O que torna a Mãe do Senhor Jesus uma pessoa tão especial?

Não foi tudo o que Jesus fez ou falou que estão relatados nos Evangelhos. Mas tudo o que precisamos saber sobre a Revelação que Deus fez sobre Si Mesmo e sobre o Seu projeto de comunhão conosco estão sim nas Sagradas Escrituras.

Existem assuntos que não estão ditos explicitamente por exemplo nos quatro Evangelhos, ou nas Cartas escritas pelos Apóstolos, ou pelos varões apostólicos (pessoas piedosas que conviveram com os Apóstolos e se dispuseram a escrever para eles, como o Evangelho de São Marcos, de São Lucas e o próprio Ato dos Apóstolos escrito por São Lucas).

Uma questão polêmica e que não consta expressamente das Sagradas Escrituras é a da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Polêmica para quem não tem fé, porque para nós que a temos, sabemos que a Virgem Maria foi sim concebida no seio de sua mãe Santa Ana, após o relacionamento íntimo e santo desta com São Joaquim, sem o pecado original, Nossa Senhora foi sim PRESERVADA do pecado original, do qual nós somos PERDOADOS.

E como sabemos que isso é verdadeiro?

Pela interpretação de várias passagens dos Evangelhos e pela própria Tradição da Igreja e mais, recentemente, no século XIX, a 08 de dezembro de 1854, pela proclamação da Bula Ineffabilis Deus:

“Declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que ensina que a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus todo-poderoso e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha da culpa original, é revelada por Deus e, por isto, deve ser professada com fé firme e constante por todos os fieis.”

Esta Bula declaratória foi necessária porque muito se discutiu a respeito.

Sabemos que Jesus não é uma pessoa humana, como nós, mas uma Pessoa Divina, pois Ele é  é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade que assumiu corpo e alma racionais de um homem. Assim, Sua Mãe, a Virgem Maria, é a mãe de não uma pessoa humana, como nós, mas de uma Pessoa Divina, e isto foi dito pelo próprio Anjo Gabriel, quando lhe anunciara que conceberia o Filho do Altíssimo (Lucas 1,28).

Que Santa Maria é especial, não há dúvidas, pois nenhuma mãe aqui na Terra tem o privilégio de ser Mãe de um Deus. Mas, até aí, existia uma distância grande entre tudo isso e falar que do relacionamento íntimo dos pais da Virgem Maria (Joaquim e Ana) teria havido a concepção sem o pecado original de Santa Maria….isso era algo impensável, porque a biologia antiga acreditava que o sêmen do homem seria princípio ativo da fecundação no óvulo e o útero apenas um recipiente e a teologia acreditava que a alma humana só se formava após um certo intervalo da fecundação – 40 dias para meninos e 80 dias para meninas…Assim, se a alma humana da Virgem Maria teria sido formada só 80 dias após a conceição, mais um motivo haveria para considerá-la portadora do pecado original em sua concepção….

O próprio Santo Agostinho não teve condições de concluir pela Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Mas mesmo Santo Agostinho já expunha que a Virgem não poderia ter estado sob o poder do diabo, porque ela teria sido redimida pela graça do renascer, pelo Espírito Santo…

Santo Tomás de Aquino (1274) também negava que a Virgem Maria teria nascido humanamente sem pecado, mas que deveria ter sido purificada dele logo após a infusão da alma no corpo embrião…

Interessante que até muitos hereges pelagianos também confessavam que Maria não tinha pecado (Juliano de Eclano -454 d.C)…só lembrando que os pelagianos foram aqueles hereges do século V que afirmavam que o homem não precisa da graça de Deus para praticar o bem, pois já teríamos essa capacidade e que não teria ela sido prejudicada pelo pecado original. Ao mesmo tempo, eles perceberam que a Virgem Maria teria tido uma capacidade natural especial para o bem, que o pecado, no caso dela, estaria fora de cogitação…

Por outro lado, muitos cristãos viam em Nossa Senhora algo de diferente em relação a nós, pois ela já havia sido chamada de “cheia de graça” (ou kecharitoméne em grego), pelo Anjo Gabriel. Assim, já se notava muitas coisas peculiares no que concerne à Virgem … não só na Encarnação do Filho de Deus, concebido em seu seio puríssimo sem sêmen de homem, sem tirar a sua Virgindade, antes, durante e após o parto, como também na sua adesão total aos sofrimentos assumidos pelo seu Filho na Cruz, e ainda no papel dela após a Ascensão de Nosso Senhor com os apóstolos no início da Igreja, dando-lhes o seu total apoio…

Toda a controvérsia estava agora com os seus dias contatos, pois um franciscano chamado João Duns Scotus (1308) conseguiu entender o que há em Maria de diferente em relação a nós.  Ele entendeu que Nossa Senhora também foi redimida, como todas as criaturas de Deus foram, pela morte e Ressurreição de Jesus. Só que no caso dela, a Redenção foi Preventiva, uma Redenção Antecipatória, pois teria o Seu Filho antecipado para a sua mãe os méritos da Sua Paixão, preservando-a de todo o pecado e do poder de Satanás sobre a mesma. A nossa Redenção, ao contrário, é do tipo Liberativa e depende de nossa parte, de nós correspondermos às Graças que Jesus obteve na cruz de um modo objetivo à toda a Humanidade….precisamos aplicar essas graças obtidas de modo objetivo agora em minha vida, em minha santificação…Maria já teve todas as graças desde sua concepção, tendo em vista que, para ela dar o seu sim, o seu faça-se no momento em que o Anjo Gabriel lhe anunciaria a sua missão, ela precisaria estar cheia de graça para dar um sim sem hesitar…acredita-se que ela entendeu completamente a sua missão, que ela era, enfim, a escolhida para ser a Mãe do Messias que morreria crucificado e que contribuiria, assim, para a salvação de todos os homens….

Disse o franciscano João Duns Scotus: “Mais augusto benefício é preservar do mal do que permitir a queda no mal, ainda que com a intenção de livrar do mal. Se Cristo mereceu, para muitas almas, a graça e a glória na qualidade de Mediador e Salvador, por que não pôde ter merecido a inocência para alguma alma?” (De Immaculata Conceptione B. Virginis Mariae, qu. 1).

Deus ele faz assim mesmo, aplicou os méritos de Jesus de forma antecipada à Virgem Maria. E Deus age assim às vezes, porque,  em atenção a uma oração nossa, feita hoje e agora, em favor da humanidade, como por exemplo, um terço da misericórdia,  Ele  já pode ter aplicado os seus benefícios para alguém necessitado no passado de uma graça de se arrepender de um grande pecado e converter-se a Deus…

Isso é a Providência Divina, pela qual Deus quer atos de bondade em favor uns dos outros, para que nós participemos de Sua Bondade…e como para Deus não há tempo e espaço, pois Ele transcende a Criação, e como Ele é o Criador do tempo e do espaço, Ele já sabe o começo, o meio e o fim de toda vida humana…e aplica, em sua Providência, a oração e os sacrifícios de uns em favor de outros, ao invés de fazer a Bondade sozinho…

Como foi o desfecho da conclusão do franciscano João Duns Scotus? Vejamos o que disse Dom Estêvão Bitencourt na revista n. 505, de julho de 2004, Pergunte e Responderemos:

“A explicação de Scotus foi decisiva. Os franciscanos a assumiram, contribuindo para que mais e mais fosse aceita pelos teólogos. Prova disto é o ocorrido no Concílio de Basiléia em 1439: o cônego João de Romiroy propôs que os padres conciliares definissem como verdade de fé a Imaculada Conceição de Maria; isto foi aceito, mas a decisão não logrou resultado, porque o Concílio deixara de estar em comunhão com a Santa Sé.

Houve ainda resistência à fórmula de Scotus por parte dos dominicanos, que eram discípulos de S. Tomás de Aquino; tomavia mesmo entre estes registraram-se arautos da Imaculada Conceição.

O Concílio de Trento (1545-1561) não abordou diretamente o tema, mas declarou não ser sua intenção incluir a Virgem Imaculada dentro da universalidade do pecado original; cf. Denzinger-Schonmetzer, Enquiridio 1516 (792) ver Collantes, A Fé Católica (FC) 3071. Mandou a propósito observar as Constituições do Papa Sixto IV. Este, mediante duas Bulas (1477 e 1482) proibiu os teólogos, ao discordarem entre si sobre a Imaculada Conceição, se acusassem mutuamente de hereges e adotou oficialmente em Roma a festa da Imaculada Conceição.

No século XVII, o Santo Ofício (encarregado das questões de fé em Roma), sob a orientação dos dominicanos seguidores de S. Tomás de Aquino, desaprovava a expressão ´Imaculada Conceição da Virgem´e preferia que se falasse da ´Conceição da Virgem Imaculada´. Todavia em 1661, o Papa Alexandre VII, mediante a Bula Sollicitudo, declarou-se em favor da Imaculada Conceição e proibiu qualquer ataque a esta doutrina; explicitou a formulação do dogma em termos que de certo modo anteciparam os de Pio IX em 1854 – O Papa Clemente XI em 1708 estendeu a festa da Imaculada à Igreja inteira.

