O matrimônio é um vínculo entre homem e mulher apenas para uma realização pessoal?

O matrimônio é encarado por muitos como um meio de obter-se a realização pessoal.

Cremos que o Criador, quando fez a mulher para Adão e este até exclamou que ela seria osso dos seus ossos, carne da sua carne, pensou sim em dar um complemento, alguém semelhante a Adão, uma vez que a criação não estava suprindo para Adão a necessidade de uma integração de sua personalidade masculina:

não é bom que o homem esteja só… (Gênesis 2,18)

E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão.
E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada.
Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne. (Gênesis 2,22)

Mas, temos que ter em mente que o casamento de Adão e Eva foi marcado por algumas peculiaridades, pois Deus não disse que poderiam separar depois de um tempo, fazendo-nos pensar que a ideia para o casal é  a indissolubilidade (serão ambos uma só carne).

O que Ele disse foi “não é bom que o homem esteja só…serão ambos uma só carne…” e também disse “crescei, multiplicai”. Deus os fez homem e mulher para serem companheiros um do outro e terem filhos, portanto.

Assim, se a ideia do Criador ao criar o primeiro casal foi essa:

  • a realização pessoal de Adão, reconheceu que toda a Criação, todos os animais não eram suficientes para integrar a personalidade de Adão, por isso lhe fez uma semelhante, para ser sua auxiliar, sua companheira.
  • A realização pessoal de Adão, embora não desprezada pelo Criador, não era o fim do matrimônio. O fim do matrimônio seria dar início à perpetuação da espécie humana com a reprodução, cooperar com o Criador na vinda de novos seres humanos.

Se o matrimônio tivesse sido criado apenas para obtenção da realização pessoal, Deus poderia ter criado já vários casais adultos, sem filhos, para serem companheiros um do outro, satisfazendo essa ânsia de integração de personalidade. Mas não. Não foi isso. Deus criou UM CASAL ADULTO  (uma comunhão de dois) e Sua Vontade consiste em fazer surgir novas pessoas  do amor entre esse casal adulto.

Logo, o matrimônio está ligado a uma união, para sempre, para um cuidar do outro, um integrar a personalidade do outro, porque Deus não abriu a possibilidade de separação depois de um tempo,  e dentro desse contexto, o matrimônio passa ser o meio para a criação de novos seres humanos, pois é o amor entre eles que tem o poder de gerar outros seres, cooperamos com o Criador.

E isso de fato acontece. É do homem e da mulher que surgem filhos.

Deus teria poder de trazer pessoas a este mundo sem a prática sexual? Sem dúvidas. No caso de Nossa Senhora foi o que ocorreu. Ela concebeu o Senhor Jesus pelo poder do Espírito Santo, sem a concorrência de sêmen masculino.

Jesus mesmo disse certa vez:  

“Pois eu vos asseguro que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão.” (Lucas 3,8).

Claro que Deus é Todo-Poderoso. Ele faz da criação Dele o que Ele quiser. Mas, Ele quer que o ser humano é que colabore com a perpetuação da espécie, colabore com Ele trazendo novos seres humanos à Vida. Não sou psicóloga de Deus. Isto pode ser deduzido da afirmação de Jesus. Deus poderia fazer surgir das pedras filhos a Abraão….

Veja que o amor conjugal tem,  portanto, a finalidade implícita de gerar novos seres. A satisfação individual dos dois no ato conjugal não é o fim. O fim  é o novo ser. O amor conjugal naturalmente exercido entre homem e mulher tende para geração de filhos.

A teoria individualista de que o matrimônio é só para satisfação pessoal distorce, assim, totalmente o plano inicial da Criação.

Por ela, o matrimônio deixa de ser visto como um serviço social, perpetuar a espécie humana, e é vista apenas como instrumento de complemento pessoal, não se preocupando com a missão objetiva e social do matrimônio, mas apenas com o desejo individual e subjetivo da própria felicidade.

Precisamos restabelecer a ideia original, do Criador. Não dá para confiar senão em quem nos criou. Ele é o único que pode informar o caminho certo a tomar.

Creio que nenhuma pessoa seria tão estúpida ao ponto de querer usar um eletrodoméstico para a finalidade diversa daquela indicada no seu manual de instruções. Por que teimamos em querer saber mais do que Aquele que nos criou.

Quem segue os mandamentos de Deus, pode ter absoluta certeza de contar com o Seu Apoio sempre.

Problema da ideia que surge para os casados, caso tenham a real possibilidade do Divórcio

Se o fim do matrimônio é complementar pessoalmente o outro e também gerar filhos, perpetuar a espécie como uma finalidade social do casamento, veja o que acontece se pensarmos que isso pode ser somente por um tempo e não para a vida toda do casal.

A partir do momento em que se pensa que é possível romper o laço conjugal simplesmente nós não nos entregaremos 100% na relação. Se eu tenho alternativas futuras possíveis, irei conduzir a minha vida de forma a reservar-me,  idealizarei a minha vida com e sem o meu marido ou esposa e de acordo com essa ideia, comportar-me-ei no presente.

E o pior não é só isso. Podem os filhos saírem prejudicados, primeiro, por não terem um modelo de amor a se espelharem, segundo porque, em geral, quem se separa tende a se unir a uma outra pessoa que não é o pai ou a mãe do filho, sem se falar na disputa dos pais, avós, que acaba acontecendo em relação à atenção do filho e neto que ficou como o fruto do casamento fracassado, muitas vezes ocorrendo até alienação parental…um falando mal do outro, temendo perder o amor do filho ou querendo que este tome o seu partido….

Claro, que não estamos a tratar aqui de temas graves, de casamentos em que o homem é violento ou desequilibrado e a mulher também apresente condutas desequilibradas, pois às vezes a separação acaba sendo um remédio para um male menor e até para preservar a saúde psicológica dos filhos…Mas, não vamos considerar algo belo a separação do casal. Continua sendo algo ruim. Como uma amputação de um membro. Talvez seja o melhor uma amputação aconselhada por médicos para que não venha o corpo inteiro morrer de gangrena, mas que  haverá consequências graves decorrentes dessa amputação teremos de convir que é verdade, o que implicará que não mais poderei correr, dançar como antes…precisamos ser bastante realistas e francos conosco mesmos. A separação de um casal acarreta sim consequências.

Direito Canônico  e o Divórcio e a Separação ConjugaL

Primeiramente, devemos consignar que estamos aqui a falar sobre o matrimônio na Igreja Católica e entre dois católicos previamente batizados.

Quem  não se casa na Igreja Católica ou não se trata de um matrimônio na Igreja Católica entre dois batizados, é outra coisa, que merece outras reflexões.

Um casamento entre dois não batizados na Igreja Católica não faz sentido, não alcança vínculo de indissolubilidade nenhum, porque para um casamento ser indissolúvel, primeiro precisou ser feito entre dois batizados naquela fé. Assim, se não sou batizada e me caso e igualmente meu marido, ou esposa, esse matrimônio canonicamente já nasceu dissolvido, nada impedindo que, uma vez, introduzida na fé católica, ou seja, recebendo o Batismo, o Sacramento do Batismo pela Igreja Católica, possa agora batizada me casar na Igreja Católica, inclusive com outra pessoa, também batizada:

Cân. 1143 §1. O matrimônio celebrado entre dois não´batizados dissolve´se pelo privilégio paulino, em favor da fé da parte que recebeu o batismo, pelo próprio fato de esta parte contrair novo matrimônio, contanto que a parte não batizada se afaste.

  • 2. Considera-se que a parte não batizada se afasta, se não quer coabitar com a parte batizada, ou se não quer coabitar com ela pacificamente sem ofensa ao Criador, a não ser que esta, após receber o batismo, lhe tenha dado justo motivo para se afastar.

Uma união apenas civil, sem se dar o casamento na Igreja Católica, não possui o vínculo de Deus, que torne ambos “uma só carne”, então essa união não está sacramentada por Deus, não havendo como se falar em indissolubilidade de vínculo se esse vínculo sequer foi formado.

Essa união apenas civil é encarada, se houver relacionamento íntimo entre o casal, e enquanto não ratificada com um casamento na Igreja Católica,  como fornicação de solteiros. É um estado que Deus não deseja. Não por implicância do Criador, mas porque Ele sabe que para um matrimônio poder ser levado adiante,  depois do pecado original que nos torna frágeis e inclinados ao mal, só é possível se houver o vínculo impresso na alma dos cônjuges para torná-los “uma só carne” e se houver as graças específicas do matrimônio que Jesus conquista na Cruz para a indissolubilidade e fidelidade, como Cristo é fiel.

Também não estaremos falando de um matrimônio inválido na Igreja Católica, contraído entre um batizado e o outro não batizado:

Cân. 1086  §1. É inválido o matrimônio entre duas pessoas, das quais uma foi batizada na Igreja católica ou nela recebida e não a abandonou por um ato formal, e a outra não é batizada.

Também não estaremos falando de matrimônios inválidos na Igreja Católica mesmo, cujo vínculo espiritual evidentemente não se pode formar:

Cân. 1095  São incapazes de contrair matrimônio:

  1. os que não têm suficiente uso da razão;
  2. os que têm grave falta de discrição de juízo a respeito dos direitos e obrigações essenciais do matrimônio, que se devem mutuamente dar e receber;

3.os que não são capazes de assumir as obrigações essenciais do matrimônio, por causa de natureza psíquica.

Cân.1096 §1. Para que possa haver consentimento matrimonial, é necessário que os contraentes não ignorem, pelo menos, que o matrimônio é um consórcio permanente entre homem e mulher, ordenado à procriação da prole por meio de alguma cooperação sexual.

  • 2. Esta ignorância não se presume depois da puberdade.

Igualmente,  não estamos a tratar de matrimônio entre católicos na Igreja Católica em que haja erro, ou dolo, que são vícios do consentimento.

Um matrimônio católico e entre batizados que haja erro de uma qualidade diretamente visada por um dos cônjuges quando do casamento, ou quando um deles engana o outro gravemente sobre alguma qualidade pessoal do meu cônjuge a fim de obter o consentimento que não se daria em outra ocasião, ou se há erro sobre a unidade, indissolubilidade ou dignidade do Sacramento do Matrimônio tal tenha interferido na vontade dos cônjuges…..esse casamento católico é inválido, ou seja também não se forma o vínculo de “ambos serão uma só carne” por óbvio:

 

Cân. 1097  §1. O erro de pessoa torna inválido o matrimônio.

  • 2. O erro de qualidade da pessoa, embora seja causa do contrato, não torna nulo o matrimônio, salvo se essa qualidade for primeira e diretamente visada.

Cân. 1098  Quem contrai matrimônio, enganado por dolo perpetrado para obter o consentimento matrimonial, a respeito de alguma qualidade da outra parte, e essa qualidade por sua natureza, possa perturbar gravemente o consórcio da vida conjugal, contrai invalidamente.

Cân. 1099  O erro a respeito da unidade, da indissolubilidade ou da dignidade sacramental do matrimônio, contanto que não determine a vontade, não vicia o consentimento matrimonial.

Cân. 1100  A certeza ou opinião acerca da nulidade do matrimônio não exclui necessariamente o consentimento matrimonial.

Cân. 1101  §1. Presume-se que o consentimento interno está em conformidade com as palavras ou com os sinais empregados na celebração do matrimônio.

  • 2. Contudo, se uma das partes ou ambas, por ato positivo de vontade, excluem o próprio matrimônio, algum elemento essencial do matrimônio ou alguma propriedade essencial, contraem invalidamente.

 

Outros casos em que não como se falar em vínculo entre os casados na Igreja Católica, pois são casos inválidos de casamento católico: contraído sob condição futura, ou por violência, medo grave advindo por causa externa, não contraído pelo casal presente por si ou por procurador, não contraído pelo Ordinário local pároco sacerdote ou diácono delegado e perante duas testemunhas, ou casamento sem autorização expressa da autoridade eclesiástica para um casal  batizado na Igreja Católica mas que um deles está  praticando outra “religião” que não se coaduna em nada com a Igreja Católica….

 

 Cân. 1102  §1. Não se pode contrai validamente o matrimônio sob codição de futuro.

Cân. 1103  É inválido o matrimônio contraído por violência, ou medo grave proveniente de causa externa, ainda que incutido não propositadamente, para se livrar do qual alguém seja forçado a escolher o matrimônio.

Cân. 1104  §1. Para contrairem validamente o matrimônio, requer´se que os contraentes se achem simultaneamente presentes, por si ou por meio de procurador.

  • 2. Os noivos devem exprimir oralmente o consentimento matrimonial; mas se não puderem falar, por sinais equivalentes.

Cân. 1108  §1. Somente são válidos os matrimônios contraídos perante o Ordinário local ou o pároco, ou um sacerdote ou diácono delegado por qualquer um dos dois como assistente, e além disso perante duas testemunhas, de acordo porém com as normas estabelecidas nos cânones seguintes…

Cân. 1115  Os matrimônios sejam celebrados na paróquia onde uma das partes contraentes têm domicílio, ou quase´domicílio ou residência há um mês, ou, tratando´se de vagantes, na paróquia onde na ocasião se encontram; com a licença do próprio Ordinário ou do pároco, podem ser celebrados em outro lugar.

Cân. 1118  §1. O matrimônio entre católicos ou entre uma parte católica e outra não´católica, mas batizada, seja celebrado na igreja paroquial; poderá ser celebrado em outra igreja ou oratório com a licença do Ordinário local ou do pároco.

Cân. 1119  Fora caso de necessidade, na celebração do matrimônio sejam observados os ritos, quer prescritos nos livros litúrgicos aprovados pela Igreja, quer admitidos por costumes legítimos.

Cân. 1124  O matrimônio entre duas pessoas batizadas, das quais uma tenha sido batizada na Igreja católica ou nela recebida depois do batismo, e que não tenha dela saído por ato formal, e outra pertencente a uma Igreja ou comunidade eclesial que não esteja em comunhão plena com a Igreja católica, é proibido sem a licença expressa da autoridade competente.

Então, cientes de que estamos a falar sobre casais católicos (ambos batizados e casados na Igreja), vejamos o Direito Canônico sobre o matrimônio católico e o seu vínculo:

Cân. 1059  O matrimônio dos católicos, mesmo que só uma das partes seja católica, rege´se não só pelo direito divino, mas também pelo canônico, salva a competência do poder civil sobre os efeitos meramente civis desse matrimônio.

Pelo Direito Canônico, não é possível falar-se em Divórcio.

O Divórcio implica em rompimento do vínculo conjugal com a possibilidade de se contrair novas núpcias pelo Direito Brasileiro.

Canonicamente, isso não é possível e o motivo é claro: “serão uma só carne”. Deus não disse que a união do primeiro casal seria só por um tempo.

Alguém poderia refutar isso, dizendo ser coisa do passado.

Mas, não é.

Quando perguntaram a Jesus se era lícito alguém dar carta de divórcio à sua mulher, Ele respondeu que “no princípio não era assim” e que “Deus os fez homem e mulher..não separe o homem o que Deus uniu”. A pergunta que Lhe fizeram tinha sentido, pois os judeus admitiam que em casos de adultério ou ..da mulher, o homem poderia se divorciar de sua esposa…

A questão foi a princípio tão chocante até para os judeus, pois Moisés havia prescrito que seria possível o divórcio judeu em alguns casos específicos,  que alguns exclamaram: “se é assim a condição do homem, então melhor que não se case…”…daí até que Jesus mencionou sobre homens que mantém a castidade absoluta  por serem eunucos, outros por amor ao Reino de Deus…era o caso Dele mesmo e de muitos sacerdotes e celibatários hoje em dia que são chamados a viver a plena castidade por amor a Deus, num amor também fecundo, pois originam pelas suas orações e sacrifícios filhos em outro sentido…filhos espirituais…

Não tendes lido que aquele que os fez no princípio homem e mulher Deus os fez,
E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne?
Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.
Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la?
Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim.
Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério.
Disseram-lhe seus discípulos: Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar.
Ele, porém, lhes disse: Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido.
Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o.
Mateus 19:4-12

 

Assim, canonicamente não há como se divorciar, para romper um vínculo que não é humano, não sabemos como ficam as almas de quem se casa, porque existe espiritualmente um vínculo que os torna “uma só carne”. E para levar adiante essa empreitada Jesus conquistou graças na Cruz para os casais conseguirem manter a mesma fidelidade e indissolubilidade que Ele tem por nós…Jesus jamais se divorciará da humanidade…o casal simplesmente reflete esse grande Amor de Deus..

Isso não de não poder haver o divórcio entre o casal batizado e casado na Igreja Católica não é invenção humana, foi Jesus mesmo que ratificou o que consta do Gênesis, ou seja, ratificou que existe um vínculo sobrenatural que une os dois batizados que celebraram espontaneamente seu matrimônio perante uma autoridade eclesiástica que os torna “uma só carne.”  E que, por mais que o homem queira, ele não pode quebrar…por isso o vínculo é indissolúvel.

Daí porque o Direito Canônico diz que o matrimônio é indissolúvel e recebem firmeza pelo Sacramento, conquistado por Jesus na Cruz:

Cân. 1056  As propriedades essenciais do matrimônio são a unidade e a indissolubilidade que, no matrimônio cristão, recebem firmeza especial em virtude do sacramento.

Cân. 1057  §1. É o consentimento das partes legitimamente manifestado entre pessoas juridicamente hábeis que faz o matrimônio; esse consentimento não pode ser suprido por nenhum poder humano.

  • 2. O consentimento matrimonial é o ato de vontade pelo qual um homem e uma mulher, por aliança irrevogável, se entregam e se recebem mutuamente para constituir o matrimônio.

De qualquer forma, saibamos que os filhos concebidos ou nascidos de um matrimônio putativo – ou seja, – pensou-se que estava tudo certo – são legítimos, como se se tratasse de um matrimônio válido:

Cân. 1137  São legítimos os filhos concebidos ou nascidos de matrimônio válido ou putativo.

Quanto à questão da separação dos cônjuges, canonicamente é possível  em casos de causa legítima. Uma causa legítima é a questão do adultério. O cônjuge inocente não é obrigado a perdoar. Se não o consegue pode ser separar. Mas, veja-se que o vínculo matrimonial não se dissolverá, só com a morte, o que significa que não pode contrair novas núpcias. Quando falamos em cônjuge inocente significa aquele cônjuge que não consegue perdoar naquele momento delicado, logo não deu seu perdão expressamente e nem tácito, por exemplo em uma hipótese em que o cônjuge tenha consentido com o adultério (exemplo, orgias com trocas de casais) haverá o perdão tácito, igualmente se o cônjuge que requer a separação ele mesmo tinha dado ensejo a adultério anteriormente, ou foi ele o cônjuge o culpado do adultério que alega, porque, por exemplo, não se entregava corporalmente ao outro…

Vejamos nos cânones os casos de separação previstos no Direito Canônico:

Cân. 1150  Os cônjuges têm o dever e o direito de manter a convivência conjugal, a não ser que uma causa legítima os escuse.

