre Deus e nós

 

Por conseguinte, qual seria a atitude de um filho de Deus? Uma profunda atitude de humildade diante de um Deus Todo-Poderoso, Criador de todas as  coisas visíveis e invisíveis, bem como de total agradecimento diante de tanta prova de amor.

Se não fôssemos pecadores, essa atitude de humildade e agradecimento já existiria, imagine-se tratando nós de pessoas que por uma debilidade de alma, ocasionada pelo pecado original, mantemos uma dificuldade imensa de praticar o bem e de escolher o bem, qual não será o nosso dever senão de implorar a ajude desse Deus que é só Bondade e Amor para não o ofendê-lo e , se cairmos, de pedir-lhe perdão sincero e arrependido?

 

Uma via para falar com Deus, agradecê-Lo, louvá-Lo, pedir-Lhe perdão: a oração

 

“A oração é um diálogo amoroso e confiado do homem com Deus. É a comunicação da criatura com o seu Criador, do filho com o Pai, abrindo o coração na mais nobre relação que podemos viver e exprimir. Não há manifestação mais íntima e mais elevada da vida humana que a oração.” (Departamento de Pastoral e Catequese, Universidad de Navarra, Curso Elemental de Catequesis, Pamplona, 1977, Editorial Prumo).

 

A oração como forma de adoração

 

Quando oramos “seja feita a Vossa Vontade” a Deus, é o mesmo que dizer-Lhe: “o que me importa é Vos glorificar, porque eu Te amo meu Deus”.

Se o nosso desejo é de nos identificar a nossa vontade com o Querer Divino, estamos orando para Lhe agradar, para nos abandonar em suas mãos, reconhecemos implicitamente que Ele sabe mais do que nós e temos plena confiança Nele.

E mais. Adoramos a Deus se na nossa oração reconhecemos por qualquer outro modo a Sua grandeza, o Seu poder, a Sua soberania sobre toda a Sua criação, da maravilha da Encarnação, da Vida Santa de Jesus, dos milagres que Ele realiza, da Sua Cruz, da Sua Ressurreição….e assim vamos “mimando” esse Grandioso Deus que tanto nos ama e nos quer bem.

 

A oração para agradecermos

 

Podemos orar para agradecer a Deus por todos os benefícios conhecidos, ignorados, manifestos e ocultos que todos os dias recebemos de Suas mãos liberais.

É importante ter esse sentimento de gratidão por um Deus que nos ama primeiro, ao nos criar, ao ter planejado um modo para nos livrar da escravidão do pecado original pela Redenção operada pela morte tão dolorosa e cruel de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não fazer como aqueles nove leprosos que não retornaram para sequer agradecer a Jesus que os havia curado daquela doença incurável na época, pois como se sabe somente um retornou para agradecê-Lo. (Lucas 17, 18).

Oração para pedirmos

 

Podemos  usar uma parte da oração para pedir a Deus pelas nossas necessidades temporais, materiais próprias e dos outros.

Mas, neste ponto o pedido deve ser realizado como Jesus no Horto das Oliveiras: “Pai, se quiseres….não se faça porém a minha vontade mas a Tua.” (Lucas 22, 41-44).

É que os projetos de Deus são “infinitamente melhores, mas muitas vezes permanecem incompreensíveis à mente humana…Qual deve ser a nossa atitude diante desta provida e clarividente ação divina? Não devemos, certamente, esperar de maneira passiva aquilo que Ele nos manda, mas colaborar com Ele, a fim de que leve a cumprimento tudo o que iniciou a fazer em nós. Devemos ser solícitos sobretudo na busca dos bens celestes. Estes devem ocupar o primeiro lugar, como exige Jesus: Procurai primeiro o seu reino e a sua justiça. (Mt 6,33). Os outros bens não devem ser objeto de preocupações excessivas, porque o nosso Pai celeste conhece quais são as nossas necessidades; é o que nos ensina Jesus quando exorta os seus discípulos a ´um abandono filial à Providência do Pai celeste, que cuida das mais pequenas necessidades de seus filhos.´(CIC, 305, João Paulo III, Catequese da 4ª. Feira de 24 de março de 1999).” [i]

 

Oração para pedir perdão

 

A oração, por ser um falar com Deus, também comporta um pedido de perdão.

Recordemos que pedir perdão a Deus é algo necessário, ainda mais diante de um Deus que assumiu a nossa natureza humana, que se humilhou, que não fez uso do sua prerrogativa de Filho de Deus, que morreu de uma forma tão cruel na Cruz.  É o que nos sugere São Josemaria Escrivá, em seus escritos “É Cristo que Passa”, ponto 101:

 

“Faz muitos anos, vi um quadro que se gravou profundamente em meu interior. Representava a Cruz de Cristo e, junto do lenho, três anjos: um chorava desconsoladamente; outro tinha um prego na mão, como que para se convencer de que tudo aquilo era verdade; o terceiro estava recolhido em oração. Um programa sempre atual para cada um de nós: chorar, crer e orar.

Perante a Cruz, dor de nossos pecados, dos pecados da humanidade, que levaram Jesus à morte; fé, para aprofundarmos nessa verdade sublime que ultrapassa todo o entendimento, e para nos maravilharmos ante o amor de Deus; oração, para que a vida e a morte de Cristo sejam o modelo e o estímulo da nossa vida e da nossa entrega. Só assim nos chamaremos vencedores; porque Cristo ressuscitado vencerá em nós, e a morte se transformará em vida.”

 

E neste ponto não nos esqueçamos da recomendação de Jesus, que, ao ensinar os seus discípulos a orarem, e também na parábola do servo mau, deixa-nos claro que Deus nos perdoa sim, mas esse perdão tem um pressuposto: que nós perdoemos também àqueles que nos ofenderam:

 

“…perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…”

(Pai-Nosso)

 

Oração e amor estão intimamente ligados no entender de São Josemaria Escrivá

 

Diz São Josemaria Escrivá em seu livro “Amigos de Deus”, ponto 255[ii], nos alerta que o amor é criativo, portanto, quem ama a Deus saberá certamente descobrir o seu caminho pessoal e íntimo para o seu diálogo com o Senhor:

 

 

“Há mil maneiras de orar, digo-vos novamente. Os filhos de Deus não necessitam de um método, quadriculado e artificial, para se dirigirem a seu Pai. O amor é criativo, engenhoso; se amamos, saberemos descobrir caminhos pessoais, íntimos, que nos conduzam a esse diálogo contínuo com o Senhor.

Queira Deus que tudo o que hoje contemplamos não passe por cima da nossa alma como uma tormenta de verão: quatro gotas, depois o sol, e a seca de novo. Esta água de Deus tem de remansar-se, tem de chegar às raízes e dar fruto de virtudes. Assim irão transcorrendo os nossos anos – dias de trabalho e de oração -, na presença do Pai. Se fraquejarmos, acudiremos ao amor de Santa Maria, Mestra de oração; e a São José, nosso Pai e Senhor, a quem tanto veneramos, que foi quem neste mundo mais conviveu com a Mãe de Deus e – depois de Santa Maria – com o seu Filho Divino. E eles apresentarão a nossa fraqueza a Jesus, para que a converta em fortaleza.”

 

Oração e amor, para São Josemaria, estão estreitamente ligados. Quem ama a Deus, tem necessidade de Lhe falar, de orar, portanto. E se não estamos sabendo orar, falta-nos amor e se falta-nos amor,  este deverá ser o início da nossa oração, como também sugere São Josemaria Escrivá em Forja, no ponto referente à luta espiritual (número 66):

“Meu Deus, ensina-me a amar! – Meu Deus, ensina-me a orar!” [iii]

 

Quando a nossa oração é atendida?

 

Na realidade,  há duas condições para que a nossa oração seja  atendida:

 

1ª. Condição para a eficácia da oração: conformidade com a Vontade Divina

 

A primeira, é a que a nossa oração será sempre atendida se em conformidade com a Vontade Divina:

Esta é a confiança que temos para com Ele: que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, Ele nos ouve. (1 João 5.14)



O motivo é óbvio e simples: Deus é detentor do passado, presente e futuro e Ele sabe bem qual o nosso lugar no seu Reino. Ele conduzirá, se assim o permitirmos, a nossa vida de modo a ser concretizado esse plano amoroso para a nossa vida aqui e no Reino Dele. Se algo que pedimos nos for prejudicial  – e às vezes Ele permite que seja aqui mesmo mostrado porque Ele não nos concedeu algo – Ele não nos dará.

 

Mas, às vezes sentimos dificuldade em saber qual seria a Vontade Divina para este ponto concreto da nossa vida. Como fazer neste caso?

Podemos pedir o que achamos o que nos convém, de acordo com a nossa inteligência aplicada ao caso concreto, porém não esquecendo do que é mais importante, isto é, de  imitar Nosso Senhor Jesus Cristo, quando no Horto das Oliveiras deixa que a sua vontade humana se uma à Vontade do Pai, pois disse:

Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia, não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres. (Mateus 26, 39).

É assim que devemos pedir:  “Deus,  necessito de tal coisa, não se faça porém a minha Vontade neste caso, mas a Tua Vontade.”

O Papa Emérito Bento XVI, em sua obra Jesus de Nazaré, nos explica que para acontecer a Vontade Divina em nossas vidas é fundamental que estejamos em comunhão com Jesus:

…compreendemos agora como Jesus é, no sentido mais profundo e próprio, o ´céu´; Ele, no qual e pelo qual a vontade de Deus acontece plenamente. Olhando para Ele, aprendemos como nós não podemos ser ´justos´ a partir de nós mesmos: o peso da nossa vontade atrai-nos sempre para longe da vontade de Deus, faz-nos ser simples ´terra´. Mas Ele nos recebe, nos atrai para si, e na comunhão com Ele aprendemos também a  vontade de Deus. Assim, em última instância, pedimos neste terceiro pedido do Pai-Nosso para estarmos sempre mais próximos d´Ele e que a vontade de Deus vença o lastro do nosso egoísmo, nos torne capazes da altura para a qual fomos chamados. [iv]

 

Não nos esqueçamos de que Jesus, depois de haver conversado com a Samaritana e quando os seus discípulos lhe perguntam se Ele gostaria de algo para comer, Ele lhes respondeu: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou.”

Esta frase resume toda a existência de Nosso Senhor, aliás, bem confirma o Papa Emérito Bento XVI, na mesma obra supra citada, ao comentar que em Jesus se cumpriu o mistério contido no Salmo 40, do Antigo Testamento:

 

“Não exigiste holocaustos nem sacrifícios, mas preparaste para mim um corpo…Então eu disse: sim, eu venho – assim está escrito sobre mim no rolo da lei – para fazer a tua vontade.” (Hb 10, 5 sss; Sl 40, 7-9). Toda a existência de Jesus está resumida nestas palavras: “Sim, eu venho para fazer a tua vontade.”. Só assim é que compreendemos totalmente a palavra: ´O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou” [v]

 

Ora, se o que sempre vai prevalecer é a Vontade Divina, então não preciso orar?

A resposta a isso é justamente o inverso da pergunta. Eu preciso ORAR para poder reconhecer a Vontade Divina e não o contrário.

 

2ª. Condição para a eficácia da oração:  orar como um filho de Deus ora perante seu Pai

 

A segunda condição é procurarmos ter uma vida de filhos (as) de Deus, que não querem ofender ao seu Pai Deus pelo pecado, que tanto contradiz o Seu Amor:

Sabemos que Deus não atende a pecadores; mas, pelo contrário, se alguém teme a Deus e pratica a sua vontade, a este atende. (João 9.31)

Mas, como conciliar o que diz São João em sua Epístola, com aquela passagem do publicano e do fariseu em que Jesus diz que o publicano saiu justificado em sua oração e o fariseu não? Não teria Deus atendido um pecador, no caso o publicano?

Neste caso, o publicano é o que orou como um filho de Deus, um filho pródigo, arrependido, reconhecendo a sua miséria e o fariseu orou como um pagão, alguém que quer convencer a Deus, o que é impossível, pois Deus enxerga os corações, as intenções boas e más.

Então, por causa da sua Misericórdia, Deus ouve a oração de um pecador, mas obviamente que a oração de um justo possui mais valor quando se ora com a intenção de agradar a Deus, uma oração informada pela Caridade, que é o que trataremos na terceira condição.

 

3ª. Condição para a eficácia da oração: oração feita com intuito de agradar a Deus

 

A terceira condição é orar com Caridade, que pede e que fala a Deus sempre com o intuito de Lhe agradar, não uma oração pagã sem Caridade alguma, mas que visa futilidades,  o seu egoísmo, não pede com a intenção reta de dar glória a Deus, mas para a sua própria glória, ou para satisfação de desejos egoístas  e mesquinhos, disfarçados muitas vezes de boas intenções.

Neste ponto, convém transcrevermos a explicação magnífica dada pelo Padre Paulo Ricardo, sobre o tema: “Será que Deus escuta a oração dos pecadores?”[vi]

 

“Santo Tomás de Aquino, com seu gênio teológico, ilumina essa questão, lembrando que “a oração, afora o efeito do consolo espiritual que traz no momento em que é feita, possui dupla virtualidade quanto ao efeito futuro: a de merecer e a de impetrar” (Suma Teológica, II-II, q. 83, a. 15)

 

O valor impetratório é a eficácia da oração com relação à fé. O orante pede porque crê que Deus é onipotente e pode realizar aquilo que é o objeto de sua súplica: “A fé é necessária da parte de Deus, a quem oramos, isto é, que creiamos poder conseguir d’Ele o que pedimos” Suma Teológica, II-II, q. 83, a. 15

 

É claro que, no caso do pecador – de quem não está em estado de graça –, esta fé é uma fé morta, porque não é informada pela caridade. Então, Deus ouve aquela oração por pura misericórdia.

O valor meritório na oração só existe “enquanto [esta] procede da raiz da caridade, cujo objeto próprio é o bem eterno que merecemos gozar” Suma Teológica, II-II, q. 83, a. 15

 

“A oração sem a graça santificante não é meritória, como nenhum outro ato virtuoso” Suma Teológica, II-II, q. 83, a. 15, ad 1

Não se confunda, aqui, a palavra “meritória” com a opinião de que a pessoa “merece” a graça que Deus lhe concede. Como diz o Concílio de Trento, “ninguém pode ser justo, senão aquele a quem se comunicam os merecimentos da Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo” Concílio de Trento, Sessão VI, Decreto sobre a justificação, n. 800

 

Ou seja, a própria capacidade meritória é um dom de Deus: o único homem que realmente teve mérito diante de Deus foi Jesus Cristo; os demais são justificados na medida em que estão ou não unidos a Ele.

Então, a oração do amigo de Deus tem valor muito maior que a oração do pecador. Isso se dá, primeiramente, porque, se a pessoa ama a Deus, está em sintonia com o Seu coração, pedindo o que ela sabe que Ele lhe vai conceder. O pecador, ao contrário, pode pedir coisas fúteis ou até contrárias à vontade divina e isso, obviamente, tirará a eficácia de sua oração. Além disso, o pedido do justo é informado pela caridade: ele suplica as coisas a Deus desejando agradar o Seu coração.

Deus se agrada de nós, gosta de receber o nosso amor e de ver a nossa caridade. E é fonte de grande alegria para Ele atender os pedidos daqueles que O amam. Isso é visível na intercessão dos santos. Por que existem santos que têm um maior poder de intercessão? Por que se diz que a Virgem Santíssima é a “onipotência suplicante”, enquanto outros santos não têm a mesma eficácia de intercessão? Por causa do valor meritório. O amor da Virgem Santíssima, o fato de ela estar configurada ao coração de Cristo de forma perfeita, faz que a sua oração tenha grande poder diante de Deus, enquanto a oração de uma pessoa que passou pelo purgatório e tem menor glória no Céu tem menor eficácia. Tanto maior o amor dado a Deus, tanto mais generosa é a resposta d’Ele à sua súplica.

Então, a oração dos pecadores tem o seu valor: trata-se do valor impetratório. Já a oração do justo, da pessoa que está no caminho da santidade, tem um valor maior – o valor meritório , porque, além da fé, contém a caridade ardente de quem é amigo de Deus.”

 

Um exemplo de oração: São Paulo

 

São Paulo, o Apóstolo, deixa-nos uma dica de algo a pedir a Deus em nossas orações. Eis o que ele pedia pelos seus:

 

“Por esta razão, também nós, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual.” (Colossenses 1, 9).

 

 

Considerações finais

 

Por fim, resta-nos salientar os sábios conselhos sobre a oração de São Josemaria Escrivá, que dispensam quaisquer comentários diante de sua tamanha clareza e sabedoria:

“A têmpera do bom cristão adquire-se, mediante a graça, na forja da oração. E, por ser vida, este alimento que é a oração não segue uma trilha única. O coração saberá desafogar-se habitualmente, por meio de palavras, nessas orações vocais ensinadas pelo próprio Deus – o Pai Nosso – ou por seus anjos – a Ave Maria. Outras vezes, utilizaremos orações acrisoladas pelo tempo, nas quais se verteu a piedade de milhões de irmãos na fé: as da liturgia -lex orandi -, ou as que nasceram do ardor de um coração enamorado, como tantas antífonas marianas: Sub tuum praesidium…, Memorare…, Salve Regina…

Em outras ocasiões, serão suficientes duas ou três expressões lançadas ao Senhor como setas,iaculata: jaculatórias, que aprendemos na leitura atenta da história de Cristo: Domine, si vis potes me mundare – Senhor, se quiseres, podes curar-me;Domine, tu omnia nosti, tu scis quia amo te – Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que eu te amo;Credo, Domine, sed adiuva incredulitatem meam – Creio, Senhor, mas ajuda a minha incredulidade, fortalece a minha fé; Domine, non sum dignus – Senhor, não sou digno!; Dominus meus et Deus meus – Meu Senhor e meu Deus!… Ou outras frases, breves e afetuosas, que brotam do fervor íntimo da alma e correspondem a circunstancias particulares.

A vida de oração deve apoiar-se, além disso, em alguns minutos diários dedicados exclusivamente ao trato com Deus. São momentos de colóquio sem ruído de palavras, junto do Sacrário sempre que possível, para agradecer ao Senhor por essa espera – como está só! – de vinte séculos. A oração mental é esse diálogo com Deus, de coração a coração, em que intervém a alma toda: a inteligência e a imaginação, a memória e a vontade. É uma meditação que contribui para dar valor sobrenatural à nossa pobre vida humana, à nossa vida diária e corrente.

Graças a esses momentos de meditação, às orações vocais, às jaculatórias, saberemos converter o nosso dia num contínuo louvor a Deus, sempre com naturalidade e sem espetáculo. Assim, à semelhança dos enamorados, que não tiram nunca os sentidos da pessoa que amam, manter-nos-emos sempre na sua presença; e todas as nossas ações – mesmo as mais pequenas e insignificantes – transbordarão de eficácia espiritual.

Por isso, quando um cristão envereda por este caminho de intimidade ininterrupta com o Senhor – e é um caminho para todos, não uma senda para privilegiados -, a vida interior cresce, segura e firme; e o homem consolida-se nessa luta, simultaneamente amável e exigente, por realizar até o fundo a vontade de Deus.

A partir da vida de oração, podemos entender esse outro tema que a festa de hoje nos propõe: o apostolado, a realização dos ensinamentos de Jesus transmitidos aos Apóstolos pouco antes de subir aos céus: Vós me servireis de testemunhas em Jerusalém e em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo.” [vii]

 

[i][i] CIFUENTES, Dom afael Llano, Não Temais, Não Vos Preocupeis: Deus é vosso Pai, Rio de Janeiro, 1999, Editora Marques Saraiva, p. 29-30.

[ii] ESCRIVÁ, Josemaria. Amigos de Deus. Tradução de Emérito da Gama. 2ª. Edição. Quadrante, São Paulo, 2000, ponto 255.

[iii] Escrivá, São Josemaria. Forja. Ponto 66.

[iv] RATZTINGER, Joseph, Jesus de Nazaré, Primeira parte: Do batismo no Jordão à transfiguração, Tradução de José Jacinto Ferreira de Fatias, SCJ, 2ª. Reimpressão, Editora Planeta, página 138.

[v] RATZTINGER, Joseph, Jesus de Nazaré, Primeira parte: Do batismo no Jordão à transfiguração, Tradução de José Jacinto Ferreira de Fatias, SCJ, 2ª. Reimpressão, Editora Planeta, página 138.

[vi] https://padrepauloricardo.org/episodios/sera-que-deus-escuta-as-oracoes-dos-pecadores, acesso em 21.07.2014, 9:17.

[vii] Escrivá, São Josemaria, É Cristo que Passa, ponto 119.

Como não desperdiçar as graças que o Espírito Santo nos envia para nos salvarmos e irmos para o céu?

Para todo ser humano,  Deus não somente coloca um Anjo da Guarda para nos proteger, reger, guardar, pois, além disso, para chegarmos ao céu um dia e desfrutarmos de Sua companhia para sempre, ao longo de nossas vidas recebemos graças: as atuais, e a santificante (ou deificante, ou habitual).

Mas, primeiramente vejamos o que se entende por GRAÇA.

Graça é um dom (porque nos é concedida pela infinita bondade de Deus, porque não temos direito a ela, pelo menos a primeira graça que é a da nossa  conversão a Deus) sobrenatural (mas não como um milagre, ou os sacramentos que são certamente sobrenaturais, mas porque a graça é dom interiores de Deus), para a nossa salvação (porque restitui o que Adão e Eva perderam ao pecarem) e merecida por Jesus Cristo.

Essa graça tem o nome de graça santificante, deificante, habitual.

A Graça é santificante porque, pelo batismo começa a nossa justificação perante Deus e o Espírito Santo vem habitar em nossa alma, tornando-nos filhos de Deus é-nos comunicado o Espírito de Deus mesmo e, assim, “Deus nos vê como vê o seu Filho”[i];  a Graça é deificante porque é uma comunicação da própria vida divina;  Essa Graça é habitual porque permanece em nós desde que não cometamos um pecado mortal, que não expulsemos a Deus da nossa morada espiritual. Somos templos do Espírito Santo. É habitual, “porque tem por finalidade ser a condição habitual, permanente, da alma.”[ii]

Essa graça santificante, deificante, habitual é mais ou menos como um pré-requisito, um pressuposto de algo que teremos no céu que é a luz da glória, que, “no entanto, não poderá ser concedida senão à alma já unida a Deus pelo dom prévio a que chamamos graça santificante.” [iii]

Sem essa graça, jamais poderemos ver a Deus.