Uma vez encerrada a controvérsia, O Papa Pio IX houve por bem mandar estudar a fundo o assunto em vista de uma eventual definição dogmática. Para tanto constituiu uma Comissão em 1848. Em 1849 publicou a encíclica Ubi primum, pela qual consultava os bispos do mundo inteiro sobre dois pontos: a Igreja, esparsa pelo orbe, acreditava que a doutrina da Imaculada Conceição era revelada por Deus? Era conveniente declarar essa proposição mediante solene pronunciamento do magistério? – Dos 603 bispos residenciais (que falavam como pastores diocesanos), 546 responderam positivamente às duas perguntas. Desta maneira eraevidente a fé da igreja. A bula definitória passou por oito redações. Finalmente, aos 8/12/1854 Pio XI proferiu a definição dogmática…”

 

 

Várias passagens levam-nos à conclusão de que Maria não pode ter sido concebida no seio de Santa Ana, senão já sem a mancha do pecado original.

A primeira passagem é Gênesis 3,18,  em que Deus promete uma mulher que vai esmagar a cabeça da serpente e que Deus colocará inimizada entre a sua descendência e a descendência cheia de pecado original que Eva irá ocasionar. Se as descendências são diferentes significa que uma tem pecado original e a outra, originada de Santa Maria não é. Se ela é o princípio de uma nova descendência sem pecado original, só pode ela mesma estar sem o pecado original.

A primeira é Lucas 1,28, pois quando o Anjo Gabriel anuncia a Encarnação do Verbo de Deus, ele diz: “Alegra-te, Cheia de Graça”. Ela estava cheia de Graça,  vale dizer, com o Espírito Santo em sua alma, portanto em estado de graça, sem pecado nenhum, nem original, nem pessoal.

A terceira passagem é  Lucas 1,31, pois o Anjo Gabriel diz que ela vai conceber no seu seio o Filho do Altíssimo. Ora, se Deus habitava em santuários – a Arca da Aliança – e era tudo purificado, imaginam o seio de Maria, que passa a ser o novo Templo de Deus…

Por fim, podemos enxergar em todas as passagens do Antigo Testamento que falam sobre Israel, Sião, a Virgem Maria, uma “esposa” sem mancha que diz Sim a Deus, no caso consentiu com a Maternidade anunciada pelo Anjo quando disse: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.”

Não é impossível para um Deus Todo-Poderoso que isso tenha ocorrido, ainda mais em se  tratando Daquela que é a Mãe de Deus, a Theotokos. Como bem explicou Dom Estevão Bitencourt, Pergunte e Responderemos ano XLV, Julho 2004, página 505:

“a graça recebida por Maria sem mérito próprio da Virgem SS. Nos diz que toda a história da humanidade está sob o signo não da desgraça de da condenação, mas da misericórdia, mais forte do que o pecado. Se nós caímos sob o domínio do pecado por fragilidade nossa, não estamos sujeitos, sem remédio a tal domínio. Somos as criaturas que Deus desde todo o sempre ama, e que Ele procurou recuperar na plenitude dos tempos, antes mesmo que alguém o pudesse merecer. O cristão é, portanto, otimista e esperançoso quanto ao sentido da história. Verdade é que Maria foi preservada do pecado, ao passo que nós fomos perdoados (ou recebemos o perdão). Todavia, no fundo, trata-se da mesma graça divina: é a Redenção realizada por Cristo. Quando pedimos no Pai-Nosso: ´Não nos deixeis cair em tentação´, rogamos que Ele nos preserve como preservou Maria. “

Voltando à pergunta inicial desta exposição, chegamos à conclusão de que Santa Maria, Mãe de Jesus, é sim uma pessoa especial, uma criatura muito amada por Deus, por vários motivos, e um deles é pela sua Imaculada Conceição.

Vamos agradecer do fundo do nosso coração a esta Mãe tão especial, que fez de tudo para colaborar com a Vontade de Deus, e faz até hoje, intercedendo por nós e administrando as Graças obtidas por Jesus, na tarefa de nos transformar em outros filhos de Deus…

Tribulações, sofrimentos, desânimo x Fortaleza de Deus- quem ganhará?

“Só um louco não teme as feridas, ao passo que o prudente não permite que o medo do sofrimento o separe jamais de uma conduta nobre e santa. Seria escapar de umas dores de pouca monta para ir cair em outras muito mais dolorosas e amargas.” (Thomas Morus).

Somos frágeis e não somos capazes de levar adiante sozinhos a tarefa da nossa própria santificação. Precisamos da força “do Alto”, precisamos de Deus.

Quantas vezes não sentimos uma espécie de desânimo diante daqueles mesmos defeitos que surgem ou que reaparecem com nuances diferentes…ou desânimo diante do que ainda teremos de enfrentar durante toda a nossa vida terrena…ou certa falta de coragem de anunciar aquilo que a nossa consciência retamente está nos dizendo, por puro medo ou por vergonha…

“Se deixarmos que o Paráclito tome posse da nossa vida, a nossa segurança não terá limites.”, diz Francisco Fernandez-Carvajal.[i]

É muito consolador pensar que Deus poderia ter-nos mandado talvez um anjo para operar a nossa santificação, mas fez mais… é Ele mesmo que é o Santificador, é uma obra que cabe, por apropriação, ao Espírito Santo. Não será um anjo que vai embelezar a nossa alma, é Deus mesmo com Sua Graça e Dons, como esse da Fortaleza que agora estamos meditando.

Precisamos enxergar que, às vezes, pode ocorrer nesta caminhada rumo à santidade um certo desânimo, mas que Deus vem em nosso socorro e bem depressa.

Quem não se lembra de Moisés, como estava se sentindo totalmente  incapaz de falar com o Faraó do Egito, com o fim de promover a libertação do povo de Israel escravizado?

Mas Deus não deixou que Moisés abandonasse sua missão e lhe disse: “Eu estarei contigo”.[ii]

Ou mesmo de Elias, que ficou desanimado e até desejou morrer, e Deus, sabendo dessa sua limitação, enviou-lhe um anjo. [iii]

Deus não nos deixa desistir. Ele cuida de cada pormenor de nossas vidas.

Quem não sabe que Pedro negou que conhecia Jesus, mas depois de ser “revestido da força do Alto”, Pedro passou a estar com o Espírito Santo e então, agora, podia falar em línguas, tinha coragem para pregar o Evangelho e, ainda por cima, pode morrer também crucificado de cabeça para baixo, porque Deus lhe concedia a graça, o Dom da Fortaleza para suportar.

De onde vem essa coragem, essa Fortaleza?

A resposta é: a Fortaleza é um Dom de Deus.

Não desanimemos de nada: nem da nossa vida interior, nem da nossa vida exterior.

Confiemos em Deus.

Deus dificilmente vai pedir o extremo da Fortaleza para nós que é o martírio, a vida sacrificada em testemunho da fé, como ocorreu, por exemplo com São Thomas Morus, o chanceler do rei Henrique VIII, da Inglaterra, que se recusou a assinar o Ato que declarava ser o rei o Chefe da Igreja Católica e não o Papa, [iv] mas precisamos ter Fortaleza primeiro em forma de virtude, de prática habitual, nesse heroísmo em pequenas coisas em nossos deveres cotidianos.

E até para o martírio como o de Thomas Morus, Deus lhe concedeu, sem dúvida, o Dom da Fortaleza, para não voltar atrás de sua consciência que lhe dizia estar errado assinar um termo reconhecendo que o rei Henrique VIII era o chefe da Igreja e não o Papa e também concordando com a anulação de um casamento do rei com Catarina, só para se casar com quem o rei queria, a Ana Bolena, sem que houvesse o fundamento para anular o casamento na Igreja Católica. Thomas Morus não assinou um papel que só continha mentiras. Ele seguiu a verdade de sua consciência.  Muita gente poderia pensar: o que é que tem assinar um simples papelzinho, para poupar a sua própria vida, e poupar a acusação de traição e manter o seu emprego que sustenta toda uma família.

Sim. Thomas Morus não procurou essa confusão toda. Ele não queria ser acusado de traição, não queria perder o seu cargo de Chanceler do Rei Henrique VIII e muito menos prejudicar sua família financeiramente e privá-la de sua companhia. A ignorância veio não de Thomas Morus, mas do Rei.

Não existe dever de obedecer a uma lei injusta, a um ato injusto de alguém, ou de colaborarmos com jeitinhos, com coisas mentirosas ou injustas.

Veja que não é questão de um simples papel assinado. Se Thomas Morus assinasse o termo que o Rei lhe pedia, ele estaria, na qualidade de humanista, concordando com o que o Rei queria, estaria COLABORANDO COM O MAL.