Cân. 1152  §1. Embora se recomende vivamente que o cônjuge, movido pela caridade cristã e pela solicitude do bem da família, não negue o perdão ao outro cônjuge adúltero e não interrompa a vida conjugal; no entanto, se não tiver expressa ou tacitamente perdoado sua culpa, tem o direito de dissolver a convivência conjugal, a não ser que tenha consentido no adultério, lhe tenha dado causa ou tenha também cometido adultério.

  • 2. Existe perdão tácito se o cônjuge inocente, depois de tomar conhecimento do adultério, continuou expontaneamente a viver com o outro cônjuge com afeto marital; presume´se o perdão, se tiver continuado a convivência por seis meses, sem interpor recurso à autoridade eclesiástica ou civil.
  • 3. Se o cônjuge inocente tiver espontaneamente desfeito a convivência conjugal, no prazo de seis meses proponha a causa de separação à competente autoridade eclesiástica, a qual, ponderadas todas as circunstâncias, veja se é possível levar o cônjuge inocente a perdoar a culpa e a não prolongar para sempre a separação.

Cân. 1153  §1. Se um dos cônjuges é causa de grave perigo para a alma ou para o corpo do outro cônjuge ou dos filhos ou, de outra forma, torna muito difícil a convivência, está oferecendo ao outro causa legítima de separação, por decreto do Ordinário local e, havendo perigo na demora, também por autoridade própria.

  • 2. Em todos os casos, cessando a causa da separação, deve´se restaurar a convivência, salvo determinação contrária da autoridade eclesiástica.

Cân. 1154  Feita a separação dos cônjuges, devem´se tomar oportunas providências para o devido sustento e educação dos filhos.

Cân. 1155  O cônjuge inocente pode louvavelmente admitir de novo o outro cônjuge à vida conjugal e, nesse caso, renuncia ao direito de separação.

 

Ponderando tudo o que até agora foi exposto, nós como Corpo Místico de Cristo chegamos  às mesmas conclusões do que nos ensina a Igreja:

  • O divórcio é uma ofensa grave à lei natural. Pretende romper o contrato livremente consentido pelos esposos de viver um com o outro até a morte. O divórcio lesa a Aliança de salvação da qual o matrimônio sacramental é o sinal. O fato de contrair nova união, mesmo que reconhecida pela lei civil, aumente a gravidade da ruptura; o cônjuge recasado passa a encontra-se em situação de adultério público e permanente: (Catecismo da Igreja Católica, ponto 2384).
  • O caráter imoral do divórcio deriva também da desordem que introduz na célula familiar e na sociedade. Esta desordem acarreta graves danos: para o cônjuge que fica abandonado; para os filhos, traumatizados pela separação dos pais, e muitas vezes disputados entre eles (cada um dos cônjuges querendo os filhos para si); e por seu efeito de contágio, que faz dele uma verdadeira praga social. (Catecismo da Igreja Católica, ponto 2385).

 

 

Como conseguir um matrimônio duradouro?

Não existe “receita de bolo” neste caso. As diferentes experiências de vida de cada um dos cônjuges, o modo que foram criados, os membros  de sua família que podem lhe influenciar comportamentos, os conselhos externos, a tendência a exagerar,  problemas existenciais …tudo isso são variáveis que não podem ser ndo

Precisamos ter a fé, ter visão sobrenatural, para saber que o Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para tornar o Matrimônio um Sacramento, um estado de união com Ele.

E isso nós concluímos pela Carta de São Paulo que compara o casamento à união mística de Jesus com a Igreja. Ele diz que assim como Cristo trata a Igreja e se entrega por Ela, os maridos devem igualmente tratar suas esposas, as quais, por seu turno, devem ter submissão, como possuem em relação a Cristo:

Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela,
Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra,
Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.
Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo.
Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja;
Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos.
Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne.
Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja.
Assim também vós, cada um em particular, ame a sua própria mulher como a si mesmo, e a mulher reverencie o marido. (Efésios 5,25).

Faz toda a diferença saber que o matrimônio foi elevado a Sacramento por Jesus, pois sabemos que todos os nossos atos realizados dentro dele serão motivo para nos santificarmos, para recebermos graças e irmos para o céu precisamente por causa do nosso casamento.

É algo animador. Ficando com o nosso cônjuge, estamos dentro de um Sacramento do Matrimônio e a cada instante, a cada dia, cada ano passado ao lado dessa pessoa, está concorrendo para a minha santificação, aumentando a graça, que será a base, no céu, para recebermos a visão beatífica. Quanto mais graça santificante, maior luz de glória receberemos e maior será a nossa capacidade de ver a Deus, de contemplá-lo, admirá-Lo, amá-Lo.

Não desistamos por qualquer incidente familiar, financeiro…

Podemos tentar tornar tudo mais agradável inclusive.

Pensemos em atitudes boas a serem tomadas dentro do matrimônio:

  • Sorrir, ainda que seja um sorriso “amarelo”

Precisamos nos esforçar para evitar murmurações e trocá-las por um sorriso, mesmo que no começo ele seja forçado.

“Na sua biografia sobre Disraeli, André Maurouis descreve as dificuldades com que o primeiro-ministro inglês lutou para transpor os primeiros degraus da sua carreira política e a ajuda insubstituível que lhe prestou nessa luta a esposa, que o amava profundamente. Depois de muitos esforços conseguiu uma cadeira na Câmara dos Comuns. Chegado o grande dia em que deveria pronunciar o seu primeiro discurso no Parlamento, a esposa acompanhou-o na carruagem até a entrada. Disraeli desceu  e despediu-se carinhosamente através da janela. Quando fechou a porta, a esposa sorria, mas não disse uma palavra; sorria, sorria…Mal o marido se afastou, caiu desmaiada no assento: a porta, ao fechar-se, tinha-lhe prendido a mão e esmagado os dedos. Em vez de gritar, conseguiu sorrir. Escondeu assim uma dor insuportável; sabia que o marido não teria condições psicológicas de pronunciar o discurso se visse a sua mão naquele estado.” (Cifuentes, Rafael Llano. Família: conflitos e realizações, Rio de Janeiro, 1995, p. 53.).

  • Sacrificar-se como Cristo

Precisamos tentar chegar à altura do amor de Cristo, lutar para superar o nosso egoísmo.

Podemos nos perguntar:

“Na vida de família, escolho os trabalhos mais custosos, o lugar menos confortável, a comida mais apetitosa?

Sei sacrificar o meu tempo e o meu descanso para ir em ajuda do meu cônjuge?

Abro mão dos critérios pessoais – às vezes dos meus preconceitos – para acolher as suas ideias?

Sei desprender-me, em benefício do outro, do supérfluo  a que estou apegado, do dinheiro que tanto valorizo, da segurança econômica que temo perder? Sei desprender-me também dos meus pontos de vista acidentais para evitar discussões inúteis, que servem apenas para reafirmar o meu amor-próprio?

Enfim, estou disposto – a despeito do sofrimento pessoal  – a perder para que o outro ganhe, a descer para que o outro suba, a sacrificar-me para que o outro se alegre?

(…) O exercício destas diferentes formas em que se pode conjugar o verbo amar na vida quotidiana vai criando, pouco a pouco, uma rede de virtudes – fortes e flexíveis – que dão estrutura e vigor às relações conjugais…

(…) Aqueles navegantes de primeira viagem vão-se tornando, pouco a pouco, marujos experientes: sabem desviar-se duma tempestade, ou, se a enfrentam, aprendem a reparar o navio…preparando-se para enfrentar a crise ou as crises que, sem dúvida, aparecerão ao longo dessa imensa viagem que é o matrimônio.”

”  (Cifuentes, Rafael Llano. Família: conflitos e realizações, Rio de Janeiro, 1995, p. 54-55.)

  • Ternura e não sexualidade desregrada: a castidade conjugal

Tanto o homem, quanto a mulher devem se esfoçar pela ternura, que é desprendida, altruísta e pensa mais na felicidade e satisfação do outro.

E ternura não é sexualidade.

A sexualidade deve se “situar no terceiro ou quarto lugar entre os interesses pessoais…Sabemos que esta afirmação é impopular porque o mundo atual entende a sexualidade como um bem de consumo e a mercantilizou.” (Rojas, Enrique. Remédios para o Desamor, Ed. Temas de Hoy, Madri, 1990, p. 152.).

“Estas palavras tão acertadas nos devem fazer pensar. É necessário que o sexo esteja limitado ao cumprimento de sua função específica. Caso contrário, degrada; não chega a constituir uma comunidade de amor (por muito que se insista em utilizar esta palavra), mas a torna depravada.

Uma vida sexual sadia é uma vida sexual de acordo com a natureza, ou seja, com o sentido que Deus outorgou à relação sexual natural.

A relação sexual é algo santo, querido por Deus, que tem como finalidade unir intimamente os cônjuges e ser veículo do nascimento de uma nova vida. Esta  ideia é a que alicerça o sentido da castidade matrimonial.

Sem dúvida podemos considerar a castidade – ainda que a alguns pareça difícil entender – um autêntico remédio para muitos problemas matrimoniais. Por falta de castidade conjugal os esposos correm o risco de naufragar; materializam-se, embotam-se, insensibilizam-se para descobrir no outro toda a sua riqueza como pessoa humana e como filho de Deus; são incapazes de permanecer na fidelidade quando o cônjuge está enfermo ou ausente; não conseguem viver a continência periódica quando, por sérias razões, se devem abster das relações sexuais nas épocas de fecundidade da mulher. Nesta falta da castidade matrimonial encontram sua origem muitas catástrofes conjugais.” (Cifuentes, Rafael Llano. Família: conflitos e realizações, Rio de Janeiro, 1995, p. 66-68).

  • Não falar tudo o que nos vêm à mente- fazer um filtro da língua – só falar o que for bom, útil e edificante

 

Alguém uma vez deu o seguinte conselho: corte e pinte uma língua de um metro e meio da cor roxa;  toda a vez que tiver vontade de falar coisas desagradáveis ao outro cônjuge, não fale e corte um pedaço daquela língua pintada.

  • Não deixar-se levar pelo impulso ou instinto animal do momento: ser racional e sobrenatural

“…não sejas egoísta, não vás agora abandonar a tua esposa quando ela está gasta precisamente por cuidar de TIM do teu lar e dos teus filhos; ainda que aquele amor novo com que sonhas   – aquela moça bonita e charmosa que talvez se agarre a ti por interesse – te prometa o que tu chama de libertação, tens que ser fiel; pensa que os teus filhos são filhos da tua carne e da tua alma; eles esperam muito de ti, do teu exemplo: algo muito mais nobre do que a tua infidelidade! E pensa ainda mais: que não podes trair o compromisso assumido diante de Cristo, ao pé do seu altar; não podes aumentar os sofrimentos da sua paixão com essa chicotada!..” (Cifuentes, Rafael LLano. 85 Experiências de Amor: Histórias Reais sobre o Amor Divino e Humano, Rio de Janeiro, 1994, p. 122).

 

Conclusão: Conselhos do Papa Francisco aos casais:

Vamos concluir esta exposição, deixando aqui ao leitor algumas frases do Papa Francisco dirigida aos noivos e casais:

“Nunca deixeis terminar o dia sem fazer as pazes”

“…é normal que os noivos briguem. “Acontece sempre”, porém um pequeno gesto de reconciliação no final do dia faz com que o casal continue a caminhar.”

“Deus transmite a sua força que cura, ou seja, a sua misericórdia, mais forte que o veneno do tentador (com referências às serpentes venenosas que mordem os da família para que eles morram na caridade uns com os outros).

“Também a eles Deus Pai entrega o seu Filho Jesus, não para os condenar, mas para os salvar: se entregarem-se a Jesus, Ele os cura com o amor misericordioso que jorra da sua Cruz, com a força duma graça que regenera e põe de novo a caminhar pela estrada da vida conjugal e familiar”. (com referência aos casais que ‘não suportam o caminho’ e acabam mordidos pelas tentações do desânimo, da infidelidade, do retrocesso e do abandono.

“O amor de Cristo pode restituir aos esposos a alegria de caminharem juntos. Pois o matrimônio é isso: o caminho conjunto de um homem e de uma mulher, no qual o homem tem o dever de ajudar a esposa a ser mais mulher, e a mulher tem o dever de ajudar o marido a ser mais homem. Este é o dever que tendes entre vós”.

“O matrimônio é símbolo da vida real, não é uma ‘ficção’, reforçou o Santo Padre. “É sacramento do amor de Cristo e da Igreja, um amor que tem na Cruz a sua confirmação e garantia. Desejo a todos vocês, um bonito caminho, um caminho fecundo, que o amor cresça. Desejo felicidades. Existirão cruzes, mas Deus estará ali, para conduzir adiante”.

“São três os pilares, que, na visão da fé, devem sustentar o amor entre os esposos: a fidelidade, a perseverança e a fecundidade.”

“Ele explicou que Jesus esposou a Igreja por amor. “É um amor fiel e perseverante; Ele não se cansa nunca de amar a Sua Igreja. É um amor fecundo e fiel. Jesus é fiel! (…) A fidelidade é justamente o ser do amor de Cristo, ela é como uma luz sobre o matrimônio. A fidelidade do amor. Sempre.”

“…o amor de Jesus por Sua Igreja – Sua Esposa – é fiel, perseverante e fecundo, mesmas características de um autêntico matrimônio cristão.”

“Além de fiel, esse amor nunca se cansa de ser perseverante. Francisco disse que a vida matrimonial deve ser, da mesma forma, perseverante nos momentos belos e também nos difíceis, pois, do contrário, não pode seguir adiante. “Mas o amor persevera, vai adiante, sempre procurando resolver as coisas para salvar a família. Perseverantes: homem e mulher se levantam, todos os dias, e levam a família adiante.”

“A terceira característica de que o Papa falou foi a fecundidade. O amor de Jesus faz a Igreja fecunda, com novos filhos, e esta cresce com a fecundidade nupcial. O Santo Padre ressaltou que, às vezes, essa fecundidade pode ser colocada à prova quando os filhos não chegam ou ficam doentes. Nesses casos, há casais que olham para Jesus e tomam a força da fecundidade que Ele tem para com a Sua Igreja. Por outro lado, há coisas que não agradam o Senhor, como os casamentos estéreis por escolha.

“Esta cultura do bem-estar, de dez anos atrás, nos convenceu: ‘É melhor não ter filhos! Assim você pode conhecer o mundo, quando estiver de férias, pode ter uma casa no campo, ficar tranquilo’. Talvez seja melhor – mais cômodo – ter um cãozinho, dois gatos, e o amor vai para dois gatos e para o cãozinho. É verdade ou não? Ao fim, esse matrimônio chega à velhice com a amargura da má solidão. Não é fecundo, não faz o que Jesus fez com a Sua Igreja: tornando-a fecunda”.

“Queridos noivos, vocês estão se preparando para crescer juntos, construir esta casa, para viver juntos para sempre. Não queiram fundá-la sobre a areia dos sentimentos que vão e vêm, mas na rocha do amor verdadeiro, do amor que vem de Deus. (…) Não devemos nos deixar vencer pela ‘cultura do provisório’”.

“Estar junto e saber amar-se para sempre é o desafio dos casais cristãos. Vem-me à mente o milagre da multiplicação dos pães: também para vós o Senhor pode multiplicar o vosso amor e doá-lo fresco e bom a cada dia”.

“Posso?”. É um pedido gentil para poder entrar na vida de outra pessoa com respeito e atenção. É preciso aprender a pedir: Eu posso fazer isso? Agrada a você que façamos isso?  Tomamos essa iniciativa para educar nossos filhos? Você quer sair essa noite?… Em suma, significa ser capaz de pedir permissão para entrar na vida dos outros com gentileza.

“Saibam que a gentileza é uma das propriedades de Deus,  é irmã da caridade, que apaga o ódio e conserva o amor” (cap. 37). Sim, a gentileza preserva o amor. E, hoje, em nossas famílias, em nosso mundo, muitas vezes violento e arrogante, nós precisamos muito de gentileza.

“Obrigado”. Parece fácil pronunciar esta palavra, mas sabemos que não é assim… Mas é importante! Nós a ensinamos às crianças, mas, depois, a esquecemos! A gratidão é um sentimento importante. Lembram-se do Evangelho de Lucas? Jesus cura dez leprosos e, em seguida, apenas um volta para Lhe agradecer. O Senhor diz: e os outros nove, onde estão? Isso vale também para nós: sabemos agradecer? No relacionamento de vocês, e amanhã na vida conjugal, é importante para manter viva a consciência de que a outra pessoa é um dom de Deus, e dar graças sempre. Nessa atitude interior, agradecer por tudo. Não é uma palavra amável para usar com estranhos, para ser educado. É necessário saber dizer ‘obrigado’ para caminhar bem juntos.”

“Desculpe”.  Na vida nós cometemos tantos erros, tantos enganos. Todos nós. Talvez, haja um dia em que nós não façamos algo errado. Eis, então, a necessidade de usar esta simples palavra: “desculpe”.

“Em geral, cada um de nós está pronto para acusar os outros e nos justificarmos. É um instinto que está na origem de muitos desastres. Aprendamos a reconhecer nossos erros e a pedir desculpas. “Desculpe-me se eu levantei a voz”. ” Desculpe-me se eu passei sem cumprimentá-lo; desculpe-me pelo atraso; desculpe-me por estar tão silencioso esta semana; se eu falei muito e não te ouvi; desculpe-me se eu esqueci”. Também assim cresce uma família cristã.”

“…vocês se recordam do milagre nas bodas de Caná? Em um certo momento, o vinho faltou e a festa parecia arruinada. Por sugestão de Maria, naquele momento, Jesus se revela pela primeira vez e realiza um sinal: transforma a água em vinho e, assim, salva a festa de núpcias.

O que aconteceu em Caná há dois mil anos acontece, na realidade, em cada festa de núpcias: o que fará pleno e profundamente verdadeiro o matrimônio de vocês será a presença do Senhor que se revela e dá a sua graça. É a sua presença que oferece o “vinho bom”, é Ele o segredo da alegria plena, que realmente aquece o coração.

Ao mesmo tempo, no entanto, é bom que o matrimônio de vocês seja sóbrio e faça sobressair o que é realmente importante. Alguns estão mais preocupados com os sinais exteriores, com o banquete, fotografias, roupas e flores… São coisas importantes em uma festa, mas somente se forem capazes de apontar o verdadeiro motivo da alegria de vocês: a bênção do Senhor sobre o amor de vocês. Façam de modo que, como o vinho em Caná, os sinais exteriores da festa revelem a presença do Senhor e recorde a vocês e a todos os presentes a origem e o motivo de vossa alegria.”