Ela é infundida em nossa alma pelo Batismo. Por isso é uma maldade muito grande o abortamento de um feto, uma vez que, supondo que seja morto por um método de queimadura dentro do ventre da mãe,  ou destroçado lá dentro do útero, por sucção, concordemos que ele nascerá já morto e assim o batismo desse ser humano será impossível. Sem batismo, não houve infusão de graça santificante. Esta pessoa nunca terá a visão de Deus tal como Ele é.

 

 

 

Ao chegarmos no céu, veremos Deus face a face, mas para essa visão chamada beatífica, preciso da luz da glória e ela dependerá da existência da graça santificante, deificante e habitual.

 

“E o grau da nossa graça santificante determinará o grau da nossa felicidade no céu…Mas o grau da nossa felicidade dependerá da acuidade espiritual da nossa visão. E esta, por sua vez, depende do grau em que a graça santificante tiver impregnado a nossa alma.”[iv]

 

O problema é que não é tão fácil conservar e até crescer em graça santificante, ou se por uma desgraça, a perdi, recuperá-la.

 

Sabendo disso, Deus vem em nosso socorro com a GRAÇA ATUAL, que, segundo Léo Trese, no livro Fé Explicada, seria um “impulso transitório e momentâneo” ou uma “descarga de energia espiritual” que atua sobre a mente  e a vontade da pessoa, para o fim de restaurar, incrementar, conservar a graça santificante, ou deificante, ou habitual.

 

O problema é como reagimos diante desse impulso da GRAÇA ATUAL.

 

É que, omo vimos, o pecado original fez feridas na nossa alma:

Ignorância: dificuldade para conhecer a verdade e facilidade para se enganar nos juízos. Manifesta-se também na propensão para ocultar a verdade que compromete e exige adesão. Inclina para o espírito crítico e para a autosuficiência intelectual.

Malícia: inclinação da vontade para o mal; tendência para o egoísmo, resistência a atuar por amor a Deus e aos outros.

Debilidade: Diante do esforço que requer a conduta reta. Costuma aumentar as dificuldades com a imaginação, e dissuade de as enfrentar.

Concupiscência: afã desordenado de prazeres. Exagera o atrativo dos prazeres e obnubila a inteligência que deixa de compreender a ordem em que os deve observar, colocando-os em primeiro lugar, e a vontade inclina-se para eles de maneira também desordenada.”

 

(POZO, Juan Francisco. A vida da graça, Diel, Coimbra, 1997, p. 28).

 

 

 

Por causa dessas feridas é difícil para nós:

 

      enxergarmos a verdade  (lembramos até de Pilatos que, em contato com Nosso Senhor Jesus Cristo perguntou-lhe: mas..o que é a Verdade?)

      a nossa vontade tem dificuldade para escolher o bem sempre (entre acordar em um horário determinado e fixo todos os dias, pela virtude da pontualidade, tendemos a ficar 5 minutinhos a mais na cama..)

      além do que, como fomos criados para a felicidade, tendemos a buscar coisas e pessoas que nos dêem prazer (o que é reforçado pela nossa sociedade consumista que faz um marketing aliando a bebida ao divertimento, o carro à mulher bonita ou ao homem bem sucedido…)

      essas feridas vão aumentando cada vez que eu peco, de modo que, da próxima vez, já tenha uma tendência para aquele pecado (se entrei uma vez por curiosidade em um site de pornografia, isso me viciará e quererei ver uma outra vez…).

Precisamos entender (pela inteligência) o que acontece com a nossa vontade.

 

I-                    CONCUPISCÊNCIA

Em geral, temos dois tipos de APETITES (ligados à nossa VONTADE), segundo Garrigou-Lagrange em seu livro sobre As Três Idades da Vida Interior, um apetite chamado concupiscível e um irascível.

 

Apetite concupiscível transformado em CONCUPISCÊNCIA

 

Existe um apetite que é lícito e ele ocorre quando a nossa VONTADE, o nosso QUERER busca um BEM SENSÍVEL previsto por Deus,  que pode ser:

AMAR…

DESEJAR…

USUFRUIR…

É chamado de apetite concupiscível.

 

 

Veja que não é moralmente mal amar, desejar, ou usufruir de algo ou alguém (apetites concupiscíveis).

Não há nada de errado se AMO COMER BOLO DE CHOCOLATE, se DESEJO COMER O BOLO DE CHOCOLATE que a minha mãe faz, se sacio a minha fome com aquele pedaço do bolo de chocolate.

Deus criou esse apetite, porque, sem esses gostos, desejos e prazeres ninguém comeria e certamente morreria. Assim, comer comida ou sobremesa com o fim reto de me alimentar, não há problema algum.

O problema é quando eu me DESVIO DO FIM  DAQUELE APETITE CRIADO POR DEUS, ou seja passo do apetite concupiscível lícito à concupiscência que é pecado (concupiscência pecaminosa)

 

A finalidade dos apetites concupiscíveis visam sempre a fins ordenados

      Comer para me alimentar e não morrer…

      Servir-me de um bem material para necessidades  e para servir ao próximo…

      Ser amiga de uma pessoa por amor a Deus, para agradá-lo, agindo como eu agiria se Ele mesmo fosse o meu amigo….

 

Quando me desvio desse fim ordenado e moderado, previsto por Deus, entra o pecado pessoal:

                                                                     

 

                    

                                                                       FIM  DESORDENADO – PECADO PESSOAL

 

 

 

 

 

Naqueles exemplos acima mencionados, o apetite ficaria assim:

Eu como, mas não só para me alimentar… mas por gula…

Servo-me de um bem material não para minhas necessidades e da minha família e para servir ao próximo (fim bom)…mas por mero prazer, luxo, vaidade, comodismo, capricho…

Sou amiga de uma pessoa não por amor a Deus e para agradá-lo, mas para obter alguma vantagem futura que já estou projetando…

 

II –        DEBILIDADE

Debilidade: transformação do apetite concupiscível que busca o bem, para uma busca do mal

 

Outras vezes, temos não um problema no fim que eu escolhi para o apetite concupiscível que deveria  ser aquele previsto originalmente por Deus, o Criador de Todas as Coisas,  mas aquele mesmo apetite se transforma em coisa má:

Eu amo….transforma-se em Eu odeio…

Eu desejo….transforma-se em Eu tenho aversão…

Eu usufruo….transforma-se em Eu me sinto triste com isso…

Veja que Deus criou o apetite concupiscível para um fim bom e honesto, mas eu o transformo em um MAL concretamente.

E por que isso aconteceu comigo?

 

Quais são os motivos que transformam a busca de um bem  sensível de forma honesta em um  verdadeiro mal?

 

São os pecados capitais (debilidade)

 

Por soberba de mim mesma – Debilidade de Soberba-Egoísmo

Resultados:

 

  • Rivalizo – quando deveria ter caridade
  • Alimento antipatias e aversões – quando deveria ter caridade
  • Odeio  – quando deveria ter caridade
  • Discordo – quando deveria ter caridade
  • Não obedeço ninguém – quando deveria ser justa

 

 

Por Soberba para com o próximo – Debilidade da Inveja

Resultados:

  • Tenho ódio – quando deveria ter caridade
  • Sou maledicente – quando deveria ter caridade
  • Alegro-me com o mal alheio – quando deveria ter caridade

 

 

Por soberba para com o próximo – Debilidade da Ira

Resultados:

  • Ajo com violência – quando deveria ter caridade e temperança
  • Blasfemo contra Deus  – quando deveria ter fé
  • Falo injúrias contra o próximo – quando deveria ter caridade

 

Por causa da concupiscência dos olhos – Debilidade da Avareza

Resultados:

  • Fraudo o outro – quando deveria praticar justiça
  • Desespero-me – quando deveria ter esperança

 

 

Por causa da concupiscência da carne – Debilidade da gula

Resultados:

 

  • Pratico atos impuros comigo mesma ou com outrem – quando deveria ser prudente e casta
  • Excedo do comer e beber- quando deveria ter temperança

 

 

Por causa da concupiscência da carne – Debilidade da luxúria

  • Sinto amor por mim até o desprezo de Deus – quando deveria ter caridade
  • Sou inconstante – quando deveria ter fortaleza
  • Tenho cegueira espiritual – quando deveria ter prudência e fé

 

Por causa da soberba de mim – Debilidade da preguiça

Resultados:

  • Torno-me tíbia- quando deveria ter caridade
  • Torno-me pusilânime- quando deveria ter fortaleza

 

Em todos esses casos, há pecado se houver:

 

II-                  MALÍCIA

 

MALÍCIA – sei e quero mesmo assim

 

Pela inteligência – eu sabia que Deus não gostaria. Sei que é pecado, que desvia do fim previsto por Deus, porque até já me confessei antes sobre isso.

Pela vontade – eu quero realizá-lo mesmo sabendo que é pecado sim.

Se a matéria for grave – o que eu sei e quero é grave, fere a caridade a Deus e ao próximo, será caso de pecado chamado mortal.

Sei que Deus não quer que eu odeie ninguém, somos irmãos, porém, tenho inveja e não me importo com isso, e passo a deliberadamente desejar o mal para fulano ou beltrano e se puder até faço-lhe o mal, como retribuição (premeditado).

Isso transforma o meu pecado em mortal, porque há plena liberdade, não está concorrendo nenhuma paixão violenta e momentânea com o meu ato (foi até premeditado).

 

IV – IGNORÂNCIA- não sei, ou deveria saber, e quero por causa de um defeito ou paixão que possuo (algum pecado capital)

 

 IGNORÂNCIA VENCÍVEL

 

Eu tenho aversão…mas porque não alimento bons pensamentos em favor aquela pessoa (sou negligente).

Em outras palavras, ajo com CULPA, mas sem malícia (minha vontade não queria o fim mal, mas porque sou negligente peco- tenho aversão).

Pratiquei o ato ou o pensamento,  porque:

- ou houve imprudência – não deveria agir naquele ato, mas me abster (não deveria ter gritado com impaciência com o meu subordinado, ou com meu marido, ou filho..). Mas a paixão me arrastou para isso – no caso a ira;

-ou negligência – não deveria ter sido omissa, mas deveria ter agido (não deveria ter deixado de defender alguém que eu sabia inocente numa situação). Mas a paixão me arrastou para isso – no caso a inveja que eu sentia daquela pessoa.

Não há malícia porque pela minha inteligência eu sei que é contra o fim ordenado por Deus, porém não consigo dirigir a minha vontade para o fim bom previsto por Deus.

 

Qual é a solução para tudo isso?

 

1º. PASSO

DETECTAR E ADMITIR O QUE ESTÁ ERRADO E SUBMETER A VONTADE VIVIFICADA PELA CARIDADE  À INTELIGÊNCIA E À FÉ.

 

Devemos submeter a nossa vontade a uma RETA RAZÃO.

Admitir que aquilo que eu quero, desejo, usufruo não está conforme a finalidade prevista por Deus, ou que tenho, por culpa minha, sido imprudente, negligente em combater os meus defeitos com uma virtude contrária àquilo que habitualmente tenho praticado. Colocar todo o empenho para não voltar a fazê-lo e confiar plenamente em Deus, pois Ele,  antes de toda ação boa da nossa parte, Deus enviou algo que vimos, chamado graça atual, um impulso espiritual para realizarmos esse algo de bom.

A nossa parte é não repelir esse impulso da graça, sermos dóceis ao Espírito Santo.

“A docilidade do filho é, pois, uma decorrência natural do amor: a atitude de quem secunda os desejos do seu Pai, procurando satisfazê-los com extrema sensibilidade e delicadeza.”[v]

Então, sabemos que não devemos odiar o próximo e nem o nosso inimigo, mas amá-lo (nossa inteligência entende isso iluminada pela fé).

Sabemos que não devemos cultivar pensamentos de querer que o outro se dê mal, para não sentirmos aversão.

Sabemos que os bens devem estar a serviço nosso e dos outros e não uma busca pelo bem em si mesmo, para acúmulo…

Se tenho de cuidar de crianças sapecas, pensar que Deus me dará graças para eu bem tratá-las, ter essa confiança Nele nos ajudará a termos paciência.

 

 

 

 

 

2º PASSO – NÃO FICAR SE DESCULPANDO, MAS ACEITAR A GRAÇA REALIZAR UMA CONTRIÇÃO E CONFESSAR-SE QUANDO FOR POSSÍVEL

 

É importante saber que, ao pecarmos, Deus nos dará a graça da conversão, iluminando a nossa inteligência para entendermos que o que fiz foi um mal.

A atitude correta é aceitar essa graça, reconhecer o erro, pedir perdão imediatamente, realizando uma contrição.

É que, quando não desperdiçamos a primeira graça, Deus envia a segunda, que é a de confessarmos aquele mal.

Mas, se “repelir essa primeira graça e dizer: ´Isto que fiz não foi tão mau; muita gente faz coisas piores.´Se o fizer, provavelmente não terá uma segunda graça ….Este é o “ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que julga ter (Mt 25,29).” [vi]

 

3º. PASSO – ABANDONO EM DEUS

 

 

E se somos pessoas precipitadas, se o pecado capital, por exemplo, o da ira, nos pega  constantemente, o remédio será estar em dependência de Deus, abandonar-se nele.

“A santidade consiste no cumprimento amoroso da vontade de Deus, ao ritmo dos deveres e dos incidentes de cada dia, e num abandono absolutamente confiante em seus braços. Mas este abandono deve ser ativo e responsável, e há de levar-nos a lançar mão de todos os meios ao nosso alcance para enfrentarmos cada situação que nos depare….O abandono em Deus deve estar, pois, intimamente unido a uma atitude operativa, que rejeita prontamente esses argumentos de inerme resignação (´má sorte´, ´azar´ambiente adverso, injustiças, falta de condições….) que parecem virtuosos, ou razoáveis, mas que muitas vezes escondem mediocridade, preguiça, imprudência…Exige uma disposição de ânimo valorosa, empreendedora, que ´cresce perante os obstáculos´, em vez de encolher-se num conformismo antivital.”[vii]

 

 

4º. PASSO – CONHECER O MEU DEFEITO DOMINANTE

 

É necessário examinar-se diariamente para detectar qual é  o nosso ponto fraco, em que habitualmente eu perco a paciência, sou maledicente, critico….

“…es um punto débil que ni las virtudes teologales, ni las virtudes Morales defienden..”[viii]

Na prática, devemos formular a seguinte pergunta a nós mesmos:

-Qual foi hoje a causa da minha tristeza, ou da minha alegria?

-Qual foi hoje o motivo concreto de eu ter agido daquela forma, ou de ter me omitido naquela situação?

Ou então, ir repassando pecado capital por pecado capital e verificar se em algum momento teria eu incorrido em algum deles.

 

 

5º. PASSO – COMBATER O DEFEITO DOMINANTE

 

Para combater o defeito dominante, devo:

1-      Pedir perdão a Deus (ato de contrição)

2-      Pedir a Deus que me afaste dele, que eu não caia nele da próxima vez:

“Senhor, afasta de mim o que me afasta de Ti”

3-      Impor-se alguma penitência voluntária, uma satisfação para reparar  o mal cometido, podendo ser a realização do oposta ao que eu fiz (se foi um ato de maledicência, procurar a mesma pessoa para falar bem do outro…se foi um ato de negligência em ajudar ao próximo em alguma solicitação feita, ajudá-lo sem esperar por um pedido e assim por diante).

 

“Sin este combate no hay gozo interior, ni paz, porque la tranquilidad del orden, que es la paz nace del espíritu de sacrifício.” [ix]

 

6º. PASSO – MORTIFICAR-SE

 

Mortificar-se significa submeter à disciplina e à ordem as nossas paixões:

1-      Mortificando a sensualidade – fugindo das ocasiões que certamente me levarão à luxúria…como ver cenas obscenas na internet, prestar atenção no físico de uma mulher…

2-      Mortificando o coração – não buscando deleites em pensamentos, sensações…

3-      Mortificando a ira…pensando sempre bem da pessoa com a qual convivo, não discutindo por assuntos que com o tempo se pode vencer….

4-      Mortificando a inteligência – não perdendo o precioso tempo em informar-se de coisas que não vão formar o nosso juízo, ou que é um amontoado de conhecimentos sem conexão…porque isso desvia-nos do esforço de contemplarmos a Deus pois a nossa mente está curiosa e extremamente ocupada….

5-      Mortificando a nossa vontade – realizando justiça (dar a cada um o que merece); sendo obediente (aquilo que nos é dito em uma direção espiritual); tributando a Deus o culto devido…

6-      Mortificando a imaginação e a memória

 

Aqui é muito importante mencionarmos o que diz Garrigou-Lagrange:

“El olvido de Dios hace que nuestra memória este como sumergida em el tiempo, del que no vê la relación que tiene com la eternidad, com los benefícios y las promesas de Dios. Esta falta inclina a nuestra memória a contemplar las cosas horizontalmente em la línea del tiempo que va huyendo, y del cua solo es real el momento presente, entre lo pasado que ya há desaparecido y lo futuro que todavia no a llegado. El olvido de Dios nos impide ver que aun el momente presente se halla en la línea vertical que lo une al único  instante de la inmoble eternidad, y que hay uma manera divina de vivir esse presente momente, para que, por los méritos, pertenezca  a la eternidad. Mientras que el olvido de Dios no nos levanta de la trivial y plana vista de las cosas em la linea del tiempo que pasa, la contemplación de Dios es como la visión vertical de las cosas que no Duran, y del lazo que las une com Dios que no pasa jamás. Vivir como sumergidos em el tiempo. Es olvidar su valor, es decir su relación com la eternidad.”[x]

 

 

 

 

 

 

[i] TRESE, Leo. A Fé Explicada. 7ª. Edição- Quadrante, São Paulo:200,  p. 94.

[ii] , TRESE, Leo. A Fé Explicada.  p. 94.

[iii] , TRESE, Leo. A Fé Explicada.  p. 95.

[iv]TRESE, Leo. A Fé Explicada.  , p. 95.

[v] CIFUENTES, Rafael Llano. Não temais. Não Vos Preocupeis, Deus é vossos Pai, Rio de Janeiro, 1999, p.78.

[vi] , TRESE, Leo. A Fé Explicada.  p. 96.

[vii] CIFUENTES, Rafael Llano. Não temais. Não Vos Preocupeis, Deus é vossos Pai, Rio de Janeiro, 1999, p. 75.

[viii] GARRIGOU-LAGRANGE, R. Las Tres Edades de La Vida Interior, Tomo I, Ediciones Palabra, Madrid, p. 367.

[ix] GARRIGOU-LAGRANGE, R. Las Tres Edades de La Vida Interior, Tomo I, Ediciones Palabra, Madrid, p.371.

[x] GARRIGOU-LAGRANGE, R. Las Tres Edades de La Vida Interior, Tomo I, Ediciones Palabra, Madrid, p. 402.

 

 

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Santa Maria: Mãe de Deus e nossa Mãe

SANTA MARIA, MÃE DEUS E NOSSA MÃE

 

 

SANTA MARIA: A CHEIA DE GRAÇA

 

O que é a graça e o que ela opera em nós?

 

A graça é a participação na vida divina, algo que nos foi conquistado por Nosso Senhor na Cruz, precisamente naquele momento em que, após furado o lado do coração pela lança do soldado, (para se certificarem  de que não seria preciso quebrar as pernas de Jesus apressando sua morte por asfixia já que  aquela sexta era a solenidade da Páscoa Judaica) jorram do seu coração água e sangue. A água é o símbolo do Espírito Santo, que é a graça incriada, Senhor que dá a Vida Divina. O sangue é o que nos purifica, do mesmo jeito que o sangue era aspergido pelo Sumo Sacerdote no Yom Kippur no propiciatório (da Arca da Aliança) para expiação das faltas do povo de Israel contra a Lei.

A graça opera no mais profundo da nossa alma, divinizando-nos, eudeusando-nos:

“Pela graça, a  alma é atingida no mais profundo do seu ser, de modo que bem se pode falar de uma nova criação, de uma nova vida. É por isso que São Paulo fala do cristão em graça como de ´uma nova criatura em Cristo´(2 Cor 5,7) de um homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade verdadeiras.´ (Ef 4,24)”  (DELCLOS, Antônio Orozco. Olhar para Maria, Tradução de Gabriel Périssé, Quadrante, São Paulo, 1992, p. 26).

“Á semelhança da ação do fogo sobre o ferro, a graça deixa-nos incandescente, conferindo-nos características que não tínhamos antes: uma cor, uma beleza, uma harmonia, uma fluidez e uma eficácia sobrenaturais.” (DELCLOS, Antônio Orozco. Olhar para Maria, Tradução de Gabriel Périssé, Quadrante, São Paulo, 1992, p. 26).

“O milagre da graça supera todos os que Deus realiza para devolver a saúde corporal; a ressurreição de uma alma ferida excede de longe a ressurreição de um corpo morto.” (DELCLOS, Antônio Orozco. Olhar para Maria, Tradução de Gabriel Périssé, Quadrante, São Paulo, 1992, p. 27).

“Por isso, perder a graça de Deus, matar com o pecado a graça de uma alma, é um mal maior do que a destruição de todo o universo natural” (DELCLOS, Antônio Orozco. Olhar para Maria, Tradução de Gabriel Périssé, Quadrante, São Paulo, 1992, p. 27).

“O  bem da graça de uma pessoa – afirma São Tomás – é maior do que o bem natural do universo inteiro.” (S. Th, I-II, q 113, a.9).

 

 

 

 

Pois bem. Nossa Senhora era cheia de graça, palavras do Anjo Gabriel, para ela: “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo…”

E era cheia de graça desde o momento em que foi concebida no seio de sua mãe Ana. Por isso se diz que Santa Maria é a IMACULADA CONCEIÇÃO (dogma desde 1854, pelo então Papa Pio XI).

Foi assim que Nossa Senhora se apresentou à Santa Bernardete, quando esta lhe indagou quem era (em Lourdes, França, 1858) – “Eu sou a Imaculada Conceição”.

 

SANTA MARIA: MÃE DE DEUS

 

“Que Maria seja Mãe de Deus implica outro mistério elevadíssimo, talvez o de mais difícil compreensão para os homens: o da Encarnação do Verbo, pela qual, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade – o Verbo de Deus – assumiu uma natureza humana formada no seio da Virgem Maria, de modo que o homem assim concebido é homem verdadeiro, pois é verdadeiramente humana a natureza criada que assumiu e possui, sem deixar por isso de ser Deus.” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 19).