Precisamos compreender isso.

Às vezes, o mal não somos nós que o estamos dando origem, mas se deixamos de agir, de nos posicionar, estamos fazendo tão mal como aquele que teve a ideia, pois colaborar ainda que tacitamente com um mal torna o nosso ato mal também por colaboração.

As consequências da atitude do Rei Henrique VIII eram graves.

Ele anulava um casamento com sua primeira esposa na Igreja Católica, só para se casar com outra. Como sabemos, ele mandou matar a primeira esposa, inclusive.

Depois, porque o Papa da época não tinha como anular o casamento e portanto desagradou o Rei Henrique VIII, este se proclamou chefe da Igreja.  Nós sabemos o que ocorreu. Ele deu início a um cisma dentro da Igreja e arrastou e arrasta várias pessoas até hoje para o Anglicanismo.

Então, devemos tomar cuidado para não cair em respeitos humanos.

Thomas Morus tinha muitos motivos para assinar o termo que o rei lhe exigia, até porque era um homem íntegro e de confiança do rei, gozando de um prestígio perante este.

Mas, entre o rei, que estava sendo injusto, e Deus, preferiu seguir sua consciência que lhe dizia: “Isto está errado”.

O interessante é que muita gente assinou o documento do rei, e achava um absurdo a atitude de Thomas Morus. Ao que tudo indica a própria esposa de Morus. Como sabemos a consequência da atitude de Morus foi bem sentida pela família, pois Morus é quem a sustentava. Tiveram de descer de nível financeiro.

Assim, pode acontecer conosco.

Ao tomarmos alguma atitude que a nossa consciência diz, muita gente poderá não entender. E também poderão ocorrer consequências até financeiras.

Mas, de fato não dá para chamar de branco, o que é azul. Sejamos verdadeiros.

Claro que não é para sair por aí querendo ser um mártir.

E o Dom da Fortaleza no caso do martírio de Thomas Morus veio sim, mas Thomas Morus não foi uma pessoa imprudente.

Veja que o humanista tinha plena ciência de que não podemos, assim como Jesus em uma das tentações que sofreu no deserto, “tentar” ao próprio Deus,  arriscando-nos só para mostrar fortaleza, de que somos cristãos fortes.

Uma coisa é, como de fato, precisamos na qualidade de discípulos de Jesus Cristo,  vencer os chamados “respeitos humanos”, que é uma espécie de “vergonha” ou “medo” do que vão falar, pensar ou fazer a respeito de nós, só porque testemunhamos alguma verdade de fé.

Outra coisa é “dar a cara a bater”,  procurar confusão, porque daí está mais para soberba de querer mostrar-se.

Thomas Morus que foi mártir e sem dúvida demonstrou uma Fortaleza heroica, que veio de um Dom de Deus, mostrou-nos como se deve agir com fortaleza, mas prudência.

Vejamos o que o Papa Pio XI por ocasião da canonização de São Thomas Morus sobre a sua virtude da Fortaleza e o seu martírio que é o cume da Virtude:

“More mostra-se prudente também em não se deixar arrastar por uma atitude desafiadora ou pela temeridade de buscar diretamente o martírio. Já nos primeiríssimos tempos, durante as grandes perseguições movidas pelos imperadores romanos, a Igreja recomendava aos cristãos que não se apresentassem ao martírio por um falso zelo, que no final das contas bem podia provir de uma presunção demasiado humana e por isso mesmo desembocar na queda e na traição. `O primeiro título da vitória e confessar o Senhor, uma vez posto na prisão pelos pagãos; o segundo é reservar-se para Deus, esquivando-se à perseguição com cauta prudência´, escrevia já São Cipriano (258), bispo de Cartago do século III.

A prudente reserva de More, com efeito, nascia da humildade e do conhecimento próprio, pois sabia muito bem que, sem a ajuda de Deus, estava exposto a cair. A sua atitude fica perfeitamente clara na Carta n. 13: ´Respondi-lhes com a pura verdade, isto é, que não fui homem de vida tão santa que pudesse agora oferecer-me com audácia à morte, não acontecesse que Deus permitisse a minha queda por causa dessa presunção; por isso, não me lançava eu para a frente, mas continha-me. No entanto, se o próprio Deus me encaminhasse para a morte, então confiaria em que, na sua grande misericórdia, não deixaria de me dar graça e fortaleza.´

Nisto se revela também a sua heroica fortaleza, pois não é forte a pessoa que se considera invulnerável, e sim aquela que, conhecendo muito bem ´a própria fragilidade e a natural fraqueza do seu coração.´(Carta n. 7), aprende a vencê-las habitualmente pelo amor a um bem maior. (…)”[v]

Essa Fortaleza como virtude será então fortalecida pelo Dom da Fortaleza pelo Espírito Santo.

Peçamos isso.

Como já vimos, todo Dom do Espírito Santo é como se começássemos a navegar a vela, quando até então estávamos navegando a remo.. tudo fica mais fácil…

Fortaleza necessária para cumprir deveres, perseverar em propósitos, enfrentar obstáculos

Sem fortaleza, não se vencem obstáculos, nem os caprichos pessoais, nem o egoísmo, nem a comodidade, não se cumpre o que custa …

É pela virtude da fortaleza e pelo Dom da Fortaleza que se torna possível vencer a relutância em cumprir os deveres que custam, para enfrentar os obstáculos normais em qualquer existência, para aceitar com paz e serenidade a doença, para perseverar nas tarefas diárias, para dar continuidade à ação apostólica, para encarar os contratempos com espírito de fé e bom humor…para falar de Deus sem medo, para nos comportarmos sempre de modo cristão, ainda que entremos em choque com um ambiente paganizado, para fazer uma correção fraterna quando for preciso…para cumprir em toda a linha os nossos deveres prestando uma ajuda incondicional aos que dependem de nós, exigindo-lhes ao mesmo tempo, com amável firmeza o cumprimento de suas responsabilidades…[vi]

Dom da Fortaleza é também necessário para vencer a tibieza espiritual

Eis o que diz São João Crisóstomo em uma homilia sobre a glória da tribulação:

“As árvores que crescem em lugares sombreados e livres de ventos, enquanto externamente se desenvolvem com aspecto próspero, tornam-se fracas e moles, e facilmente qualquer coisa as fere; mas as árvores que vivem no cume dos montes mais altos, agitadas pelos muitos ventos e constantemente expostas à intempérie e a todas a s inclemências, atingidas por fortíssimas tempestades e cobertas por frequentes neves, tornam-se mis robustas que o ferro.” [vii]

E para sabermos se estamos na tibieza espiritual, é só observarmos se estamos apresentando um dos seguintes sintomas espirituais:

  • Falta de esperança – ficamos desanimadas diante das coisas de Deus e “sem forças”.
  • Imaginação descontrolada – correndo solta a imaginação, refugia-se a alma tíbia nisso, encontrando ali uma felicidade fictícia, que não sabe encontrar no ordinário vivido com Deus;
  • Torpor mental para o sobrenatural – é uma preguiça da alma, decaímos no desejo do bem;
  • Pusilanimidade – desânimo diante de qualquer empreendimento sobrenatural, dando lugar a vários pecados por omissão;
  • Rancor e espírito crítico contra as pessoas que estão lutando para melhorar e praticar o bem. No fundo é porque não quer mudar a sua má conduta e aí justifica-se dizendo que os outros estão errados. Chega a odiar os bens espirituais.
  • Irritada oposição converte-se em maldade mesmo, nascida do ódio contra todo o divino que tenha no homem. É um dos pecados mais graves que se pode dar no homem, havendo uma consciente e interna eleição do mal enquanto tal.[viii]

Ter Fortaleza não significa que não haverá dificuldades na nossa vida, dissabores

A fortaleza como virtude a ser buscada se traduzirá em perseverar “no cumprimento do que entende dever fazer, segundo a sua consciência…”  [ix]

Mas, precisamos estar cientes que mesmo tentando agir com fortaleza e mesmo que estejamos enriquecidos em nossas almas pelo Dom da Fortaleza, que agora insistimos Deus nos conceda, não significa que a nossa vida será fácil.

Eis o que diz São Josemaria Escrivá a respeito: “O caminho do cristão – como o de qualquer homem – não é fácil. É certo que, em determinadas épocas, parece que tudo se cumpre segundo as nossas previsões. Mas isso habitualmente dura pouco. Viver é enfrentar dificuldades, sentir no coração alegrias e dissabores, e é nessa forja que o homem pode adquirir fortaleza…”[x]

Ter Fortaleza para vencer as tentações diabólicas de que não dá para confiar só em Deus

Santo Tomas Morus escreveu um livro enquanto esteve encarcerado na Torre de Londres antes de ser decapitado em 1535, por ordem do rei da Inglaterra Henrique VIII.

O livro se chama “O diálogo da fortaleza contra a tribulação”[xi] e é muito interessante a parte em que ele fala sobre a pusilanimidade.