“É preciso a graça! Olhem a graça dos sacramentos. O matrimônio não é uma bela festa. A graça não é para decorar a vida, mas para dar-nos coragem de irmos à diante”.

“Os cristãos se casam sacramentalmente porque estão cientes de precisarem do sacramento para cumprirem sua missão de pais. No seu casamento eles rezam juntos e com a comunidade. Mas por quê? Por que se usa fazer assim? Não! Porque precisam da ajuda de Jesus para caminharem juntos com confiança”.

Se Jesus foi sepultado, o Seu corpo físico sofreu a corrupção decorrente de Sua morte na Cruz?

Vamos abordar o tema em forma de perguntas e respostas para facilitar a compreensão do tema.

Primeira dúvida que pode surgir:

Jesus foi mesmo crucificado existia realmente,  naquela  época, esta espécie de pena?

 

Na época de Jesus Cristo existia a prática da crucifixão, inventada pelos persas em 539 a.C. (lembremos de Spartacus que liderou uma rebelião e foi crucificado juntamente com outros 6000 pois eram contra a escravidão e maus tratos que vigorava na época). A pena da crucifixão só foi extinta em 313 d.C, com o Imperador Constantino.

Jesus foi condenado pelos judeus (por blasfêmia) e como não tinham poder de executar a pena, a mesma foi aplicada pelos romanos que eram o governo civil da época.

Ficou na cruz por seis horas (das 9 horas da manhã até às 3 horas da tarde) e expirou.

Por que Jesus morreu, se Ele não tinha pecados?

Ele morreu fisicamente (e não espiritualmente, pois Ele é Deus-Filho) porque justamente a consequência do pecado é a morte:

Mas as pessoas são tentadas quando são atraídas e enganadas pelos seus próprios maus desejos. Então esses desejos fazem com que o pecado nasça, e o pecado, quando já está maduro, produz a morte.

 

Tiago 1:14,15

Pois o salário do pecado é a morte…

Romanos 6:23

 

Jesus não pecou, mas, para resgatar-nos dos nossos pecados e obter a remissão dos pecados que cometemos, ele se fez pecador. A maior prova disso, foi o próprio Batismo Dele no Rio Jordão, pois eram batizados para a purificação dos pecados, por isso João Batista a princípio não queria batizá-Lo dizendo: eu que devo ser batizado por ti e tu vens a mim….Bento XVI até explica que a descida de Jesus no Rio significa a sua descida já morto à sepultura e a sua subida já representada a Ressurreição.

Nós, à imitação de Cristo, também somos batizados, pois “significa eficazmente a descida ao túmulo do cristão que morre para o pecado com Cristo em vista de uma vida nova” (Catecismo, ponto 628). Nosso batismo implica em nosso sepultamento e ressurreição: “Pelo Batismo nós fomos sepultados com Cristo na morte, a fim de que, como Cristo foi ressuscitado dente os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova.” (Romanos 6,4).

O Catecismo da Igreja Católica arremata essa questão dizendo: “Em seu projeto de salvação, Deus dispôs que seu Filho não somente ´morresse por nossos pecados´(1 Cor 15,3), mas também que ´provasse a morte´, isto é, conhecesse o estado de morte, o estado de separação entre sua alma e seu corpo, durante o tempo compreendido ente o momento em que expirou na cruz e o momento em que ressuscitou. Este estado do Cristo morto é o mistério do sepulcro e da descida aos Infernos.” (Catecismo, ponto 624).

O Apocalipse que se compõe da visão de São João fala sobre isso: “Estive morto, mais eis que estou vivo pelos séculos dos séculos.” (Ap 1,18).

Quer dizer, então, que Jesus morreu de verdade?

Sim, “A Morte de Cristo foi uma Morte verdadeira enquanto pôs fim à sua existência humana terrestre.”

Não seria uma crueldade um Deus que exige uma expiação infinita?

“A realidade do mal, da injustiça que deturpa o mundo e conjuntamente mancha a imagem de Deus…tal realidade existe, por culpa nossa. Não se pode simplesmente ignorar, temos de desfazernos dela. Ora, acontece não que um Deus cruel venha pedir algo de infinito, mas precisamente o contrário: o próprio Deus coloca-Se como lugar de reconciliação e, no seu Filho, carrega o sofimento sobe Si. O próprio Deus introduz no mundo, sob a forma de dom, a sua pureza infinita. O próprio Deus `bebe o cálice´de tudo aquilo que é terrível e, assim, restabelece o direito por meio da grandeza do seu amor, o qual, através do sofrimento, transforma a escuridão.” ( Ratzinger, Joseph. Bento XVI. Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. Tradução: Bruno Bastos Lins, Editora Planeta, p. 210).

O corpo de Jesus sofreu corrupção, em decorrência da morte?

Não. “…devido à união que a pessoa do Filho manteve com o seu corpo, não estamos diante de um cadáver como os outros, porque ´não era possível que a morte o retivesse em seu porder´ (At 2,24) e porque ´a virtude divina preservou o corpo de Cristo da corrupção.´ (conclusão de Santo Tomás de Aquino em Suma Teológica, tomo  III, questão 51, alínea 3).

Sobre essa incorruptibilidade fala-nos o Ato dos Apóstolos 2,26: “Minha carne repousará na esperança, porque não abandonarás minha alma no Hades, nem permitirá que teu Santo veja a corrupção.”

Por que o corpo de Jesus não sofreu corrupção, se Ele realmente morreu na Cruz?

Ele não sofreu corrupção, porque sendo Ele Deus, a sua Pessoa, que não era humana como nós, mas sim Divina, conservou o domínio do corpo e também da alma que eram humanas (já que Deus Filho era só Espírito antes de Se encarnar), esse domínio Ele conservou o tempo todo em que Ele ficou no túmulo (de sexta a domingo).

“Durante a permanência de Cristo no túmulo, sua Pessoa Divina continuou a assumir tanto a sua alma como o seu corpo, embora separados entre si pela morte. Por isso o corpo de Cristo morto ´não viu a corrupção´”. (At 13,37).

A resposta do homem a Deus: “Eu creio”

Considerações feitas por Dom Javier Echevarria – Prelado do Opus Dei – conforme ensinamentos de São Josemaria Escrivá

“Nós todos sabemos que, como consequência do pecado original, a natureza humana ficou profundamente ferida, e com isso se tornou difícil que os homens pudessem conhecer com clareza e sem mistura de erro, somente com as forças da razão natural, o Deus único e verdadeiro. E por isso Deus, na sua bondade e misericórdia infinitas, foi-se revelando progressivamente ao longo do Antigo Testamento até que, por meio de Jesus Cristo, levou a cabo a plenitude da revelação. Enviando o seu Filho na carne, manifestou-nos claramente não apenas as verdades que o pecado ofuscou, mas a intimidade da sua própria vida divina.

“No seio da única natureza divina, subsistem desde a eternidade três Pessoas realmente distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, unidas indissoluvelmente em uma maravilhosa e inexprimível comunhão de amor. «O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em si mesmo. É, portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé; é a luz que os ilumina»11 «É um mistério de fé no sentido estrito, um dos «mistérios escondidos em Deus, que não podem ser conhecidos se não forem revelados do alto» (Conc. Vaticano I: DS 3015)» Fonte: Javier Echevarria, Compilação de em suas Cartas aos fieis da Prelazia durante ano da fé –seguindo a sugestão da Carta Apostólica PortaFidei , 11-10-2011, n 9)

São Josemaria Escrivá nos exorta a contemplar, adorar, louvar a Deus pelo que Ele nos revelou pelo Credo:

“A revelação da sua vida íntima, para nos fazer participar desse tesouro mediante a graça, constitui o mais precioso presente com que o Senhor nos favoreceu. Um dom completamente gratuito, fruto exclusivo da sua bondade. É lógica portanto, a recomendação do nosso Fundador: “temos de rezar sempre o Credo com espírito de adoração, de contemplação amorosa e de louvor.” (Citação feita pelo Prelado do Opus Dei, Javier Echevarria, em suas Cartas aos fieis da Prelazia durante ano da fé – 2012-3, referência a São Josemaria, Carta 19-3-1967, n. 55).

Eu creio, ou Nós cremos, qual é o correto?

A fé é um ato pessoal: a resposta livre do homem à iniciativa de Deus que se revela. Ela não é, porém, um ato isolado. Ninguém pode crer sozinho, assim como ninguém pode viver sozinho. Ninguém deu a fé a si mesmo, assim como ninguém deu a vida a si mesmo. …Não posso crer sem ser carregado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo para carregar a fé dos outros.” (166, Catecismo).

“Eu creio” é a fé da Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus com a sua fé e que nos ensina a dizer: ´eu creio´, ´nós cremos´. (167, Catecismo).

`Nos cremos´é a fé da Igreja confessada pelos bispos reunidos em Concílio, ou mais comumente, pela assembléia litúrgica dos crentes (167, Catecismo).

Logo, Eu Creio, pois é um ato humano consciente e livre meu, mas Nós Cremos porque crer também é um ato eclesial. A fé da Igreja precede, gera, sustenta e alimenta a nossa fé…Nós cremos em tudo que a Igreja propõe a crer como divinamente revelado. (180 a 182)

Em que Eu Creio?

O que crê a Igreja Católica está consignado no Credo, seja no Símbolo dos Apóstolos, seja no Niceno-constantinopolitano. O Credo Apostólico era o credo batismal da Igreja de Roma, inicialmente feito em forma de perguntas e, posteriormente, adquiriu a forma atual.

Já o Símbolo Niceno-constantinopolitano tem esse nome porque foi definido em duas etapas, sendo a primeira no I Concílio de Niceia (1º ecumênico), entre 19 de junho e 25 de agosto de 325. E a segunda, no I Concílio de Constantinopla (2º ecumênico, realizado entre maio e julho de 381. Este é o credo que normalmente se recita durante a Santa Missa no mundo todo.

“…após a reforma promovida pelo Concílio Vaticano II, o Brasil adotou o Símbolo Apostólico nas missas, mas, tradicionalmente, a Igreja adota o outro nas missas. Importante frisar que ambos contém as mesmas afirmações e são igualmente importantes, mas, seria excelente que os fiéis católicos soubessem recitar os dois credos e que o Niceno-constantinopolitando fosse mais utilizado, a fim de se preservar a praxe litúrgica.” fonte: (https://padrepauloricardo.org/aulas/nos-cremos)

Como surgiu o “Credo” e porque tem o nome de Símbolo dos Apóstolos ou Símbolo niceno-constantinopolitano?

Um símbolo era um instrumento que servia para se reconhecer a identidade de uma pessoa. Um general mandado para a guerra levava consigo a metade um símbolo, assim, quando o imperador quisesse mandar uma mensagem, encaminhava a outra metade do símbolo. E vice-versa. Isso garantia que a mensagem procedia realmente da fonte alegada.

Da mesma forma, no início do Cristianismo, quando alguém queria participar dos ritos deveria professar primeiro o símbolo da fé para, justamente, comprovar sua condição de católico.

Antigamente, a missa possuía duas partes, na primeira havia a palavra e a pregação, em que um pagão e o catecúmenos podiam participar. Porém a segunda parte do sacrifício eucarístico, não, só quem era cristão. Todos os que participavam do sacrifício eucarístico sabiam o símbolo da fé, o credo. Assim podíamos saber se estava ou não admitido à segunda parte. Assim, quando aos domingos o fiel se põe em pé e recita o Credo está fazendo uma declaração pública daquilo que crê, afirmando fazer parte da Igreja Católica Apostólica Romana e que está apto a participar de suas celebrações. (fonte: (https://padrepauloricardo.org/aulas/nos-cremos).

Por que precisamos professar a fé cristã pelos Símbolos da fé, ou seja, pelo Credo (Símbolo dos Apóstolos ou Símbolo niceno-constantinopolitano)?

“A comunhão da fé precisa de uma linguagem comum da fé…”

Diz São Cirilo de Jerusalém em Cathecese illuminandorum 5,12: “Esta síntese não foi elaborada segundo opiniões humanas, mas da Escritura inteira recolheu-se o que existe demais importante, para dar, na sua totalidade, a única doutrina da fé. E assim como a semente de mostarda contém em um pequeníssimo grão um grande número de ramos, da mesma forma este resumo da fé encerra em algumas palavras todo o conhecimento da verdadeira piedade contida no Antigo e no Novo Testamento.”

Por que se chama Símbolo dos Apóstolos?

“…considerado o resumo fiel da fé dos apóstolos

O Símbolo  é constituído de 3 partes pois ele fala sobre Deus-Pai e a obra da criação, depois de Deus-Filho e a obra da redenção e Deus Espírito Santo e a obra de santificação.

O Símbolo é articulado, ou seja, tem 12 artigos (de articulação), pois  simboliza …”com o número dos apóstolos o conjunto da fé apostólica.”

Por que falamos em Símbolo niceno-constantinopolitano?

“….tem a sua grande autoridade no fato de ter resultado dos dois primeiros Concílios ecumênicos (325 e 381).

Outras Profissões de Fé

Não é somente pelo Credo que professamos nossa fé. Fazemos, igualmente, por meio do:

  • Quicumque ou Símbolo Atanasiano de Santo Atanásio;
  • Credo do Povo de Deus Paulo VI (1968);

Também são importantes pois “…nos ajudam a viver e a aprofundar hoje a fé de sempre por meio de diversos resumos que dela têm sido feitos.” (ponto 193, do Catecismo)

Por que é tão importante ter fé, crer, acreditar nas revelações de Deus?   

 Porque a nossa justificação vem da graça do Espírito Santo (livre iniciativa de Deus) e da nossa fé (livre resposta do homem) – vide ponto 2002 do Catecismo. “A justificação comporta a remissão dos pecados, a santificação e a renovação do homem interior.”  Ponto1989, Catecismo     “A justificação nos foi merecida pela Paixão de Cristo e nos é concedida por meio do Batismo. Faz-nos conformes à justiça de Deus, que nos torna justos. …Tem como meta a glória de Deus e de Cristo e o dom da vida eterna.” Ponto 2020, Catecismo.   

 “Quem *crer* e for batizado será salvo”, disse Jesus quando apareceu aos Onze já ressuscitado (Marcos 16,16)

“Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, pois para se achegar a ele é necessário que se creia primeiro que ele existe e que recompensa os que o procuram.” (São Paulo aos Hebreus 11, 6.)

Por que é importante crer, ter fé, acreditar nas revelações de Deus?

Crer nas revelações de Deus é importante pois, como diz o Papa Francisco, na Carta Encíclica Lumen Fidei (item 18):

“…a fé possui outro aspecto decisivo: na fé, Cristo não é apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação do amor de Deus, mas é também Aquele a quem nos unimos para poder acreditar. A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver.”

Fé é mais do que olhar para Jesus; fé é olhar com os olhos de Jesus, diz o Papa Francisco.

Condição para eficácia da fé: união com Cristo

“ …Como podemos anunciar Cristo, fazer as obras que Ele nos pede, se não o temos conosco, se não nos vamos identificando com Ele por uma fé manifestada pela oração e pelos sacramentos?….

Se nos fundirmos com Cristo, pela oração assídua, pela participação ativa no sacrifício do altar, que nos há de levar à comunhão sacramental, iremos produzindo em nós os traços de Cristo, e ´nas ações do discípulo ir-se-á descobrindo o rosto do Mestre´. E assim seremos bons instrumentos da eficácia divina.”

(A Alegria de Crer, Francisco José de Almeida, Quadrante, São Paulo, 2012).

Por que é importante ter fé?

Em questão de Amor a Deus, o primeiro degrau para chegarmos ao Amor de Deus: Fé

Estágios para chegar a Amar a Deus

  • : Deus me ama e se entregou por mim na Cruz. Deus é Amor.
  • Porque Deus me ama, eu me amo
  • Porque eu me amo por causa de Deus, amo ao próximo como a mim mesmo por causa de Deus.
  • Caridade: Porque Deus me ama, eu O Amo, por causa Dele mesmo.

Degraus da fé

Lembrar sempre que o 1º. Mandamento é Amar a Deus sobre todas as coisas. Precisamos iniciar subindo o primeiro degrau no Amor a Deus e ao próximo que é a FÉ

A Fé torna-se o pressuposto para Amarmos a Deus  -Sem fé, não existe amor.

Não é “mandamento” pois não existe um amor como ordem, como coação

Na realidade, quando Deus nos pede para Amá-Lo significa que Ele nos quer seus filhos. Todo filho ama seu Pai, a quem deve o seu ser e todos os cuidados que o Pai lhe dispensa.

Quando Deus nos pede para Amá-Lo não é um “mandamento”, mas uma “resposta” Áquele que nos amou primeiro (Ele nos amou antes que nós tivéssemos a iniciativa. A iniciativa foi TODA DELE.

Amar a Deus sobre todas as coisas é a NOSSA RESPOSTA, na condição de filhos de um Pai maravilhoso como Deus é.

Não dá para Amar a Deus se não ACREDITARMOS NELE E NAQUILO QUE ELE REVELOU (OU SEJA, NÃO HÁ AMOR SEM FÉ). A FÉ É O PRESSUPOSTO DO AMOR.

Pode existir amor a Deus sem fé?

Não.

A fé é o primeiro degrau da escadaria que nos leva a amar a Deus sobre todas as coisas.

Quem não tem fé, não ama a Deus.

Pode existir fé sem amor a Deus?

Sim. Pode ser que uma pessoa tenha fé, que é o primeiro degrau, mas ainda não chegou ao Amar a Deus sobre todas as coisas.

Isso pode ocorrer por:

  • Cometimento do pecado mortal
  • Porque a pessoa tem fé, mas o seu amor a Deus ainda está cheio de egoísmo (ama a Deus não por si mesmo, mas por aquilo que Ele pode proporcionar);
  • Porque a pessoa tem fé, mas o seu amor a Deus é ainda um temor (ama a Deus não pela Pessoa Dele, mas por medo de ir para inferno).

Fé sem amor; Amor sem fé.

  • Santo Tomás de Aquino tem um nome para tudo isso.

Ele diz que uma fé com amor a Deus é uma FÉ INFORMADA (é uma fé informada pela caridade).

Ele diz que uma fé sem amor a Deus é uma FÉ INFORME (é uma fé sem estar pautada, informada pela caridade, amor a Deus).

Fé sem amor: tem medo, voltou atrás e começa a descer…

Qual é a consequência de uma fé sem amor a Deus, uma fé sem caridade?

A consequência é que essa fé existe, porém ela é uma fé cadáver, uma fé morta.