 

A Encarnação de Deus Filho

 

Não foi fácil chegar-se à conclusão de que Jesus é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

No início da Igreja, houve a heresia de Ário, chamada arianismo.

 

Heresia de Ário: a pessoa de Jesus é criatura do Pai (inferior)

 

Para ele e seus  adeptos Jesus não seria o Verbo encarnado, aquele que é consubstancial ao Pai, mas seria Ele uma criatura do Pai, embora divinizada e não seria co-igual a sua majestade com o Pai, nem seria Ele o Verbo eterno de Deus, gerado desde sempre.

 

 

É um absurdo o arianismo, porque chegaríamos à forçosa conclusão de que haveria alguma época em que o Pai não seria Pai, já que Jesus era uma criatura (criada a partir de um momento) do Pai. O arianismo ia contra o que ficara definido no Concílio de Nicéia que Deus Filho é consubstancial ao Pai (credo niceno).

 

Toda a confusão ocorreu porque, Ário que era presbítero e esteve presente no Concílio de Nicéia convocado pelo Imperador Constantino no seu Palácio Imperial próximo de Nicomédia, argumentava que em João Jesus mesmo dissera que o Pai era maior do que ele, indicando uma subordinação do Filho em relação ao Pai.

E assim, Constantino vacila e torna-se adepto do arianismo e, quando morre, um dos seus filhos, Constâncio também acolhe as idéias de Ário, ao contrário do filho Constante que mantém a fé como definida no Concílio de Nicéia.

Quem leva a pior é o Bispo de Alexandria, Santo Atanásio (02.05), que passa por 5 exílios, pois ele se mantém firme na questão de ser Jesus sim consubstancial ao Pai e igual a este, sem subordinação. Só para ficar registrado, Santo Atanásio era assistente do Bispo Alexandre de Alexandria e também estivera presente no Concílio de Nicéia.

 

Heresia dos macedonianos- a pessoa de Jesus é “semelhante” ao Pai, mas não co-igual

 

E também a heresia dos macedonianos que diziam que o Filho não seria igual, nem criatura, mas semelhante ao Pai e que o Espírito Santo não seria Deus.

“Depois das controvérsias dos primeiros séculos sobre o ser de Cristo, para expressar o mistério do Deus-Homem, a Igreja serviu-se das palavras que traduzimos para português por ´natureza´e ´pessoa´. Não são termos sinônimos: designam princípios realmente distintos, ainda que de fato não haja natureza humana sem que esteja dotada da ´pessoalidade´, nem pessoa (humana) que não possua uma natureza (humana). A nossa língua reflete essa distinção com muito acerto, confirmando que não se trata de uma subtileza fabricada artificialmente para explicar algo esotérico ou inexplicável. Com efeito: não é o mesmo perguntar com a palavra ´que´que com a palavra ´quem´.” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 20).

 

Afinal quem é que Nossa Senhora concebeu e deu à luz?

Assim, para entendermos que Nossa Senhora é a Mãe sim da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade (não que ela o tenha gerado na eternidade, pois isso quem fez foi o Pai, mas ela o concebeu pelo poder sim do Espírito Santo, aliás, sem a concorrência de sêmen de São José):

 

Quem és? Jesus responderia: Eu sou a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

O que és? Jesus responderia: Eu sou homem e Deus. (dupla natureza).

O quem nos fornece a pessoa. O que nos fornece a natureza.

“Essa distinção é absolutamente necessária para entender que não é absurdo nem impossível que uma natureza humana possa pertencer a uma pessoa não humana.” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 21).

 

“Não teríamos podido imaginar que Deus – o Deus único, criador e transcendente – pudesse fazer e querer uma coisa assim; mas uma vez sabido, não repugna à razão. Repugnaria se natureza e pessoa fossem  ao mesmo tempo divina ou viceversa. Mas não repugna que uma Pessoa divina, sem deixar de ser Deus, quer dizer, sem deixar de possuir a natureza divina, venha tomar posse de uma natureza divina, venha  tomar posse de uma

Ele tem corpo, para redimir o nosso corpo, Ele tem alma, para redimir nossa alma, Ele tem coração, para redimir o nosso coração. A natureza humana não foi aniquilada.

Ele tem inteligência, vontade, alma humana e corpo, tudo isso pertencem ao Filho de Deus.

A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumiu a natureza humana. Ele tinha conhecimento humano porque tinha alma humana que não é onisciente, mas como Pessoa Trinitária tem, claro, onisciência. Por isso, São Lucas, diz que ele crescia em sabedoria, graça e estatura (crescia em sabedoria em sua alma humana). Ele aprendeu as coisas humanas.  Isso fazia parte de seu rebaixamento voluntário na condição de escravo. (Carta aos Filipenses).

A alma humana tinha que crescer em sabedoria.

Esse conhecimento exprimia a vida divina da sua Pessoa (São Gregório Magno).

 

Se observarmos a sua vida, entraremos no mistério de Deus, porque Ele revela uma das Pessoas da Santíssima Trindade.

 

De onde vinha o conhecimento das coisas de Deus que Ele pregava para nós? Não era por dons do Espírito Santo, mas pela união hipostática dele (alma humana unida à pessoa divina do Verbo) união íntima Dele com a Trindade. Enquanto a gente recebe o Espírito Santo, Nele o Espírito Santo permanecia (pairava sobre Ele).

E Ele manifestava tudo o que convinha a Deus.

 

Cristo exprime humanamente os modos divinos de agir da Trindade em sua alma e corpo.

Como Deus age? O sujeito que usa a humanidade é divino, é só observar a vida de Cristo.

 

Então, “a partir do instante em que a Virgem disse ´fiat´, o Verbo pôde dizer: ´este homem sou Eu´. Jesus, gerado por obra do Espírito Santo, é verdadeiro homem porque tem uma natureza real e perfeitamente humana. E é verdadeiro Deus, porque a pessoa que sustenta essa natureza não é outra senão a do Verbo. O Verbo – eterno Deus – misteriosamente, vem a ser homem: um da nossa própria espécie, alguém com uma natureza igual à nossa (salvo o pecado), mas com uma singularidade irrepetível: esse homem é o Verbo. O ´eu´desse homem, Jesus, é o `Eu´divino do Verbo.” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 22).

 

“Portanto, em Cristo, não há pessoa humana, o que não obsta que a sua natureza humana seja perfeita: tem todas as perfeições que tem ou pode ter qualquer natureza humana. Também está apoiada, atualizada, vivificada, por uma pessoa, com a particularidade de que esta é a Segunda da Santíssima Trindade. Maria concebeu, por obra do Espírito Santo um homem verdadeiro que era, desde o primeiro instante da sua existência, Verdadeiro Deus.” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 22).

 

 

Por que Ele disse que o Pai não tinha revelado o dia e a hora – a alma de Jesus não soube de algumas coisas, para a sua missão? Ou não convinha revelar, ou não fazia parte da sua missão.

Ele tem duas vontades – Ele quis humanamente tudo o que decidiu com a Trindade para a nossa salvação (Concílio de Constantinopla – 681, na época do Papa Agatão, no século VII haviam hereges do monotelismo e monergismo – Defende que em Jesus há duas vontades: a humana e divina – Mas o Imperador de Constantinopla queria resgatar os egípcios coptas que eram monofisismo de Cirilo de Alexandria e rejeitado o Concílio de Calcedônia- quer acordo com monofisitas – a fuga de Maomé em 622 e os árabes estavam sendo uma força armada e impressionando o império, queriam invadir o Império).

 

O Papa Honório não cometeu heresia, mas esteve mal informado (não se comete heresia se não se é informado). Reviu a opinião com consciência própria.

Cristo tem duas vontades não opostas mas cooperantes – Verbo feito carne quis humanamente tudo o que Ele mesmo decidiu divinamente com o Pai e o Espírito Santo – não houve um conflito – A vontade de Jesus se dobra diante da Vontade Divina. A vontade Divina quer o mesmo, mas a humana sua para obedecer isso. Este drama do Horto das Oliveiras é o que acontece com a vontade humana com a Vontade Divina.

A vontade humana segue a Vontade Divina, subordinada a esta.

É o 3º. Concílio de Constantinopla.

 

SANTA MARIA NA OBRA DA REDENÇÃO

 

Somos um Só com Jesus – Novo Adão

Jesus na Última Ceia realiza uma oração sacerdotal ao Pai pedindo que “Pai Santo, cuida em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um como nós (…) Dei-lhes a glória que tu me deste, para que sejam um como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitamente um (´unum´) e o mundo conheça que tu me enviaste e que os amaste a eles como me amaste a mim.” (João 17, 11-23).

Jesus quer, então, pela Obra da Rendenção, que sejamos um com Ele (“ut omnes unum sint”), do mesmo modo como o Pai está Nele e Ele no Pai (“sicut tu Pater in me ET ego in te”).

“Eis aqui uma maravilha que vale a pena aprofundar: ´O Filho de Deus – salienta o Concílio Vaticano II – mediante a sua encarnação uniu-se de certo modo com todos os homens.” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 76)

Jesus se une a cada homem, mulher concreto, em sua única e irrepetível realidade humana e assim forma o seu Corpo Místico, através do laço sagrado de Amor, o Espírito Santo.

Na verdade, os teólogos explicam que a humanidade sempre foi “unum”.

“E explica-se bastante bem concluindo que eu sou ´unum´com eles, que por sua vez eram ´unum´entre eles (dois em um, duo in carne una). Solidariedade vital entre os que têm nas veias o mesmo sangue. E como, no nosso caso, o ´sangue´, os ´ossos´, o nosso corpo inteiro é ´pessoal´(de pessoas com alma espiritual)  há também uma solidariedade espiritual entre todos os membros da humanidade. Por isso, de uma forma misteriosa, mas estritamente ´natural´somos ´unum´em Adão e Eva (que  eram ´unum´entre si).” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p.78-9)

Só que o ´unum´humano foi deteriorado com o pecado, por isso, Deus “envia ao mundo o seu Unigênito, para que se faça um de nós, que com a força infinitamente unitiva do Amor divino infunda no ´unum´humano seiva nova, capaz de restaurar o ´unum´perdido e de o elevar e introduzir no `Unum´divino trinitário.” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 79)

Na realidade, como bem compreendeu Santo Agostinho “com a sua poderosa inteligência ilustrada pela Fé, consegue compreender uma síntese formidável: há só dois homens: Adão e Cristo.”

 

 

 

A Santíssima Trindade resolve realizar a redenção com a cooperação de cada homem concreto

O Catecismo da Igreja Católica nos explica muito bem essa cooperação do homem concreto no que a Igreja tecnicamente denomina de “Economia Sacramental”.

A ideia é seguinte: Jesus fez-se semelhante a nós em tudo, exceto no pecado, pois Ele sempre foi santo, cheio de virtudes e sem nenhuma imperfeição, pois Ele é Deus-Filho e Ele nos reconciliou com a sua morte na Cruz, ocaisão em que ele fez um louvor perfeito ao Pai e reparou os nossos pecados de modo perfeito e o modo como resolveu dispensar os frutos dessa redenção e de nos comunicar a sua comunhão com Deus-Pai foi por meio da atualização do mistério pascal (que não é repetido na missa, mas celebrado) e isso acontece por ação do Espírito Santo que faz com que a oferenda se transubstancie em Corpo e Sangue de Jesus e nós, pela comunhão, nos tornemos um com Jesus assim como Ele é “unum” com o Pai.

Ao nos tornarmos “unum” com Jesus pela comunhão, graças à ação do Espírito Santo, que atualiza o mistério pascal, recebemos Jesus na Eucaristia e nos tornamos membros do seu Corpo Místico, do qual “Cristo erige-se em Cabeça da humanidade renovada, revitalizada, chamada com mais força do que nunca à santidade original, ainda mais, à superação da original filiação divina, porque agora nos foi dado o poder de nos chamarmos – a ser na verdade ´ filhos no Filho´ (João Paulo II, discurso 31-Viii-1983), formamos com Cristo e n ´Ele um mesmo Filho do Pai. (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 80).

E assim, quando agimos, é Cristo que vive em nós, como diz São Paulo.

 Aliás, São Paulo captou muito bem toda essa maravilha da redenção ao exprimir a sua alegria em padecer pelos Colossenses, pois assim “cumpro na mina carne o que falta à Paixão de Cristo”.

“Paulo sem Cristo não seria ninguém, nada. Ma com Ele é “unum” com o Redentor, não o divide, mas por um desígnio de Aor ´complementa- o´e assim ´corredime´com Cristo. (…) ´(OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p.82)

Seria Maria também chamada a participar da redenção?

Claro! E com muito mais intimidade.

Pois bem, se Paulo é ´unum´com Cristo; se Paulo está chamado a ser ´unum´à semelhança do ´Unum` trinitário, como será o ´unum´que formam Cristo e sua Mãe? (…) Será uma unidade essencialmente superior à de qualquer outra criatura com Cristo. O lugar de Maria na obra da salvação não é de simples acompanhamento, nem de mera intercessão perante o Filho pelos WNão é justo reduzir a atividade de Maria à intercessão, embora se afirme com verdade que é a Onipotência suplicante. A Virgem intervém na obra de Cristo – sem o qual Ela também seria nada – de um modo intimíssimo, em todas as dimensões de toda a obra salvífica; e de um modo tão íntimo, e muito mais, embora de maneira oposto de como interveio Eva na consumação do pecado original. Se Eva esteve imersa totalmente no primeiro pecado, Maria esteve inteiramente imersa em Cristo e sob sua influência desde o primeiro instante da sua Imaculada Conceição.” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p.82-3).

Eva é a Mulher prevista no Gênesis 3,15, que o Criador coloca inimizade com a serpente e a descendência de ambas e é ela que esmaga a cabeça da serpente.

“E o plano reflete a sabedoria divina, que atua na história do mundo e do homem a despeito de Satanás, que por sua vez se esforça por estragar os planos de Deus. Satanás serviu-se da mulher para arrastar Adão e os seus filhos para o abismo do pecado e da perdição. Deus servir-se-á de uma mulher para realizar as maravilhas da Encarnação e da Redenção por meio de Cristo, Verbo encarnado no seio de Maria. Deste modo, diz Pietro Parente, Deus dá a volta à trama de Satanás com sublime ironia.” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 83).

 

SANTA MARIA: NOSSA MÃE

 

Santa Maria – Mãe de Cristo (Corpo Místico de Cristo)

Sim. “Maria é nossa Mãe não em sentido natural   – isto é obvio – mas sim num sentido real, espiritual e místico, porque é Mãe de Cristo, não só do Cristo em pessoa, mas do Cristo total (Cabeça e membros). Não só segundo o corpo físico de Cristo, mas também do indivisível Corpo Místico de Cristo.” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 89)

 

Santa Maria mereceu a graça de ser constituída Mãe dos filhos de Deus em Cristo

 

“Vimos já que Maria foi constituída Mãe dos filhos de Deus em Cristo. Vejamos agora que mereceu também essa graça (não nos referimos à da maternidade divina, mas à espiritual em relação aos filhos) que a converte em Nova Eva, Corredentora com Cristo. (…) Começa quando, face ao anúncio do Arcanjo S. Gabriel, em representação de toda a humanidade, dá o seu consentimento à realização dum matrimônio espiritual entre o Filho de Deus e a natureza humana. (…) As palavras ´eis aqui a escrava do Senhor´testemunham a total abertura do espírito de Maria à pessoa de Cristo, a toda a sua obra e missão. (…) E foi iuxta crucem Iesu, junto à Cruz de Jesus, onde com particular intensidade exerceu a sua missão corredentora. Ali, não sem desígnio divino, se manteve de pé, sem protestar, com uma dor como não pode haver outra, ´sofrendo profundamente com o seu Unigênito e associando-se com coração de Mãe ao seu sacrifício, consentindo amorosamente na imolação da vítima que ela própria tinha gerado´ (LG,58). ´Uma foi a vontade de Cristo e de Maria; ambas ofereciam a Deus um mesmo holocausto: Maria com sangue no coração; Cristo com sangue na carne.´ (…) Porque aceitou sem protestar aquela tortura? A resposta é esta: ´movida por um imenso amor por nós, ofereceu Ela própria o seu Filho à divina justiça para nos receber como filhos.´(Leão XIII, Enc. Iucunda semper). (…) Ela também ´sacrifica, merece, redime´. Satisfaz – de um modo subordinado e dependente – a pena merecida pelos pecados de todos os homens que foram, são e serão. E merece pelo seu sacrifício as graças da Redenção. Embora o mérito de Maria seja diverso – de côngruo, precisa São Pio X – ao mérito do Senhor, Ela mereceu-nos o mesmo que nos mereceu Cristo: não só a aplicação ou distribuição das graças, mas as próprias graças, pela super eminente santidade que possuía e pela tão perfeita compaixão que sofreu no monte do Calvário. A seu modo, mereceu todas as graças, exceto a primeira que Ela recebeu, merecida só por Cristo. (…) O Senhor Jesus fez com que sua Mãe, que estava de pé junto à Cruz, tomasse parte no próprio ato do seu sacrifício. Incluiu a vontade D´Ela dentro da sua e assim fez com a sua Mãe dentro da vontade D´Ele, tomasse parte na obra da Redenção. Foi o Filho, não a Mãe, quem realizou esta obra, mas incluindo dentro da sua própria vontade a vontade de sua Mãe” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 95-6).

 

Santa Maria: cooperação maternal corredentora

 

Maria é nossa mãe, “não tanto porque Cristo no-la proclamou como Mãe na Cruz (que é verdade), mas também porque já o era, estava sendo pela sua plena associação ao Sacrifício. As palavras ´Mulher, aí tens o teu filho´, ´aí tens a tua Mãe´são a proclamação solene destes vínculos de maternidade-filiação, que, na ordem do espírito, já existiam entre Maria e todos os homens. Por isso, a cooperação mediadora de Maria, a sua corredenção ´tem um caráter especificamente maternal. E levá-la-á a cabo tanto na linha ascendente (cooperação maternal corredentora) como na linha descendente (cooperação maternal de intercessora diante de Deus e de distribuidora de todas as graças)” (OROZCO, Antônio. Mãe de Deus, Mãe Nossa, Diel, Coimbra, p. 97).

 

 Imagem

Por que o pecado cometido por Adão e Eva possui um efeito sobre mim?

Neste estudo, vamos analisar por que o pecado original atinge a todos nós, quem foi afinal que teria “inventado” o pecado, o que ele significa, se o pecado não seria só coisa do passado, porque se diz que o pecado é uma contradição ao amor de Deus, dentre outras…

 

Origem do pecado

 

A origem do pecado, quem o “inventou” foram aqueles anjos que se rebelaram contra Deus e dizem não, o “non serviam” (não servirei).

A humanidade, por sua vez, são representados por Adão e Eva, e estes são  instigados pela serpente dizem não a Deus, a não se submeterem à vontade divina a eles previamente revelada (de não comerem o fruto da árvore do saber do bem e do mal). Desobedecem e o pecado se introduz como uma realidade humana, não só angélica.

Jesus se encarna e volta a dizer sim a Deus, com uma incondicionalidade comovedora, pois faz a vontade do Pai até morrer numa cruz para nos salvar.

Assim, o pecado é ato do homem que se aparta de Deus. Mas, é uma escuridão sem saída. O pecado é como se um planeta resolvesse não fazer mais a sua órbita em torno do sol e resolvesse ir muito longe, onde o frio e a escuridão reinam no universo.

Foi assim que o mal moral entrou no mundo.

 

O mal moral do pecado é pior do que um mal físico?

 

Sim, pois o pecado nos afasta do amor de Deus, nos afasta Dele. E esse mal moral Deus nunca o quis para nós, não foi Ele que o criou.  Um mal físico aceito como fazendo parte de uma providência divina para a minha salvação, pode me levar ao céu, pois posso oferecê-lo a Deus, a minha oferta para desagravar a Deus por tanto descaso a Ele e por tanto pecado deliberado por malícia e por ignorância vencível.

 

 

 

 

 

Como compreender que um pecado é um mal maior para nós do que, por exemplo, ficarmos cegos, ou paraplégicos? O que há por trás do pecado?

 

Deus não nos criou para sofrermos. A prova disso que Adão e Eva estavam no Jardim do Éden. Foi o pecado que nos privou das graças que não faziam parte da nossa natureza humana, graças essas que eram divinas.

 

Mas, com o pecado, saímos do Éden. Estamos aqui. Num mundo que não é o definitivo, mas uma passagem para um outro “destino” final (céu, ou inferno) e uma purificação intermediária (purgatório).

Neste mundo,  há males físicos.

Contudo, nenhum deles se compara com o mal que há por trás de um pecado.

É que Deus enviou Jesus ao mundo (que é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade) e Ele, pelos 7 Sacramentos existentes (batismo, confirmação, ordem, matrimônio, eucaristia e unção dos enfermos) nos comunica  dons sobrenaturais, quais sejam, bênçãos e a própria Vida Divina, não por nosso mérito (somos pecadores) mas por efeito de sua misericórdia que nos deseja no Céu, ao seu lado, participando da sua própria natureza divina:

 

 

“Como La gracia es el don que nos hace hijos de Dios y herederos de sua gloria, no hay mayor mal que el pecado mortal. Todos los males de la tierra, las enfermedades, el dolor, la desgracia, la guerra com sus terribles consecuencias, no son nada em comparación com el mal del pecado. Y esto se comprende facilmente porque el bien sobrenatural está por encima del natural, puesto que pertenece a um orden infinitamente superior: el de la gracia, al que el hombre há sido elevado em virtud de la misericórdia de Dios, que deseja hacernos participar de su própria naturaleza divina para que um dia lleguemos a gozar de Él en esa felicidad sin fin que es el cielo.”

(Luca de Tena, Francisco Luna, La Confesion, tercera edición revisada, Ediciones Palabra, S.A., Madrid, p. 52).

 

 

 

 

Por que Deus, sendo Todo-Poderoso, deixa que um mal moral entre na sua criação?

Em primeiro lugar, Deus não é o autor do mal moral. Foi uma opção de anjos que não quiseram permanecer no céu com Deus por soberba e por inveja.  E esses mesmos anjos, invejosos, instigaram Adão e Eva a caírem também numa desobediência.Mas  se é verdade que Deus, sendo Todo-Poderoso, deixa que haja o mal moral exista, e sendo Ele “soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio mal.” (ponto 312, do Catecismo).