Ele ensina-nos:

“Uma gran parte del temor nocturno es la pusinanimidad, es decir, uma disposición asustadiza y débil, que hace al hombre tener miedo donde no hay que temer, y por esta azón huir sin necessidade, puesto que ningún dano le amenaza. A veces, la misma huida hace al enemigo más atrevido; mientras que si no hubiera escapaco y se hubiera atrevido a quedarse ahí, su enemigo hubiera desistido y huido.

Esta pusilanimidade em la tribulación hace al hombe, por su falta de coraje, primero impaciente, y luego, a menudo de lleva al estado contratio, haciéndole perversamente terco y amargado contra Dios; y de ahí cae em la blasfêmia, como hacen los condenados em el infirerno. Este espíritu timerato impede muchas veces al hombre hacer obras buenas que hubiera sido muy capaz de hacer si se hubiera fortalecido em la confianza del auxilio de Dios. Pero el diablo le empuja a la cobardia y le hace tomar por humildade l juzgarse inepto e incapaz de hacerlas; em consecuencia, deja de hacer el bien cuya oportunidade le ofreció Dios, preparaándole para hacerlo.

Tales gentes necesitan rezar y acudir a Dios, y por el consejo de personas buenas, arrojar la cobardia que ellos mismos se inventan – que el diablo puso em su imaginación por el temor nocturno – y mirar em el Evangelio a aquel que enterro su talendo y lo dejó sin producir, perdiéndolo del todo, com gran reproche de sua pusinlanimidad por la que pensaba que sería excusado. Todo este miedo procede de las asechanzas del diablo que se aprovecha de la debilidade de nuestra confianza em Dios. Vivamos fielmente em la esperanza de sua ayuda, y el escudo de su verdade nos rodeará de tal modo que desecharemos el temor nocturno.”

[xii]

Ter Fortaleza para conviver com os outros

A fortaleza será necessária na convivência com os outros, porque é ela que é a raiz de outra virtude que é a paciência.

Sem fortaleza não toleramos o outro e a tendência é ir nos afastando de tudo e de todos que nos chateiam até o ponto de ficarmos sozinhos, como muita gente que prefere depois conviver com um bichinho de estimação do que conviver com outro ser humano.

Precisamos aprender a pensar e querer o bem do próximo e um primeiro passo é ter a fortaleza com a paciência.

“Nós possuímos a alma pela paciência, porque, aprendendo a dominar-nos a nós mesmos, começamos a possuir aquilo que somos. E é esta paciência a que nos leva também a ser compreensivos com os outros, persuadidos de que as almas, como o bom vinho, melhoram com o tempo.”[xiii]

Conclusão

Vamos pedir a Nossa Senhora, que durante toda a sua vida, demonstrou grande Fortaleza, sobretudo ao acompanhar a morte cruel e sangrenta de um Filho que É Deus, o Dom da Fortaleza para que possamos deixar de uma vez por todas o “nosso homem e nossa mulher velhos”, o nosso egoísmo raiz de tantos pecados por ação e omissão, e um dia possamos estar louvando a Deus no Paraíso, nossa pátria. Amém.

[i] Fernandez-Carvajal. Francisco. Falar Com Deus. Meditações para cada dia do ano, 4ª. Edição, Volume 2, Quaresma. Semana Santa. Páscoa. São Paulo: Quadrante, 2000.

[ii] Moisés, contudo, interpelou a Deus: “Quem sou eu para me apresentar diante do Faraó e fazer sair os israelitas das terras do Egito?” Assegurou-lhe Deus: “Eu estarei contigo! Esta é a prova de que Sou Eu quem te envia: quando fizeres o povo sair do Egito, vós prestareis culto a Deus neste mesmo monte” (Êxodo 3,11-12).

[iii] E Acabe fez saber a Jezabel tudo quanto Elias havia feito, e como totalmente matara todos os profetas à espada.
Então Jezabel mandou um mensageiro a Elias, a dizer-lhe: Assim me façam os deuses, e outro tanto, se de certo amanhã a estas horas não puser a tua vida como a de um deles.
O que vendo ele, se levantou e, para escapar com vida, se foi, e chegando a Berseba, que é de Judá, deixou ali o seu servo.
Ele, porém, foi ao deserto, caminho de um dia, e foi sentar-se debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte, e disse: Já basta, ó Senhor; toma agora a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais.
E deitou-se, e dormiu debaixo do zimbro; e eis que então um anjo o tocou, e lhe disse: Levanta-te, come.
E olhou, e eis que à sua cabeceira estava um pão cozido sobre as brasas, e uma botija de água; e comeu, e bebeu, e tornou a deitar-se.
E o anjo do Senhor tornou segunda vez, e o tocou, e disse: Levanta-te e come, porque te será muito longo o caminho.
Levantou-se, pois, e comeu e bebeu; e com a força daquela comida caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus.
E ali entrou numa caverna e passou ali a noite; e eis que a palavra do Senhor veio a ele, e lhe disse: Que fazes aqui Elias?
E ele disse: Tenho sido muito zeloso pelo Senhor Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derrubaram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada, e só eu fiquei, e buscam a minha vida para me a tirarem.
E Deus lhe disse: Sai para fora, e põe-te neste monte perante o Senhor. E eis que passava o Senhor, como também um grande e forte vento que fendia os montes e quebrava as penhas diante do Senhor; porém o Senhor não estava no vento; e depois do vento um terremoto; também o Senhor não estava no terremoto;
E depois do terremoto um fogo; porém também o Senhor não estava no fogo; e depois do fogo uma voz mansa e delicada.
E sucedeu que, ouvindo-a Elias, envolveu o seu rosto na sua capa, e saiu para fora, e pôs-se à entrada da caverna; e eis que veio a ele uma voz, que dizia: Que fazes aqui, Elias?
E ele disse: Eu tenho sido em extremo zeloso pelo Senhor Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derrubaram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada, e só eu fiquei; e buscam a minha vida para ma tirarem.
E o Senhor lhe disse: Vai, volta pelo teu caminho para o deserto de Damasco; e, chegando lá, unge a Hazael rei sobre a Síria. (1 Reis 19:1-15)

[iv] More foi convocado, excepcionalmente, para fazer o juramento em 17 de abril de 1534, e, perante sua recusa, foi preso na Torre de Londres, juntamente com o Cardeal e Bispo de Rochester John Fisher, tendo ali escrito o “Dialogue of Comfort against Tribulation”. A sua decisão foi manter o silêncio sobre o assunto. Pressionado pelo rei e por amigos da corte, More decidiu não enumerar as razões pelas quais não prestaria o juramento.

Inconformado com o silêncio de More, o rei determinou o seu julgamento, sendo condenado à morte, e posteriormente executado em Tower Hill a 6 de julho. Nem no cárcere nem na hora da execução perdeu a serenidade e o bom humor e, diante das próprias dificuldades reagia com ironia.

Pela sentença o réu era condenado “a ser suspenso pelo pescoço” e cair em terra ainda vivo. Depois seria esquartejado e decapitado. Em atenção à importância do condenado o rei, “por clemência”, reduziu a pena a “simples decapitação”. Ao tomar conhecimento disto, Tomás comentou: “Não permita Deus que o rei tenha semelhantes clemências com os meus amigos.” No momento da execução suplicou aos presentes que orassem pelo monarca e disse que “morria como bom servidor do rei, mas de Deus primeiro.”

A sua cabeça foi exposta na ponte de Londres durante um mês, foi posteriormente recolhida por sua filha, Margaret Roper. A execução de Thomas More na Torre de Londres, no dia 6 de julho de 1535 “antes das nove horas”, ordenada por Henrique VIII, foi considerada uma das mais graves e injustas sentenças aplicadas pelo Estado contra um homem de honra, consequência de uma atitude despótica e de vingança pessoal do rei. Ele está sepultando na Capela Real de São Pedro ad Vincula – fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_More#Mart.C3.ADrio, acesso em 27.04.2015.

[v] MORE, Thomas A Sós, com Deus. Escritos da Prisão, 1534-1535, tradução de Roberto Vidal da Silva Martins, São Paulo: Quadrante, 2002, p. 158.

[vi] Fernandez-Carvajal. Francisco. Falar Com Deus. Meditações para cada dia do ano, 4ª. Edição, Volume 2, Quaresma. Semana Santa. Páscoa. São Paulo: Quadrante, 2000, p. 462.

[vii] São João Crisóstomo, Homilia sobre a glória da tribulação.

[viii] CARVAJAL, Francisco Fernandez. La Tibieza. Séptima edición, Madrid, Ediciones Palabra, p. 94.

[ix] Escrivá, Josemaría. Amigos de Deus: homilias. São Paulo: Quadrante, 2000, página 96, 97.

[x] Escrivá, Josemaría. Amigos de Deus: homilias. São Paulo: Quadrante, 2000, página 96, 97.