Quem nos explica isso muito bem é Santo Tomás de Aquino e também São Thiago, o Apóstolo

Vejamos:

Santo Tomás de Aquino: Fé viva e Fé morta

Como diz São Tomás uma fé que não é informada pela caridade, que não anima o agir moral do cristão para o bem, é por ele chamada fé informe.

Essa fé sem caridade é uma fé morta porque o que dá vida à fé é a caridade, o amor a Deus. Essa fé sem caridade é uma fé sem obras. É o caso de quem,  apesar de se dizer que acredita em Deus, não age a pessoa por caridade (por amor a Deus).

Por outro lado, como diz o Catecismo e São Paulo, a fé deve ser  “viva que age pela caridade” (ponto 1814 do Catecismo e Carta de São Paulo aos Gálatas 5,6).Fé informada pela caridade é  chamada por São Tomás de Aquino de fé informada, ou seja é uma fé viva, uma fé com obras, uma fé que anima o cristão a agir por caridade, por amor a Deus.

São Tomás de Aquino –  fé informada (viva) x fé informe(morta)

Sendo crer um ato do intelecto, que assente à verdade, por império da vontade, duas condições se requerem para esse ser perfeito. Uma, que o intelecto tenda infalivelmente para o seu bem, que é a verdade; outra, que infalivelmente se ordene ao fim último, por causa do qual a vontade assente à verdade. Ora, ambos esses elementos se encontram na fé informada. Pois, é da essência mesma da Fé, que o intelecto seja sempre levado para a verdade, pois a fé não é susceptível de falsidade, como já estabelecemos. Ora, pela caridade, que informa a fé, a alma tem uma vontade que se ordena infalivelmente para um fim bom. Logo, é virtude a fé informada. (site: permanencia.org)

Santo Tomás de Aquino: fé informe ou fé morta

Pode ocorrer que um sujeito tenha fé informada (pela caridade) mas pelo pecado mortal que tiver praticado (por não ter correspondido à graça divina de não cair naquela tentação), passa a ter uma fé informe, ou seja, uma fé informe, uma fé não informada pela caridade.  E daí, estando em pecado mortal, sua fé será morta também, será uma fé sem caridade, sem obras.     Neste caso, segundo São Tomás de Aquino, temos uma fé, mas, por ser uma  fé sem estar informada pela  caridade, que não pode ser considerada virtude teologal, pois só há virtude se a fé for informada pela caridade. E mais,  salvação, como vimos, só vem pela fé (com caridade, com obras).

 São Tiago explica sobre a fé com obras

De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso esta fé poderá salvá-lo?

Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano,

e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará?

Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma.

Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras. Mostra-me a tua fé sem obras e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.

Crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios crêem e tremem.

Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é estéril?

Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar?

Vês como a fé cooperava com as suas obras e era completada por elas.

Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus (Gn 15,6).

como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé?

Do mesmo modo Raab, a meretriz, não foi ela justificada pelas obras, por ter recebido os mensageiros e os ter feito sair por outro caminho?

Assim como o corpo sem a alma é morto, assim também a fé sem obras é morta.

(Fonte: Epístola de São Tiago 2, 14-26)

O dom da fé nos transforma em nova criatura: filho(a) de Deus

O Papa Francisco diz que a fé olha não só para Jesus mas “com os seus olhos”. Sendo assim, os olhos de Jesus são olhos de um Filho de Deus. Nós também devemos nos conscientizar na nossa filiação divina por adoção pela graça divina.

“Aquele que acredita, ao aceitar o dom da fé, é transformado em uma nova criatura, recebe um novo ser, um ser filial, torna-se filho no Filho: ´Abbá, Pai´é a palavra mais característica da experiência de Jesus que se torna centro da experiência cristã (cf. Rm 8,15).” (Carta Encíclica Lumen Fidei, item 19, Sumo Pontífice Francisco).

Fé: olhar com os olhos do Filho de Deus; olhar como filhos adotivos, pela graça

Jesus nos explica o que é Ser Filho de Deus:

Um dos que estavam ali era paralítico fazia trinta e oito anos.
Quando o viu deitado e soube que ele vivia naquele estado durante tanto tempo, Jesus lhe perguntou: “Você quer ser curado? ”
Disse o paralítico: “Senhor, não tenho ninguém que me ajude a entrar no tanque quando a água é agitada. Enquanto estou tentando entrar, outro chega antes de mim”.
Então Jesus lhe disse: “Levante-se! Pegue a sua maca e ande”.
Imediatamente o homem ficou curado, pegou a maca e começou a andar. Isso aconteceu num sábado,
e, por essa razão, os judeus disseram ao homem que havia sido curado: “Hoje é sábado, não lhe é permitido carregar a maca”.
Mas ele respondeu: “O homem que me curou me disse: ‘Pegue a sua maca e ande’ “.
Então lhe perguntaram: “Quem é esse homem que lhe mandar pegar a maca e andar? ”
O homem que fora curado não tinha idéia de quem era ele, pois Jesus havia desaparecido no meio da multidão.
Mais tarde Jesus o encontrou no templo e lhe disse:
“Olhe, você está curado. Não volte a pecar, para que algo pior não lhe aconteça”.
O homem foi contar aos judeus que fora Jesus quem o tinha curado.
Então os judeus passaram a perseguir Jesus, porque ele estava fazendo essas coisas no sábado.
Disse-lhes Jesus: “Meu Pai continua trabalhando até hoje, e eu também estou trabalhando”.
Por essa razão, os judeus mais ainda queriam matá-lo, pois não somente estava violando o sábado, mas também estava até mesmo dizendo que Deus era seu próprio Pai, igualando-se a Deus.

Jesus lhes deu esta resposta: “Eu lhes digo verdadeiramente que o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer, porque o que o Pai faz o Filho também faz.
Pois o Pai ama ao Filho e lhe mostra tudo o que faz. Sim, para admiração de vocês, ele lhe mostrará obras ainda maiores do que estas.
Pois, da mesma forma que o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, o Filho também dá vida a quem ele quer dá-la.
Além disso, o Pai a ninguém julga, mas confiou todo julgamento ao Filho,
para que todos honrem o Filho como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, também não honra o Pai que o enviou.

“Eu lhes asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida.
Eu lhes afirmo que está chegando a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles que a ouvirem, viverão.
Pois, da mesma forma como o Pai tem vida em si mesmo, ele concedeu ao Filho ter vida em si mesmo. E deu-lhe autoridade para julgar, porque é o Filho do homem.
“Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz
e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados

O  Filho faz o que o Pai faz

Por isso Jesus disse a Filipe: “Filipe quem a mim vê, viu ao Pai”.

O Filho é aquele que tanto mais é autêntico Filho quanto mais faz o que o Pai faz. O Pai lhe transmite tudo.

Nós também devemos fazer o que Deus Pai faz. As obras de Deus Pai são obras de amor.

“Sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito”, disse Jesus.

A fé implica olhar com os olhos de um filho de Deus, disse o Papa Francisco.

Então, quer dizer que não devo crer por causa de um medo, para não ir para o inferno?

Não devemos crer para se livrar do inferno.

Quem crê em Jesus e em tudo o que Ele revelou, deve fazê-lo não por medo do inferno, já que Ele mesmo disse que “aquele que não crer será condenado”. Mas, o “que a Santa Igreja nos propõe para crer, porque Ele é a própria Verdade.” (ponto 1814, Catecismo da Igreja Católica). Além disso, o crer tem a ver com o nosso amor por Deus.

Como vai a sua fé?

  1. a) É uma Fé viva?

Fé viva= Fé que me leva a um  agir pela Caridade

“O justo viverá da ” (São Paulo aos Romanos 1,17)

A vivaage pela caridade” (São Paulo aos Gálatas 5,6).

Caridade é “a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e a nosso próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.” Ponto 1822 do Catecismo

Fé viva, com obras: Agir porque se Ama a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo (Caridade)

A fé viva, com obras: Agir porque amo o meu próximo por amor de Deus – “Este é o meu preceito: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Caridade)

  1. b) é uma Fé morta?

Fé morta: sem o agir pela Caridade (amor a Deus e ao próximo como a nós, por amor de Deus)

  1. c) fé frágil: pedir a Deus, como fez o pai do jovem epiléptico (Marcos 9,14)

Mas como fortaleço a minha fé?

Pela Esperança. Tendo certeza de que podemos confiar nas promessas de Cristo e no socorro da graça do Espírito Santo:    “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê”. (São Paulo aos Hebreus 11, 1)

Há Esperança se “desejamos como nossa felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo, apoiando-nos não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo.” Ponto 1817, do Catecismo

Fé e  Esperança estão intimamente ligadas?

Sim. As vezes, são conceitos que se confundem:

I Pedro 3, 14: “Estai sempre prontos a responder em vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão da vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito.” (“esperança equivale a fé” – Carta Encíclica Spe Salvi do Sumo Pontífice Bento XVI – ponto 2).

Efésios 2.3 “lembrai-vos de que naquele tempo estáveis sem Cristo, sem direito da cidadania em Israel, alheios às alianças, sem esperança da promessa e sem Deus neste mundo.” (“Paulo lembra aos Efésios que antes do seu encontro com Cristo estavam sem esperança (sem esperança fidedigna) e sem Deus no mundo”- Carta Encíclica Spe Salvi do Sumo Pontífice Bento XVI – ponto 2).

Fé – Esperança  – Caridade :

“virtudes teologais que fundamentam, animam e caracterizam o agir moral do cristão.” ponto 1813, do Catecismo.

Se eu ou alguém não tiver fé eu posso pedi-la a Deus?

Sim, pode e deve, porque a fé é UMA GRAÇA.   “…a fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por Ele.”  (ponto 153, do Catecismo)

Fé: é graça é um dom sobrenatural (vem de Deus)

Precisamos entender como se inicia a fé, que é um dom, uma graça sobrenatural:

  • Com o batismo, Deus nos concede três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Como é algo imerecido, algo que vem totalmente da iniciativa de Deus, chamamos isso de graça (dom gratuito de Deus para nós). É a graça que produz a nossa fé sobrenatural, não somente quando esta começa, inicialmente, a existir no homem, mas também enquanto durar ao longo de toda a nossa vida. Deus sempre opera a justificação do homem assim como o sol sempre opera a iluminação do ar.
  • 2- Para conservar a fé, precisamos lutar contra o pecado, sobretudo o mortal que mata a fé sobrenatural pela perda da caridade e precisamos lutar contra nossos vícios para aumentarmos em fé sobrenatural e assim chegarmos a Amar a Deus por Si mesmo;
  • 3- Podemos pedir isso tudo para nós e para o próximo.

Você sabia que a fé é um dom de Deus e ela facilitará em nós que o obedeçamos?

É a chamada “obediência da fé”.

“Obedecer (´ob-audire´) na fé significa submeter-se livremente à palavra ouvida, visto que sua vontade é garantida por Deus, a própria Verdade.” Ponto 144, do Catecismo.

Virgem Maria: um exemplo de obediência da fé.

Quando o Anjo Gabriel lhe apareceu e anunciou que  Ela conceberia o Filho de Deus, ela OUVIU, ADERIU, SUBMETEU-SE à vontade de Deus, comunicada pelo Anjo. Ela  compreende intelectualmente na Palavra de Deus e, adere a ela por meio da sua própria vontade ao plano divino. Esse seu sim foi uma correspondência à graça divina que sempre precede o nosso agir. Não nos esqueçamos que a Virgem Maria é “cheia de graça” (Lc 1,28).

A fé não é uma adesão cega a algo que me dizem?

Não. Não é uma adesão cega.

Eu compreendo que minha fé, minha adesão às Verdades Reveladas ocorre “por causa da autoridade de Deus que revela e que não pode nem enganar-Se nem enganar-nos” (ponto 156, do Catecismo).

A fé é algo imposto por Deus?

Não.  A FÉ É UM ATO QUE DEPENDE DA NOSSA VONTADE, DO  NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO. DEUS NUNCA COAGE NINGUÉM EM SUA VONTADE:  Jesus com vida à fé. Só que quem se salva é justamente quem CRÊ EM JESUS. Foi  isso que Deus-Pai desejou, que só vai para o céu, quem acredita em JESUS, no  Filho Dele, e acreditar é aderir ao que está no Evangelho e que foi transmitido  Oralmente aos apóstolos (hoje, os Bispos).

Conclusão: a  fé é também um ato humano

Como vimos a inteligência (“Como se fará isso se não conheço varão? Lc 1,35) e a vontade (“faça-se em Mim segundo a tua Palavra” Lc 1,38) da Virgem Maria cooperaram com a graça divina (Deus a cumulou de graças desde a sua concepção).

Assim, podemos dizer que “Crer é um ato da inteligência que assente à verdade divina a mando da vontade movida por Deus através da graça” (citação feita no ponto 155, do Catecismo, referindo-se a São Tomás de Aquino, Suma Theologica II-II, 2,9).

Não confundir a fé que procura compreender, de uma dúvida de quem não crê

Existe uma Verdade.

A vontade dirá ao intelecto: “Creia!”, porque Deus lhe deu a graça para crer e abre os nossos olhos para consentir numa Verdade.

Exemplo: Aceito que a Virgem Maria tem uma virgindade perpétua (Eu creio) – é a minha vontade que crê.

Depois buscarei as razões – pela inteligência – para melhor compreender aquilo que já creio.

“Compreendo para melhor crer”

Diz a Sagrada Escritura: “Se não crerdes, não entendereis.”

Por que Deus não aparece para nós crermos?

Porque Deus é Todo-Poderoso, mas  Ele se esconde de nós para que COM A NOSSA LIBERDADE, o amemos.

Se Ele aparece a nós Face a Face, desapareceria a nossa liberdade para amar, pois é óbvio que, quando o virmos, Ele é A Bondade, A Beleza, A Inteligência, não teríamos escolha senão querer amá-Lo.

Por isso, Ele não pode aparecer agora, pois Ele quer livremente atos de amor da nossa parte.

Para ter fé eu preciso “sentir” a caridade? A fé é um sentimento?

 Não, a FÉ não é um sentimento é atitude. Se sentirmos ternura por Deus isso é ótimo. Mas, de nada adianta alguém sentir só ternura, e não fazer o que Ele nos pede. Assim, a fé  deve ser acompanhada de um“agir”. Como diz São Paulo em Gálatas 5,6: A fé “age pela caridade”. Agindo pela caridade (amor a Deus) a fé pode ser considerada VIRTUDE, e por ser infundida por Deus e dizer respeito a Ele, é VIRTUDE TEOLOGAL.

Fé são obras e não “boas razões”.

Quer dizer que uma fé verdadeira é aquele crer e agir por amor a Deus?

Sim. Crer em Jesus de verdade significa não só entender e aderir ao que ele nos disse e revelou, mas agir conforme esse entendimento e essa adesão para o bem e por amor a Deus (caridade).

O Papa Francisco nos explica na sua Carta Apostólica Lumen Fidei (item 18) que existe uma diferença enorme entre “Crer a” Jesus e “Crer em” Jesus.

“Cremos a Jesus quando aceitamos a sua palavra, o seu testemunho, porque Ele é verdadeiro (cf. Jo 6,30). Cremos em Jesus, quando O acolhemos pessoalmente na nossa vida e nos confiamos a Ele, aderindo a Ele no amor e seguindo-O  ao longo do Caminho (cf. Jo 2,11; 6,47; 12,44).

Jesus já disse: “Nem todo  aquele que me diz Senhor, Senhor, que entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus” (Mt 7, 21– Sermão da Montanha).

Jesus disse: “Aquele que crer em Mim possui a vida eterna” (Jo 5,24).

“En muchos pasajes del cuarto Evangelio afirma: ´Aquel que cree em mí posee la vida eterna´, es decir: aquel que cree en mí, que soy el Hijo de Dios, con fe viva unida a la caridade y a la práctica de los mandamientos, esse tal tiene em sí la vida eterna iniciada.”  (Garrigou-Lagrange, Las Tres Edades de La Vida Interior – Preludio de La Del Cielo – Tomo I – Quinta Edición – versión castellana de P. Leandro de Sema, Ediciones Palabra, Madrid, p.33).

Papa Francisco recentemente fala sobre a fé com obras:

Cidade do Vaticano (RV) – “Uma fé que não dá fruto nas obras não é fé”: esta foi a afirmação com a qual o Papa Francisco iniciou sua homilia na Missa presidida esta manhã na Casa Santa Marta. (…) Em sua reflexão, o Pontífice recordou que o mundo é repleto de cristãos que recitam as palavras do Credo, mas não as colocam em prática. Ou de eruditos que catalogam a teologia numa série de possibilidades, sem que esta sabedoria tenha depois reflexos concretos na vida. Fonte: 2014-02-21 Rádio Vaticana (http://www.news.va/pt/news/francisco-uma-fe-sem-obras-nao-e-fe).

Papa Francisco  reflete sobre a fé 

É um risco para o qual S. Tiago já havia acenado dois mil anos atrás e que o Papa Francisco retomou na homilia, comentando o trecho da carta do Apóstolo. “A sua afirmação – observou – é clara: a fé que não dá fruto nas obras não é fé”:

Também nós erramos muitas vezes quanto a isto. Ouvimos pessoas que dizem: ‘Mas eu tenho tanta fé’, ‘eu acredito em tudo …’. E talvez esta pessoa que diz isso tenha uma vida morna, frágil. A sua fé é como uma teoria, mas não está viva em sua vida. O Apóstolo Tiago, quando fala de fé, fala justamente da doutrina, daquilo que é o conteúdo da fé.      Fonte: 2014-02-21 Rádio Vaticano     http://www.news.va/pt/news/francisco-uma-fe-sem-obras-nao-e-fe

Papa Francisco reflete sobre os que pensam na fé como sistema ideológico  

No Evangelho – prosseguiu Francisco –, se encontram dois sinais reveladores de quem “sabe no que deve acreditar, mas não tem fé”. O primeiro sinal é a “casuística”, representado por aqueles que perguntavam a Jesus se era lícito pagar as taxas ou qual dos sete irmãos do marido deveria se casar com a mulher que ficou viúva. O segundo sinal é a “ideologia”:
(São) os cristãos que pensam a fé como um sistema de ideias, ideológico: existiam também no tempo de Jesus. O Apóstolo João os chama de anticristo, os ideólogos da fé, independente de sua proveniência. Naquele tempo havia os gnósticos, mas existirão muitos… E assim, esses que caem na casuística ou na ideologia são cristãos que conhecem a doutrina, mas sem fé, como os demônios. Com a diferença de que estes tremem, aqueles não: vivem tranquilos.  Fonte: 2014-02-21 Rádio Vaticana http://www.news.va/pt/news/francisco-uma-fe-sem-obras-nao-e-fe

Papa reflete sobre a fé verdadeira – fé que leva ao testemunho:

Pelo contrário, recordou o Papa, no Evangelho existem também exemplos de “pessoas que não conhecem a doutrina, mas têm muita fé”. O Pontífice citou três episódios, sendo um deles o da Samaritana, que abre o seu coração porque encontrou Jesus Cristo, e não verdades abstratas:
A fé é um encontro com Jesus Cristo, com Deus, e dali nasce e leva ao testemunho. É isso que o Apóstolo quer dizer: uma fé sem obras, que não envolva, que não leve ao testemunho, não é fé. São palavras e nada mais que palavras.      Fonte: 2014-02-21 Rádio Vaticana http://www.news.va/pt/news/francisco-uma-fe-sem-obras-nao-e-fe

Daqui para frente, quando eu falar “eu tenho fé”, devo ter em mente que só tenho fé mesmo se eu agir por caridade, por amor a Deus?