 

E além disso, recordemos que Deus criou o ser humano dotado de liberdade, o que Ele não vai violar nem a pretexto de eliminar o mal moral. Ele nos deseja livres, pois quem for para o céu irá porque livremente optou já nesta vida amar a Deus de todo o coração.

Deus é indiretamente a causa de um mal moral?

 

De jeito nenhum. Quando ele criou o ser humano, Ele até nos dotou de dons que sequer faziam parte da nossa natureza humana (dons preternaturais – ausência de dor e sofrimento; dons sobrenaturais – participação na Sua Vida Bem Aventurada).

“Deus não é de modo algum, nem direta nem indiretamente, a causa do mal moral.  Todavia, permite-o, respeitando a liberdade de sua criatura e, misteriosamente, sabe auferir dele o bem.” (ponto 311, do Catecismo).

Assim, o mal não nos deve escandalizar.

Como Deus se vale do pecado alheio para dele auferir um bem para nós?

 

“…Él detesta La falta y se reserva el castigarla en tiempo oportuno……cabe em sus desígnios hacen servir el mal para el bien de sus elegidos, utilizando para esto La debilidade y la malicia de los hombres, sus faltas, hasta las más repugnantes.” (Luca de Tena, Francisco Luna. La Confesion. Ediciones Palavra, Madrid, tercera edición, p.42).

 

Por que existem pessoas que não aceitam a realidade do pecado?

 

E seria a malícia e a ignorância, duas manchas causadas pelo pecador original que nos impede de reconhecer a realidade da criação e a nossa dependência absoluta de Deus.

E não é só isso. “Descobrir Deus invisível é um grande desafio para o espírito humano. Muitos, perante isso, recuam de medo. Alguns também não querem descobrir Deus precisamente porque, então, teriam de mudar a sua vida.” (ponto 5, YouCat).

 

Quem não reconhece que Deus é o Criador do Céu e da Terra, o Todo-Poderoso, e que nós somos criaturas suas, dificilmente reconhecerá a dimensão e a contradição do pecado em relação a um amor demonstrado e declarado em tudo o que vemos por parte do Criador, de Deus.

 

“Quién no se coloque ante Dios como supremo Hacedor, dificilmente aceptará la realidad del pecado, ya que este supone la negación práctica de eso sumisión que em estricta justicia se le debe como autor y conservador de nuestro ser.” (Luca de Tena, Francisco Luna. La Confesion. Ediciones Palavra, Madrid, tercera edición, p. 37).

 

O pecado: uma contradição ao Amor de Deus

 

Deus não é um Onipotente que nos marca um caminho a seguir sob ameaça de castigo.

“…nadie se le ocurre pensar que uma madre sea mala e caprichosa porque advierte a sus hijos Del peligro que correm o porque les senala  el mal que lês puede danar o porque deseja para elles  el mayor bien y La mayor felicidad…( (Luca de Tena, Francisco Luna. La Confesion. Ediciones Palavra, Madrid, tercera edición, p. 39).

 

 

Se não fui eu quem comeu o fruto proibido,  como pode um pecado original de Adão e Eva pode ter efeito sobre mim hoje?

 

Em primeiro lugar, o “pecado”original não é um ato que se transmitiu para nós. O ato foi realmente de Adão e Eva. Acontece que o que aconteceu depois (privação desses primeiros seres humanos dos dons preternaturais e sobrenaturais) isso acabou se transmitindo para toda a humanidade. Nascemos privados dos dons divinos que adornavam a nossa alma originalmente: santidade e justiça.

Assim, não sou punida por um ato que foi de Adão e Eva, mas por que sou ser humano, nasci em um “estado” de pecado.

Por conta desse “estado” de pecado original, minha alma tem dificuldade de exercer e querer o bem.

O Catecismo da Igreja Católica responde-nos explicando que  o primeiro pecado de Adão e Eva realmente foi um pecado pessoal de cada um deles, mas a questão é que o pecado original atingiu TODO O GÊNERO HUMANO, porque todos os seres humanos deixaram de gozar daquela santidade e justiça originalmente concedida por Deus no Éden, como eles foram privados e nós somos fruto de gerações oriundas deles, a nós também foi transmitida uma humanidade decaída pelo pecado original e privada de dons e graças sobrenaturais.

 

“De que maneira o pecado de Adão se tornou o pecado de todos os seus descendentes? O gênero humano inteiro é em Adão `sicut unum corpus unius hominis´- como um só corpo de um só homem. Em virtude desta ´unidade do gênero humano´ todos os homens estão implicados no pecado de Adão, como todos estão implicados na justiça de Cristo. ….Sabemos, porém pela Revelação, que Adão havia recebido a santidade e a justiça originais não exclusivamente para si, mas para toda a natureza humana: ao ceder ao Tentador, Adão e Eva cometem um pecado pessoal, mas este pecado afeta a natureza humana, que vão transmitir em um estado decaído. É um pecado que será transmitido por propagação à humanidade inteira, isto é, pela transmissão de uma natureza humana privada da santidade e da justiças originais. E é por isso que o pecado original é denominado “pecado” de maneira analógica: é um pecado “contraído” e não “cometido”, um estado e não um ato.” (ponto 404).

 

 

Conceito de pecado

 

Seria o pecado “ La ofensa que se le hace ao Senor al anteponer nuestra voluntad a la suya y quebrantar de este modo el derecho que tiene a nuestra sumision” (Tanquerey, Teologia Ascética y Mística, Roma, 1960, p. 466).

 

O Catecismo da Igreja Católica o define:

O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a recta consciência. É uma falha contra o verdadeiro amor para com Deus e para com o próximo, por causa dum apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e atenta contra a solidariedade humana. Foi definido como «uma palavra, um acto ou um desejo contrários à Lei eterna» (Catecismo, 1849)

 O pecado é uma ofensa a Deus: «Pequei contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos» (Sl 51, 6). O pecado é contrário ao amor que Deus nos tem e afasta d’Ele os nossos corações. É, como o primeiro pecado, uma desobediência, uma revolta contra Deus, pela vontade de os homens se tornarem «como deuses», conhecendo e determinando o que é bem e o que é mal(Gn 3, 5). Assim, o pecado é «o amor de si próprio levado até ao desprezo de Deus» (90). Por esta exaltação orgulhosa de si mesmo, o pecado é diametralmente oposto à obediência de Jesus, que realizou a salvação.” (Catecismo, 1850)

 

“É precisamente na paixão, em que a misericórdia de Cristo o vai vencer, que o pecado manifesta melhor a sua violência e a sua multiplicidade: incredulidade, ódio assassino, rejeição e escárnio por parte dos chefes e do povo, cobardia de Pilatos e crueldade dos soldados, traição de Judas tão dura para Jesus, negação de Pedro e abandono dos discípulos. No entanto, mesmo na hora das trevas e do príncipe deste mundo, o sacrifício de Cristo torna-se secretamente a fonte de onde brotará, inesgotável, o perdão dos nossos pecados. (Catecismo, 1851).

 

Qual é a raiz do pecado?

 

A raiz do pecado está no coração do homem, na sua vontade livre, conforme o ensinamento do Senhor: «do coração é que provêm pensamentos malévolos, assassínios, adultérios, fornicações, roubos, falsos testemunhos, maledicências – coisas que tornam o homem impuro» (Mt 15, 19). Mas é também no coração que reside a caridade, princípio das obras boas e puras, que o pecado ofende. (ponto 1853, do Catecismo).

 

 

Origem dos nossos pecados pessoais

 

Por causa do pecado original que nos é transmitido como por herança (é inegável que praticamos o mal que não queremos, não fazemos o bem que queremos, parafraseando São Paulo).

 

Ficaram em nós quatro, digamos assim, feridas em nossas almas, que nos levam ao pecado:

 

“Ignorância: dificuldade para connhecer a verdade e facilidade para se enganar nos juízos. Manifesta-se também na propensão para ocultar a verdade que compromete e exige adesão. Inclina para o espírito crítico e para a autosuficiência intelectual.

Malícia: inclinação da vontade para o mal; tendência para o egoísmo, resistência a atuar por amor a Deus e aos outros.

Debilidade: Diante do esforço que requer a conduta reta. Costuma aumentar as dificuldades com a imaginação, e dissuade de as enfrentar.

Concupiscência: afã desordenado de prazeres. Exagera o atrativo dos prazeres e obnubila a inteligência que deixa de compreender a ordem em que os deve observar, colocando-os em primeiro lugar, e a vontade inclina-se para eles de maneira também desordenada.”

 

(POZO, Juan Francisco. A vida da graça, Diel, Coimbra, 1997, p. 28).

 

De onde surge o pecado pessoal?

 

São sete motivos pelos quais pecamos:

“O primeiro é a soberba, que poderíamos definir como a procura desordenada da nossa própria honra e excelência, ou como um amor-próprio desordenado que leva a preferir-nos sempre a Deus e aos outros, ou ainda, a largos traços, como aquilo a que hoje chamamos egoísmo…

 

O segundo pecado capital é a avareza ou o desejo imoderado de bens temporais. Daqui nascem não só os pecados de roubo e fraude, como também os menos reconhecidos de injustiça entre patrões e empregados, práticas abusivas de negócios, mesquinhez e indiferença ante as necessidades dos pobres…

O seguinte na lista é a luxúria ou impureza….a perda da fé e o desespero da misericórdia divina são frutos freqüentes da luxúria…

Depois vem a ira, que é um estado emocional desordenado que nos incita a desforrar-nos dos outros, a opor-nos insensatamente a pessoas  ou coisas. Os homicídios, as desavenças e as injúrias são conseqüências evidentes da ira, como também o ódio, a murmuração e o dano à propriedade alheia…

A gula é outro pecado capital. É a atração desordenada pela comida ou bebida…

A inveja…não consiste em desejar o nível de vida dos outros….é antes a tristeza causada pelo fato de haver quem esteja numa situação melhor que a nossa, é o sofrimento pela melhor sorte dos outros. Desejamos ter aquilo que um outro tem, e desejamos que ele não o tenha…

Finalmente, temos a preguiça ou acedia, que não é o simples desagrado perante o trabalho, há muita gente que não acha agradável o seu trabalho. A preguiça consiste, antes de tudo, em fugir do trabalho pelo esforço que implica…É o desgosto – e a recusa – causado pela necessidade de cumprirmos os nossos deveres, especialmente os nossos deveres para com Deus.”

 

(fonte: TRESE, Leo. Fé Explica, Quadrante, São Paulo, p. 66-7).

 

 

 

 

 

Quais são os elementos do pecado?

 

São Tomás nos explica que são dois: o elemento material e o formal: “Lo material no ES sino el ejercício natural de nuestras faculdades….lo formal es el defecto voluntario de la conformidade Del acto com La vontad de Dios ((Luca de Tena, Francisco Luna. La Confesion. Ediciones Palavra, Madrid, tercera edición, p. 41).

 

O que significa pecado mortal? E qual é o seu efeito?

 

Existe a morte física. É inexorável e um dia ela chegará para todos nós.

Mas, existe uma morte muito pior, é a morte da alma e se morrermos em estado de pecado moral “sem ter-se arrependido dele e sem acolher o amor misericordioso de Deus significa ficar separado do Todo –Poderoso para sempre, por nossa própria opção livre.” (ponto 1033, Catecismo da Igreja Católica).

 

O pecado mortal ele afasta Deus de dentro de nós.

Jesus já diz: “Se alguém me ama, guardará minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e nele faremos a nossa morada” (João 14,23).

Quando somos batizados, a Santíssima Trindade vem habitar dentro de nós, na nossa alma e o pecado mortal é aquele ato que cometemos sabendo que violamos um mandamento de Deus ou da Igreja (corpo místico de Cristo) com conhecimento pleno de que aquele ato é algo que Deus não deseja e o considera como grave, e mesmo assim, com  vontade firme realizamos.

 

“El pecado mortal arroja del alma a Dios. Jesucristo ha dicho: si alguno me ama, guardará mi palabra, y mi Padre le amará, y vendremos a El y en El haremos nuestra morada, y esto quiere decir que Dios habita en nuestras almas como em un templo. La inhabitación trinitária, que así se llama este mistério, consiste en que las três divinas Personas vienen a vivir dentro de nosotros. San Pablo nos lo recuerda cuando nos dice: No sabeis que sois templos de Dios  y que El Espíritu de Dios habita em vosotros? Se trata pues, de una realidad: Dios está com nosotros haciéndonos participar de su própria vida, pone em el alma sus complacendias, y La adorna con sus virtudes y dones y le da su gracia, com La que todas las obras del hombre se hacen merecedoras de La vida eterna.

Y qué hace con todo esto el pecado mortal? Arroja a Dios del alma, y AL perderle perdemos tambiém grandes bienes, porque Él es La fuente de donde proceden. Se pierde La gracia santificante por La que nuestra alma participa em La vida divina, se pierden tambíén los méritos de nuestras obras, adquiridos, a veces, com tanto esfuerzo, y se cae em uma esclavitud que nos priva de La libertade los hijos de Dios porque el que comete pecado se hace siervo del pecado. De ahí que el Espíritu Santo clame contra el pecado: ´Pasmaos cielos, de esto y horrorizaos sobremanera, dice Yave. Um doble crimen há cometido mi pueblo: dice jarme a mi, fuente de água viva, para excavarse cisternas agrietadas incapaces de retener el água.´(Jerem 2, 12 y 13).”

(Luca de Tena, Francisco Luna. La Confesion. Ediciones Palavra, Madrid, tercera edición, p

 

Quais são as três condições para existir pecado mortal?

 

“Em primeiro lugar e antes de mais nada, a matéria deve ser grave, seja por pensamentos, palavras ou obras. Não é pecado mortal dizer uma mentira infantil, mas já o é prejudicar a reputação alheia com uma mentira. Não é pecado mortal roubar uma maça ou uma moeda, mas já o é roubar uma quantia apreciável  ou tocar fogo numa casa.

Em segundo lugar devo saber que o que faço é errado, muito errado. Não posso pecar por ignorância. Se não sei que é pecado mortal participar do culto protestante, para mim não seria pecado ir com um amigo protestante à sua capela. Se esqueci que hoje é dia de abstinência e como carne, para mim não haverá pecado. Isto pressupõe, é claro, que essa ignorância não seja por minha culpa. Se não quero informar-me de certa coisa por medo de que atrapalhe os meus planos, sou culpado desse pecado.

Finalmente, não posso cometer um pecado mortal se não resolvo livremente praticar determinada ação (ou omissão) que é contra a Vontade de Deus. Se por exemplo, alguém mais forte que eu me força a lançar uma pedra contra uma vitrina, não me faz cometer um pecado mortal….Não posso pecar dormindo, por mais maldosos que se apresentem os meus sonhos…(TRESE, Leo. Fé Explicada, Quadrante, São Paulo, p. 61).

 

 

 

O que o Catecismo da Igreja Católica nos ensina sobre o pecado mortal?

Para que um pecado seja mortal, requerem-se, em simultâneo, três condições: «É pecado mortal o que tem por objecto uma matéria grave, e é cometido com plena consciência e de propósito deliberado» . (Catecismo, 1857).

 A matéria grave é precisada pelos dez Mandamentos, segundo a resposta que Jesus deu ao jovem rico: «Não mates, não cometas adultério, não furtes, não levantes falsos testemunhos, não cometas fraudes, honra pai e mãe» (Mc 10, 18). A gravidade dos pecados é maior ou menor: um homicídio é mais grave que um roubo. A qualidade das pessoas lesadas também entra em linha de conta: a violência cometida contra pessoas de família é, por sua natureza, mais grave que a exercida contra estranhos.” (Catecismo, 1858)

 Para que o pecado seja mortal tem de ser cometido com plena consciência e total consentimento. Pressupõe o conhecimento do carácter pecaminoso do acto, da sua oposição à Lei de Deus. E implica também um consentimento suficientemente deliberado para ser uma opção pessoal. A ignorância simulada e o endurecimento do coração  não diminuem, antes aumentam, o carácter voluntário do pecado.” (Catecismo, 1859).

O pecado mortal é uma possibilidade radical da liberdade humana, tal como o próprio amor. Tem como consequência a perda da caridade e a privação da graça santificante, ou seja, do estado de graça. E se não for resgatado pelo arrependimento e pelo perdão de Deus, originará a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no Inferno, uma vez que a nossa liberdade tem capacidade para fazer escolhas definitivas, irreversíveis. No entanto, embora nos seja possível julgar se um acto é, em si, uma falta grave, devemos confiar o juízo sobre as pessoas à justiça e à misericórdia de Deus.” (Catecismo, 1861).

 

A ignorância de uma pessoa sobre o pecado a exime da sua culpa ao pecar?

A ignorância involuntária  pode diminuir, ou mesmo desculpar, a imputabilidade duma falta grave. Mas parte-se do princípio de que ninguém ignora os princípios da lei moral, inscritos na consciência de todo o homem. Os impulsos da sensibilidade e as paixões podem também diminuir o carácter voluntário e livre da falta. O mesmo se diga de pressões externas e de perturbações patológicas. O pecado cometido por malícia, por escolha deliberada do mal, é o mais grave.” (Catecismo, 1860).

 

 

O que o Catecismo da Igreja Católica nos ensina sobre o pecado venial?

 

Comete-se um pecado venial quando, em matéria leve, não se observa a medida prescrita pela lei moral ou quando, em matéria grave, se desobedece à lei moral, mas sem pleno conhecimento ou sem total consentimento.” (Catecismo, 1862).

O pecado venial enfraquece a caridade, traduz um afecto desordenado aos bens criados, impede o progresso da pessoa no exercício das virtudes e na prática do bem moral; e merece penas temporais. O pecado venial deliberado e não seguido de arrependimento, dispõe, a pouco e pouco, para cometer o pecado mortal. No entanto, o pecado venial não quebra a aliança com Deus e é humanamente reparável com a graça de Deus. «Não priva da graça santificante, da amizade com Deus, da caridade, nem, portanto, da bem-aventurança eterna» “ (Catecismo, 1863).

 

Se o pecado é leve ou venial, significa que ele é insignificante?

 

Não.

«Enquanto vive na carne, o homem não é capaz de evitar totalmente o pecado, pelo menos os pecados leves. Mas estes pecados, que chamamos leves, não os tenhas por insignificantes. Se os tens por insignificantes quando os pesas, treme quando os contas. Muitos objetos leves fazem uma massa pesada; muitas gotas de água enchem um rio; muitos grãos fazem um monte. Onde, então, está a nossa esperança? Antes de mais, na confissão…»  (Catecismo, 1864).

 

 

 

 

 

O que é pecado venial deliberado e semi-deliberado?

No venial deliberado, a pessoa o comete sabendo que é pecado, mas não dá-lhe importância, porque afinal não seria ele um pecado mortal mas venial…

No venial semi-deliberado a pessoa não o comete com plena consciência (não o quer de modo algum), tem horror ao pecado deliberado. Mas se precipita e o comete, ou sucumbe à pressão de um ambiente, ou tem um impulso nervoso e faz com que haja sem paciência e caridade com o próximo. Podemos dele tirar proveito, na medida em que eles nos humilham apesar de estarmos nos esforçando para não pecar.

Como pode ser classificado o pecado venial semi-deliberado?

pecados por precipitação, cometidos por irreflexão momentânea, ligeireza de caráter ou falta de senso: a decisão e a ação constituem um ato só, e, portanto, não houve tempo para tomar consciência da sua pecaminosidade.

Pecados por surpresa: uma excitação nervosa, uma situação comprometedora, um apuro, uma surpresa fazem com que decidamos e atuemos de um modo diverso daquele que queríamos. Sucumbimos á pressão das circunstâncias: cometemos uma falta, mas sem consciência total nem um consentimento plenamente livre da vontade.

Pecados por fragilidade (em sentido estrito) ou seja, por impulsos de nervosismo contra a paciência, contra a caridade, contra a mansidão, os quais, mesmo quando os descobrirmos, não são objeto de uma oposição incondicional da nossa parte. Depois da falta, temos a impressão clara e penosa de não havermos sido suficientemente generosos nem de nos termos dominado bastante, se bem que não sejamos capazes de precisar qual foi o papel exato da vontade livre na falta.” (Baur, Benedikt, A vida espiritual, tradução de Domingos Marques – São Paulo – Quadrante; 2004, p. 53).

 

Existe algum pecado para o qual não há perdão?

 

Sim, foi Jesus mesmo que diz:

 «Todo o pecado ou blasfémia será perdoado aos homens, mas a blasfémia contra o Espírito não lhes será perdoada» (Mt 12, 31)

 

Não há limites para a misericórdia de Deus, mas quem recusa deliberadamente receber a misericórdia de Deus, pelo arrependimento, rejeita o perdão dos seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo  Tal endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna. (Catecismo).

Em resumo, os seis pecados contra o Espírito Santo são:

  1. Desesperar da salvação
  2. Presunção de se salvar sem merecimento
  3. Contradizer a verdade conhecida por tal.
  4. Ter inveja das mercês que Deus faz a outros.
  5. Obstinação no pecado.
  6. Impenitência final.

(fonte: Seleta de Orações, São Paulo, Cultor de Livros, 2011, p. 221).

 

Um pecado cometido pode se tornar um vício?

Sim, diz o Catecismo:

O pecado arrasta ao pecado; gera o vício, pela repetição dos mesmos actos. Daí resultam as inclinações perversas, que obscurecem a consciência e corrompem a apreciação concreta do bem e do mal. Assim, o pecado tende a reproduzir-se e reforçar-se, embora não possa destruir radicalmente o sentido moral.” (Catecismo, 1865).

 Os vícios podem classificar-se segundo as virtudes a que se opõem, ou relacionando-os com os pecados capitais que a experiência cristã distinguiu, na sequência de São João Cassiano (102) e São Gregório Magno (103). Chamam-se capitais, porque são geradores doutros pecados e doutros vícios. São eles: a soberba, a avareza, a inveja, a ira, a luxúria, a gula e a preguiça ou negligência (acédia).” (Catecismo, 1866).

 

 

 

 

 

O que são pecados que “bradam ao céu”?

 

Em resumo, são quatro os pecados que bradam ao céu:

 

  1. Homicídio voluntário.
  2. Pecado sensual contra a natureza.
  3. Opressão dos pobres.
  4. Não pagar a quem trabalha.

(fonte: Seleta de Orações, São Paulo, Cultor de Livros, 2011, p. 221).

 

Posso ter culpa em um pecado cometido por uma outra pessoa?