[xi] More foi convocado, excepcionalmente, para fazer o juramento em 17 de abril de 1534, e, perante sua recusa, foi preso na Torre de Londres, juntamente com o Cardeal e Bispo de Rochester John Fisher, tendo ali escrito o “Dialogue of Comfort against Tribulation”. A sua decisão foi manter o silêncio sobre o assunto. Pressionado pelo rei e por amigos da corte, More decidiu não enumerar as razões pelas quais não prestaria o juramento.

Inconformado com o silêncio de More, o rei determinou o seu julgamento, sendo condenado à morte, e posteriormente executado em Tower Hill a 6 de julho. Nem no cárcere nem na hora da execução perdeu a serenidade e o bom humor e, diante das próprias dificuldades reagia com ironia.

Pela sentença o réu era condenado “a ser suspenso pelo pescoço” e cair em terra ainda vivo. Depois seria esquartejado e decapitado. Em atenção à importância do condenado o rei, “por clemência”, reduziu a pena a “simples decapitação”. Ao tomar conhecimento disto, Tomás comentou: “Não permita Deus que o rei tenha semelhantes clemências com os meus amigos.” No momento da execução suplicou aos presentes que orassem pelo monarca e disse que “morria como bom servidor do rei, mas de Deus primeiro.”

A sua cabeça foi exposta na ponte de Londres durante um mês, foi posteriormente recolhida por sua filha, Margaret Roper. A execução de Thomas More na Torre de Londres, no dia 6 de julho de 1535 “antes das nove horas”, ordenada por Henrique VIII, foi considerada uma das mais graves e injustas sentenças aplicadas pelo Estado contra um homem de honra, consequência de uma atitude despótica e de vingança pessoal do rei. Ele está sepultando na Capela Real de São Pedro ad Vincula.1http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_More

[xii] Santo Tomás Moro, Diálogo de La Fortaleza Contra La Tributación. Traducción, introducción y notas de Álvaro de Silva. Madrid, Ediciones Rialp, p. 146.

[xiii] Escrivá Josemaria. Amigos de Deus: homilias. São Paulo: Quadrante, 2000, página 97.

Temor e Amor Filial a Deus: Dons do Espírito Santo

Como podemos nos relacionar com um Deus que é Todo-Poderoso? O Dom do temor filial

Em nosso relacionamento com Deus, diz Francisco Fernandez Carvajal que “devemos apoiar-nos em dois pontos sólidos que se unem e complementam: confiança e reverência respeitosa; intimidade e submissão reverencial; amor e temor. E arremata Carvajal com uma frase de São Bernardo, dizendo que estes são “os dois braços com que abraçamos a Deus”.
É claro que o temor filial a Deus deve vir em conjunto com o amor filial a Deus, porque o temor sozinho se transforma facilmente em medo de Deus, ou medo do inferno, e não é isso que desejamos. Queremos respeitar e reverenciar a Deus não por medo Dele ou do inferno, mas respeitá-Lo e reverenciá-Lo por aquilo que Ele é, sumamente Bom, Perfeito, Amável, nosso Pai…
Enfim, vamos hoje abordar um Dom do Espírito Santo que nos ajudará em nosso relacionamento íntimo com Deus: o Dom do Temor Filial a Deus.
Como o nosso intuito será explorar a questão do Dom do temor e amor a Deus, e sendo este Dom próprio do Espírito Santo, gostaríamos de iniciar esta exposição de ideias, falando um pouco sobre o Espírito Santo, como Pessoa da Santíssima Trindade, apresentar quais são os sete principais dons que Ele nos concede e por fim falar, especificamente, do dom do temor e amor a Deus.

Quem é o Espírito Santo de Deus?

O Espírito Santo é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Ele é o “Senhor que dá a Vida e que procede do Pai e do Filho e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado” como bem nos ensina o Credo Constantinopolitano.
Ele procede do Pai e do Filho, porque se o Filho é A Imagem, o Esplendor do Pai e o Pai é a origem da espiração do Seu Espírito, segue-se que o Espírito Santo procede do Pai, mas também é espirado pelo Filho (que é Imagem do Pai).
Dizemos que o Espírito Santo é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, não porque aja uma sequência temporal na Vida Trinitária.
Em Deus não há tempo. O tempo e espaço é algo que veio com o mundo criado por Deus e isso até os cientistas reconhecem.
Em Deus vigora a eternidade, que é a medida do Seu Ser, que não tem início, nem fim, não há antes, nem depois, mas é inteiramente simultânea, como diz Santo Tomás de Aquino, citando Boécio: “como diz Boécio, a eternidade é inteiramente simultânea, o que não convém ao tempo, pois a eternidade é a medida do ser permanente, e o tempo a medida no movimento.”

Assim, sendo Deus um ser racional e que ama, podemos dizer que em sua Substância, em Seu Ser, há a geração do Filho, que não é uma criatura que vem do nada como nós, o Filho vem do Ser do Pai, da mesma Substância do Pai, por isso o Filho é consubstancial ao Pai.
O Espírito Santo também é consubstancial ao Pai e ao Filho, pois procede do Pai, o Pai é a origem de tudo, e do Pai pelo Filho, há a espiração do Espírito Santo. O Espírito Santo é espirado do ato de vontade do Pai, assim como o Filho é gerado da Inteligência do Pai.
Tudo isso ocorre naquele instante presente que é a eternidade de Deus.
E essa geração do Filho, e a espiração do Espírito Santo, não faz com que existam três deuses.
Deus é Uno, a Trindade está nas Pessoas.
Por ausência de um termo melhor usamos Pessoas, mas as Pessoas de Deus são hipóstases, ou seja, são sujeitos que subsistem por Si.
O Pai, por exemplo, é Pai não de forma acidental, pois não é como um homem, que em determinado momento se transforma em pai. Deus-Pai sempre foi Pai, nunca houve nenhum momento em que não O fosse. Sua Paternidade não é acidental, mas substancial.
Deus Pai é uma Pessoa porque, colocado em relação ao Outro, Ele é Pai.
Um homem não se diz que é pessoa porque é Pai. O homem – nós o chamamos de pessoa – sendo ou não pai de alguém.
Por aí vemos como o termo Pessoa é inadequado, e é usado por falta de termo melhor.
E em Deus, o Ser de Deus é o mesmo que Conhecer. O Seu Ser é Inteligência. O Filho que é o conhecimento gerado, tem o mesmo Ser do Pai.
As Pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo, não se distinguem, senão quando em oposição na relação entre elas.
Por exemplo, Deus é Deus, é um Ser Divino Racional e que Ama, mas o Filho não tem a Paternidade do Pai, ele é Filho, é gerado. O Espírito Santo também não é Pai, Ele é espirado do Pai pelo Filho.
A Inteligência em Deus está nos Três. A Vontade Divina é uma só.
Assim, em Deus não há relação, distinção real, ou relação de oposição no tocante à Sua Realidade Absoluta (Ser Deus), mas só quanto à Realidade relativa, que são quatro: a Paternidade, Filiação, Espiração e Processão. Essas Relações são fundadas na ação que acontece não para o exterior de Deus, mas no Seu interior:
1- Paternidade de Deus-Pai é o princípio da Filiação, um princípio não principiado, que não vem de ninguém; e a Espiração de Deus-Pai é o princípio da ação do Amor de Deus-Pai por Deus-Filho, que espira o Espírito Santo.
2- Filiação do Deus-Filho é o termo que procede da ação do Intelecto de Deus, não sendo o Filho, portanto uma coisa conhecida de Deus, mas uma Pessoa que procede da ação Intelectual de Deus, sem ser criação, pois a criação vem do nada e o Filho vem da Substância Deus.
3- Espiração do Espírito Santo do Pai pelo Filho é o termo procedente da ação da Vontade de Deus, que é o Amor.
O que pode nos confundir é o fato de existir Jesus Cristo.
Mas, não há confusão nenhuma, pois o que Deus fez foi assumir uma humanidade, sem deixar a sua atividade de Deus.
Na humanidade de Jesus, por ser Deus Uno, habita a Santíssima Trindade inteira, embora a Encarnação tenha sido do Filho.
Eles não se dividem. Onde está Um, estão todos.
Cada um tem algo que é mais a Sua propriedade. Embora a criação seja Obra dos Três, falamos que o Pai é que nos dá o Ser, o Filho, o conhecimento e o Espírito Santo, a santificação.