Sim.

E foi isso que Jesus trouxe de novo.

O que justifica o homem não é o cumprimento frio de uma porção de regras e mandamentos, mas o cumprimento com caridade, por amor a Deus, sendo que a graça divina virá sempre antes para vivificar e facilitar esse agir.

Fé x combate: PERSEVERAR

Estaremos sendo tentados a perder a fé, ora na existência, ora no Amor e Bondade de Deus.

A fé é só o início de um combate.

A fé pode ser perdida, se não perseverarmos.

O que dispomos como instrumento para chegar a Amar a Deus é o TEMPO.

O tempo que dispomos é PARA AMAR A DEUS. No céu será a continuidade do que já fazíamos aqui. Quem entra no céu é quem AMA A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS, COM TODAS AS FORÇAS, COM TODA A ALMA, COM TODAS AS FACULDADES.

O Deus escondido

Cântico Espiritual 6,6 – Deus brinca de esconde- esconde conosco e exercita-nos na fé
6 – “…Isto, Esposo meu, que andas concedendo de ti parceladamente à minha alma, acaba por dar de uma vez. O que me tens mostrado como por resquícios, acaba de mostrá-lo às claras. Quanto me comunicas por intermediários, como de brincadeira, acaba de fazê-lo a sério, dando-te a mim diretamente. Na realidade, às vezes, em tuas visitas, parece que vais entregar-me a jóia de tua posse; e quando minha alma considera bem, acha-se sem ela, porque a escondes, e isto é dar de brincadeira. Entrega-te, pois, já deveras, dando-te todo a toda minha alma, para que ela te possua todo, e não queiras enviar-me mais mensageiro algum”     (São João da Cruz)

Cântico Espiritual 1, 12 – Buscar a Deus escondido  (São João da Cruz)
12 – “Fazes muito bem, ó alma, em buscar o Amado sempre escondido, porque muito exaltas a Deus, e muito perto deles te chegas, quando o consideras mais elevado e profundo que tudo quanto podes alcançar. Por esta razão, não te detenhas, seja em parte, seja no todo, naquilo que tuas potências podem apreender. Quero dizer: jamais desejes satisfazer-te nas coisas que entendes de Deus; antes procura contentar-te no que não compreenderes a respeito dele. Nunca te detenhas em amar e gozar nessas coisas que entendes ou experimentas, mas, ao contrário, põe teu amor e deleite naquilo que não podes entender ou sentir; porque isso, como dissemos, é buscar a Deus na fé. Visto como Deus é inacessível e escondido, conforme também já explicamos, por mais que te pareça achá-lo, senti-lo ou entendê-lo, sempre o hás de considerar escondido, e o hás de servir escondido às escondidas. E não sejas como tantos incipientes que consideram a Deus de modo mesquinho, pensando estar ele mais longe ou mais oculto, quando não o entendem, nem o gozam, nem o sentem; mais verdade é o contrário, porque chegam mais perto de Deus quando menos distintamente o percebem. Assim o testifica o profeta Davi: “Pôs nas trevas o seu esconderijo” (Sl 17,12). Logo, ao te aproximares de Deus, forçosamente hás de sentir trevas, pela fraqueza de teus olhos. Fazes, pois, muito bem, em toda ocasião, seja de adversidade ou prosperidade temporal ou espiritual, em considerar sempre a Deus como escondido, e desse modo clamar a ele, dizendo: onde é que te escondeste”

Ter fé não por recompensas, mas por Deus mesmo

“Pode parecer estranho que Nosso Senhor, ao mesmo tempo em que se faz carne e habita no meio dos homens, se oculte. No entanto, Ele quer que seja assim para que O busquemos não tanto pelo desejo de recompensas, como por Ele mesmo; mais que nos amar, Ele deseja receber o nosso amor. Deus se rebaixa, torna-se de alguma forma dependente das migalhas de nosso amor, pois sabe que só assim nos tornaremos semelhantes a Ele e participaremos de Sua divindade.”     https://padrepauloricardo.org/episodios/17-domingo-do-tempo-comum-o-tesouro-escondido-no-campo?mc_cid=9d8581bf3c&mc_eid=d955758d47#at_pco=smlwn-1.0&at_si=53d6989a29ac1dda&at_ab=per-2&at_pos=0&at_tot=1

Porque Eu Te Amo, meu Deus…

“O que nos torna seguidores de Cristo não é um conjunto de normas ou um código de práticas exteriores, mas uma atitude interna de amor a Nosso Senhor.” (Padre Paulo Ricardo) https://padrepauloricardo.org/episodios/17-domingo-do-tempo-comum-o-tesouro-escondido-no campo?mc_cid=9d8581bf3c&mc_eid=d955758d47#at_pco=smlwn-1.0&at_si=53d6989a29ac1dda&at_ab=per-2&at_pos=0&at_tot=1

Tu acreditaste, Tomé, porque Me viste; bem-aventurados os que acreditaram sem terem visto“. (João 20,29).

Fé – começo da vida eterna

A fé nos faz degustar como por antecipação a alegria e a luz da visão beatífica, meta de nossa caminhada na terra. Veremos então a Deus ´face a face´(1 Cor 13,12), ´tal como Ele é´(1 Jo 3,2). A fé já é, portanto, o começo da vida eterna.” (ponto 163, Catecismo).

Por “ora, todavia, ´caminhamos pela fé, não pela visão (2 Cor 5,7) e conhecemos a Deus ´como que em um espelho de uma forma confusa..imperfeita´( 1 Cor 13.12). A fé pode ser posta à prova.” (pont164, Catecismo)

Contudo, devemos crer e pela Igreja, já que o crer é um “ato eclesial” pois “a Igreja precede, gera, sustenta e alimenta nossa fé” (ponto 181,Catecismo).

Deus não se engana, não mente: Ele é “a Verdade, o Caminho e a Vida” (Jo 14, 6)

Jesus não mente. Eis a promessa que Ele nos fez:  “Aquele que crer e for batizado será salvo”.(Mc 16,16)

Propósitos

  • Rezar o Creio todos os dias
  • “Para viver, crescer e perseverar até o fim na fé, devemos alimentá-la com a Palabra de Deus; devemos implorar ao Senhor que a aumente; ela deve agir pela caridade (Gl 5,6) ser carregada pela esperança e estar enraizada na fé da Igreja.” (ponto 162, do Catecismo).
  • Rezar pelas pessoas que não têm fé, para que Deus lhes dê o dom da fé pela sua graça e para que aumente a nossa fé com caridade e esperança.

Pedido final

    “Peço a São Josemaria que nos empenhemos em pronunciar a palavra credo, creio, com a paixão santa com que ele a repetia em muitas ocasiões ao longo do dia. Também nos aconselhava: aprende a louvar o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Aprende a ter uma especial devoção pela Santíssima Trindade: creio em Deus Pai, creio em Deus Filho, creio em Deus Espírito Santo; espero em Deus Pai, espero em Deus Filho, espero em Deus Espírito Santo; amo Deus Pai, amo Deus Filho, amo Deus Espírito Santo. Creio, espero e amo a Trindade Santíssima. E continuava: faz-nos falta esta devoção como um exercício sobrenatural da alma, que se traduz em atos do coração, ainda que nem sempre se verta em palavras.”     (fonte: Javier Echevarria, Compilações das Cartas aos fieis durante o ano da fé, 2012-3, Creio, Cremos, p. 10)

Categoria: Catecismo da Igreja Católica

Aula 03:  A resposta do Homem a Deus: “Eu creio”, “Nós Cremos” – Profissão da fé Cristã pelos Símbolos da Fé

Pontos 142 a 197

Sendo Jesus Deus Filho que Se encarnou, porque não impediu a Sua morte na Cruz?

Vamos analisar esta questão na forma de perguntas e respostas, com base no Catecismo da Igreja Católica, pontos 595 a 623.

Jesus morreu na Cruz?

Sim.

Até hoje existem pessoas que não acreditam que Jesus realmente morreu crucificado.

É uma ignorância, porque a morte por crucificação foi inventada pelos persas antes de Cristo, entre 539 a 533 a.C. Era uma forma de punir escravos rebeldes, criminosos violentos, subversivos políticos.

Isso é histórico, quem não se lembra da história de Spartacus, que foi crucificado juntamente com 6 mil homens pelo governo romano em 70 a.C. Relembrando a história, Spartacus era escravo e condenado a passar a sua vida inteira trabalhando em condições precárias, sub-humanas no deserto. Acaba sendo comprado por um agente de gladiadores e nesta condição era obrigado a lutar até a morte para divertir a elite da época. Ele, então, lidera uma revolução de escravos que ameaça o Império Romano.

A morte na cruz era dolorosa, levava até 3 dias, por isso geralmente o condenado era torturado antes.  Quando a pessoa morria, não era enterrada, mas era deixada para os urubus a comerem.

A crucifixão só foi extinta em 313 depois de Cristo, pelo Imperador Romano Constantino.

Assim, não há sentido para negarmos fatos que são históricos e que possuem diversos registros.

No caso de Jesus, Ele “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado.”

Antes de morrer crucificado (Ele já sabia que isso ocorreria), Ele orou no Horto das Oliveira e até suou sangue. Esse suar sangue é um fenômeno bem raro, acontecendo com pessoas que estão abatidas fisicamente e estão sob forte emoção de medo.

Eis o que se diz sobre a hematidrose:

“A hematidrose é um fenômeno raríssimo apenas uma fraqueza física excepcional onde o corpo inteiro dói, acompanhada de um abatimento moral violento causada por uma profunda emoção, por um grande medo. Apenas um ato destes pode causar o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas onde o suor anexa-se ao sangue formando a hematidrose.

A hematidrose pode ser mais entendida com uma transpiração de sangue acompanhada de suor: Hematidrose (hemato+hidrose).

O “suar sangue”, ´é chamado de “hematidrose“. Essa reação é produzida diante de condições excepcionais: para provocá-lo é necessário uma fraqueza física, acompanhada de um abatimento moral violento causado por uma profunda emoção, por um grande medo . A tensão extrema, com contrações musculares localizadas, produzem um rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas; o sangue se mistura ao suor e se concentra sobre a pele, e então escorre por todo o corpo

O fenômeno Hematidrose consiste em intensa vasodilatação dos capilares subcutâneos que distendidos ao extremo rompem-se. O sangue se mistura com o suor e esta mistura acaba surgindo pela superfície do corpo.” http://pt.wikipedia.org/wiki/Hematidrose

Depois de açoitado em cumprimento à ordem de Pôncio Pilatos, que era o prefeito (praefectus) da província romana da Judeia  entre os anos 26 e 36 d.C. (http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%B4ncio_Pilatos), Jesus foi crucificado e conforme o relato contido em “Marcos 15:25, ele resistiu ao tormento por aproximadamente seis horas, da hora terça (aproximadamente 9 da manhã) até a sua morte (Marcos 15:34-37), na hora nona (três da tarde).” http://pt.wikipedia.org/wiki/Crucifica%C3%A7%C3%A3o_de_Jesus

Como teria Jesus morrido na Cruz se Ele é Deus, e sendo assim é Imortal?

Pois é. A Pessoa de Jesus Cristo não é mesmo uma pessoa humana como nós.

A Pessoa de Jesus coincide com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Jesus é ser humano (natureza humana), mas não é uma pessoa humana (Sua Pessoa é divina).

É que simplesmente o Deus Filho, que é Imortal, também Todo-Poderoso, ASSUMIU UMA NATUREZA QUE NÃO ERA SUA, no curso da nossa História.

Depois da Sua Encarnação, Ele (Deus-Filho) possui dupla natureza: Divina (que teve e continua a ter) e a Humana (que passou a tê-la).

Ele é Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem (Dupla natureza).

Mas em relação à Pessoa, é uma só.

O mesmo Deus-Filho é a Pessoa Divina de Jesus.

Jesus não é uma pessoa humana.

 

Por que teria Jesus morrido na Cruz?

Ele morreu na cruz para remição dos nossos pecados.

Depois de Adão e Eva haverem pecado, o homem deixa de possuir aquelas justiça e santidades originais e deixam de estar no Jardim do Éden.

Eis o que diz o ponto 604, do Catecismo:

“Os pecados dos homens depois do pecado original são sancionados pela morte. Ao enviar seu próprio Filho na condição de escravo, condição de uma humanidade decaída e fadada à morte por causa do pecado, ´Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que, por ele, nos tornemos justiça de Deus. (2Cor 5,21).”

Jesus vem para nos reconciliar Consigo Mesmo, faz-se pecador e cumpre o que estaria destinado para nós pela Justiça Divina.

Pelo Seu Amor, no Espirito Santo, Ele não blasfema, Ele só Ama ao Pai e consegue fazer o que nunca conseguiríamos, Amar a Deus, prestar-lhe Culto, Honra e Adoração estando sofrendo atrozmente numa Cruz e o mais importante, nunca conseguiríamos que este ato tivesse valor infinito, pois somos criaturas finitas. Deus sabia que o Único que poderia oferecer algo de valor infinito era um Deus. No caso, Jesus fez isso, pois Ele é Pessoa Divina, não humana, mas tem natureza humana e divina e oferece o seu próprio Corpo em sacrifício.

Ainda que oferecêssemos a Deus o nosso próprio corpo em sacrifício, jamais conseguiríamos fazê-lo por um Amor perfeito, só Deus Filho o conseguiria, pois Ele Ama o Pai desde toda a eternidade no Espírito Santo, é também um Deus e o único que Conhece o Pai, que habita numa luz de glória inacessível a nós.

Jesus morreu na Cruz por amor:

“A Cruz não é só um ornamento para nossas igrejas, nem um mero símbolo que nos distingue dos outros; é o mistério do Amor de Deus” (Papa Francisco).

Quer dizer que a morte de Jesus estava no desígnio bem determinado de Deus?

Sim. “A morte violenta de Jesus não foi o resultado do acaso num conjunto infeliz de circunstâncias. Ela faz parte do mistério do projeto de Deus, como explica S. Pedro aos judeus de Jerusalém já em seu primeiro discurso de Pentecostes: ´Ele foi entregue segundo o desígnio determinado e a presciência de Deus ´(At 2,23).” (Catecismo, ponto 599).

Quer dizer que não houve pecado por parte daqueles que entregaram Jesus para ser crucificado?

Houve sim. Como para Deus o passado, presente e futuro estão presentes na atualidade Dele, Ele consegue estabelecer o Seu Projeto Eterno incluído neste a resposta livre – já prevista por Ele em Sua Inteligência – de cada homem.

Por isso Ele disse: “Ninguém me tira a vida, mas eu a dou livremente.” (Jo 10,18).

Ele já sabia o que fariam aqueles do Sinédrio, o Pôncio Pilatos, o Herodes, Judas…por conta dessa presciência. Mas sabe sem interferir na liberdade de cada um deles. Cada um agiu segundo a Sua liberdade, tanto para o Bem como para o Mal.

Essa presciência sobre a Morte Redentora de Jesus é comprovada porque na Bíblia existiam várias passagens falando sobre isso. “A morte redentora de Jesus cumpre em particular a profecia do Servo Sofredor. Jesus mesmo apresentou o sentido de sua vida e de sua morte à luz do Servo Sofredor (Is 53,7-8 e At 8,32-35). Após a sua Ressurreição, Ele deu esta interpretação das Escrituras aos discípulos de Emaús (Lc 24,25-27), e depois aos próprios apóstolos.(Lc. 24,44-45)”

Essa presciência não é algo mágico que Deus possui. Decorre de Ele conseguir prever todos os nossos atos, colocadas todas as variantes, circunstâncias simplesmente porque Ele é um Ser extremamente inteligente, Ele é Inteligência, Racional.

Essa presciência não é uma atitude passiva de Deus mau, que ficaria só observando o homem se dar mal. Essa presciência esse antever como iríamos e iremos nos comportar existe e não é mudado,  porque antes de agirmos Deus já nos teria dado e nos dará o que se chama teologicamente de GRAÇA.

Ele manda-nos a Graça para realizarmos nossos atos segundo Sua Bondade e Inteligência, porém como Ele nos deu a liberdade, ficamos livres para corresponder, para aderir a esse impulso da Graça, ou não.

Na presciência, Deus consegue prever que, Ele mandando a Graça, dando-nos todo o suporte para agirmos Bem, por nossa exclusiva culpa e livre-arbítrio, às vezes a recusamos e, assim, mudamos a nossa  predestinação (sermos santos e praticarmos o Bem).

Ele não muda o que ocorrerá, porque criou seres dotados de LIVRE-ARBÍTRIO. Mas também não nos deixa sem apoio TOTAL Dele, que é a GRAÇA. Quando alguém cai, foi por CULPA PRÓPRIA e nunca de Deus.

Somos tão livres que podemos arruinar o projeto de salvação que Deus conquistou de uma forma tão dolorosa.

Pela Cruz, quando jorrou água (além do sangue) no coração de Jesus, essa água é o símbolo do Espírito Santo e das graças criadas necessárias para conseguirmos nos salvar.

O problema é que tem pessoas que não acreditam nisso, não vão à fonte dessa água viva, que é Jesus e não obtêm as graças que precisarão, ao longo de sua jornada de vida, para chegar ao Céu.

Sendo assim, nunca poderão depois alegar que a culpa de terem não ido para o Céu, que foi de Deus.

Ele fez de tudo para nos resgatar objetivamente.

“A Igreja, no seguimento dos apóstolos (2 Cor 5,15, 1 Jo 2,2) ensina que Cristo morreu por todos os homens sem exceção: ´Não há, não houve e não haverá nenhum homem pelo qual Cristo não tenha sofrido.´(Conc. De Quiercy 853).” (Catecismo ponto 605).

Agora, no meu caso, preciso aplicar tais graças conquistadas para o meu caso concreto. Para isso, Deus jamais forçará. Ele quer que queiramos ir para o Céu, junto Dele, por amor, jamais forçados.

Se Ele quisesse, teria criado autômatos.