 

O Catecismo nos ensina:

O pecado é um acto pessoal. Mas, além disso, nós temos responsabilidade nos pecados cometidos por outros, quando neles cooperamos:

– tomando parte neles, directa e voluntariamente;
– ordenando-os. aconselhando-os, aplaudindo-os ou aprovando-os;
– não os denunciando ou não os impedindo, quando a isso obrigados;
– protegendo os que praticam o mal.” (Catecismo, 1868).

Assim, o pecado torna os homens cúmplices uns dos outros, faz reinar entre eles a concupiscência, a violência e a injustiça. Os pecados provocam situações sociais e instituições contrárias à Bondade divina; as «estruturas de pecado» são expressão e efeito dos pecados pessoais e induzem as suas vítimas a que, por sua vez, cometam o mal. Constituem, em sentido analógico, um «pecado social» “ (Catecismo, 1869).

 

 

 

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É necessário confessar os pecados? O que é o Sacramento da Penitência?

O que é o Sacramento da Penitência? O que ele tem a ver com a Confissão? Para que ele serve? Foi Jesus que o instituiu? É obrigatório?
Estas e outras perguntas serão respondidas ao longo da exposição. Iniciemos com a “penitência”.

O que é penitência?

Antes de falarmos sobre Sacramento da Penitência, é necessário saber que o termo “penitência” tem dois significados:
a- Penitência significa Arrependimento
“Em primeiro lugar, temos a virtude da penitência, a virtude sobrenatural que nos leva a detestar os nossos pecados por um motivo que a fé nos dá a conhecer, e ao propósito conseqüente de não ofender mais a Deus e de desagravá-lo por isso. Neste sentido, o termo ´penitência´é sinônimo de ´arrependimento´.
Antes de Cristo, a virtude da penitência era o único meio pelo qual os homens podiam alcançar o perdão dos seus pecados. Mesmo hoje, para os que estão fora da Igreja de boa fé e não dispõem do sacramento da Penitência, ela é o único meio de alcançar o perdão dos pecados.”
(TRESE, Leo John. A fé explicada – tradução de Isabel Perez – 7ª. Ed. – São Paulo: Quadrante, 1999, 361).
b- Penitência significa Sacramento

“Além de ser uma virtude, a Penitência é um sacramento. Define-se como o sacramento instituído por Jesus Cristo para perdoar os pecados cometidos depois do batismo. Ou, para dar uma definição mais longa e descritiva, podemos dizer que a Penitência é o ´sacramento pelo qual o sacerdote, como instrumento vivo de Deus, perdoa os pecados cometidos depois do batismo, quando o pecador está sinceramente arrependido, diz as suas faltas em confissão ao sacerdote e se submete à satisfação ou pena que este lhe impõe.”
(TRESE, Leo John. A fé explicada – tradução de Isabel Perez – 7ª. Ed. – São Paulo: Quadrante, 1999, 361).

Em que parte do Novo Testamento há a menção a este Sacramento da penitência instituído por Jesus?

Vejamos no Evangelho de São João 20, 19-23:
“Ele disse-lhes novamente: A paz seja convosco. Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito essas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos.”
Eis aí o fundamento do Sacramento da Penitência, Jesus deu poder aos Apóstolos na tarde do mesmo Domingo da Sua Ressurreição, quando Ele aparece aos Apóstolos que estavam reunidos na sala alta onde tinham celebrado a Última Ceia.
Claro que Ele sabia que “muitos de nós perderíamos a graça, a participação na própria vida divina que nos foi dada no Batismo. Sendo infinita e inesgotável a misericórdia de Deus era inevitável, digamos assim, que Ele desse uma segunda oportunidade ( e uma terceira, e uma quarta, e uma centésima, se necessário) aos que recaíssem no pecado. Era lógico que, com a morte dos Apóstolos, não se interrompesse o poder que Jesus lhes deu de perdoar os pecados, bem como o de mudar o ao e vinho no seu Corpo e Sangue. Jesus não veio à terra para salvar apenas um minúsculo punhado de almas escolhidas. (…) Jesus veio para salvar todos os homens que quisessem salvar-se até o fim dos tempos. Quando morria na cruz, tinha-nos presentes a você e a mim (…) É evidente que o poder de perdoar os pecados é parte do poder sacerdotal e, portanto, tinha de se transmitir de geração em geração por meio do sacramento da Ordem Sagrada. É um poder que cada sacerdote exerce quando estede as mãos sobre o pecador contrito e diz: ´Eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.´Temos ouvido estas palavras muitas vezes.” (TRESE, Leo John. A fé explicada – tradução de Isabel Perez – 7ª. Ed. – São Paulo: Quadrante, 1999, 362-3).

Seria, então, o próprio padre quem perdoa os meus pecados, já que é ele quem diz a fórmula da absolvição?

Não. Ali o sacerdote, o padre absolve em nome de Deus (“assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós”- Jo 20, 19-23).
Nenhum homem tem o poder de perdoar pecados de outrem. O padre atua, neste caso, in persona Christi. Sendo o pecado uma ofensa, em primeiro lugar a Deus, só Deus, como ofendido, tem o poder de perdoar um pecado.

É obrigatório confessar-me com um padre?

“O principal fim do sacramento da Penitência é restaurar na alma do pecador a vida divina (graça santificante) que havia perdido. Por conseguinte, os pecados que devemos dizer na confissão são todos os pecados mortais cometidos depois do batismo e não confessados previamente.” (Leo Trese, Fé Explicada, p. 380)

“Ao confessarmos os nossos pecados mortais, temos a obrigação de dizer o número de vezes que cometemos cada pecado…Quem não se tenha confessado há muito tempo pode ver-se em dificuldades…Se não puder recordar o número exato de vezes que cometeu certo pecado, basta que faça uma estimativa sincera. Um modo prático de proceder nesses casos é fazer o cálculo com base no número de pecados cometidos por semana ou por mês.” (Leo Trese, Fé Explicada, p. 380).

E se eu estiver em dúvida se houve pecado mortal?

“Depois de termos sido batizados, há uma só coisa que nos pode separar de Deus: o pecado mortal, o repúdio consciente e deliberado da vontade de Deus em matéria grave. (…) Também não há obrigação de confessar os pecados mortais duvidosos. Mas novamente é mais prudente manifestar esses pecados na confissão para o bem da nossa paz interior e por causa da graça que recebemos contra as recaídas. No entanto, não é imprescindível confessar os pecados mortais duvidosos …Se o fazemos, devemos mencionar as nossas dúvidas ao sacerdote e confessá-los depois ´como estiverem na presença de Deus.´Um exemplo de pecado mortal duvidoso seria um acesso de ira vingativa….o dos pensamentos impuros, com a dúvida posterior de saber se consentimos ou resistimos com a prontidão suficiente.” (Leo Trese, Fé Explicada, Quadrante, p. 380)

Se não é obrigatório confessar um pecado venial, por que deveria eu confessá-lo ao padre?
De fato. Não é obrigatório confessar um pecado venial, só os mortais, porém, é conveniente confessar os pecados veniais, realizando-se uma confissão que podemos chamá-la confissão devocional, por devoção a Deus.
“Já que o pecado venial não extingue em nós a vida da graça, não somos obrigados a mencioná-los na confissão. Mas é muito proveitoso fazê-lo, ainda que não seja obrigatório: nada nos pode dar maior certeza de terem sido perdoados do que submetê-los á absolvição de um sacerdote; além disso, no sacramento da Penitência recebemos graças especiais, que nos dão forças para evitar esses pecados no futuro. Mas é verdade que o pecado venial pode ser perdoado fora da confissão por um ato de contrição sincero (ao menos se for uma contrição perfeita) e um propósito de emenda.” (Leo Trese, Fé Explicada, Quadrante, p. 380)

Por que é conveniente confessarmos os pecados veniais, se não é obrigatória a sua confissão, segundo os mandamentos da Igreja?

Para melhor entender, o pecado mortal, como diz o Padre Paulo Ricardo em uma de suas explicações sobre a Confissão, ele é como um balde de água que se joga na chama do amor divino, apagando-o. Já o pecado venial, é um borrifar de água, mas que praticado repetidas vezes, vai apagando aquela chama de amor que temos por Deus em nosso coração.
Assim, uma confissão de pecados veniais é conveniente porque nos fortalece, para que a nossa caridade com Deus se esfrie e acabemos por cair em um pecado mortal. Lembrando que um pecado mortal, como diz o Padre Paulo Ricardo, “não é como um raio com trovão que surge do nada em um dia ensolarado”, ou seja ele vem sempre precedido de pecados veniais deliberados reiterados dos quais não nos arrependemos.
«O pecado venial enfraquece a caridade; traduz um afecto desordenado aos bens criados; impede o progresso da alma no exercício das virtudes e na prática do bem moral; e merece penas temporais. O pecado venial deliberado e não seguido de arrependimento, dispõe, a pouco a pouco, para cometer o pecado mortal. Não entanto, o pecado venial não quebra a Aliança com Deus. E é humanamente com a graça de Deus reparável. “Não priva da graça santificante, da amizade com Deus, da caridade, nem, portanto, da bem-aventurança eterna” (João Paulo II, Ex. ap. Reconciliatio et paenitentia (2-XII-1984), 17)» (Catecismo, 1863).

Assim, o pecado venial são aqueles que “não nos separam de Deus, mas dificultam a plena irradiação da sua graça na nossa alma, como as nuvens dificultam a irradiação solar.” ((TRESE, Leo John. A fé explicada – tradução de Isabel Perez – 7ª. Ed. – São Paulo: Quadrante, 1999,p. 364).
Além disso, quando confessamos um pecado venial e observamos a fundo qual foi o motivo, o fundamento de o termos praticado (que é sempre por motivo de algum “pecado capital” como soberba, avareza, luxúria, inveja, ira, gula ou preguiça,) o Sacramento da Penitência nos confere “graças atuais de que possamos necessitar” , ou em outras palavras o Sacramento nos dá “graça sacramental” especial, “que nos fortifica contra as recaídas no pecado” (TRESE, Leo John. A fé explicada – tradução de Isabel Perez – 7ª. Ed. – São Paulo: Quadrante, 1999, p. 365).
Então, é importante confessar o pecado venial com a circunstância, o motivo de sua prática, pois o Sacramento nos dará a graça sacramental especial para da próxima vez resistirmos à tentação de praticá-lo.

Quais são as finalidades do Sacramento da Penitência?

Há sete finalidades do Sacramento da Penitência :
1- perdoar os pecados mortais e veniais
2- “ressurreição espiritual” (Concílio de Trento), restituição da dignidade e dos bens próprios da vida dos filhos de Deus, dos quais o mais precioso é a amizade do mesmo Deus.
3- Perdão do castigo eterno que resulta do pecado mortal“Sabemos que quem rejeita Deus pelo pecado mortal e entra na eternidade impenitente, separa-se Dele para sempre; vai para o inferno”
4- restaurar ou aumentar a graça santificante
5- Perdão em parte da pena temporal devida pelo pecado “Esta pena temporal nasce da dívida de satisfação que contraio com Deus pelos meus pecados, mesmo depois de terem sido perdoados. Trata-se de ´consertar os estragos´, poderíamos dizer.”
6- devolver-nos os méritos das boas obras que tenhamos feito perdidos com o pecado motal.
7- dá-nos direito a graças atuais de que possamos necessitar – chamada “graça sacramental” especial da Penitência, que é uma graça para vencermos aquelas tentações às quais sucumbimos.
Se minha alma não está em graça, mas em estado de pecado mortal, de rompimento da amizade com Deus, porque pratiquei um ato consciente, deliberado contra Deus, no intuito de desagradá-lo, desobedecê-lo, o Sacramento da Penitência terá por fim todos os objetivos acima mencionados.

Mas, se minha alma não está em estado de pecado mortal, o Sacramento da Penitência servirá para as finalidades expostas no número 1, 4, 5, e 7 ou seja, para perdoa o pecado venial, incrementa a graça santificante, “o que significa que se aprofunda e se fortalece nela aquela participação da vida divina pela qual está unida a Deus.” (TRESE, Leo John. A fé explicada – tradução de Isabel Perez – 7ª. Ed. – São Paulo: Quadrante, 1999, p. 364), confere-nos o perdão em parte da pena temporal devida pelo pecado e nos fortalece para não cairmos naquelas tentações.

Quer dizer que mesmo havendo confessado um pecado mortal, ou venial, precisamos oferecer uma satisfação?

Sim.
Havendo confessado um pecado mortal, ou venial, obtemos a absolvição quanto à culpa. E obtemos perdão de parte da pena temporal devida pelo pecado.
A Pena temporal pode ser remida por algo que se chama “satisfação”, que é uma reparação pelo mal feito.
“Esta é a satisfação que devemos a Deus por havê-lo ofendido, e a que chamamos ´pena temporal devida pelo pecado.´E ou pagamos essa pena com orações, mortificações e outras boas ações feitas em estado de graça nesta vida, ou teremos que pagá-la no purgatório. Esta a dívida que o sacramento da Penitência reduz, ao menos em parte, proporcionalmente ao grau do nosso arrependimento. Quando mais fervorosas forem as nossas disposições, mais se reduzirá a satisfação temporal que devemos.” (TRESE, Leo John. A fé explicada – tradução de Isabel Perez – 7ª. Ed. – São Paulo: Quadrante, 1999, p. 365.).

Então, a pena temporal devida pelo pecado já perdoado no Sacramento da Penitência depende não só das boas ações que se seguem, mas também o grau do meu arrependimento também influencia no perdão da pena temporal devida pelo pecado?

Sim. O grau do meu arrependimento influencia não só na:
1- validade da confissão – uma confissão realizada sem pelo menos uma atrição;
2- mera restauração ou no efetivo aumento da graça perdida por causa do cometimento do pecado; – E segundo São Tomás de Aquino pode haver até mesmo uma diminuição da graça conquistada até determinado pecado que é confessado com pouco arrependimento:
3- no perdão da pena temporal do pecado, que se não purgado aqui, ensejará o purgatório.

É verdade que as graças que Deus nos concede nos Sacramento da Penitência depende do nosso grau de arrependimento?

Sim.

Dependendo do nosso grau de arrependimento podemos sair com até maior graça do que tínhamos antes do pecado, porque após o pecado fizemos uma contrição perfeita, com dor de amor a Deus. E às vezes, com a mesma graça de antes, antes do pecado mortal. E às vezes com menor.
…”la intensidad del arrepentimiento del penitente es, a veces, proporcionada a uma mayor gracia que aquélla de La que se cayó por el pecado; a veces igual, a veces menor. Y por lo mismo el penitente se levanta a veces con igual; a veces con menor.” (Santo Tomás, Suma Teoógica, 3, q. 89 ad 2.).

A satisfação ou a pena temporal do pecado é da essência do Sacramento da Penitência?

Não, esse “quero reparar o que eu fiz”, que é a “satisfação” não é da essência do Sacramento, ela é um ato do penitente, ao lado da confissão e da contrição.
Quais são os atos que todo peninente deve realizar?

• Acusação dos pecados ou confissão – parte essencial do sacramento da penitência – (ponto 1456 do Catecismo), lembrando que quem nos perdoa é Deus (Mc 2,7) mas Jesus transmitiu esse poder aos homens para que o exerçam em seu nome. Quem detém esse poder e na medida que transmitem aos presbíteros, colaboradores do Bispo.
• Contrição que pode ser:

 “quando brota do amor de Deus, amado acima de tudo, a contrição é ´perfeita´(contrição de caridade). Esta contrição perdoa as faltas veniais e obtém o perdão dos pecados mortais, se incluir a firme resolução de recorrer, quando possível, à confissão sacramental.” (ponto 1452, do Catecismo).
 “´imperfeita´ ( ou ´atrição´) também é um dom de Deus, um impulso do Espírito Santo. Nasce da consideração do peso do pecado ou do temor da condenação eterna e de outras penas que ameaçam o pecador (contrição pelo temor). Este abalo de consciência pode ser o início de uma evolução interior que será concluída sob a ação da graça, ela absolvição sacramental. Por si mesma, porém, a contrição imperfeita não obtém o perdão dos pecados graves, mas predispõe a obtê-lo no sacramento da penitência.” (ponto 1453, do Catecismo)
• Satisfação – “Muitos pecados prejudicam o próximo. É preciso fazer o possível para reparar esse mal (por exemplo restituir as coisas roubadas, restabelecer a reputação daquele que foi caluniado….A absolvição tira o pecado, mas não remedeia todas as desordens que ele causou….deve ´satisfazer ´de modo apropriado ou ´expiar´seus pecados. Esta satisfação chama-se também penitência. A penitência imposta pelo confessor deve levar em conta a situação pessoal do penitente e procurar seu bem espiritual. Deve corresponder, na medida do possível, à gravidade e à natureza dos pecados cometidos. Mas nossa satisfação, aquela que pagamos por nossos pecados, só vale por intermédio de Jesus Cristo… (ponto 1459-60, do Catecismo)

Quais são os requisitos para o arrependimento?

“Os teólogos enumeram quatro condições para isso.
O primeiro e o mais evidente dos requisitos é que a contrição seja interior….O nosso coração deve estar nas nossas palavras….Mas isto não significa necessariamente que devamos sentir uma dor sentimental. Como o amor, a dor é um ato da vontade, não um golpe de emoção. …Se com toda a sinceridade nos determinamos a evitar tudo o que possa ofender a Deus, com a ajuda da sua graça, então temos contrição interior.
A Penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um regresso, uma conversão a Deus de todo o nosso coração, uma rejeição do pecado, uma aversão ao mal, uma repugnância contra as más ações que cometemos. Ao mesmo tempo, implica o desejo e o propósito de mudar de vida, na esperança da misericórdia divina e na ajuda da sua graça. Esta conversão do coração é acompanhada por uma dor e uma tristeza salutares, a que os santos Padres chamaram animi cruciatus (aflição do espírito) compunctio cordis (arrependimento do coração) (n. 1431, também os ns 1430, 1432 e 1433).
Além de interior, a nossa contrição deve ser sobrenatural. O motivo baseias-se no porque da nossa contrição. Se um homem se arrepende de embebedar-se porque depois fica com uma ressaca tremenda, essa dor é natural. Se uma mulher se lamenta de ter falado mal, murmurado maliciosamente, porque isso lhe fez perder a sua melhor amiga, essa dor é natural. ….A nossa dor é sobrenatural quando nasce de considerações sobrenaturais; quer dizer, quando o seu ´porquê´se baseia na fé em algumas verdades que Deus ensinou. Por exemplo, Deus disse-nos que devemos amá-lo sobre todas as coisas e que pecar é negar-lhe esse amor. Deus disse-nos que um pecado mortal causa a perda do céu e nos faz merecedores do inferno e que o pecado venial deve ser reparado no purgatório. Disse-nos que o pecado é uma ofensa à bondade infinita de Deus. Disse-nos que o pecado é odioso por sua própria natureza. Quando a nossa dor se baseia nestas verdades que Deus revelou, é dor sobrenatural. Elevou-se acima de meras considerações naturais.

Em terceiro lugar, a nossa dor deve ser suprema. Quer dizer, devemos encarar realmente o mal moral do pecado como o máximo mal que existe, maior que qualquer mal físico ou meramente natural que nos possa ocorrer. Significa que, quando dizemos a Deus que nos arrependemos dos nossos pecados, estamos dispostos , com a ajuda da sua graça, a sofrer qualquer coisa antes que ofendê-lo outra vez. A frase ´com a ajuda da sua graça´ é muito importante. A dor suprema não exclui um sincero temor de pecar outra vez, se fazemos depender a vitória apenas das nossas forças humanas. Pelo contrário, devemos desconfiar de

(…)
Por último, a nossa dor- interior, sobrenatural e suprema – deve ser também universal. Isto significa que demos arrepender-nos de todos os pecados mortais sem exceção. Um só pecado mortal nos separaria de Deus e nos privaria da graça santificante. (….)
Deve-se notar que essas quatro condições se aplicam tanto à contrição perfeita como à imperfeita. Especialmente quanto à segunda condição, as pessoas têm às vezes uma noção errada, e confundem dor natural com a contrição imperfeita, quando não são de maneira alguma a mesma coisa. Também a contrição imperfeita deve ser sobrenatural nos seus motivos; deve basear-se num motivo conhecido pela fé, como a crença no céu e inferno ou na fealdade essencial do pecado. Uma simples dor natural não é contrição nenhuma, nem mesmo imperfeita.” ( Leo Trese, Fé explicada, Quadrante, p. 373-4)
“Se alguém é culpado de pecados mortais, não basta que os diga ao confessor ou recite um ato de contrição rotineiro. Se não está sincera e firmemente resolvido a não tornar a cometer um pecado mortal, a sua confissão é um ato de hipocrisia; é uma confissão tão má como a daquele que ocultasse conscientemente um ou mais pecados mortais ao confessor.” (Leo Trese, Fé Explicada, Quadrante, p. 375).

É condição do arrependimento o propósito de emenda?
Sim. “Suponhamos que ofendi um amigo espalhando uma calúnia acerca dele. Quero agora recuperar a sua amizade e peço-lhe desculpas dizendo: ´Arrependo-me do que fiz, Pedro, mas reservo-me o direito de fazê-lo outra vez se me der vontade.´Não é preciso ser professor de psicologia para adivinhar que Pedro continuará magoado e com razão. A minha pretensa desculpa não o é absolutamente. Se de verdade lamento havê-lo ofendido, propor-me-ei com toda a firmeza não ofendê-lo outra vez. Passa-se o mesmo com as ofensas a Deus. Não há ato de contrição verdadeiro se não se fizer acompanhar do propósito de emenda. Este propósito não é outra coisa senão a simples e sincera determinação de evitar o pecado no futuro, bem como as ocasiões próximas de pecado, tanto quanto nos seja possível. Sem esse propósito, não pode haver perdão dos pecados, nem mesmo dos veniais.” (Leo Trese, Fé Explicada, Quadrante, p. 374-5).
“O nosso propósito de emenda – …deve abranger não só os pecados mortais que tenhamos cometido, mas todos os pecados mortais possíveis sem exceção. Sem essa resolução universal, nenhum pecado mortal pode ser perdoado.
A situação é diferente com relação ao pecado venial. O pecado venial não nos separa de Deus, não extingue a sua graça na nossa alma. Por conseguinte, é possível obter o perdão de determinado pecado venial, mesmo que os outros fiquem por perdoar. Isto significa que o nosso propósito de emenda deve estender-se a todos os pecados veniais que esperamos nos sejam perdoados, mas não necessariamente a todos os pecados veniais cometidos. Agarrar-se a algum pecado venial enquanto se renuncia a outros, denota, evidentemente, um nível muito baixo de amor a Deus, mas aqui não estamos falando do que é melhor, mas do mínimo necessário.” (Leo Trese, Fé Explicada, Quadrante, p. 375).