“Que seguridade cuando sabemos que quien nos ha de santificar es Dios, Senor, Omnipotente! (Deus, Dominus, Omnipotens). Nuestra miseria necessita de toda la omnipotencia divina para hacerse santidad. Pero esa miseria no nos deprime ni desespera porque, efetivamente, el Santificador es Ominipotente.”
Espírito Santo e os Sete Dons

O Espírito Santo por apropriação é o que nos santifica e quer nos conceder Sete Dons:
• Sabedoria
• Inteligência
• Conselho
• Fortaleza
• Ciência
• Piedade
• Temor de Deus
A maravilha desses Dons, é que contribuem sobremaneira da nossa santificação, pois, se com uma virtude humana nós navegamos a remo, pelos Dons do Espírito Santo passamos a navegar a vela no caminho da santidade.
Por exemplo, pela Fortaleza que é um dom do Espírito Santo, conseguiremos viver a Pontualidade, que é uma virtude humana, no acordar de manhã, em cumprir os nossos deveres cotidianos, em chegar no horário a um compromisso profissional…
Pelos Dons do Espírito Santo, a alma fica muito mais passiva, do que ativa, o Espírito Santo movimenta as nossas faculdades sem ferir a nossa liberdade. O que era difícil, passa a ser fácil de realizar no dia a dia.
Para uma comparação concreta, o dom do Espírito Santo é como se Deus passasse a ser um bailarino, conduzindo-nos na dança da vida, que é a Santidade. O nosso papel é deixar-se conduzir, como faz a dançarina. A dançarina não perde a sua liberdade, ao deixar-se conduzir pelo bailarino. Quanto mais dócil for a dançarina, mais a dança sairá bonita…O mesmo conosco. O nosso bailarino é o Espírito Santo. Deixemos Ele conduzir a dança…
Para chegarmos aos Dons do Espírito Santo precisamos por um tempo considerável praticar virtudes humanas segundo desígnios de Deus e esforçarmo-nos por cooperar com a Graça (ou seja, para se deixar conduzir pelo Dançarino que é Deus, precisamos, em primeiro lugar, aprender ou nos esforçarmos por aprender a dançar…
Vamos aprofundar agora no temor de Deus que é o primeiro degrau para o último dom que é o da Sabedoria.
Dom do temor e amor de Deus

Embora o dom seja do temor de Deus, não se pode dissociá-lo do amor a Deus.
Não existe amor se não for traduzido em atos concretos, em boas obras.
Uma primeira prova de amor a Deus é precisamente o santo temor, o temor de um filho, que não deseja desgostar o seu pai.
Ninguém é Pai na acepção verdadeira do que Deus, porque, como vimos, todos os pais da terra, inclusive o nosso, são pais de forma acidental, pois antes de serem pais já eram homens. Deus, não. Deus é Pai de forma substancial, Ele sempre foi, é e será Pai eternamente, pois eternamente gera Deus Filho.
Sabemos que Deus quer nos adotar como filhos, não pela natureza consubstancial a Ele, porque somos tirados do nada e para ser um filho por natureza teríamos de sair de sua Substância, de Seu Ser, que não é o caso. E a maior prova dessa filiação por adoção, é Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o Primogênito de uma nova criação. O mesmo acontecerá conosco, pois Jesus mesmo disse que Deus-Pai quer que sejamos ressuscitados. Para isso, devemos “comer a Sua Carne e beber do Seu sangue”, como Jesus explicou um dia aos seus discípulos, ou seja, entrar em comunhão com Jesus pela Eucaristia, na Missa.
Mas é muito bonito pensar em um Deus que deseja cumular sua criatura de dons sobrenaturais e que deseja que possamos estar aptos a entrar em Sua Vida de Deus, tendo Nosso Senhor Jesus Cristo como irmão e Mestre e Senhor e Nossa Senhora como Mãe.
Estando ciente disso e de todo o sacrifício que custou para Nosso Senhor Jesus, é natural que estejamos dispostos a lutar contra tudo o que desgoste a Deus, lutando contra o pecado, que nada mais é do que atos de amor próprio desordenado em que viramos as costas para Deus ou para o próximo, porque estamos somente centrados em nós mesmos.
Pelo dom do Temor e Amor a Deus faremos, em outras palavras, a Vontade do Nosso Pai Deus. Nisto consiste o dom do Temor e Amor a Deus, como bem explicou o Papa Francisco em uma audiência geral datada de 11 de junho de 2014, no Vaticano:
O dom do temor de Deus, do qual hoje falamos, conclui a série dos sete dons do Espírito Santo. Não significa ter medo de Deus: sabemos que Deus é Pai e nos ama, quer a nossa salvação e nos perdoa sempre; por isso, não há motivo para ter medo dele! Ao contrário, o temor de Deus é o dom do Espírito que nos recorda como somos pequenos diante de Deus e do seu amor, e que o nosso bem está no nosso abandono com humildade, respeito e confiança nas suas mãos. Este é o temor de Deus: o abandono à bondade do nosso Pai, que nos ama imensamente.
Mas, não estamos sozinhos nesta luta de praticar e amar a Vontade do Nosso Pai. Precisaremos contar com a graça divina, que vem pelos Sete Sacramentos e também de esforço pessoal, lutando contra aquelas tendências à preguiça, luxúria, soberba, avareza, inveja, ira, gula, praticando as virtudes contrárias de laboriosidade, castidade e modéstia, humildade, desprendimento, generosidade, mansidão, temperança…

Como bem diz o Papa Francisco sobre o dom do temor e amor a Deus:
Eis por que motivo temos tanta necessidade deste dom do Espírito Santo. O temor de Deus faz-nos ter consciência de que tudo é graça e que a nossa verdadeira força consiste unicamente em seguir o Senhor Jesus e em deixar que o Pai possa derramar sobre nós a sua bondade e misericórdia. Abramos o coração, para receber a bondade e a misericórdia de Deus. É isto que faz o Espírito Santo mediante o dom do temor de Deus: abre os corações. Mantenhamos o coração aberto para deixar entrar o perdão, a misericórdia, a bondade e os afagos do Pai, porque nós somos filhos infinitamente amados.

Jesus sabia que não seria fácil para uma natureza animal com a nossa portarmo-nos como filhos de Deus adotivos, por isso, nos mereceu-nos na Cruz o Espírito Santo pelo qual somos aptos, e só por Ele, a dizer Abba, Pai.
O dom do temor e amor a Deus é algo sobrenatural, que não tem como o ser humano conquistar para Si.

O Papa Leão XIII na sua Encíclica Divinum Illud Múnus de 09 de maio de 1897 bem menciona que a nossa alma, pelos dons do Paráclito, passa a se revestir:
…de um aumento de forças e aptidão, para mais fácil e prontamente obedecer à voz e ao incitamento do Espírito Divino; possuem, além disso, tanta eficácia que conduzem o homem ao mais alto grau de santidade, e são tão excelentes que permanecem os mesmos no reino celestial embora mais perfeitos. Graças a estes carismas, a alma sente-se aliciada e estimulada a emprenhar-se em alcançar as bem-aventuranças evangélicas que, quais flores desabrochadas em plena primavera, prenunciam a bem-aventurança eternamente duradoura.
É pelo dom do Espírito Santo, sobretudo do temor e amor a Deus, que realizaremos “de um modo mais perfeito e como que sem esforço as obras boas através das quais se manifesta o amor a Deus, a santidade”.

Duas coisas serão necessárias para a infusão do dom do temor: espírito de penitência e respeito pelo sagrado e um horror pelo pecado.
Vamos abordar cada um em separado.

Temor de Deus e Espírito de Penitência

Não pode haver temor humano filial de Deus, se não houver espírito de penitência. E assim não estamos demonstrando por atos concretos que queremos o Dom do Temor de Deus a ser infundido pelo Espírito Santo em nós. Precisamos nos esforçar nessa virtude humana do temor filial para chegar ao Dom do Temor de Deus.
Quem deseja de verdade não desgostar ao Pai do Céu, precisará desse espírito de penitência que é toda uma mudança do espírito, todo um conjunto de atos não só exteriores, mas atos interiores dirigidos a reparar e evitar pecados.

Sabemos que dentre os mandamentos da Igreja, existem: a) o quarto mandamento que nos exorta a jejuar e abster-se de carne em alguns dias durante o ano, b) existe também o quinto mandamento que nos incentiva a ajudar a Igreja nas suas necessidades pela esmola, que são atos de penitência exterior mínimos que a Igreja prevê de forma pedagógica.
O santo temor de Deus necessita que tenhamos esse espírito de penitência e não somente às sextas-feiras e no tempo de quaresma, tal como previsto no cânon 1250 do Código de Direito Canônico, mas um espírito de penitência que brote do interior, de uma vida interior, uma vida de amizade, amor, gratidão a Deus e o desejo firme de Lhe agradar, lutando contra nossa tendência a amar-nos de forma exagerada que até desprezamos a Deus ou ao próximo.