Mas, não quis seres livres, pois Ele sabe mais do que ninguém, que sem liberdade, o amor não existe.

Como podemos afirmar e comprovar que Jesus sabia que iria fazer uma oferta com Sua morte na Cruz?

Sabemos porque, na Ceia anteriormente realizada com os discípulos, Ele antecipa a oferta livre de Sua Vida, realizando o sacrifício incruento (sem sangue), mas ofereceu aí o Seu Corpo e o Seu Sangue aos Seus discípulos e mandou que isso fosse representado pelos Apóstolos posteriormente (pois já sabia que iria morrer).

“Jesus expressou de modo supremo a oferta livre de Si mesmo na refeição que tomou com os Doze Apóstolos (Mt 26,20) na  ´noite em que foi entregue´(1 Cor 11,23). Na véspera de sua Paixão, quando ainda estava em liberdade, Jesus fez desta Última Ceia com seus apóstolos o memorial de sua oferta voluntária ao Pai (1Cor 5,7), pela salvação dos homens: ´Isto é o meu corpo que é dado por vós´(Lc 22,19).  Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados ´(Mt 26,28). (Catecismo da Igreja Católica ponto 610).

“A Eucaristia, que instituiu naquele momento será o ´memorial´(1Cor 11,25) de seus sacrifício).” (Catecismo, ponto 611).

E como ele pede que o façam, que a perpetuem, também “institui seus apóstolos sacerdotes da Nova Aliança.” (Catecismo, ponto 611).

Esse sacrifício que foi feito por Jesus não é renovado em cada Santa Missa. Ele ocorreu uma só fez.

O memorial do sacrifício na Cruz, quando representado em cada Santa Missa, conta com a presença do próprio Jesus, que toma a voz do sacerdote e Ele mesmo pronuncia Aquelas palavras que disse na Última Ceia, tornando-nos participantes daquela mesma Ceia e daquele mesmo Sacrifício, embora não o vejamos.

Qual o sentido da afirmação “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós”?

O ponto 603 do Catecismo da Igreja Católica nos explica: “Jesus não conheceu a reprovação, como se Ele mesmo tivesse pecado. (Jo 8,46). Mas, no amor redentor que sempre o unia ao Pai, nos assumiu na perdição de nosso pecado em relação a Deus a ponto de poder dizer em nosso nome na cruz: ´Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? (Mc 15,34). Tendo-o tornado solidário de nós, pecadores, ´Deus não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós´(Rm 8,32), a fim de que fôssemos ´reconciliados com Ele pela morte de seu Filho´(Rm 5,10).

Jesus fez uma oferta a Deus Pai somente na Cruz?

Não. “Toda a vida de Cristo é oferenda ao Pai. (…) Desde o primeiro instante de sua Encarnação, o Filho desposa o desígnio de salvação divino em sua missão redentora: ´Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar sua obra´(Jo 4,34). (..) Este desejo de desposar o desígnio de amor redentor de seu Pai anima toda a vida de Jesus, pois sua Paixão redentora é a razão de ser de sua Encarnação: ´Pai, salva-me desta hora. Mas foi precisamente para esta hora que eu vim´(Jo 12,27). ´Deixarei eu de beber o cálice que o Pai me deu?´(Jo 18,11). É ainda na cruz, antes que tudo fosse ´consumado´)Jo 19,30), Ele disse: ´Tenho sede´(Jô 19,28).  (Catecismo da Igreja Católica – pontos 606 e 607).

Na realidade, Deus recapitula a vida do homem, pois de bebê indefeso, chega à idade adulta e substitui a nossa desobediência por sua obediência, que chega ao ponto de obedecer o Pai que lhe pede morte na Cruz. “Ele é primeiro um dom do próprio Deus Pai: é o Pai que entrega seu Filho para reconciliar-nos consigo (1 Jo 4,10).” (Catecismo, ponto 614).

Qual o sentido de dizer que Jesus “amou-nos até o fim”?

 

“É ´o amor até o fim´(Jo 13,1), que confere o valor de redenção e de reparação, de expiação e de satisfação ao sacrifício de Cristo. Ele nos conheceu a todos e amou na oferenda de sua vida (Gl 2,20).” (Catecismo, ponto 616).

Como o sacrifício feito por Jesus pode ter efeito para mim pessoalmente?

É que como Jesus é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade unida em nossa humanidade por uma união hipostática, Ele abraça toda pessoa e acaba sendo a Cabeça de toda a nova humanidade, por isso o Seu sacrifício se aplica a mim pessoalmente, porque faço parte do seu Corpo, do qual Ele é a Cabeça.

“…pelo fato de que, em sua Pessoa Divina encarnada, ´de certo modo uniu a Si mesmo todos os homens (GS 22,2)´, ´oferece a todos os homens, de uma forma que Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao Mistério Pascal´(GS 22,5).” (Catecismo, ponto 618).

 

É possível a minha salvação sem a minha cruz pessoal, já que Jesus já sofreu na Cruz por mim?

Jesus, une-nos ao Seu Mistério Pascal (Morte, Cruz,  Ressurreição) e chama quem quiser a ´tomar sua cruz e a segui-lo “

“Quer associar a seu sacrifício redentor aqueles mesmos que são os primeiros beneficiários dele (Mc 10,39; Jo 21-18-19, Cl 1,24). Isto realiza-se de maneira suprema em sua Mãe, associada mais intimamente do que qualquer outro ao mistério de seu sofrimento redentor. (Lc 2,35).” (Catecismo, ponto 618).

 

O livre-arbítrio

Deus concebe as Suas criaturas

Dando-lhes o livre-arbítrio de realizar o bem ou o mal…

Mas, por que o faria?

Se de antemão Ele sabia:

serão capazes igualmente do mal pela sua liberdade…

Pense que Ele não queria autômatos…

mas seres de muito amor e de muita bondade…

Você discorda de Deus?

Pense agora que Ele é a fonte de todo o nosso raciocínio…

Não sendo pois possível

Que Ele estaja errado e que  nós estejamos certos,

Pois a nossa singela opinião são como as ondas do mar,

jamais conseguirão o sentido da maré mudar…

Deus sabia, sim, que usaríamos nossa liberdade

De uma forma talvez bem errada…

Mas achou: “Vale a pena correr o risco!”

Não queria máquinas, queria corações…

E toda a felicidade que nos quer dar,

Nem se compara com os maiores arroubos das paixões,

uma felicidade eterna e de bem-estar…

(poesia de Líbia Florio,

baseada no texto de C.S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples).

Entendimento, Sabedoria, Conselho e Ciência

Já abordamos separadamente os dons do Temor Filial, da Fortaleza e da Piedade, e agora falaremos de quatro dons do Espírito Santo: do Entendimento, da Sabedoria, do Conselho e da Ciência.

Dom do Entendimento

Já lhe aconteceu alguma vez de, “de repente”, a sua inteligência captar um assunto da Revelação de Deus, algum assunto que você ouvira diversas vezes, mas que, agora você o compreendeu com a clareza de um dia ensolarado?

Pois é. É o que o Dom do Entendimento do Espírito Santo faz conosco.

Outro dia isto aconteceu comigo.  Sempre ouvi dizer que podemos santificar o trabalho, no trabalho e pelo trabalho, mas de um momento para outro, parece que a minha inteligência se abriu e “vi” que de fato, santificamos o trabalho, se realizamos com fé, com esperança e com caridade, ou seja, que o motivo de o estar realizando é agradar, louvar, agradecer a Deus por tudo o que só Ele É,  e que se estiver eu unida a Jesus durante a realização do meu trabalho, nós dois o realizaremos, e daí o meu trabalho passa a ser um trabalho meu e de Deus, um Opus Dei. Vou prestar assim mais atenção aos detalhes, tentar terminá-lo com o máximo de perfeição que eu puder, pois quem está dando forças, quem, afinal o estará realizando É Ele, sou um outro Cristo aqui na Terra no cumprimento dos meus deveres de estado (casada, profissional, socialmente ou dentro da minha família).

Também compreendi que posso santificar-me no trabalho, posso, unida a Deus, esforçar-me por praticar as virtudes, a prática do bem, correspondendo às graças abundantes que Deus me dá em todos os instantes…

E finalmente entendi que posso santificar os outros pelo meu trabalho, seja pelo bom exemplo de cumpri-lo com todas as virtudes, com fé, com esperança, com caridade, seja oferecendo a Deus aquele trabalho pelos meus colegas de trabalho, para que passem a amar a Deus de verdade, com obras…

Esse entendimento sobre uma determinada matéria que antes era tão difícil e complicada aconteceu pelo Dom do Entendimento.

Isso acontece no seio da Igreja também.

Muitas vezes, existe uma certa controvérsia sobre algum ponto teológico, por exemplo, o que aconteceu com a questão da Imaculada Conceição da Virgem Maria.

O Espírito Santo vem em auxílio para ensinar a Verdade.

Aliás, Jesus, na Última Ceia,  prometeu isso. Disso que Ele precisaria ir para o Pai, para que o Paráclito, o Espírito da Verdade viesse e nos ensinasse a Verdade sobre as coisas Reveladas por Deus.

Na realidade, a base do Dom do Entendimento é o amor por Deus, porque: “Pouco a pouco, à medida que o amor vai crescendo na alma, a inteligência do homem resplandece mais e mais sob a própria luz de Deus”.[i]

Aliás como diz São Paulo em sua Carta aos Coríntios: “O homem não espiritual não percebe as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucura. Nem as pode compreender, porque é segundo o Espírito que se devem ponderar.” [ii]

Dom da Sabedoria

Para entendermos o que é o Dom da Sabedoria, precisamos fazer uma comparação.

Vamos imaginar que nunca  tenhamos provado a fruta kiwi.

Alguém nos fala sobre a sua forma, a sua cor, e tenta-nos explicar o sabor.

Impossível de captar, não é mesmo?

Só quem já experimentou a fruta, saberá o seu sabor.

Com Deus ocorre algo parecido.

Podemos ouvir falar sobre Ele, sobre os Seus Dons, sobre Sua Bondade, Seu Amor, mas só quem foi agraciado pela Sabedoria conhece, aprecia, saboreia por íntima experiência a Deus e Seus mistérios…

Diz Francisco Fernandez-Carvajal:

“Existe um conhecimento de Deus e do que se refere a Ele a que só se chega pela santidade. O Espírito Santo, mediante o dom da sabedoria, coloca-o ao alcance das almas simples que amam o Senhor: Eu te glorifico, Pai, Senhor do céu e da terra – exclamou Jesus diante de umas crianças – porque escondestes estas coisas aos sábios e prudentes e as revelaste aos pequeninos (Mt 11,25).”[iii]

“Não podemos aspirar a nenhum conhecimento mais alto de Deus do que este conhecimento saboroso, queenriquece e facilita a nossa oração e toda a nossa vida de serviço a Deus e aos homens por Deus: A sabedoria – diz a Sagrada Escritura – vale mais do que as pérolas, e jóia alguma a pode igualar (Prov 8,11) Eu a preferi aos cetros e aos tronos e considerei a riqueza como um nada em comparação com ela…Todo o ouro ao seu lado é apenas um pouco de areia, e a prata diante dela é como lama…Com ela vireram-me todos os bens…porque é a sabedoria que os traz …Ela é para os homens um tesouro inesgotável; e os quea adquirem preparam-se para ser amigos de Deus.             (Sab 7,8-14).[iv]

Quem tem o Dom da Sabedoria, experimenta a doçura de Deus e passa a ver as coisas de um modo diferente, mais especial, com mais misericórdia, compreende melhor as pessoas e a necessidade de que elas também se aproximem de Deus.

Também passa a ver o bem por trás dos acontecimentos, de uma doença…ajuda a semear alegria e paz…

Como podemos chegar na Sabedoria. Eis a dica de Francisco Fernandez-Carvajal:

“Esta ação amorosa do Espírito Santo sobre a nossa vida só será possível se cuidarmos com esmero das normas de piedade através das quais nos dedicamos especialmente a Deus: a Santa Missa, os momentos de meditação pessoal, a Visita ao Santíssimo… E isto tanto nos dias normais como naqueles em que temos um trabalho que parece ultrapassar a nossa capacidade de leva-lo adiante; quando a devoção é fácil e simples ou quando chega a aridez; nas viagens, no descanso, na doença…E juntamente com o cuidado em viver com esmero esses momentos mais intensamente dedicados a Deus, não nos deve faltar o empenho por conseguir que o pano de fundo do nosso dia esteja sempre ocupado pelo Senhor. Presença de Deus alimentada com jaculatórias, ações de graças, pedidos de ajuda, atos de amor e desagravo, pequenos sacrifícios que surgem no nosso trabalho ou que procuramos por nossa conta.” [v]

Dom do Conselho

O nosso Conselheiro é o Espírito Santo.

Jesus disse: “Aquele que me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida.” (Jo 8,12).

Ele nos aconselha tanto no que diz respeito a nós mesmos, nossa vida exterior e interior e também no que diz respeito ao conselho que muitas vezes pedem de nós.

Para ouvi-Lo, seja em oração, seja na direção espiritual,  precisaremos:

  1. Ser humildes – porque quem não é humilde, pensará que sabe tudo e que não necessita da opinião alheia, nem de Deus.
  2. Não ter precipitação – quem age de forma precipitada e sem reflexão, não tem chance de sequer ouvir um bom conselho.

Dom da Ciência

“As criaturas são como que vestígios da passagem de Deus. Por esses vestígios rastreia-se a sua grandeza, poder e sabedoria, bem como todos os seus atributos.”[vi]

É por este dom, diz Francisco Fernandez-Carvajal, que “o cristão percebe e entende com toda a clareza ´que a criação inteira, o movimento da terra e dos astros, as ações retas das criaturas e tudo quanto há de positivo no curso da história, tudo, numa palavra, veio de Deus e para Deus se ordena. (Cristo que passa n. 130).’ ”

Este dom é muito importante, pois sem ele facilmente podemos cair em queixas contra Deus e esqueceríamos:

  1. Que Ele é sim onipotente e bondade, pois “a sua onipotência, Deus não exerce não conforme as categorias humanas, mas segundo os sábios desígnios da sua Providência.” O mal é justamente a ausência do bem, assim como a escuridão é a ausência da luz. O mal não vem de Deus, mas do mau uso da liberdade dos homens. Deus quis criar seres livres, como Ele É, e não marionetes que Ele pudesse controlar. Como diz Bento XVI, o ser humano é tão livre, que pode até mesmo arruinar o projeto de salvação de Deus, se optar por não corresponder aos impulsos da graça divina;
  2. Que Deus não se zanga conosco nunca, a maior prova disso é que o sacerdote age “in persona Christi” no Sacramento da Confissão está sempre disposto a nos conceder a absolvição em relação ao nosso desamor a Deus e ao próximo. Se Deus fosse um ser zangado conosco, ele teria deixado o ser humano à própria sorte após o pecado original. Pelo contrário, Ele mesmo assumiu um corpo e alma racionais e até morreu na Cruz para obter a nossa Redenção;
  3. Que Deus transcende a criação, não necessita dela, criou o Homem para participar da Sua Vida Feliz, toda bondade é assim quer partilhar com o outro a sua felicidade. Foi o pecado, primeiro de Lúcifer e dos anjos que disseram “Não servirei” a Deus, e o pecado dos nossos primeiros pais que fizeram com que tenhamos uma dificuldade muito grande em corresponder à Graça de Deus, que nos convida a atos de Bondade. Deus não é um Ser que precisa do nosso reconhecimento, pois Ele já é Feliz, completo, não precisa do louvor de ninguém para Ser Feliz. Nós é que precisamos Dele. E como diz Dom Estêvão Bitencourt em “Pergunte e Responderemos – ano XLVI, janeiro 2005, n. 511:

“Todo ser humano que contempla as maravilhas do microcosmos e do macrocosmos, é impelido a enaltecer o Autor de tais maravilhas. Ao contemplá-las e louvá-las, o homem se deleita…; deleita-se porque toma consciência de que o Bem Infinito não é uma utopia, mas realmente existe; deus existe, o Bem Absoluto, Eterno, ao qual todo homem aspira muitas vezes sem saber exatamente o seu nome. Os salmistas de Israel fizeram esta experiência, que eles assim exprimiram:

Louvai o Senhor, pois é bom cantar ao nosso Deus. (SL 147,1).

Louva o Senhor, ó minha alma! Enquanto eu viver, louvarei o Senhor.

Tocarei ao meu Deus enquanto eu existir….

Feliz quem se apóia no Deus de Jacó,

Quem põe sua esperança no Senhor seu Deus;

Foi Ele quem fez o céu e a terra

O mar e tudo o que neles existe.” (Sl 146, 1s 5s).”

[i] MM. Philipon, Los dones del Espíritu Santo, Madrid, 1983, p. 194.

[ii] 1 Cor 2,14.

[iii] Carvajal. Francisco Fernández. Falar Com Deus. Meditações para cada dia do ano. Quaresma. Semana Santa. Páscoa. São Paulo: Quadrante, p. 444.

[iv] Carvajal. Francisco Fernández. Falar Com Deus. Meditações para cada dia do ano. Quaresma. Semana Santa. Páscoa. São Paulo: Quadrante, p. 445.

[v] Carvajal. Francisco Fernández. Falar Com Deus. Meditações para cada dia do ano. Quaresma. Semana Santa. Páscoa. São Paulo: Quadrante, p. 447.

[vi] São João da Cruz, Cântico Espiritual 5,3.

O Corpo e o Sangue de Cristo: o Mistério da Eucaristia

“Este é o meu corpo… isto é o meu sangue… fazei isto em memória de mim”.

Hoje celebra-se a Solenidade de Corpus Christi, uma festa da Igreja, que ocorre 60 dias após a Páscoa,  destacando-se a Eucaristia, isto é, o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nem sempre houve essa Solenidade, pois ela iniciou no século XIII após o Papa Urbano IV haver mandado publicar a  Bula Transiturus de 08 de setembro de 1264.

A razão de ser da Solenidade de Corpus Christi encontra-se em dois fatos.

O primeiro, por causa de um pedido à freira agostiniana Juliana de Mont Cornillon, do próprio Senhor Jesus, que se fizesse uma data destacando a instituição da Eucaristia naquela Quinta-Feira Santa, já que este acontecimento não tinha solenidade própria, devido à Semana Santa, em que se destaca o Lava-pés da Quinta-Feira, a Sexta Feira da Paixão, a Vigília do Sábado e a Ressurreição do Domingo. Esse pedido foi confidenciado pela freira ao Papa Urbano IV, que na época era apenas o cônego Tiago Pantaleão de Troyes em Liège, na Bélgica.