Como é a dor do arrependimento chamado atrição, ou contrição? Existe algum tipo de arrependimento que não nos conduz ao perdão de Deus para o que fizemos?

Como vimos a atrição não é um arrependimento perfeito, porque surge da consideração não da nossa correspondência ao grande Amor de Deus, mas do medo, por exemplo, de ir para o inferno. Em todo caso esse arrependimento é válido, pois é melhor do que só arrepender-se por motivos naturais (ex. fiquei chateada com o meu pecado de difamação, porque perdi a amizade da fulana…) que não tem validade nenhuma, pois o arrependimento deve ser à luz de verdades sobrenaturais.
Existe uma dor que é como esse arrepender-se por motivos naturais. Que é a dor que Judas sentiu.
Ele traiu Jesus, recebe as 30 moedas de prata para o entregar e depois se arrepende, mas não porque amava Jesus, mas porque sentiu-se ferido em sua soberba, ferido em sua pequenez, ficou triste porque entregou um inocente, ficou triste porque viu que foi imperfeito, que pecou. Ficou “chateado” consigo mesmo. Não se conformou com o que fez e foi se enforcar.

“Cuando se tiene este dolor, no es La ofensa a Dios lo que nos duele, sino La propia pequenez que nos humilla, y com El no podríamos acercarnos dignamente a La confesión porque indica La falta de disposiciones del alma, que no pretenderia alcanzar el perdón de Dios, sino que estaria buscándose a si misma em um desordenado afán de autoperfección. Ése fue precisamente el arrepentimiento de Judas, que después de Haber sido elegido por el Senor como uno de los doce y después de Haber convivido con Él durante tanto tiempo, cegado por La ambición llega AL extremo de venderlo sus enemigos…Y después de entregar a Jésus com um beso y viéndole sentenciado, arrepentido de lo hecho, quiso restituir el dinero a los príncipes de los sacerdotes a los ancianos diciendo: He pecado, pues He vendido La sangre inocente. El arrepentimiento de Judas era um arrepentimiento consciente, tan consciente como su pecado, pero el suyo fue un arrepentimiento em el que no intervenía para nada La fe y La confianza em Jesus” (LUCA DE TENA, Francisco Luna, La Confesión, Tercera edición revisada, Ediciones Palabra, Madrid, p. 131-2).

O arrependimento necessariamente é pessoal, ou eu posso rezar por uma pessoa e o seu pecado ser perdoado por força da minha oração?

Não, o arrependimento é pessoal, pois quando o cometi fui eu quem o realizei. O que alguém de fora pode fazer é rezar para que Deus envie a uma outra a graça do arrependimento de seus pecados e daí esta, mediante a sua liberdade, o exercer concretamente, ter propósito de emenda e acusar-se deles em no Sacramento da Penitência, cumprindo a satisfação e agradecendo a Deus.

“El Senor nos pide um arrependimiento personal: Arrepentiós y convertíos para que Sean borrrados vuestros pecados, y para eso no basta que Dios nos dé su gracia, sino que es imprescindible además que el hombre preste su libre cooperación. Y esto es asi porque el pecado procede de La ´mala voluntad´del ecador que se a apartado de Dios para volverse desordenadamente hacia las criaturas, y mientras esa actitud, Dios no puede perdonarle sin contradecirse a si mismo.” (LUCA DE TENA, Francisco Luna, La Confesión, Tercera edición revisada, Ediciones Palabra S.A., Madrid, p. 70).

E se eu confesso mas estou com o hábito daquele pecado e muito provavelmente foi cair nele novamente se for bem sincero comigo mesmo?

“Uma pessoa que tenha a desgraça de cair num hábito de pecado – seja de impureza, de ira, contra a caridade ou qualquer outra virtude – precisa de ter idéias absolutamente claras acerca do verdadeiro propósito de emenda: o que conta na confissão é este momento de agora e esta intenção de agora. Pode ser que depois haja mais tropeços e mais quedas, antes da vitória final. Mas o único pecador que é derrotado é aquele que deixa de lutar.” (Leo Trese, Fé Explicada, Quadrante, p. 376).

Se eu me confesso com freqüência, como devo confessar os pecados veniais?

O melhor é, muito mais do que se fixar em quantas vezes o pratiquei, verificar qual é o tipo de pecado venial que estou caindo com maior freqüência, mas analisando a sua raiz, ou seja, à luz dos pecados capitais – ex. murmurei externamente quando me aconteceu algo desagradável – qual o motivo? Foi por preguiça, foi por ira?
E assim iremos nos conhecendo melhor e, mediante o combate daquele defeito, tentar adquirir a virtude contrária.
“A las personas que confiesan con frecuencia conviene recordarles que cuando lo hacen tendrían que fijarse más em La raiz de sus defectos que en La enumeración detallada de faltas pequenísimas.” (LUCA DE TENA, Francisco Luna, La Confesión, Tercera Edición revisada, Ediciones Palabra S.A. , Madrid, p. 89).

Até porque a enumeração de quantas vezes pequei, é imprescindível ao pecado mortal, e não ao venial.

Existem situações que são ocasião de pecado e que devemos evitar para o nosso propósito ser sincero?

Sim, “Ocasião próxima de pecado é qualquer circunstância que nos possa levar a ele. Algumas ocasiões de pecado são próximas por sua própria natureza: livros e revistas declaradamente obscenos….um bar pode ser ocasião de pecado para quem tenha dificuldade de beber com moderação…Em geral as experiências do passado podem dizer-nos perfeitamente quais são para nós as ocasiões próximas do pecado….” (Leo Trese, Fé Explicada, Quadrante).
Como lutar contra as tentações dos pecados, cuja origem sempre é a soberba, avareza, luxúria, inveja, ira, gula, preguiça?

Em geral, conforme ensina o Padre Paulo Ricardo (aula sobre demonologia –4ª. Aula sobre a Luta contra a tentação – http://www.padrepauloricardo.org.br – acesso em 29.04.2014, os pecados de luxúria e os contra a fé são pecados que nós devemos fugir deles, não dialogar com as suas tentações. Ao contrário dos outros pecados, em que devemos agir em sentido contrário.

Assim, penso que seria interessante dependendo da raiz do pecado, combatê-lo mediante a prática de uma virtude contrária, como por exemplo:
Se sinto inveja – devo ser generosa com aquela pessoa, falar bem dela….
Se sinto gula – devo deixar de comer o que mais desejo;
Se sinto avareza – devo ajudar alguém;
Se sinto-me soberba – devo oferecer tudo para glória de Deus;
Se sinto ira – devo acalmar-me, ou pensar em alguma reação previamente se já sei que perco paciência com um subordinado, ou filho…
Se sinto preguiça – devo ser diligente, acordar em um horário previamente fixado e não deixar o alarme do celular tocar várias vezes para só depois levantar…
O pecado de luxúria não é um pecado que não dá para combatê-lo só com a virtude da castidade, porque o problema é que temos um corpo a nosso desfavor, cuja tendência será no sentido do desejo carnal, ainda mais em nossa sociedade em que a sensualidade é tão forte. O que deve ser feito, neste caso, é fugir de sua ocasião (não ficar em um lugar ermo e escuro com o namorado, freqüentar ambientes em que se pratica top-less, desviar o olhar de alguém, não ficar falando com o sexo oposto s em confidências…).
Já pecado contra a fé, combate-se fugindo também, como não ficar lendo argumentos de um ateu, de quem, por não seguir a fé, em sua amargura para uma existência sem sentido, coloca argumentos pouco sobrenaturais para alguma circunstância da nossa vida que, para quem tem Fé, que é um dom sobrenatural, devemos olhar com o olhar de Cristo e não com o nosso, até porque não somos detentores da visão ampla de Deus….

Qual é a matéria do Sacramento da Penitência?

É o pecado mortal ou venial arrependido que eu tenha cometido após o batismo, inclusive aquelas já perdoados. E não é de se estranhar que possa abarcar um pecado até mesmo perdoado, porque, quando vamos ao Sacramento da Penitência temos que detestar não somente os pecados atuais mas os do passado também, senão não houve verdadeiro arrependimento. Devemos nos arrepender de todos os pecados (de hoje e do passado) e não querer cometer nenhum no futuro.

“La matéria sobre le que verse le penitencia son los pecados, graves o leves, aunque principalmente son los mortales el objeto próprio de essta virtud, porque solamente éstos nos apartan totalmetne de Dios porque en ellos se da La plenitud de La ofensa.” (LUCA DE TENA, Francisco Luna, La Confesión, Tercera edición revisada, Ediciones Palabra S.A., Madrid, p. 71).

Foi dito que a matéria do Sacramento da Confissão é qualquer pecado cometido após o batismo, do qual eu me arrependi, inclusive pode ser um pecado do passado que eu já havia confessado. Por que alguém confessaria um pecado já perdoado?

Precisamos entender que o Sacramento da Confissão não existe apenas para perdoar pecado, desantificante. Mas como a matéria tem que ser algum pecado, posso me valer de um pecado passado, por exemplo, confesso-me de todos os pecados passados de ira. E assim, o Sacramento incidirá sobre essa matéria (pecados de ira) mesmo passados e já confessados.
Nós confessamos pecados passados quando não nos recordamos de nenhum pecado, nem venial, então podemos renovar a nossa dor de coração por um pecado passado. Falaremos assim:
“Abençoe-me, padre, porque pequei. Confessei-me há uma semana. Não me recordo de ter cometido nenhum pecado desde então, mas arrependo-me dos pecados que possa ter esquecido e de todos os pecados da minha vida passada, especialmente dos meus pecados de ira (por exemplo).” (Leo Trese, Fé Explicada, Quadrante, p. 387).

O que é necessário para fazer uma boa confissão?

Acusar-se espontaneamente dos pecados. …
É importante realizar um exame de consciência com diligência, com dor e amor, conhecimento de si e humildade. E confessar com arrependimento e propósito de emenda, como se essa fosse a última confissão da nossa vida…
“De aqui que seja tan importante insistir em La preparación de La confesión, ahondar en el dolor y en el amor, em el conocimiento de sí mismo y em La humildad. Debería ser tal nuestra disposición AL confesar, tan profunda y sincera como si se tratase de La última vez que lo hacemos, como si a continuación hubiésemos de entregar el alma a Dios.” ((LUCA DE TENA, Francisco Luna, La Confesión, Tercera edición revisada, Ediciones Palabra S.A., Madrid, p. 81).

Além de tudo o que foi dito acima, a sinceridade e franqueza, sem intenção de ocultar, e intercalando desculpas, indicando qual foi a espécie do pecado.
Exemplo: “Não basta dizer: pequei contra o segundo mandamento. Devemos mencionar se pecamos por blasfêmia, falso juramento, maldição ou profanação.” (Leo Trese, Fé Explicada, Quadrante, p. 381)

“..falar ao confessor clara e distintamente, mas em voz muito baixa… podem levar a sua confissão previamente escrita num papel ….
…nunca mencionarmos os pecados dos outros (por exemplo, do marido ou da sogra, e, especialmente, nunca digamos nomes….

´a não ser que seja necessário para reparar uma confissão mal feita, não queiramos fazer uma confissão geral (que abranja toda ou a maior parte da nossa vida) sem consultar previamente o confessor. Uma confissão geral rara vez é aconselhável, exceto talvez em ocasiões decisivas da vida, tais como o casamento, a ordenação ou a profissão religiosa…

….Escutemos atentamente o sacerdote quando nos impõe a penitência, bem como os conselho que nos possa dar….
…Continuemos a escutar atentamente o sacerdote enquanto pronuncia as palavras da absolvição….Finalmente….agradecer a Deus as graças que acaba de conceder-nos e cumprir também a penitência que o confessor nos impõe, se esta consiste em algumas orações….”
(Leo Trese, Fé Explicada, p. 388-9).

Depois da confissão, o que fazemos?

Cumprimos a penitência e agradecemos a Deus: Obrigada pela Deus!

[i] (TRESE, Leo John. A fé explicada – tradução de Isabel Perez – 7ª. Ed. – São Paulo: Quadrante, 1999, p. 364).

[ii] (TRESE, Leo John. A fé explicada – tradução de Isabel Perez – 7ª. Ed. – São Paulo: Quadrante, 1999, p. 364).

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O Amor de Deus-Pai por nós: foi Ele que nos escolheu antes que o mundo tivesse sido criado para sermos Seus filhos

 “Deus não é um ser longínguo, que contemple com indiferença a sorte dos homens, seus anseios, suas lutas, suas angústias. É um Pai que ama os seus filhos até o extremo de lhes enviar o Verbo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, para que, pela sua encarnação, morra por eles e os redima; o mesmo Pai amoroso que agora nos atrai suavemente a Si, mediante a ação do Espírito Santo que habita em nossos corações.” Josemaria Escrivá[i]

 

Somos predestinados a ser filhos de Deus?

 

É isso mesmo: você e eu somos predestinados por Deus-Pai a sermos Seus filhos. Ele planejou isso antes da criação do mundo.

Para isso nos criou: para ser o Nosso Pai.  É por isso que nos Jesus instituiu pela sua Igreja os 7 Sacramentos (Batismo, Crisma, Ordem, Matrimônio, Unção dos Enfermos, Confissão)  pois em cada um desses, há a  comunicação da graça santificante e  do Espírito de Cristo, o Espírito Santo, pelo qual temos condições de realmente chamá-lo: Abbá, paizinho….como fazia Jesus.

E isto foi muito bem interiorizado por São Paulo e externado em uma de suas Cartas (Epístola aos Efésios 1, 4-5).

Diz São Paulo: “Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo …nos elegeu antes da constituição do mundo para que fôssemos santos e imaculados

diante Dele na caridade e nos predestinou à adoção de filhos seus em Jesus Cristo.”

 

O que significa, na prática, sermos eleitos para ser filhos de Deus?

 

Se Deus-Pai, antes da criação do mundo, narrada em Gênesis, elegeu o homem para ser o seu filho, na prática,  quer Deus-Pai que participemos da Sua natureza Divina.

 

“El hombre, aun antes de ser creado está ´elegido´por Dios. Esta elección se cumplirá em El Hijo eterno….El hombre ES, or consiguiente, elegido en El hijo

para La  participación em La misma filiación por adopción divina. Em estoconsiste La esencia misma Del mistério de La predestinación, que se manifiesta em El eterno amor Del Padre .

En La predestinación se halla contenida, por tanto, La eterna vocación Del hombre a participar em La misma naturaleza de Dios…La predestinación, ES decir, La adopción a ser hijos

En El  Hijo eterno, se opera no solo em relación a La Creación Del mundo e Del hombre em El mundo, sino em relación sobre todo a La redención realizada por El Hijo, Jesucristo.

La Redención se convierte em expresión de La Divina Providencia que muestra así El aspecto fundamental de su finalidad salvífica.”  (BETETA, Pedro. El amor de Dios Padre por los hombres em La ensenanza de Juan Pablo II, Cuadernos Palabra, Madri: 1998, p. 80-1)

 

Como acontece essa nossa filiação, essa participação na natureza divina de Deus?

Essa participação na  natureza Divina tem um aspecto de adoção, porque acontece pela chamada graça.[ii],  e, como diz o catecismo (ponto 658) “é o princípio de nossa própria ressurreição, desde já pela justificação da nossa alma, mais tarde pela vivificação de nosso corpo.”

Essa nossa filiação divina acontece pelo nosso Batismo: “A graça é uma participação na vida divina; introduz-nos na intimidade da vida trinitária. Pelo Batismo, o cristão tem parte na graça de Cristo, cabeça da Igreja. Como ´filho adotivo´pode doravante chamar a Deus de ´Pai´, em união com o Filho único. Recebe a vida do Espírito, que nele infunde a caridade.” (ponto 1997, Catecismo)

Essa a graça nos foi merecida por Jesus no mistério Pascal que, além de nos libertar da escravidão do pecado, pela Morte de Jesus, abre as portas de uma nova vida (eterna, sobrenatural e celeste), pela Ressurreição de Jesus:

“Há um duplo aspecto no Mistério Pascal: por sua Morte Jesus nos liberta do pecado, por sua Ressurreição Ele nos abre as portas de uma nova vida. Esta é  primeiramente a justificação que nos restitui a graça de Deus, ´a fim de que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova (Rm 6,4). Esta consiste na vitória sobre a morte do pecado e na nova participação na graça. Ela realiza a adoção filial, pois os homens se tornam irmãos de Cristo, como o próprio Jesus chama seus discípulos após a Ressurreição: ´Ide anunciar a meus irmãos´(Mt 28,10). Irmãos não por natureza, mas por dom da graça, visto que esta filiação adotiva proporciona uma participação real na vida do Filho Único, que se revelou plenamente em sua Ressurreição.” (Catecismo ponto 654).

 

É maravilhosa como essa adoção divina por Deus em relação a nós se opera, pois como explica São Paulo em várias Cartas, sobre essa transformação existencial para filhos de Deus,  o  “homem velho” morre, porque, pelo Batismo, “une-se à existência humana de Cristo na sua Morte, Sepultura e Ressurreição (cf. Rom 6, 1-13; Gál 2, 18-20; 6-14; Col 3,3) e o homem novo ressuscitara em Cristo….Esta união, como diz Joseph Holzner que era sacerdote e se dedicou anos a escrever sobre a vida de São Paulo, “esta união não anulava a sua individualidade mediante uma espécie de mistura helenística dos mistérios; era uma união que se dava segundo o Espírito de Cristo, isto é, o Espírito Santo.” Holzner,  Josef. Paulo de Tarso – tradução de Maria Henriques Osswald – São Paulo: Quadrante,  2008, p. 86.

 

Deus-Pai nos predestinou mesmo antes do mundo existir a sermos seus filhos no seu Filho e também sabia que nos daria um novo ser em virtude dos méritos de Jesus operado pelo seu sacrifício pascal:

“Por meio de uma união mística que ultrapassa o tempo e o espaço, realizada pela fé e pelo batismo, todo o fiel encontra-se vinculado a Cristo na sua Morte e Ressurreição e recebe um novo ser em virtude do ato redentor de Cristo, levado a cabo uma só vez e para sempre. O seu ser essencial, embora oculto, encontra-se agora dentro do âmbito da vida de Cristo; (…) O cristão ´reveste-se de Cristo´(Gál 3,27), mas não á maneira de um ator, que não se identifica com o papel que representa e pode desempenhar outros diametralmente opostos, mas sim à semelhança do sacerdote no altar, através do qual Cristo fala e atua… Este é o significado das profundas palavras da Epístola aos Gálatas: ´Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim. (2,20). A religião de Cristo distingue-se de todas as outras religiões porque é algo de absolutamente novo, impossível de ultrapassar, aquilo que nenhuma religião humana poderia oferecer.” Holzner,  Josef. Paulo de Tarso – tradução de Maria Henriques Osswald – São Paulo: Quadrante,  2008, p. 86-7.

 

Para eu participar da vida divina,  tornar-me um filho de Deus só a graça divina é suficiente?

 

Não.  “A primeira obra da graça do Espírito Santo é a conversão que opera a justificação segundo o anúncio de Jesus no princípio do Evangelho: Arrependei-vos (convertei-vos), porque está próximo o Reino dos Céus (Mt 4,17)” – Catecismo, ponto 1989.

Vamos supor que eu tenho uma moção interior do Espírito Santo no sentido de me arrepender dos meus pecados. Precisarei confessá-los. Na confissão obterei a absolvição, estarei reconciliado com Deus e estarei em graça.

A graça divina nos leva a um agir, dentro dos mandamentos de Deus ou da Igreja e sempre precede o nosso querer, mas se a graça não for acolhida por nós, Deus não nos forçará. Suponhamos que eu não queira realizar a confissão, neste caso se pequei gravemente, não estou em graça, não estou unido à vida divina de Jesus pelo Espírito Santo, não estou reconciliado com Deus.

Porém, se confesso um pecado grave, correspondi àquela graça que Deus me mandou para eu me arrepender e me confessar, neste caso, utilizei-me do Seu socorro divino, colaborei com ele.

A graça divina é, portanto, como  um socorro que Deus nos dá para responder àquela predestinação de sermos filhos adotivos de Deus, como bem nos explica o ponto 1996, do Catecismo:

“A graça é o favor, o socorro gratuito que Deus nos dá para responder a seu convite: tornar-nos filhos de Deus, filo adotivos, participantes da natureza divina, da Vida Eterna.”

 

Só a  graça divina  tem o poder de operar o que se chama de justificação que compreende a “remissão dos pecados, santificação e renovação do homem interior” – ponto 1989 do Catecismo).

 

Somos muito amados por Deus-Pai

Jesus quando falava com Nicodemos já expressava o grande Amor de Deus por nós e a sua Vontade em relação a nós:

“Porque tanto amou Deus ao mundo que lhe deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3,15).

 

O amor de Deus-Pai é tão grande por nós que chega ao ponto de não ter poupado Jesus, seu Filho, pois Este  entregou-se à morte, ao sacrifício, seguindo a Vontade de Deus-Pai e não a Dele Filho que até disse: “Pai, se quiseres afasta de Mim este cálice…”, para satisfazer pelos nossos pecados.

Por que Deus-Pai quis assim? Não haveria outra forma de redimir a humanidade, de nos reconciliar com Ele após a desobediência de Adão e Eva?

Talvez sim. Mas Deus na sua infinita sabedoria entendeu que essa seria a melhor forma. É um mistério para nós.

Por que a eleição do sacrifício do Seu próprio Filho por Deus-Pai, isso não é explicado para nós.

Mas, há algo que é inegável, a demonstração do Seu grande amor por nós.