Desde o pecado original a nossa natureza humana ficou prejudicada.
Da narração feita no Gênesis, fica claro porque precisamos de penitência, porque as atitudes de Adão e Eva nos mostram que o fato de ter agarrado o fruto proibido, mostra-nos que precisamos meditar na necessidade de iniciarmos uma penitência interior que se traduza em atos que combatam essa tendência à avareza, à soberba e à concupiscência carnal do comer o fruto proibido, com a esmola, jejum.
Mas as formas de penitência são variadíssimas. Muito mais do que almejarmos grandes penitências, existem penitência heroicas que as podemos esforçarmo-nos por praticá-las no dia a dia, conforme ensinamentos de São Josemaria Escrivá:
Penitência é o cumprimento exacto do horário que te fixaste, mesmo que o corpo resista ou a mente pretenda evadir-se com sonhos quiméricos. Penitência é levantares-te pontualmente. E também, não deixar para mais tarde, sem motivo justificado, essa tarefa que te é mais difícil ou custosa.
A penitência está em saber compaginar as tuas obrigações relativas a Deus, aos outros e a ti próprio, exigindo-te, de modo que consigas encontrar o tempo necessário para cada coisa. És penitente quando te submetes amorosamente ao teu plano de oração, apesar de estares cansado, sem vontade ou frio.
Penitência é tratar sempre os outros com a maior caridade, começando pelos teus. É atender com a maior delicadeza os que sofrem, os doentes e os que padecem. É responder com paciência aos maçadores e inoportunos. É interromper ou modificar os nossos programas, quando as circunstâncias – sobretudo os interesses bons e justos dos outros – assim o requerem.

A penitência consiste em suportar com bom humor as mil pequenas contrariedades do dia; em não abandonar o trabalho, mesmo que no momento te tenha passado o entusiasmo com que o começaste; em comer com agradecimento o que nos servem, sem caprichos importunos.

Penitência, para os pais e, em geral, para os que têm uma missão de dirigir ou de educar é corrigir quando é necessário fazê-lo, de acordo com a natureza do erro e com as condições de quem necessita dessa ajuda, superando subjectivismos néscios e sentimentais.

O espírito de penitência leva a não nos apegarmos desordenadamente a esse esboço monumental dos projectos futuros, no qual já previmos quais serão os nossos traços e pinceladas mestras. Que alegria damos a Deus quando sabemos renunciar aos nossos gatafunhos e pinceladas, e permitimos que seja Ele a acrescentar os traços e cores que mais lhe agradam!
Temor de Deus e o Respeito pelo Sagrado
O outro efeito por termos o santo temor filial, o temor de não desagradar e de amar a Deus, esse temor filial, de quem se sabe filho de Deus por adoção, é o respeito pelo sagrado.
O mais importante – pois é o único que se deu em Cristo e na Santíssima Virgem – é um profundo sentido do sagrado, um imenso respeito pela majestade de Deus e uma complacência sem limites na sua bondade de Pai. Em virtude deste dom, as almas santas reconhecem o seu nada diante de Deus. Repetem com frequência, confessando a sua nulidade, aquilo que tão amiúde repetia … Josemaría Escrivá: ´Não valho nada, não tenho nada, não posso nada, não sei nada, não sou nada, nada´, ao mesmo tempo que reconhecia a grandeza incomensurável de sentir-se e de ser filho de Deus.

Temor de Deus e o horror ao pecado

O último efeito do santo temor filial a Deus, que envolve temor e amor, reverência e submissão a Deus, é o horror ao pecado.
É esse horror é devido à consideração de que o pecado só cava um abismo entre nós e Deus, que é Três Vezes Santo.
Durante a vida terrena, este dom produz ainda outro efeito: um grande horror ao pecado, e se se tem a desgraça de cometê-lo, uma vivíssima contrição. À luz da fé, esclarecida pelos resplendores dos demais dons, a alma compreende um pouco da transcendência de Deus, da distância infinita e do abismo que o pecado cava entre ela e Deus. O dom do temor ilumina-nos para podermos entender que ´o que está na raiz dos males morais que dividem e desagregam a sociedade é o pecado.´ E leva-nos também a detestar o próprio pecado venial deliberado, a reagir com energia contra os primeiros sintomas da tibieza, do desleixo ou do aburguesamento. Pode haver ocasiões na nossa vida em que talvez nos vejamos na necessidade de repetir energicamente, como uma oração urgente: ´Não quero tibieza! ….dai-me, meu Deus, um temor filial que me faça reagir!
É por isso que o Papa Francisco disse que o dom do temor é como se fosse um alarme. Por ele, soará o alarme se estivermos praticando atos incompatíveis de quem se sabe filho de Deus: soará o alarme dependendo do nosso modo de vestir, do tom da nossa conversa, do nosso modo de agir…
Eis os dizeres do Papa Francisco sobre esse alarme do dom do temor:
Mas estejamos atentos, pois a dádiva de Deus, o dom do temor de Deus constitui também um «alarme» diante da obstinação do pecado. Quando uma pessoa vive no mal, quando blasfema contra Deus, quando explora o próximo, quando tiraniza contra ele, quando vive só para o dinheiro, a vaidade, o poder ou o orgulho, então o santo temor de Deus alerta-nos: atenção! Com todo este poder, com todo este dinheiro, com todo o teu orgulho, com toda a tua vaidade não serás feliz! Ninguém consegue levar consigo para o além o dinheiro, o poder, a vaidade ou o orgulho. Nada! Só podemos levar o amor que Deus Pai nos concede, as carícias de Deus, aceites e recebidas por nós com amor. E podemos levar aquilo que fizermos pelo próximo. Estejamos atentos a não pôr a esperança no dinheiro, no orgulho, no poder e na vaidade, pois tudo isto não nos pode prometer nada de bom! Por exemplo, penso nas pessoas que têm responsabilidades sobre os outros e se deixam corromper; pensais que uma pessoa corrupta será feliz no além? Não, todo o fruto do seu suborno corrompeu o seu coração e será difícil alcançar o Senhor. Penso em quantos vivem do tráfico de pessoas e do trabalho escravo; pensais que quantos traficam pessoas, que exploram o próximo com o trabalho escravo têm o amor de Deus no seu coração? Não, não têm temor de Deus e não são felizes. Não o são! Penso naqueles que fabricam armas para fomentar as guerras; mas que profissão é esta! Estou convicto de que se agora eu vos dirigir a pergunta: quantos de vós sois fabricantes de armas? Nenhum, ninguém! Estes fabricantes de armas não vêm para ouvir a Palavra de Deus! Eles fabricam a morte, são mercantes de morte, fazem da morte mercadoria. Que o temor de Deus os leve a compreender que um dia tudo acaba e que deverão prestar contas a Deus.
Conclusão
Ficará muito difícil para Deus conceder-nos um dom que é gratuito, que nós não mereceríamos nunca se não fosse por Jesus Cristo, se não temos espírito de penitência, um profundo respeito pelo sagrado e um horror ao pecado.
Como haverá temor filial a Deus, se no meu íntimo não estou convertendo o meu coração a Ele , não estou disposta a romper com o pecado e não tenho aversão ao mal e nem repugnância àqueles pecados que habitualmente cometo?
O temor de Deus, o medo de um filho ofender Seu Pai Deus, teve brotar do coração, devemos ter “compunctio cordis” (arrependimento do coração), “animi cruciatus” (aflição do espírito), toda vez que escorregamos.
Um filho de Deus reconhece que tudo recebe das mãos de Seu Pai, a vida, a inteligência, as habilidades todas que são uma participação das Perfeições que existem em Deus..
Um filho de Deus percebe que o pecado não passa de um grande egoísmo, um apego desordenado a si mesmo que nos leva a desprezar, a não se importar com o outro e às vezes até com Deus e os Seus desígnios, o que inclui os Seus Mandamentos. Quanto mais egoístas, apegados a nós mesmos, às nossas convicções inovadoras ao que Deus quer de nós, mais cavamos um abismo, que já é enorme, entre um Deus maravilhoso, que é Bondade e Sabedoria e o Criador de tudo e a nossa pequenez e limitações.
Saibamos pedir à Theotokos, àquela que Deus escolheu para ser a Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a reverência, submissão filial a Deus e também um grande amor a Ele, que seja traduzido em boas obras, em atos concretos, ela que é Mãe de Deus, mas também Filha de Deus-Pai e templo do Espírito Santo. Amém.

1.CARVAJAL. Francisco Fernández. Falar Com Deus. Meditações para cada dia do ano: 4ª. Edição. Volume 2. Quaresma. Semana Santa. Páscoa. São Paulo: Quadrante, 2000, p. 465.

2.Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 10, a. 4., p. 240
3.A respeito, é importante verificar as lições de Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica, volume I q. 28, a. 4.
4.Pero-Sanz, José Miguel. El símbolo atanasiano: de la trinidad a la encarnación: um comentário para la meditación, 2ª. Edición revisada, Madrid: Ediciones Palava, 1998, p. 45-6.

5.Jesus lhes disse: “Eu lhes digo a verdade: Se vocês não comerem a carne do Filho do homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em si mesmos.
Todo o que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia -João 6:53,54
6.https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2014/documents/papa-francesco_20140611_udienza-generale.html, acesso em 20.04.2015.
7.https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2014/documents/papa-francesco_20140611_udienza-generale.html, acesso em 20.04.2015.
8.Suma Teológica, Santo Tomás de Aquino, I-2, q. 68, a.1.
9.CARVAJAL. Francisco Fernández. Falar Com Deus. Meditações para cada dia do ano: 4ª. Edição. Volume 2. Quaresma. Semana Santa. Páscoa. São Paulo: Quadrante, 2000, p. 465.
10.https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2014/documents/papa-francesco_20140611_udienza-generale.html, acesso em 20.04.2015.