O segundo fato foi o Milagre de Bolsena em que  saiu sangue da Hóstia Sagrada, até empapando aquele pano onde se apoiam o cálice e a patena durante a Missa. Esses objetos foram levados a Orvieto em procissão em 19 de junho de 1264 e, em 08 de setembro de 1264, a festa de Corpus Christi foi instituída pelo Papa Urbano IV. Escolheu-se o Ofício composto por Santo Tomás de Aquino chamado Lauda Sion para a Solenidade, que até hoje se ouve.

Como estamos hoje celebrando o Corpus Christi, nada melhor do que falarmos sobre o Mistério da Eucaristia.

O mistério da Eucaristia: O Pão e o Vinho transformados em Corpo e Sangue de Cristo

 

Como se sabe, em toda celebração da Santa Missa, mais especificamente na parte da EPICLESE, o sacerdote pede ao Pai que envie o Espírito Santo- ou o poder de sua benção (cânon romano 90)- sobre o pão e o vinho- para que se tornem por seu poder o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo e os que tomam parte na Eucaristia sejam um só Corpo e um só Espírito (Corpo Místico de Cristo).

“As forças das palavras e da ação de Cristo e o poder do Espírito Santo tornam sacramentalmente presentes, sob as espécies do pão e do vinho, o Corpo e o Sangue de Cristo, seu sacrifício oferecido na cruz uma vez por todas.” – ponto 1353

Antigamente dizia-se que o pão e o vinho eram eucaristizados – por isso hoje chamamos de Eucaristia o pão e o vinho .

Nós cumprimos a ordem de Jesus, celebrando o memorial de seu sacrifício.

Oferecemos ao Pai os dons de sua criação – pão e o vinho, que pelas palavras de Cristo e poder do Espírito Santo se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo – real e misteriosamente presentes.

Eucaristia é:

1-Presença  de Cristo pelo poder de sua palavra e de seus Espírito

2-Ação de graças e louvor ao Pai

“Por Cristo, a Igreja pode oferecer o sacrifício de louvor em ação de graças por tudo o que Deus fez de bom, de belo e de justo na criação e na humanidade.” (ponto 1359).

“A Eucaristia é um sacrifício de ação de graças ao Pai, uma benção pela qual a Igreja exprime seu reconhecimento a Deus por todos os seus benefícios, por tudo o que ele realizou por meio da criação, da redenção e da santificação.  Eucaristia significa, primeiramente, ação de graças.” (ponto 1360).

3-Memorial sacrificial de Cristo e do seu corpo

“…o memorial não é somente a lembrança dos acontecimentos do passado, mas a proclamação das maravilhas que Deus realizou por todos os homens (Êxodo 13,3). A celebração litúrgica que Deus desses acontecimentos torna-os de certo modo presentes e atuais. É desta maneira que Israel entende sua libertação do Egito: toda vez que é celebrada a Páscoa, os acontecimentos do êxodo tornam-se presentes à memoória dos crentes, para que estes conformem sua vida a eles.” (ponto 1363).

O memorial recebe um sentido novo no Novo Testamento. Quando a Igreja celebra a Eucaristia, rememora a páscoa de Cristo e esta se torna presente: o sacrifício que Cristo ofereceu uma vez por todas na cruz torna-se sempre atual. (Heb 7,25-27). Todas as vezes que se celebra no altar o sacrifício da cruz, pelo qual Cristo nessa páscoa foi imolado, efetua-se a obra de nossa redenção. “ (ponto 1364).

Por ser memorial da páscoa de Cristo, a Eucaristia é também um sacrifício. O caráter sacrifical da Eucaristia é manifestado nas próprias palavras da instituição.  Isto é o meu Corpo que será entregue por vós e Este cálice é a nova aliança em meu Sangue, que vai ser derramado por vós (LC 22,19-20). Na Eucaristia, Cristo dá este mesmo corpo que entregou por nós na cruz, o próprio sangue que derramou por muitos para remissão dos pecados MT 26,28) (ponto 1365.

A Eucaristia é, portanto, um sacrifício porque representa (torna presente) o Sacrifício da Cruz, porque dele é memorial.  A Eucaristia representa, torna presente o Sacrifício de Jesus, em que Ele ofereceu a si mesmo a Deus Pai, morreu como intercessor sobre o altar da cruz e realizou uma redenção eterna.

A sua morte não colocou fim ao seu sacerdócio – deixou o sacrifício visível de forma incruenta para remissão dos pecados que cometemos cada dia.

Embora falamos que a Eucaristia é um memorial, uma representação do Sacrifício  de Jesus, não significa que existam o Sacrifício de Cristo e um outro Sacrifício agora feito pelo sacerdote em cada Santa Missa. Nada disso. O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício:

1-O modo é diferente – lá foi cruento – aqui é incruento – há a presença sacramental de Cristo sob cada uma das espécies – São Cirilo – “não perguntes se é ou não verdade aceita com fé as palavras do Senhor, porque ele, que é a verdade, não mente.”

Concílio de Trento explica que pela consagração do pão e do vinho opera-se a mudança de toda a substância do pão na substância do Corpo e Sangue de Cristo – esta transformação é a transubstanciação. – vai da consagração até enquanto subsistirem as espécies eucarísticas e Cristo está inteiro e em cada uma das partes, e em cada uma delas por inteiro. Presença  real pela força das palavras de Cristo e da ação do Espírito Santo. O sacerdote pronuncia as palavras, mas sua eficácia e graça são de Deus. São as palavras que transformam as coisas oferecidas.

2-O Sacrifício de Cristo e o da Eucaristia por serem único tanto um quanto outro são propiciatórios.  Significa que existe um fim para o sacrifício e o fim são os nossos pecados pessoais.  O objeto do sacrifício, o fim do sacrifício são os nossos pecados, o perdão deles.

3-Esse sacrifício único de Cristo e o da Eucaristia na missa é um sacrifício também para benefício da  Igreja padecente (“O Sacrifício Eucarístico é também oferecido pelos fieis defuntos ´que morreram em Cristo e não estão ainda plenamente purificados, para que possam entrar na luz e na paz de Cristo.” – ponto 1371, do Catecismo).

4- O Sacrifício Eucarístico deve servir para orarmos pelos outros
” Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis. A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos.Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra.

E orou outra vez, e o céu deu chuva, e a terra produziu o seu fruto.” Tiago 5,15-18

5- A Eucaristia faz com que possamos ser sacerdotes da nossa vida – A Igreja está ao lado da Virgem Maria ao pé da Cruz, que por sua vez esteve unida à oferta e intercessão de Cristo.

Mas, a partir do momento em que Cristo se oferece ao Pai (Cabeça) o Corpo (Igreja-nós) também é oferecido.

Significa que também somos a oferenda . A nossa vida, o nosso louvor,  o nosso sofrimento, a nossa oração, o nosso  trabalho, são oferecidos também.

LOGO TODA NOSSA VIDA É UMA OFERTA À MISSA.

6- A oferta feita pelo Sacrífício de Jesus e na Eucristia nos une aos que já estão no Céu– “A oferenda de Cristo une os fieis que estão na terra e os que estão na glória” ponto 1370, do Catecismo.

“ Pelo fato de os habitantes do céu estarem unidos mais intimamente com Cristo, consolidam com mais firmeza na santidade toda a Igreja. Eles não deixam de interceder por nós ao Pai, apresentando os méritos que alcançaram na terra pelo único mediador de Deus e dos homens, Cristo Jesus. Por conseguinte, pela fraterna solicitude deles, nossa fraqueza recebe o mais valioso auxílio.”

Não podemos nos esquecer que, pelo Espírito Santo, todos formamos um Corpo,  o Corpo Místico de Cristo, de modo que os méritos dos Santos podem nos beneficiar, assim como o mérito infinito da Cabeça que é o Senhor Jesus.
7- O Senhor Jesus é o Mediador entre nós e Deus, mas nós podemos,  por meio Dele, que é a Cabeça desse Corpo Místico unidos todos pelo Espírito Santo, ser MEDIADORES SECUNDÁRIOS  INTERCESSORES e SACERDOTES (não ministeriais, mas sacerdotes reais):

“Vòs também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdòcio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo.”

1 Pedro 2,4-5

” Mas vòs sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;”

1 Pedro 2,8-9

”  E nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória e poder para todo o sempre. Amém.”

Apocalipse 1,5-6

“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens;
Pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade;
Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.
O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo.”
1 Timóteo 2,1-6

FRUTOS DA COMUNHÃO EUCARÍSTICA

São eles:

– AUMENTA UNIÃO COM CRISTO – Quem come a minha carne e bebe o meu Sangue permanece em mim e eu nele – Jo 6,56

Aumenta, renova, conserva a vida da graça recebida pelo Batismo – na morte nos é dado como viático.

-SEPARA-NOS DO PECADO – porque Jesus mesmo diz  que Seu Sangue é “derramado por muitos para remissão dos pecados” –o Seu Sangue Precioso e sua Carne Puríssima purifica-nos dos pecados cometidos e preserva-nos dos futuros.

-PRESERVA-NOS DOS PECADOS FUTUROS MORTAIS- porque aumenta a caridade- acende em nós a caridade, o dom do amor.

-UNIÃO CO O CORPO MÍSTICO  que é Igreja – incorpora-nos mais a ela, o que já se inicia pelo Batismo.

-COMPROMETE-NOS COM OS POBRES – fomos admitidos na mesa de Deus, libertou-nos do pecado – nós compartilhar o nosso alimento – ponto 1397, do Catecismo.

Conclusão
A Igreja sabe que o Senhor Jesus vem em sua Eucaristia, ele está ali, de forma velada. Mas nós aguardamos a vinda de Jesus gloriosa, quando enxugará toda lágrima dos nossos olhos e nós contemplaremos como ele é e cantaremos sem cessar os vossos louvores – A Eucaristia opera a obra da Redenção, concede-nos a vida eterna em Jesus Cristo.

Pedir a Nossa Senhora que sempre interceda por nós no Céu a cada missa e que os santos também, e possam oferecer por nós os seus méritos junto com os de Jesus, para um dia estarmos no lugar, na nossa Casa que é o Céu.

Amém.

Filhos de Deus por adoção e o Dom da Piedade

Somos filhos de Deus por adoção por meio do Espírito Santo. Diz São Paulo em sua Carta aos Gálatas (Gal 4,4-7): “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, formado de uma mulher e sujeito à Lei, para redimir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E já que sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito do seu Filho, que nos faz clamar: Abba, Pai. E assim, já nenhum de vós é servo, mas filho.”

Essa é a grande boa nova que o Senhor Jesus nos trouxe.

Até a vinda do Cristo, sabia-se que Deus cuidava do povo de Israel como um Pai.

A Paternidade de Deus-Pai já vinha sendo mostrada ao povo de Israel, aos judeus:

Depois dos patriarcas, Deus formou Israel como seu povo, salvando-o da escravidão do Egito. Fez com ele a Aliança do Sinai e deu-lhe, por intermédio de Moisés, a sua Lei, para que o reconhecesse e o servisse como o único Deus vivo e verdadeiro, Pai providente e juiz justo, e para que esperasse o Salvador prometido.

Israel é o Povo sacerdotal de Deus, aquele que ´traz o Nome do Senhor´(Dt 28,10). É o povo daqueles ´aos quais Deus falou em primeiro lugar´, o povo dos ´irmãos mais velhos´ da fé de Abraão. [i]

 

De fato, Abraão foi chamado por Deus, para ser o pai de uma multidão…

Deus escolheu Abraão e fez uma aliança com ele e sua descendência. Daí formou seu povo, ao qual revelou sua lei por intermédio de Moisés. Pelos profetas preparou este povo a acolher a  salvação destinada à humanidade inteira. [ii]

Assim que Deus o chama, Abraão parte, ´como lhe disse o Senhor´(Gn 12,4); seu coração se mostra  ´submisso à Palavra´, ele obedece. A escuta do coração que se decide segundo Deus é essencial à oração; as palavras lhe são relativas. Mas a oração de Abraão se exprime primeiro por atos: como homem de silêncio, ele constrói, a cada etapa, um altar ao Senhor. Somente mais tarde aparece sua primeira oração com palavras, uma queixa velada que lembra a Deus suas promessas que parecem não se realizar (Gn 15,2-3). Desde o começo aparece assim um dos aspectos do drama da oração: a provação da fé na fidelidade de Deus. [iii]

Tendo acreditado em Deus, (Gn 15,6), caminhando em sua presença e em aliança com ele (Gn 17,1-2), o patriarca está disposto a acolher em sua tenda o hóspede misterioso: é a admirável hospitalidade de Mambré, prelúdio da anunciação do verdadeiro Filho da Promessa (Gn 18,1-4; Lc 1,26-38). Por isso, tendo-lhe Deus confiado seu plano, o coração de Abraão está sintonizado com a compaixão de seu Senhor pelos homens, e ele ousa interceder por eles com audaciosa confiança (Gn 18,16-33).[iv]

Como última purificação  de sua fé, requer-se do ´depositário das promessas´(Hb 11,17) que sacrifique o filho que Deus lhe dera. Sua fé não esmorece: ´É Deus que proverá o cordeiro para o holocausto´ (Gn 22,8),  ´pois Deus, pensava ele, é capaz também de ressuscitar os mortos´(Hb 11,19). Dessa forma, o pai dos que creem se configurou ao Pai que não há de poupar seu próprio Filho, mas o entregará por todos nós (Rm 8,32). A oração restaura o homem à semelhança de Deus e o faz participar do poder do amor de Deus que salva a multidão (Rm 4,16-21).[v]

 

Verificamos que Abraão tinha fé, pois dava o seu assentimento a Deus a tudo o que Ele lhe pedia e, como comenta São Paulo: “Graças a esta ´fé poderosa´” (Rm 4,20), Abraão tornou-se o “pai de todos os que haveriam de crer” (Rm 4,11,18).

Fica muito claro que a resposta que podemos dar a Deus Todo-Poderoso que deseja ser nosso Pai por adoção é: a fé.

“Por sua Revelação, o “Deus invisível, levado por seu grande amor, fala aos homens como a amigos, e com eles se entretém para os convidar à comunhão consigo e nela os receber”. A resposta adequada a este convite é a fé. Pela fé, o homem submete completamente sua inteligência e sua vontade a Deus. Com todo o seu ser, o homem dá seu assentimento a Deus revelador.”[vi]

 

Mas, os fariseus já não acreditavam que outros pudessem ser admitidos ao banquete messiânico, pensavam que Deus só estendia o seu cuidado para os israelitas e não para os demais povos:

Por meio dos profetas, Deus forma seu povo na esperança da salvação, na expectativa de uma Aliança nova e eterna destinada a todos os homens, e que será impressa nos corações. Os profetas anunciam uma redenção radical do Povo de Deus, a purificação de todas as suas infidelidades, uma salvação que incluirá todas as nações. Serão sobretudo os pobres e os humildes do Senhor, os portadores desta esperança.[vii]

É por isso que Jesus escandalizou os fariseus ao comer com os publicanos e os pecadores, com a mesma familiaridade com que comia com eles…Jesus afirmou ´Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento.´(Lc 5,32). Foi mais longe ao proclamar diante dos fariseus que, sendo o pecado universal, os que pretendem não necessitar de salvação estão cegos para sua própria cegueira. Jesus escandalizou sobretudo porque identificou sua conduta misericordiosa para com os pecadores com a atitude do próprio Deus para com eles.[viii]

Só Deus-Pai é Pai propriamente dito.

No sentido pleno da palavra, existe um só Pai, o celestial (Mt 23,1-12), de quem deriva toda a paternidade no Céu e na terra (Ef 3,15). ´Ninguém é tão Pai como Deus´tam Pater nemo, escrevia Tertuliano. Ele é a plenitude da paternidade, e dela participaram os nossos pais e aqueles que de algum modo nos geraram para a vida da fé. [ix]

Essa é uma realidade irrefutável.

Nenhum pai aqui no mundo sempre foi pai, como Deus-Pai.

Os pais terrenos nem sempre foram pais. Tornaram-se um dia pais.

Deus-Pai nunca foi apenas Deus e não Pai de Deus-Filho.

Em Deus, a geração do Filho não segue uma ordem de tempo, pois para Deus não há senão tudo simultaneamente. A geração do Filho não deixa, contudo de ser uma processão do intelecto de Deus-Pai, que é o princípio sem princípio, mas essa geração não segue uma ordem cronológica de antes e depois, pois Deus é Eterno e Imutável, não havendo nem tempo, nem mutabilidade em Seu Ser. A geração do Filho do princípio que é Deus-Pai ocorre em segundo por uma questão lógica e não temporal.

Deus-Filho sempre foi Filho e Deus-Pai sempre Pai.

Muitos hereges contestavam isso,  como, por exemplo, Ário, que considerava Deus-Filho uma criatura especial de Deus-Pai, mas não consubstancial ao Pai, levando à conclusão de um antes e de um depois, mas a Igreja já se pronunciou a respeito no Concílio de Nicéia afirmando que As Três Pessoas da Santíssima Trindade são coeternas e consubstanciais, da mesma substância (mesmo Ser Divino).

Usamos o termo pai, para o nosso pai, por analogia, mas Deus-Pai é o analogado principal.

Deus-Pai é Pai por substância e não de forma acidental, como os nossos pais.

Talvez por isso Jesus tenha dito (Mateus  23:12) para não chamarmos aqui na terra ninguém de pai…exortando-nos aos pais terrenos e aos padres terem muita humildade, reconhecendo que a Paternidade tem sua origem em Deus-Pai e admitirem estarem aqui de certa forma em nome do Senhor para seus filhos, devendo fazer estes chegarem ao conhecimento de Deus-Pai,  o verdadeiro Pai de todo o gênero humano.[x]

E Deus quis que Maria tivesse um papel todo diferenciado nessa Paternidade Divina.

Nossa Senhora é Filha de Deus Pai e isso decorre “…da graça de adoção, comum aos que foram elevados à ordem sobrenatural.”[xi] …Maria é Filha do Pai no Filho pelo Espírito Santo, pois foi introduzida pela Trindade na sua Vida íntima de um modo especialíssimo, até tal ponto que a sua união com o Amor divino subsisistente – O Espírito Santo – confere à sua alma uma identiivação tão plena com o Filho, que, no Filho, é filha do Pai com toda a plenitude possível a uma pessoa criada(ver Enc. Redemptoris Mater, São João Paulo II, n. 8).”[xii] Nós também somos filhos de Deus Pai, por adoção.