Esse grande amor de Deus pelos homens sempre esteve revelado não somente pelo contato pessoal de Deus com Abraão, Moisés etc , mas também de forma inspirada aos seus Profetas, tudo isso  antes mesmo de  Jesus, que é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade,  ter assumido a nossa natureza humana, se não vejamos:

 

…Meu filho, tu podes não me conhecer, porém eu sei tudo sobre ti (Salmos 139:1). Eu sei quando tu te deitas e quando te levantas (Salmos 139:2). Eu conheço todos os teus caminhos (Salmos 139:3), até os cabelos da tua cabeça estão contados (Mateus 10:29-31). Tu fostes feito à minha imagem (Génesis 1:27), em mim tu vives e moves-te, e tens existido (Actos 17:28) por seres tu minha descendência (Actos 17:28). Eu já te conhecia bem antes da tua concepção (Jeremias 1:4-5) e te escolhi ainda quando planeava a criação (Efésios 1:11-12). Tu não és um erro, pois todos os teus dias foram escritos no meu livro (Salmos 139:15-16), eu determinei a hora exacta do teu nascimento e quando deverias viver (Actos 17:26), foste feito de forma admirável e maravilhosa (Salmos 139:4), formei-te no ventre da tua mãe (Salmos 139:13), tirei-te do ventre dela no dia em que nasceste (Salmos 71:6). (Jeremias 29:11), pois Eu amo-te com todo eterno amor (Jeremias 31:3) e os meus pensamentos para contigo são incontáveis, como a areia da praia (Salmos 139:17-18) e Eu me regozijo contigo em canções (Sofonias 3:17) e nunca irei parar de te fazer bem (Jeremias 32:40), pois és propriedade do meu tesouro (Êxodo 19:5).Eu desejo estabelecer-me em ti com todo meu coração e toda minha alma (Jeremias 32:41) e desejo mostrar-te grandes e maravilhosas coisas (Jeremias 33:3). Se me procurares com todo o teu coração,encontrar-me-ás (Deuteronómio 4:29). Alegra-te em mim e Eu te darei todos os desejos do teu coração (Salmos 37:4), pois sou Eu quem te coloco estes desejos (Filipenses 2:13) e sou capaz de fazer mais por ti do que jamais poderás imaginar (Efésios 3:20), pois sou Eu, o teu maior encorajador (2 Tessalonicenses 2:16-17). Eu sou o Pai que te conforta em todos os teus problemas (2 Corintios1:3-4), quando estás quebrantado, Eu estou próximo de ti (Salmos 34:18), como um pastor que leva um cordeiro, Eu te tenho carregado junto ao meu coração (Isaias 40:11) e um dia irei secar cada lágrima dos teus olhos e afastar de ti toda a dor que sofreste nesta terra (Apocalipse 21:3-4). Eu sou o teu Pai, e Eu te amo tal como meu filho Jesus (João 17:23), Pois n’Ele, o meu amor te foi revelado (João 17:26) e Ele é a exacta representação do meu ser (Hebreus 1:3). Ele veio para demonstrar que Eu estou por ti, não contra ti (Romanos 8:31) e para dizer que não estou a contar os teus pecados (2 Corintios 5:18-19), pois Jesus morreu para que tu e Eu, então, pudéssemos nos reconciliar (2 Coríntios 5:18-19) e a sua morte foi o ultimato da minha expressão de amor por ti (1 João 4:10). Eu desisti de tudo o que amava para poder ganhar o teu amor (Romanos 8:31-32) e se recebes o presente do meu filho Jesus, recebes-me a mim (1 João 2:23). Então, nada te irá separar do meu amor novamente (Romanos 8:38-39). Vem e Eu irei fazer a maior festa que nos céus já foi vista (Lucas 15:7). Eu sempre fui teu Pai, e sempre serei teu Pai (Efésios 3:14-15), mas a minha pergunta é… Serás tu meu filho? (João 1:12-13)

Eu estou a aguardar por ti (Lucas 15:11-32).

 

Como fazer para tratar a Deus-Pai como Pai?

 

“Ao chegar a plenitude dos tempos, Jesus Cristo ensinou-nos qual havia de ser o tom adequado para nos dirigirmos a Deus. Quando orardes, haveis de dizer: Pai…Em todas as circunstâncias da vida, devemos dirigir-nos a Deus com essa confiança filial: Pai, Abba…É uma palavra – Abba – que o Espírito Santo quis deixar-nos em arameu em diversos lugares do Novo Testamento e que era a forma carinhosa com que as crianças hebréias se dirigiam a seu pai.” (Francisco Fernández Carvajal,Falar com Deus, Tempo Pascal, Sétima Semana. Terça Feira- Dom da Piedade).

 

Esse comportar-se como filhos de Deus tem a ver com o dom da piedade?

Sim, pois o “dom da Piedade consiste numa disposição sobrenatural da alma que a inclina, sob a ação do Espírito divino, a comportar-se nas suas relações com Deus como uma criança muito carinhosa se comporta com seu pai, por quem se sabe imensamente amada e querida….A alma animada pelo Espírito de Piedade já não tema a Deus como se teme um mestre ou um juiz…A sua atitude para com Deus é verdadeiramente a da criança pequena diante do pai ou da mãe, dos quais se sabe imensamente amada. Nenhum rasto de temor: ali só há amor.” (RIAUD, Alexis. A ação do Espírito Santo na Alma, tradução de M. Abrantes, Quadrante, São Paulo: 1998, páginas 68, 69).

E também: “ajuda-nos a ver os demais homens como filhos de Deus….move-nos ao amor filial à nossa Mãe do Céu….à devoção aos anjos e santos…ao amor ao Papa, como Pai comum de todos os cristãos…às pessoas mais velhas e em primeiro lugar aos pais…o abandono cheio de confiança na Providência porque, se Deus cuida de todas as coisas criadas, muito maior ternura manifestará para com os seus filhos…” ((Francisco Fernández Carvajal,Falar com Deus, Tempo Pascal, Sétima Semana. Terça Feira- Dom da Piedade).

 

Oração ao Nosso Pai Deus:

Finalmente, uma oração ao Espírito Santo para nos auxiliar nesse amor ao nosso Pai Deus:

“Espírito Santo, Espírito do Filho, que nunca deixastes de animar os corações do Senhor e da sua Santíssima Mãe com o mais puro amor ao Pai enquanto peregrinaram nesta terra, dignai-vos abrasar-me também a mim com esse mesmo amor terno e fillial.

Ó Vós, por meiio de quem nos é concedida a mercê de chamar a Deus com o doce nome de Pai e de sermos de verdade seus filhos, fazei que nos esforcemos por ser cada vez menos indignos de um Pai tão bom e tão misericordioso, e que, depois de o termos amado com todo o nosso coração neste mundo, possamos continuar por meio de Vós a glorificá-lo por toda a eternidade no seu Filho único.” (RIAUD, Alexis. A ação do Espírito Santo na Alma, tradução de M. Abrantes, Quadrante, São Paulo: 1998, página 75).

 

 

 

[i] Escrivá, Josemaria. É Cristo que passa, n. 84

[ii] Para saber mais sobre a graça divina e a necessária colaboração humana: http://revistaseletronicas.pucrs.br/fo/ojs/index.php/teo/article/viewFile/2701/2052

 

 

 

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Inquietação interior: posso honrar a Deus, agradecê-lo, consolá-lo?

Inquietações de uma “alma sacerdotal”

 

Você sabia que Nosso Senhor necessita de algo que você possui?  É que todo batizado é, embora às vezes não o saiba,  chamado a por em prática sua “alma sacerdotal”, uma espécie de boa vontade em corresponder a uma vocação, uma chamada divina, de ser colaborador, ou “corredentor” com Jesus Cristo na Sua Obra de Redenção de todo o gênero humano. Isto mesmo. Jesus te espera agora mesmo, quer associar você nesta missão tão nobre de corredenção.

Muitos podem estar  dizendo: não entendi nada…, como eu uma mãe de famíllia, uma profissional,  posso ser “sacerdotisa”, pode ser chamada a uma vocação de padre, só por que sou batizada?

 Não, não somos sacerdotes como um padre é, porque ele recebe um Sacramento específico, chamado Ordem, Ordenação, ele é sacerdote no sentido de estar autorizado a consagrar as espécies do pão e do vinho e, pela ação do Espírito Santo, em suas mãos, oferecê-los transubstanciados no Corpo e Sangue de Nosso Senhor, mas todo batizado é sacerdote também só que de um modo leigo, podemos na mesma missa em que se consagram e se realizam a oferta incruenta do Corpo e Sangue de Jesus Cristo, também nós ofereceremos a nossa pequena oferenda de nossas vidas, corações a Deus, que são apresentadas por Jesus a Deus Pai junto com o Seu próprio Sacrifício perfeito.

Para entendermos  esse desígnio de Jesus Cristo, precisamos voltar às nossas origens, o que faremos adiante.

Mas só para saciar-nos um pouco essa indagação inicial é   respondida pelos pontos 783-4, do Catecismo,  que trata justamente sobre a nossa vocação sacerdotal:

“Jesus Cristo é aquele que o Pai ungiu com o Espírito Santo e que constitui “Sacerdote, Profeta e Rei”. O Povo de Deus inteiro participa dessas três funções de Cristo e assume as responsabilidades de missão e de serviço que daí decorrem.

Ao entrar no Povo de Deus pela fé e pelo Batismo, recebe-se participação na vocação única deste povo, em sua vocação sacerdotal: ´Cristo, Senhor, Pontífice tomado entre os homens, fez do novo povo ´um reino e sacerdotes para Deus Pai´. Pois os batizados, pela regeneração e unção do Espírito Santo, são consagrados para ser uma morada espiritual e sacerdócio santo. (LG 10).”

 

Em outras palavras, Jesus espera por cada um de nós, que correspondamos à vocação de oferecemos todas as nossas ações, alegrias e sofrimentos diários,  o nosso coração e o nosso ser  para Aquele que nos Criou, que é  assim o Nosso Pai,  e assim,  esta oferta diária, unida à que já fez Jesus por um laço sagrado de Amor, que é o Espírito Santo, é aproveitado para santificar, para introduzir a vida divina em outras almas, pois Jesus em cada missa realizada renova este pedido a Deus, pedido feito na Última Ceia (que todos sejam Um como nós somos Um).  Nós somos chamados a ser corredentores junto de Jesus Cristo, a sermos Um com Ele nesta tarefa.

 

Essa chamada sacerdotal para todos nós batizados não tem outro sentido senão o de conferir a vida divina em nós e de nos transformarmos em filhos de Deus no Filho.

 

 

Criação do ser humano, início da ruptura da nossa vida com a  Vida Bem Aventurada de Deus, plano de Deus para consertar isso

 

 

Deus é Bondade infinita.  Assim sendo, por Ser Bondade aspira sua difusão e comunicação.

Cria o mundo. Cria o homem e dele a mulher para sua auxiliar. Viu que tudo era “muito bom”.

Adão e Eva caem na “conversa” da serpente que lhes diz estar Deus mentindo, pois se comerem o fruto  da árvore do bem e do mal, não morrerão, mas serão como deuses. Ambos comem o fruto.  Perdem os dons preternaturais (ausência de sofrimento e de morte) e o dom sobrenatural (a vida divina, chamada graça) ao comerem.   O primeiro sintoma que percebem é que “estavam nus”, indicando que um dos efeitos da perda dos dons que Deus lhes havia adornado a alma, é a imediata supressão daquele estado de inocência que as crianças possuem, que não sentem vergonha por estarem sem as vestes.

Jesus, que é o Verbo de Deus, ou a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, por meio do Espírito Santo,  sai do seio do Pai, porém, note-se,  sem nunca tê-lo deixado,  porque  não deixa de estar atrelado às demais Pessoas da Santíssima Trindade que é Uma. Jesus apenas assume um lado que não possuía – o humano – sem nunca deixar de ser o que é Deus-Filho, e se encarna no seio da Virgem Maria. Ele vem salvar-nos, vem para nos comunicar o que perdêramos – o dom sobrenatural, a graça santificante, a vida divina. Não são restabelecidos os dons preternaturais (ausência do sofrimento e  da morte).

E assim trabalha Jesus, ocultamente, como carpinteiro com seu São José,  já operando a nossa redenção por esse labor oculto, pois nunca deixou de oferecer as suas ações, alegrias e penas a Seu Pai e à Sua glória, e aceita aniquilar-se mais, morrendo na Cruz, ao lado de dois malfeitores,  derramando o Seu sangue. Quando após morto, Lhe perfuram o coração jorra sangue e  também água do seu lado aberto, água esta que é o símbolo do Espírito Santo, a Graça Incriada que nos santifica,  que nos concede a participação na vida divina da Santíssima Trindade. Foi daí que surgiram todos os Sacramentos: “Nascida sobre a cruz, saída do lado transpassado do Salvador, a Igreja perpetua, por meio do ministério apostólico, a ação benéfica e redentora do Homem-Deus.” (A Alma de Todo Apostolado, p. 30).[i]

 

Com o Seu sangue derramado, num ritual que é uma Nova Páscoa judaica, já que Ele se ofereceu a Deus, como os  judeus faziam na Páscoa, em que um Cordeiro sem defeito era imolado em memorial a Deus havê-los libertado da escravidão no Egito, assim Jesus, como o próprio João Batista disse foi o “Cordeiro de Deus” que tira os pecados do mundo nos liberta da escravidão do pecado e oferece-se como um cordeiro para Nova Ceia, a Nova Páscoa.

O início do ritual pascal de Jesus é feito em uma sala em que realizou a última Ceia com os seus Doze Apóstolos,  numa quinta-feira,  pouco antes de irem prendê-lo,  e termina com Ele na Cruz bebendo aquele último cálice previsto pela lei judaica do vinho, uma quarta taça, só que no seu caso, bebe um vinho estragado, o vinagre que Lhe é levado à boca pouco depois de haver exclamado na cruz “tenho sede”.

 

Mas será que ao derramar o seu sangue, Jesus operou de modo imediato sobre as almas a redenção, de modo que não precisam os homens fazer mais nada, não precisamos ser batizados, nem ir à missa oferecer as minhas alegrias e canseiras diárias,  etc.. ?

 

Não. O fato de ter morrido na Cruz e feito o Seu sacrifício pascal para nos libertarmos da escravidão do pecado não significa que o efeito sobre os homens seja imediato e sem a nossa colaboração. E isso é notório, basta vermos que apesar da morte de Jesus, o homem, pela sua concupiscência ainda peca.

Jesus restaura a graça do dom sobrenatural (=vida santificante, vida divina, vida do Espírito Santo), mas ela passa a ser aplicada aos poucos às nossas almas, porque a corrupção do pecado e a nossa liberdade ferida impedem que consigamos os efeitos da redenção imediatamente.

Entendamos melhor.

Na Última Ceia Jesus antecipou aos Apóstolos a Ceia de Seu Corpo e Sangue e disse: “fazei isto em memória de mim”.

Logo,  não basta Ele haver morrido, nós temos, como na páscoa judaica que era um memorial da libertação do povo de Israel da escravidão dos egípcios com o sacrifício de um cordeiro sem defeito, cabe a cada um de nós, na missa, participar da Ceia comendo o “Cordeiro”, no caso o  Corpo e o Sangue de Jesus: é o “tomai comei isto é o meu corpo que será entregue por vós”…”bebei todos eles isto é o meu sangue, o sangue na Nova e Eterna Aliança, que será derramados por vós e por muitos para a remição dos pecados”…”fazei isto em memória de mim”…

 

A missa é fundamental, portanto, e a Eucaristia muito mais, pois é quando alimentamos a nossa alma com a divindade e humanidade de Nosso Senhor, disfarçados no pão e no vinho, mas na realidade, transubstanciados no Seu Corpo e Sangue para nos conferir a Sua Vida Divina, a divinização das nossas almas.

 

Jesus não quis resolver tudo sozinho, embora pudesse operar a redenção sem a nossa colaboração, e isso?

Sim. Ele como um sacerdote perfeito, ofereceu sim uma oferenda perfeita a Deus –Pai que foi a Si mesmo, o Homem-Deus. Esta oferenda é suficiente para operar a redenção da Humanidade inteira e de fato a opera. Porém, ela é como um remédio, precisa ser tomado por nós essa Redenção, para fazer efeito em nossa alma, para nos comunicar o que Ele conseguiu com o Seu sacrifício de Redenção, que foi a comunicar-nos Sua Vida Divina.

Sobre isso, comenta Dom João Batista Chautard, um abade de Nossa Senhora de Sept-Fons, que viveu de 1857 a 1935 e escreveu uma grande obra chamada A Alma de Todo o Apostolado:

 

“Foi somente Jesus Cristo quem derramou o sangue que resgata o mundo. Por si só, Ele também teria podido aplicar a virtude desse sangue e operar de modo imediato sobre as almas, como faz pela Eucaristia. Quis, porém, colaboradores na distribuição dos seus benefícios. Por quê? Sem dúvida porque a Majestade Divina assim o exigia, mas não menos a  conveniência em governar, na maioria dos casos, por intermédio dos seus ministros, que condescendência da parte de Deus dignar-se associar pobres criaturas aos seus labores e à sua glória!” [ii]

 

Como é que Jesus obtém colaboradores para o munus sacerdotal de Jesus em que Ele deseja cooperadores para a Redenção da humanidade até o final dos tempos?

 

Os primeiros a colaborarem com Ele foram os Apóstolos, que não só passaram a divulgar que o Reino de Deus está em nosso meio, após a morte e ressurreição de Jesus, mas também passaram a realizar a missa e eucaristia. Certamente,  para isso Jesus não os deixou sós, mas não só ficou ainda 40 dias após a sua Ressurreição no meio deles, como também soprou sobre eles o seu santo Espírito, ou Espírito Santo e ainda deixou sua Mãe, Santa Maria, por um tempo com os Apóstolos, como uma verdadeira Mãe (Filho,  aí tens a tua mãe…Mãe eis aí o teu Filho… foi o que Jesus disse antes de morrer na Cruz).

E hoje quem pode colaborar com Jesus nesse múnus sacerdotal de Jesus, nesse múnus de ir renovando as ofertas diariamente a Deus Pai junto com a oferta perfeita de Jesus e assim redimir-nos?

 

O Batismo nos confere esse múnus sacerdotal. Todo batizado deve tomar consciência de que tem “alma sacerdotal”, porque pode oferecer os acontecimentos seus diários também para honra e glória de Deus, e depois renovar essa intenção na Missa, que é onde são, por assim dizer, apresentadas essas nossas ofertas a Deus Pai, junto com as de Jesus, o único que tem o de Melquisedec).

 

Explicam-nos o ponto 783-4, do Catecismo, sobre a nossa vocação sacerdotal:

“Jesus Cristo é aquele que o Pai ungiu com o Espírito Santo e que constitui “Sacerdote, Profeta e Rei”. O Povo de Deus inteiro participa dessas três funções de Cristo e assume as responsabilidades de missão e de serviço que daí decorrem.

Ao entrar no Povo de Deus pela fé e pelo Batismo, recebe-se participação na vocação única deste povo, em sua vocação sacerdotal: ´Cristo, Senhor, Pontífice tomado entre os homens, fez do novo povo ´um reino e sacerdotes para Deus Pai´. Pois os batizados, pela regeneração e unção do Espírito Santo, são consagrados para ser uma morada espiritual e sacerdócio santo. (LG 10).”

 

Qual a consequência prática de sermos sacerdotes de nossas vidas a Deus-Pai?

 

A consequência prática é que estaremos  colaborando na santificação hoje na introdução da Vida Divina, neste dom sobrenatural que Adão e Eva perderam mas que Jesus reconquista com a Sua entrega perfeita na Cruz há mais de 2000 ano, mas também a conseqüência prática de que estaremos, com isso, vivendo verdadeiramente como filhos de Deus, que ama tanto seu Pai Deus que tudo se refere a Ele, seja enquanto descansa, ou trabalha, ou se diverte.

 

Ora, se Jesus é o Filho de Deus como Ele mesmo disse e Ele, que conhece a Deus-Pai, tem a atitude de se oferecer ao mesmo em toda a sua vida oculta e ordinária e depois a pública até a Sua morte dolorosa numa Cruz, concordemos que devemos ter a consciência de que, para nós que nunca vimos cara a cara a Deus-Pai  resta, se queremos ter e dar-Lhe a honra de ser nosso Criador e Pai verdadeiro, precisamos começar a imitar Jesus, entrar em comunhão com Ele, que é o Unigênito de Deus, aquele que é Filho pela substância da qual foi gerado, oferecendo também nossa vida.

 

Como diz o Papa Emérito Bento XVI: “Então a filiação tornou-se um conceito dinâmico: não somos ainda de um modo acabado filhos de Deus, mas devemos tornar-nos e sermos sempre mais por meio da nossa mais profunda comunhão com Jesus. Ser filo torna-se assim o mesmo que seguir a Cristo. A palavra a respeito de Deus ai torna-se assim um chamamento para nós mesmos: para vivermos como `filhos´, como filho e filha de Deus.” (Jesus de Nazaré: primeira parte, Josepch Ratzinger, São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2007, página 129).

 

 

Aliás, essa é a grande novidade do Cristianismo, porque Deus se fez Homem, Homem sem deixar de ser Deus e :

“asume todo lo que es humano, histórico, material, transformándolo en medio de expresión del amor de Dios, en camino de santidad y de redención”.

 

Quer dizer então que, depois de Jesus Cristo, o Deus-Homem  que recapitula a vida do ser humano desde a infância até a idade adulta, realizando tudo com perfeição, obediência e amor a Deus até a Cruz,  podemos dizer que o cotidiano passa a ter algo de divino e eterno, de sobrenatural que nós também podemos “ver” em cada ação nossa que a realizarmos com amor a Deus?

 

Sim.

Existe um santo espanhol,  São Josemaria Escrivá que justamente foi chamado a Deus para fundar prelazia pessoal do Opus Dei cujos fiéis espalhados pelo mundo inteiro (www.opusdei.org.br) que fazem essa realidade se tornar presente em suas ocupações diárias e cotidianas, pois eles, em tudo o que realizam ao longo do dia, trabalho, descanso, alegrias, sofrimentos, tudo isso eles oferecem a Deus para prestar honras,  glória, ação de graças, pedidos de reparação e intercessão pelo próximo e se esforçam para não perder de vista que devem imitando a Jesus Cristo, inclusive no que se refere à grandeza da filiação divina, de sermos, depois de Cristo, realmente filhos de Deus, pela introdução em nossas almas da Graça Divina, ou Vida Divina, ou Dom Sobrenatural,  perdido por Adão e Eva pela desobediência e reconquistado pela obediência de Jesus a Deus-Pai.

Eis o ponto de um dos livros de meditação de São JoséMaria Escrivá que diz:

 

“Sabedlo bien: hay un algo santo, divino, escondido en las situaciones más comunes, que toca a cada uno de vosotros descubrir”

Para entendermos melhor, segue um vídeo http://www.opusdei.pt/art.php?p=53883 em que São Josémaria nos explica melhor o que foi dito até aqui.

 


[i] CHAUTARD. Dom João Batista. A Alma de Todo Apostolado. Editora Coleção FTD Ltda., p. 30.