Santa Maria é Mãe de Deus Filho, pois “Ela deu à Segunda Pessoa da Trindade tudo o que uma mãe dá ao seu filho (e, por isso, é própria e verdadeiramente Mãe do Verbo encarnado), enquanto que a Virgem não recebeu do Espírito Santo o que uma mulher recebe do seu esposo na geração do filho: com efeito Cristo não se pode chamar filho do Espírito Santo seja em que sentido for.”[xiii] Nós nunca teremos esse “status” de Nossa Senhora, pois como  “Ensina São Tomas de Aquino que Maria ´é a única que junto de Deus Pai pode dizer ao Filho divino: Tu és meu Filho´(Suma Teológica, 3, q. 30, a.1).”[xiv]

É interessante isso, pensar que Deus quis ter mãe. O Filho de Nossa Senhora é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade que assumiu uma outra atividade, além da divina, a humanidade, sem deixar de ser Deus, claro.

E como nós somos membros do Corpo Místico de Cristo, Ela também é Nossa Mãe, pois também cuida de nós, e administra as graças os méritos de Cristo para nós, seus filhos espirituais.

“Em Cristo distingue-se a geração eterna (a sua processão divina, a preexistência do Verbo) do seu nascimento temporal. Enquanto Deus, é gerado, não feito, misteriosamente pelo Pai ab aeterno, desde sempre; enquanto homem, nasceu, foi feito, de Santa Maria Virgem. Quanto chegou a plenitude dos tempos o Filho Unigênito de Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, assumiu uma natureza humana, quer dizer, a alma racional e o corpo formado no seio puríssimo de Maria. A natureza humana (alma e corpo) e a divina uniram-se na única Pessoa do Verbo. A partir daquele momento, Nossa Senhora, ao dar o seu consentimento ao pedido de Deus, converteu-se na Mãe do Filho de Deus encarnado.(….) Com seu zelo de Mãe, Nossa Senhora continua a dispensar ao seu Filho os cuidados que lhe proporcionou aqui na terra. Agora fá-lo conosco, pois somos membros do Corpo Místico de Cristo: vê Jesus em cada cristão, em cada homem. E como Corredentora, sente a urgência de nos incorporar definitivamente na vida divina.”[xv]

Santa Maria é a Nossa Mãe espiritual, “Ela é verdadeiramente nossa Mãe, porque nos gerou para a vida sobrenatural.” Como diz a Constitução Lumen gentium n. 61:  Maria é nossa Mãe espiritual, porque “Concebendo Cristo, gerando-O, alimentando-O, apresentando-O ao Pai no templo, padecendo com o seu Filho quando morria na cruz, cooperou de forma inteiramente ímpar na obra do Salvador, com a obediência, a fé, a esperança e a caridade ardente, com o fim de restaurar a vida sobrenatural das almas. Por isso é nossa Mãe na ordem da graça”.

Não foi outra coisa o que o próprio Senhor Jesus disse na Cruz: “Mulher, eis aí o teu filho..” (Jo 19,  …).

Sem dúvidas, “Com o seu amor materno trata dos irmãos do seu Filho, que ainda peregrinam e se acham em perigo e ansiedade até que sejam conduzidos à pátria bem-aventurada.”[xvi]

São Josemaria Escrivá teve a oportunidade de expressar que é Ela que nos conduz pela mão à identificação com o seu filho, dizendo: “Nossa Senhora, Santa Maria, fará com que sejas alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo!” [xvii]

[i] Catecismo da Igreja Católica, pontos 62 e 63.

[ii] Catecismo da Igreja Católicla, ponto 72.

[iii] Catecismo da Igreja Católica, ponto 2570.

[iv] Catecismo da Igreja Católica, ponto 2571.

[v] Catecismo da Igreja Católica, ponto 2572.

[vi] Catecismo da Igreja Católica, pontos 142-3.

[vii] Catecismo da Igreja Católica, ponto 64.

[viii] Catecismo da Igreja Católica, pontos 588 e 589.

[ix]  CARVAJAL, Francisco Fernandez e Pedro Beteta Lopez. Filhos De Deus. Lisboa, Diel, 1996, p. 105.

[x]“… o que quis dizer Nosso Senhor quando afirmou: “E a ninguém na terra chameis vosso pai”? A resposta encontra-se no contexto. O contexto da declaração de Nosso Senhor revela que o que Ele estava considerando era a obcessão que os fariseus tinham pelo respeito humano. O versículo 12 deixa bem claro que o que Nosso Senhor quer é chamar os homens à humildade.

A humildade – segundo Santa Teresa de Ávila – é a verdade. Humildade é nos contemplar como realmente somos, contemplar os outros como realmente são e contemplar a Deus na verdade. Com relação a este tema que estamos abordando, a humildade é a verdade no tocante à paternidade. Essa verdade – a verdade acerca da paternidade – encontra-se expressa por Jesus no versículo 9 e é reiterada por São Paulo em sua carta aos efésios: “Por causa disto me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome, para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior” (Efésios 3,14-16).

A verdade é simplesmente uma: que toda paternidade tem suas raízes em Deus Pai. A paternidade, seja espiritual ou física, é boa aos olhos de Deus quando é humildemente exercida em Seu Nome.” http://www.veritatis.com.br/apologetica/protestantismo/8126-a-ninguem-chameis-pai-padre, acesso em 07. 05.2015.

[xi] CARVAJAL, Francisco Fernandez e Pedro Beteta Lopez. Filhos De Deus. Lisboa, Diel, 1996, p. 83.

[xii] CARVAJAL, Francisco Fernandez e Pedro Beteta Lopez. Filhos De Deus. Lisboa, Diel, 1996, p. 84.

[xiii] CARVAJAL, Francisco Fernandez e Pedro Beteta Lopez. Filhos De Deus. Lisboa, Diel, 1996, p. 84.

[xiv] CARVAJAL, Francisco Fernandez e Pedro Beteta Lopez. Filhos De Deus. Lisboa, Diel, 1996, p. 81.

[xv] CARVAJAL, Francisco Fernandez e Pedro Beteta Lopez. Filhos De Deus. Lisboa, Diel, 1996, p. 82.

[xvi] Constituição Lumen Gentium n. 62.

[xvii] São Josemaria Escrivá, Cristo que passa n. 11.

O que torna a Mãe do Senhor Jesus uma pessoa tão especial?

Não foi tudo o que Jesus fez ou falou que estão relatados nos Evangelhos. Mas tudo o que precisamos saber sobre a Revelação que Deus fez sobre Si Mesmo e sobre o Seu projeto de comunhão conosco estão sim nas Sagradas Escrituras.

Existem assuntos que não estão ditos explicitamente por exemplo nos quatro Evangelhos, ou nas Cartas escritas pelos Apóstolos, ou pelos varões apostólicos (pessoas piedosas que conviveram com os Apóstolos e se dispuseram a escrever para eles, como o Evangelho de São Marcos, de São Lucas e o próprio Ato dos Apóstolos escrito por São Lucas).

Uma questão polêmica e que não consta expressamente das Sagradas Escrituras é a da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Polêmica para quem não tem fé, porque para nós que a temos, sabemos que a Virgem Maria foi sim concebida no seio de sua mãe Santa Ana, após o relacionamento íntimo e santo desta com São Joaquim, sem o pecado original, Nossa Senhora foi sim PRESERVADA do pecado original, do qual nós somos PERDOADOS.

E como sabemos que isso é verdadeiro?

Pela interpretação de várias passagens dos Evangelhos e pela própria Tradição da Igreja e mais, recentemente, no século XIX, a 08 de dezembro de 1854, pela proclamação da Bula Ineffabilis Deus:

“Declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que ensina que a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus todo-poderoso e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha da culpa original, é revelada por Deus e, por isto, deve ser professada com fé firme e constante por todos os fieis.”

Esta Bula declaratória foi necessária porque muito se discutiu a respeito.

Sabemos que Jesus não é uma pessoa humana, como nós, mas uma Pessoa Divina, pois Ele é  é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade que assumiu corpo e alma racionais de um homem. Assim, Sua Mãe, a Virgem Maria, é a mãe de não uma pessoa humana, como nós, mas de uma Pessoa Divina, e isto foi dito pelo próprio Anjo Gabriel, quando lhe anunciara que conceberia o Filho do Altíssimo (Lucas 1,28).

Que Santa Maria é especial, não há dúvidas, pois nenhuma mãe aqui na Terra tem o privilégio de ser Mãe de um Deus. Mas, até aí, existia uma distância grande entre tudo isso e falar que do relacionamento íntimo dos pais da Virgem Maria (Joaquim e Ana) teria havido a concepção sem o pecado original de Santa Maria….isso era algo impensável, porque a biologia antiga acreditava que o sêmen do homem seria princípio ativo da fecundação no óvulo e o útero apenas um recipiente e a teologia acreditava que a alma humana só se formava após um certo intervalo da fecundação – 40 dias para meninos e 80 dias para meninas…Assim, se a alma humana da Virgem Maria teria sido formada só 80 dias após a conceição, mais um motivo haveria para considerá-la portadora do pecado original em sua concepção….

O próprio Santo Agostinho não teve condições de concluir pela Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Mas mesmo Santo Agostinho já expunha que a Virgem não poderia ter estado sob o poder do diabo, porque ela teria sido redimida pela graça do renascer, pelo Espírito Santo…

Santo Tomás de Aquino (1274) também negava que a Virgem Maria teria nascido humanamente sem pecado, mas que deveria ter sido purificada dele logo após a infusão da alma no corpo embrião…

Interessante que até muitos hereges pelagianos também confessavam que Maria não tinha pecado (Juliano de Eclano -454 d.C)…só lembrando que os pelagianos foram aqueles hereges do século V que afirmavam que o homem não precisa da graça de Deus para praticar o bem, pois já teríamos essa capacidade e que não teria ela sido prejudicada pelo pecado original. Ao mesmo tempo, eles perceberam que a Virgem Maria teria tido uma capacidade natural especial para o bem, que o pecado, no caso dela, estaria fora de cogitação…

Por outro lado, muitos cristãos viam em Nossa Senhora algo de diferente em relação a nós, pois ela já havia sido chamada de “cheia de graça” (ou kecharitoméne em grego), pelo Anjo Gabriel. Assim, já se notava muitas coisas peculiares no que concerne à Virgem … não só na Encarnação do Filho de Deus, concebido em seu seio puríssimo sem sêmen de homem, sem tirar a sua Virgindade, antes, durante e após o parto, como também na sua adesão total aos sofrimentos assumidos pelo seu Filho na Cruz, e ainda no papel dela após a Ascensão de Nosso Senhor com os apóstolos no início da Igreja, dando-lhes o seu total apoio…

Toda a controvérsia estava agora com os seus dias contatos, pois um franciscano chamado João Duns Scotus (1308) conseguiu entender o que há em Maria de diferente em relação a nós.  Ele entendeu que Nossa Senhora também foi redimida, como todas as criaturas de Deus foram, pela morte e Ressurreição de Jesus. Só que no caso dela, a Redenção foi Preventiva, uma Redenção Antecipatória, pois teria o Seu Filho antecipado para a sua mãe os méritos da Sua Paixão, preservando-a de todo o pecado e do poder de Satanás sobre a mesma. A nossa Redenção, ao contrário, é do tipo Liberativa e depende de nossa parte, de nós correspondermos às Graças que Jesus obteve na cruz de um modo objetivo à toda a Humanidade….precisamos aplicar essas graças obtidas de modo objetivo agora em minha vida, em minha santificação…Maria já teve todas as graças desde sua concepção, tendo em vista que, para ela dar o seu sim, o seu faça-se no momento em que o Anjo Gabriel lhe anunciaria a sua missão, ela precisaria estar cheia de graça para dar um sim sem hesitar…acredita-se que ela entendeu completamente a sua missão, que ela era, enfim, a escolhida para ser a Mãe do Messias que morreria crucificado e que contribuiria, assim, para a salvação de todos os homens….

Disse o franciscano João Duns Scotus: “Mais augusto benefício é preservar do mal do que permitir a queda no mal, ainda que com a intenção de livrar do mal. Se Cristo mereceu, para muitas almas, a graça e a glória na qualidade de Mediador e Salvador, por que não pôde ter merecido a inocência para alguma alma?” (De Immaculata Conceptione B. Virginis Mariae, qu. 1).

Deus ele faz assim mesmo, aplicou os méritos de Jesus de forma antecipada à Virgem Maria. E Deus age assim às vezes, porque,  em atenção a uma oração nossa, feita hoje e agora, em favor da humanidade, como por exemplo, um terço da misericórdia,  Ele  já pode ter aplicado os seus benefícios para alguém necessitado no passado de uma graça de se arrepender de um grande pecado e converter-se a Deus…

Isso é a Providência Divina, pela qual Deus quer atos de bondade em favor uns dos outros, para que nós participemos de Sua Bondade…e como para Deus não há tempo e espaço, pois Ele transcende a Criação, e como Ele é o Criador do tempo e do espaço, Ele já sabe o começo, o meio e o fim de toda vida humana…e aplica, em sua Providência, a oração e os sacrifícios de uns em favor de outros, ao invés de fazer a Bondade sozinho…

Como foi o desfecho da conclusão do franciscano João Duns Scotus? Vejamos o que disse Dom Estêvão Bitencourt na revista n. 505, de julho de 2004, Pergunte e Responderemos:

“A explicação de Scotus foi decisiva. Os franciscanos a assumiram, contribuindo para que mais e mais fosse aceita pelos teólogos. Prova disto é o ocorrido no Concílio de Basiléia em 1439: o cônego João de Romiroy propôs que os padres conciliares definissem como verdade de fé a Imaculada Conceição de Maria; isto foi aceito, mas a decisão não logrou resultado, porque o Concílio deixara de estar em comunhão com a Santa Sé.

Houve ainda resistência à fórmula de Scotus por parte dos dominicanos, que eram discípulos de S. Tomás de Aquino; tomavia mesmo entre estes registraram-se arautos da Imaculada Conceição.

O Concílio de Trento (1545-1561) não abordou diretamente o tema, mas declarou não ser sua intenção incluir a Virgem Imaculada dentro da universalidade do pecado original; cf. Denzinger-Schonmetzer, Enquiridio 1516 (792) ver Collantes, A Fé Católica (FC) 3071. Mandou a propósito observar as Constituições do Papa Sixto IV. Este, mediante duas Bulas (1477 e 1482) proibiu os teólogos, ao discordarem entre si sobre a Imaculada Conceição, se acusassem mutuamente de hereges e adotou oficialmente em Roma a festa da Imaculada Conceição.

No século XVII, o Santo Ofício (encarregado das questões de fé em Roma), sob a orientação dos dominicanos seguidores de S. Tomás de Aquino, desaprovava a expressão ´Imaculada Conceição da Virgem´e preferia que se falasse da ´Conceição da Virgem Imaculada´. Todavia em 1661, o Papa Alexandre VII, mediante a Bula Sollicitudo, declarou-se em favor da Imaculada Conceição e proibiu qualquer ataque a esta doutrina; explicitou a formulação do dogma em termos que de certo modo anteciparam os de Pio IX em 1854 – O Papa Clemente XI em 1708 estendeu a festa da Imaculada à Igreja inteira.

Uma vez encerrada a controvérsia, O Papa Pio IX houve por bem mandar estudar a fundo o assunto em vista de uma eventual definição dogmática. Para tanto constituiu uma Comissão em 1848. Em 1849 publicou a encíclica Ubi primum, pela qual consultava os bispos do mundo inteiro sobre dois pontos: a Igreja, esparsa pelo orbe, acreditava que a doutrina da Imaculada Conceição era revelada por Deus? Era conveniente declarar essa proposição mediante solene pronunciamento do magistério? – Dos 603 bispos residenciais (que falavam como pastores diocesanos), 546 responderam positivamente às duas perguntas. Desta maneira eraevidente a fé da igreja. A bula definitória passou por oito redações. Finalmente, aos 8/12/1854 Pio XI proferiu a definição dogmática…”

 

 

Várias passagens levam-nos à conclusão de que Maria não pode ter sido concebida no seio de Santa Ana, senão já sem a mancha do pecado original.

A primeira passagem é Gênesis 3,18,  em que Deus promete uma mulher que vai esmagar a cabeça da serpente e que Deus colocará inimizada entre a sua descendência e a descendência cheia de pecado original que Eva irá ocasionar. Se as descendências são diferentes significa que uma tem pecado original e a outra, originada de Santa Maria não é. Se ela é o princípio de uma nova descendência sem pecado original, só pode ela mesma estar sem o pecado original.

A primeira é Lucas 1,28, pois quando o Anjo Gabriel anuncia a Encarnação do Verbo de Deus, ele diz: “Alegra-te, Cheia de Graça”. Ela estava cheia de Graça,  vale dizer, com o Espírito Santo em sua alma, portanto em estado de graça, sem pecado nenhum, nem original, nem pessoal.

A terceira passagem é  Lucas 1,31, pois o Anjo Gabriel diz que ela vai conceber no seu seio o Filho do Altíssimo. Ora, se Deus habitava em santuários – a Arca da Aliança – e era tudo purificado, imaginam o seio de Maria, que passa a ser o novo Templo de Deus…

Por fim, podemos enxergar em todas as passagens do Antigo Testamento que falam sobre Israel, Sião, a Virgem Maria, uma “esposa” sem mancha que diz Sim a Deus, no caso consentiu com a Maternidade anunciada pelo Anjo quando disse: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.”

Não é impossível para um Deus Todo-Poderoso que isso tenha ocorrido, ainda mais em se  tratando Daquela que é a Mãe de Deus, a Theotokos. Como bem explicou Dom Estevão Bitencourt, Pergunte e Responderemos ano XLV, Julho 2004, página 505:

“a graça recebida por Maria sem mérito próprio da Virgem SS. Nos diz que toda a história da humanidade está sob o signo não da desgraça de da condenação, mas da misericórdia, mais forte do que o pecado. Se nós caímos sob o domínio do pecado por fragilidade nossa, não estamos sujeitos, sem remédio a tal domínio. Somos as criaturas que Deus desde todo o sempre ama, e que Ele procurou recuperar na plenitude dos tempos, antes mesmo que alguém o pudesse merecer. O cristão é, portanto, otimista e esperançoso quanto ao sentido da história. Verdade é que Maria foi preservada do pecado, ao passo que nós fomos perdoados (ou recebemos o perdão). Todavia, no fundo, trata-se da mesma graça divina: é a Redenção realizada por Cristo. Quando pedimos no Pai-Nosso: ´Não nos deixeis cair em tentação´, rogamos que Ele nos preserve como preservou Maria. “

Voltando à pergunta inicial desta exposição, chegamos à conclusão de que Santa Maria, Mãe de Jesus, é sim uma pessoa especial, uma criatura muito amada por Deus, por vários motivos, e um deles é pela sua Imaculada Conceição.

Vamos agradecer do fundo do nosso coração a esta Mãe tão especial, que fez de tudo para colaborar com a Vontade de Deus, e faz até hoje, intercedendo por nós e administrando as Graças obtidas por Jesus, na tarefa de nos transformar em outros filhos de Deus…