[ii] CHAUTARD. Dom João Batista. A Alma de Todo Apostolado. Editora Coleção FTD Ltda., p. 30.

 

The relation between the Resurrection of Jesus for over two thousand years and our Sundays

Have we ever stopped to ponder the importance of Sunday in our life ? Why do some say that Sunday is the ” weekly Easter ” ?

To answer all these questions, let’s start with something no less intriguing , ie , what would be the resurrection of Jesus Christ , then explain what your connection with the Lord’s Day , Sunday .

The Resurrection of Jesus

” If Christ be not risen , then is our preaching vain , your faith is vain . And we still turned up false witnesses of God , because
claim against God that He raised Christ . “
( 1 Cor 15: 14-15 )

The resurrection of Jesus is simply the foundation of the Christian faith.
Benedict says :

” … In our research on the figure of Jesus , the resurrection is turning point . That Jesus existed only in the past or, conversely , also exists in the present, depends on the resurrection. “

What the Gospel tells us about Jesus’ resurrection ?

No one knew what ” resurrection ” in practice and had many doubts , just remember when someone asks Jesus how would the situation of a woman who , in this life , had had seven husbands , which one woman she would be after the resurrection of the dead .

The disciples of Jesus and some people had had contact with some miracles connected with people who have died and were revived by a miracle performed by Jesus .

But the resurrection of Jesus was more than that .

 

The resurrection of Jesus was not a resuscitation of a corpse , but a life never to die

His Resurrection was not a ” resuscitation ” of a corpse , which , after a lifetime at one point , definitely die . No. Resurrection was more than that . Mean returning to life to never die. Meant that the giver of Life Defeat Death, death.

The resurrection was not equal to His ” resurrection ” that Christ had performed a miracle the young man of Nain , or of the daughter of Jairus, and Lazarus , Jesus’ friend . As well explains Benedict XVI :

” The New Testament witnesses leave no doubt about the fact that the ” resurrection of the Son of man ” had happened something completely different . The resurrection of Jesus was the escape to a whole new way of life , a life not subject to the law already dying and becoming , but situated beyond that : a life that opened a new dimension of being a man . Therefore , the resurrection is not a singular event , we can belittle and belong only to the past but is a kind of ‘ decisive mutation ‘ , a qualitative leap . In the resurrection of Jesus was reached a new possibility of being man , a possibility that concerns everyone and opens a future , a new genus of the future for men. ” ( Benedict XVI , Jesus of Nazareth , the entrance of Jerusalem to the Resurrection , Publisher planet , p . 219-220 ) .

Explained in paragraph 646 of the Catechism of the Catholic Church :

” The Resurrection of Christ did not constitute a return to earthly life , as was the case of the resurrection that He had performed before Easter : Jairus’ daughter , the young man of Nain , and Lazarus . These facts were miraculous events , but people contemplated by miracles simply returned to earthly life ‘ ordinária’pelo power of Jesus . At some point come back to die . Christ’s Resurrection is essentially different . In his risen body he passes from a state of death to another life beyond time and space . In the resurrection , Jesus’ body is filled with the power of the Holy Spirit, participates in the divine life in the state of glory , so Paul can call the Christ ‘ the heavenly man .’ “

 

Reaction of those who saw Jesus after his resurrection

The reaction was not to recognize it . Even people who accompanied him on his public mission , did not recognize him after the event , just remember the disciples on the Emmaus road and Mary Magdalene and Peter, except John had expressed : ” It is the Lord.”

The disciples on the road to Emmaus recognized only by the way he had left the bread and gave thanks , Mary Magdalene by the tone and accent that said ” Mary! ” Peter said after John is the Lord .

Thus, as Benedict says :
” It is understood the peculiarity of such New Testament witness. Jesus did not return to a normal human life of this world , as happened with Lazarus and the other dead resurrected by Him Out for a , new life Miscellaneous … The new life was associated with the beginning of a new world and , from this perspective , to be well understood : there is a new world , it naturally there is also a new way of life ….. it was an absolutely unique experience that went beyond the usual horizons of experience , and yet , for the disciples was totally uncontested . From that explained the peculiarity of the testimony concerning the resurrection : speak something paradoxical anything that surpasses all experience , but this is absolutely real mode ” .
( Benedict XVI , Jesus of Nazareth , From the Entrance into Jerusalem to the Resurrection , Publisher Planet , pages 220 and 221 ) .

Resurrection and DIES DOMINI

All our introduction about the resurrection of Jesus was necessary to understand something very important in the life of every Catholic : the Dies Domini , the Lord’s Day , or Sunday.

The Sun has a great sense : he simply recalls the day of Christ’s resurrection . In the words of Pope John Paul II in his Apostolic Letter Dies Domini on the sanctification of Sunday: ” It is the weekly Easter , Christ’s victory over sin and death , the beginning of the ‘ new creation ‘ 2 Cor 5:17 . “

 

So , Sunday , in addition to remember the day of Jesus’ resurrection that occurred that day is also the first day of a ‘ new creation ‘ , because it resurrected Jesus appeared in a glorious body that has conquered death , and so is too will be , for when He comes again , only this time , in his glory of God that is , and when He will renew all things , even there will be a new creation , a new creation .

How to live well Sunday, which prefigures the first day of the new creation , of which Jesus was the first ?

The Pope John Paul II in his Apostolic Letter Dies Domini reminds us :

It is a day we should rejoice and sing for joy , as Psalm 118 says ;
It is an invitation to joy , Jesus conquered death by His death on the Cross . It is the firstborn of a new creation .
It is an invitation to relive the experience :
a) From the uproar of women who had witnessed the crucifixion of Christ , when he came to the tomb – Mc 16.2 – find it empty ;
b ) Of the two disciples of Emmaus who felt the ‘ heart burning in the risen peito’quando walked with them , explaining the Scriptures and revealing the ‘ breaking of bread ” Luke 24.22 to 35
c ) the echo of joy …. the Apostles experienced on the afternoon of the same day , when they were visited by the risen Jesus and received the gift of his peace and his Spirit – Jn 20: 19-23.

Sunday is not a pure ” weekend ” day of rest or mere fun

” The disciples of Christ are asked to not confuse the celebration of Sunday, which should be a true sanctification of the Sabbath , with the ‘end of time semana’entendido primarily as mere rest or fun’ … implies also a deeper understanding of Sunday , to be able to live it , even in difficult situations , with complete docility to the Holy Spirit … ” ( Apostolic Letter Dies Domini , Pope John Paul II , p . 7 ) .

” …. Faithful must give thanks to He who regenerated them unto a lively hope by the resurrection of Christ from the dead, 1 Peter 1.3 ( Constitution Sacrosanctum Concilium 106 ) “

Suggestion for live Sunday , the Lord’s Day

” The duty to keep Sunday holy , especially with participation in the Eucharist and a home permeated with Christian joy and brotherhood … ” ( Apostolic Letter Dies Domini , Pope John Paul II , p . 9 ) .

As John says , all things were made through the Word , and without Him nothing was created .

” This active presence in the creative work of the Son of God was fully revealed in the paschal mystery , in which Christ, rising as’ first fruits of those who have died ” ( 1 Cor 15:20) inaugurated the new creation and began the process Himself will carry upon their glorious return , ‘ while delivering the kingdom to God the Father ( … ) ‘ “

The Sunday has to do with the creation of Genesis ?

Yes , it’s true . The Sun has a lot to do with the narration that exists in Genesis about the creation of the world and of man and woman .

It is because after ‘ build world ‘ God rested on the seventh day ( Saturday ) . But this ‘ repouso’não was merely doing nothing , for in God there is no downtime , as well as explains Pope John Paul II , but it was the day ( seventh day ) , corresponding to our Sabbath, which he took to ” contemplate ” your Divine Work , which, incidentally , he saw ” that it was good .”

” The divine rest of the seventh day does not allude to an inactive God , but emphasizes the fullness of what had been done , as if to express that God rested on the work ‘ very good ‘ ( Gen. 1.31 ) out of their hands , to launch upon her a gaze full of joyous complacency : a ” contemplative gaze ‘ not aimed at new achievements but above all to appreciate the beauty of what was done , a cast over all things , but especially about the man , looking culmination of creation . It’s a look at which one can somehow intuit the already dynamic ‘ esponsal’da relationship God wants to establish with the creature made ​​in his image , calling her to commit to a covenant of love . He ‘ santifica’o seventh day with a special blessing and makes it ‘ their dia’por excellence …. The ‘ day of Senhor’é , par excellence , the day of this relationship, in which man ascends to God your corner , making it eco whole creation ” ( Apostolic Letter Dies Domine , p . 15-18 ) .

If He rested on the seventh day ( Saturday ) what does this have to do with Sunday ?
It has to do because after the big event of the Resurrection of Christ , which is the Sabbath ‘your dia’por excellence , the ‘ Lord’s day ‘ , moves that date for Sunday, which now becomes not only the first day of the week and the first day that refers to the creation , but shall correspond to the eighth day .

Consider
Sunday – Day 1
Saturday – Day 7
Sunday – 8th . day

Sunday is more than an allusion to the first day of creation, but is also the eighth day , ie , is a day that Christ inaugurates a new creation , for He has been renewed , and renew us all when the day of our own resurrection , and if He had rejoiced with his first creation , when contemplated , let alone now when his own son is a fully resurrected God-man , perfect, immortal, the first of many who also deserve the same .
  
The Resurrection of Jesus is an extraordinary fact , that not only foreshadows our own future resurrection and opens the doors to a new life , this time immortal, spiritual, and ratifies the truth , that Jesus is God and more , that He is true , because in the Old Testament the promise was that the resurrection of the dead .

 

As well as teaches the point 651, the Catechism of the Catholic Church , ” The Resurrection above all constitutes the confirmation of all that Christ did and taught . All truths , even those most inaccessible to the human spirit , find their justification if, by resurrecting Christ gave the ultimate proof that he had promised , his divine authority . “
Google Translation

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A relação entre a Ressurreição de Jesus há mais de dois mil anos e os nossos Domingos

Será que já paramos para meditar sobre a importância do Domingo na nossa vida? Por que alguns dizem que o Domingo é a “Páscoa da semana”?

Para responder a todas essas dúvidas, comecemos com algo não menos intrigante, ou seja, o que seria a ressurreição de Jesus Cristo,  em seguida explicaremos qual a sua ligação com o Dia do Senhor, o Domingo.

 

A ressurreição de Jesus

 

“Se Cristo não ressuscitou, então é vã a nossa pregação, é vã a vossa fé. E nós aparecemos ainda como falsas testemunhas de Deus, porque

contra Deus afirmamos que Ele ressuscitou a Cristo.”

(1 Cor 15, 14-15)

 

 

A ressurreição de Jesus é simplesmente o fundamento da fé cristã.

Diz Bento XVI:

 

“…na nossa pesquisa sobre a figura de Jesus, a ressurreição é ponto decisivo. Que Jesus tenha existido só no passado ou, pelo contrário, exista também no presente, depende da ressurreição.”

 

 

O que nos diz o Evangelho sobre a ressurreição de Jesus?

 

Ninguém sabia o que significava “ressurreição” na prática e tinham muitas dúvidas, bastando relembrar quando alguém pergunta a Jesus como ficaria a situação de uma mulher que, nesta vida, tinha tido 7 maridos, de qual deles ela seria mulher após a ressurreição dos mortos.

 

 

Os discípulos de Jesus e algumas pessoas já tinham tido contado com alguns milagres relacionados com pessoas que teriam morrido e tinham revivido por milagre operado por Jesus.

 

Mas, a ressurreição de Jesus foi mais do que  isso.

 

 

 

A ressurreição de Jesus não foi uma reanimação de cadáver, mas uma vida para nunca mais morrer

 

A ressurreição Dele não foi uma “reanimação” de um cadáver, que, depois de um tempo de vida, em certo momento, morreria definitivamente.  Não. Ressurreição era mais do que isso. Significaria voltar à vida para nunca mais morrer. Significou que Aquele que dá a Vida Vence a Morte, pela morte.

 

A ressurreição Dele não ocorreu igual à “ressurreição” que Cristo realizara por milagre ao jovem de Naim, ou da filha de Jairo, ou de Lázaro, amigo de Jesus. Como bem explica Bento XVI:

 

“Os testemunhos neotestamentário não deixam qualquer dúvida sobre o fato de que, na “ressurreição do Filho do homem” tinha sucedido algo de totalmente diverso. A ressurreição de Jesus foi a evasão para um gênero de vida totalmente novo, para uma vida já não sujeita à lei do morrer e do transformar-se, mas situada para além disso: uma vida que inaugurou uma nova dimensão de ser homem. Por isso, a ressurreição não é um acontecimento singular, que poderemos menosprezar e que pertenceria apenas ao passado, mas é uma espécie de ´mutação decisiva´, um salto de qualidade. Na ressurreição de Jesus foi alcançada uma nova possibilidade de ser homem, uma possibilidade que interessa a todos e abre um futuro, um novo gênero de futuro para os homens.”  (Bento XVI, Jesus de Nazaré, Da entrada de Jerusalém à Ressurreição, Editora Planeta, p. 219-220).

 

Explica-nos o ponto 646 do Catecismo da Igreja Católica:

 

“A Ressurreição de Cristo não constituiu uma volta à vida terrestre, como foi o caso das ressurreições que Ele havia realizado antes da Páscoa: a filha de Jairo, o jovem de Naim e Lázaro.  Tais fatos eram acontecimentos miraculosos, mas as pessoas contempladas pelos milagres voltavam simplesmente à vida terrestre ´ordinária´pelo poder de Jesus. Em determinado momento voltariam a morrer. A Ressurreição de Cristo é essencialmente diferente. Em seu corpo ressuscitado, Ele passa de um estado de morte para a outra vida, para além do tempo e do espaço. Na Ressurreição, o corpo de Jesus é repleto do poder do Espírito Santo; participa da vida divina no estado de sua glória, de modo que Paulo pode chamar a Cristo de ´o homem celeste´.”

 

 

 

Reação de quem viu Jesus após sua ressurreição

 

A reação era a de não reconhecê-lo. Inclusive pessoas que o acompanhavam na sua missão pública, não o reconheceram após o sucedido, bastando lembrar os discípulos no caminho de Emaús e Maria Madalena e Pedro, com exceção de João que exprimira: “É o Senhor”.

 

 

Os discípulos a caminho de Emaús só reconheceram pelo jeito que Ele partira o pão e dera graças, Maria Madalena pelo tom e sotaque que disse “Maria!”,  Pedro depois que João dissera É o Senhor.

 

Assim, como diz Bento XVI:

“Daqui se compreende a peculiaridade de tal testemunho neotestamentário. Jesus não voltou a uma vida humana normal deste mundo, como sucedera com Lázaro e os outros mortos ressuscitados por Ele. Saiu para uma vida diversa, nova…A vida nova estava associada com o início de um mundo novo e, nessa perspectiva, até se compreendia bem: se há um mundo novo, nele naturalmente existe também um modo novo de vida…..Tratava-se de uma experiência absolutamente única, que ultrapassava os horizontes habituais da experiência e, não obstante, para os discípulos era totalmente incontestável. A partir disso explica-se a peculiaridade dos testemunhos acerca da ressurreição: falam de algo paradoxal, de qualquer coisa que supera toda experiência, mas que está presente de modo absolutamente real.”

(Bento XVI, Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém à ressurreição, Editora Planeta, páginas 220 e 221).

 

Ressurreição e o DIES DOMINI

 

Toda a nossa introdução sobre a ressurreição de Jesus foi necessária para compreensão de algo muito importante da vida de todo católico: o Dies Domini, o Dia do Senhor, ou seja, o Domingo.

 

O Domingo tem um grande sentido: ele simplesmente recorda o dia da ressurreição de Cristo. Nos dizeres do Papa João Paulo II na Carta Apostólica Dies Domini sobre a santificação do Domingo: “É a Páscoa da semana, vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte, início da ´nova criação´ 2 Cor 5,17.”

 

 

 

 

Assim, o Domingo,  além de nos recordar o dia da ressurreição de Jesus que ocorreu nesse dia, é também o primeiro dia de uma ´nova criação´, pois nele Jesus apareceu ressuscitado, num corpo glorioso que  venceu a morte, e é assim que também seremos, pois quando Ele voltar, só que desta vez, na sua glória de Deus que é, e quando Ele renovará todas as coisas, inclusive haverá uma nova criação, novas criaturas.

 

Como viver bem o Domingo, que prefigura o primeiro dia da nova criação, da qual Jesus foi o primeiro?

 

O Papa João Paulo II na Carta Apostólica Dies Domini nos recorda:

 

É um dia que devemos exultar e cantar de alegria, como diz o Salmo 118;

É um convite à alegria, Jesus VENCEU A MORTE pela sua morte de Cruz. É o primogênito de uma nova criação.

É um convite para revivermos a experiência:

a)      Do alvoroço das mulheres que tinham assistido à crucifixão de Cristo, quando, dirigindo-se ao sepulcro – Mc 16,2 – encontram-no vazio;

b)      Dos dois discípulos de Emaús que sentiram o ´coração ardendo no peito´quando o ressuscitado caminhava com eles, explicando as Escrituras e revelando-se a ´partir do pão´´Lc 24,22-35

c)       Do eco da alegria ….que os Apóstolos experimentaram na tarde daquele mesmo dia, quando foram visitados por Jesus ressuscitado e receberam o dom da sua paz e do seu Espírito – Jo 20, 19-23.

 

O Domingo não é um puro “fim de semana”, dia de mero repouso ou de diversão

 

“Os discípulos de Cristo é-lhes pedido que não confundam a celebração do domingo, que deve ser uma verdadeira santificação do dia do Senhor, com o ´fim de semana´entendido fundamentalmente como tempo de mero repouso ou de diversão´ …implica também uma compreensão mais profunda do domingo, para poder vivê-lo, mesmo em situações difíceis, com plena docilidade ao Espírito Santo…” (Carta Apostólica Dies Domini, Papa João Paulo II, p. 7).

 

“….fiéis devem dar graças a Deu que os regenerou para uma esperança viva pela ressurreição de Cristo de entre os mortos 1 Pd 1,3  (Constitução SacroSanctum Concilium 106)”

 

Sugestão para viver o Domingo, Dia do Senhor

 

“o  dever de santificar o domingo, sobretudo com a participação na Eucaristia e com um repouso permeado de alegria cristã e de fraternidade…” (Carta Apostólica Dies Domini, Papa João Paulo II, p. 9).

 

Como diz São João, tudo começou a existir por meio do Verbo e sem Ele nada foi criado.

 

“Esta presença ativa do Filho na Obra criadora de Deus revelou-se plenamente no mistério pascal, no qual Cristo, ressuscitando como ´primícias dos que morreram´(1 Cor 15,20) inaugurou a nova criação e deu início ao processo que Ele mesmo levará a cabo no momento do seu retorno glorioso, ´quando entregar o Reino a Deus Pai (…)´”

 

O Domingo tem a ver com a criação do Gênesis?

 

Sim, é verdade. O Domingo tem muito a ver com a narração que existe em Gênesis sobre a criação do mundo e do homem e da mulher.

 

É porque depois de ´construir o mundo´ Deus repousou no sétimo dia (Sábado). Mas esse ´repouso´não foi um mero não fazer nada, pois em Deus não há inatividade, como bem explica o Papa João Paulo II, mas foi o dia (sétimo dia), correspondente ao nosso Sábado, que Ele aproveitou para “ contemplar” a sua Obra Divina, que, aliás, Ele via  “que tudo era bom”.

 

“O repouso divino do sétimo dia não alude a um Deus inativo, mas sublinha a plenitude do que fora realizado, como que a exprimir que Deus descansou diante da obra ´muito boa´(Gn 1,31) saída das suas mãos, para lançar sobre ela um olhar repleto de jubilosa complacência: um ´olhar contemplativo´ que  não visa novas realizações, mas sobretudo a apreciar a beleza de quanto foi feito; um olhar lançado sobre todas as coisas, mas especialmente sobre o homem, ponto culminante da criação. É um olhar no qual já se pode de certa forma intuir a dinâmica ´esponsal´da relação que Deus quer estabelecer com a criatura feita à sua imagem, chamando-a a comprometer-se num pacto de amor. Ele ´santifica´o sétimo dia com uma benção especial e faz dele o ´seu dia´por excelência….O ´dia do Senhor´é, por excelência, o dia desta relação, no qual o homem eleva a Deus o seu canto, tornando-se eco da inteira criação” (Carta  Apostólica Dies Domine, p. 15-18).

 

Se Ele repousou no sétimo dia (Sábado) o que isso tem a ver com o Domingo?

Tem a ver porque depois do grande acontecimento da Ressurreição de Cristo, o Sábado que é o ´seu dia´por excelência, o ´dia do Senhor´, desloca-se essa data para o Domingo, que agora passa a ser não só o primeiro dia da semana e o primeiro dia que se refere à criação, mas passa a corresponder ao oitavo dia.

 

Vejamos

Domingo – 1º dia

2ª feira- 2º. dia

3ª. Feira – 3º dia

4ª. Feira – 4º. dia

5ª. Feira – 5º. dia

6ª. Feira- 6º. dia

Sábado – 7º dia

Domingo – 8º. dia

 

O Domingo é mais do que uma alusão ao primeiro dia da criação, mas é também o oitavo dia, ou seja, é um dia em que Cristo inaugura uma nova criação, pois Ele se renovou, e nos renovará a todos quando for o dia da nossa própria ressurreição, e se Ele havia se regozijado com a sua primeira criação, quando a contemplou, que dirá agora quando o seu próprio Filho é um Homem-Deus plenamente ressuscitado, perfeito, imortal, o primeiro de muitos que também merecerão o mesmo.

 

A Ressurreição de Jesus é um fato extraordinário, que não só prenuncia a nossa própria ressurreição futura e nos abre as portas de uma nova vida, desta vez imortal e espiritual, como ratifica a Verdade, de que Jesus é Deus e mais, de que Ele é fiel, pois no Antigo Testamento a promessa era essa, a ressurreição dos mortos.

 

 

 

Como bem ensina o ponto 651, do Catecismo da Igreja Católica, “A Ressurreição constitui antes de mais nada a confirmação de tudo o que o próprio Cristo fez e ensinou. Todas as verdades, mesmo as mais inacessíveis ao espírito humano, encontram sua justificação se, ao ressuscitar, Cristo deu a prova definitiva, que havia prometido, de sua autoridade divina.”

 

 

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