11.Código de Direito Canônico, §1435: A conversão se realiza na vida cotidiana por meio de gestos de reconciliação, do cuidado dos pobres, do exercício e da defesa da Justiça e do direito, pela confissão das faltas aos irmãos, pela correção fraterna, pela revisão de vida, pelo exame de consciência pela direção espiritual, pela aceitação dos sofrimentos, pela firmeza na perseguição por causa da justiça. Tomar sua cruz, cada dia, seguir a Jesus é o caminho mais seguro da penitencia.

The Gift of Fear of Lord

In our relationship with God, says Francisco Fernandez Carvajal that we must support us in two solid points that unite and complement: reliable and respectful reverence; intimacy and reverential submission; love and fear. And Carvajal[i] finishes off  citing  São Bernardo, saying that these are (fear and love) “both arms to embrace the God”.

It is clear that Fear of the Lord should come in conjunction with the filial love to God, because the fear alone turns easily in fear of God, or fear of hell, and that’s not what we want. We want to respect and reverence God.

Anyway, the Gift of the Holy Spirit that will help us in our intimate relationship with God is the Gift of  Fear of the Lord.

As our aim will be to explore the issue of gift of Fear of the Lord , and being this gift from the Holy Spirit, we would like to start this exhibition of ideas, talking a little about the Holy Spirit, as a Person of the Holy Trinity, and finally speak, specifically, the Gift of Fear of the Lord.

Who is God The Holy Spirit?

The Holy Spirit is the Third Person of the Holy Trinity. He is the Lord who gives life and Who is proceeded from the Father and the Son.

He proceeds from the Father and the Son, because if the Son is the image of the Father, the Splendor of the Father, and the Father is the Source of the spiration of his Spirit, it follows that the Holy Spirit proceeds from the Father, but is also from the Son (who is  Father’s Image).

We say that the Holy Spirit is the Third Person of the Holy Trinity, not because a temporal sequence in Trinitarian Life, but a logical sequence.

In God there is no time. The time and space is something that came with the world created by God and the scientists recognize them.

In God there is eternity, which is the measure of His being, in which there is no beginning, there is no end, there is no before, no after, but it is entirely simultaneous.

 

 

Saint Thomas begins his Account with Boethius’ definition of Eternity: “Eternity is the Simultaneously-Whole and Perfect Possession of Interminable Life”. Analyzing the meaning of the terms, Aquinas defines more precisely the Concept of Eternity. A First Observation he makes is that we must Acquire Knowledge of Simple Things by-way-of Compound Things, and so we must Obtain Knowledge of Eternity by means of TimeTime, which is the Numbering of Movement by Before and After, is marked by Succession. From the Apprehension of such a Being, results the idea of Eternity. Saint Thomas adds a further Argument: What is Wholly Immutable has no Succession and so it has noBeginning and no End. It is Eternal.

Summing up: we must signify what Eternity is by means of Two (2) Essential Characteristics:

 What is Eternal is without Beginning and End;
 It has no Succession, but is entirely Simultaneous.

In the Replies to Objections, certain things are made clearer: with “Life” in the Definition of Eternity it means the ‘Highest Form of Being’. What is Eternal is ‘Whole’ because it is Wanting in Nothing and it is Perfect because it has its own Eternal ‘Now’ so that it Exists entirely within Itself.

In the Second Article, Aquinas further explains the Characteristics of God’s EternityGod alone is He‘be’ (esse). This means that He is His own Duration and so He is His own Eternity. The concluding section of this argument discloses a ‘Being’ wholly foreign to our experience, viz. one which is its own duration in a ‘now’ or rather which is a ‘now’ which does not Flow-Along in Succession, but is in its Entirety, Actualized and Present. To denote this we use the term “Nunc Stans” (the Now that Stands Still). We must start from our experience of Time and proceed by the Way of Eminence to the Idea ofEternity, but the Eternity of God is far beyond our Understanding and Surpasses whatever we can Conceive.

With the decline of Metaphysics the Proper Concept of Eternity was Lost. ‘Eternal‘ was now understood as Being without ‘Beginning’ and ‘End’, whereas this Absence of ‘Beginning’ and ‘End’ is notthe Main Characteristic of EternityEternal is that which is ‘Simultaneous’ and ‘Together’.[ii]

 

So, being a Rational being and The One who Loves, we can say that in His substance, in His being, the generation of God the Son occur from the same substance of the Father, that´s why  the Son is the same Father’s nature.

The Holy Spirit also proceeds from the Father, from Father´s Will, because the Father is the source of everything, and the Father the Son  they do the spiration of the Holy Spirit. The Holy Spirit comes from the  Act of Will of the Father and the Son comes from the Father’s Intelligence.

All this happens in the eternity of God.

And this generation of the Son, and the spiration of the Holy Spirit does not mean we have three gods.

God is one, the Trinity is in the Three Persons of Holy Trinity.

For lack of a better term, we use the term Person, but the Three Persons of God are hypostasis, i.e. they are subjects who subsist by Themselves. It is different from us, we are not able to subsist by themselves and there are many others differences comparing the Three Persons of God and us.

The Father, for example, is Father not accidental, because it’s not like a man, who, at some point of his life, a man becomes father. God The Father is always Dad, there wasn´t  any moment in God´s life that this hadn´t happened. His paternity is not accidental, but substantial.

God The Father is a Person because, placed in relation to the Other, He is the Father.

The Three Persons God The Father, God The Son and God the Holy Spirit are cosubstancial, however They have an opposition in the relation between them.

This explains why God the Son doesn´t have His Father’s Paternity, He is generated. The Holy Spirit is not also Dad, neighter the Son´s brother, but  He proceeds from the Father and The Son by Love.

So, in God there is no relationship, Royal distinction, or relationship of opposition as regards Their absolute reality (BeingGod), but only as to the relative Reality, which are four: Paternity, Filiation, Spiration and Procession. These relationships are based on action that happens not outside of God, but inside of Him:

1-Fatherhood: God The Father is the principle; He doesn’t come from anyone;  He is the principle who is not principled;

2-Sonship: God The Son comes from the action of the intellect of God The Father. God The Son is a Person who proceeds, who is generated from the Intellectual action of God. God the Son is not created, because the creation doen´t comes from God´s Substance like God The Son Does.

3-Spiration: God The Holy Spirit proceeds from the Father through the Son; Spiration is the term from the action of the Will of God, which is love.

The fact there is Jesus Christ in our human being might confuse our mind.

But there’s no reason to confuse, because God The Son has also taken our humanity, but this occurs without leaving His activity of God.

In despite of Jesus´humanity His Person is Divine, he is not a person like us, Jesus is the Second Person of the Holy Trinity. Because God is One, in Jesus inhabits the entire Holy Trinity,  and He is the Incarnation was the Son.

Although creation is the work of the Holy Trinity we say that the Holy Spirit by appropriation is the One engaged in our sanctification. He is responsible to  grant us His Seven Gifts:

  • Wisdom
  • Intelligence
  • Council
  • Fortress
  • Science
  • Mercy
  • Fear of God

The beauty of these Gifts of Holy Spirit is that contribute greatly to our sanctification, making it easier to us the practice of good things.

The Gifts of the Holy Spirit make our soul  more passive than active; the Holy Spirit moves our will  without violating our freedom.

For a practical comparison, let´s imagine God The Spirit like the best dancer and He will lead us in the dance of life, which is Holiness. Our role is to follow the best dancer. As we do so, we do not lose our freedom, because we also need to move our feet and body.

To be honored with the Gifts of the Holy Spiri we need for a considerable time practicing human virtues.

Gift of Fear of Lord

Though the Gift of fear of Lord, we cannot dissociate it from the love of God.

And there is no love if it is not brought into good deeds.

A first proof of love of God is precisely the  Fear of a child who doen´t want to dislike His Father.

We know that God wants to adopt us as children and  the greatest proof of this filiation by adoption, is our Lord Jesus Christ, who is the firstborn of a new creation.

The same will happen to us, because Jesus said that God-Father wants us to be resurrected. For that, we should “eat his flesh and drink his blood”, as Jesus explained to his disciples one day.

Being aware of all the effort from our Lord Jesus, to lead us to Heaven,  it is natural that we are willing to fight against everything that dislikes  God, fighting against sin, which is nothing more than acts of disordered self-love that turn our backs to God or to the next, because we are only focusing on ourselves.

Let´s see what Pope Francisco in a general audience in the Vatican dated June 11, 2014 says about this Gift:

The gift of fear of the Lord, which we are speaking about today, concludes the series of the seven gifts of the Holy Spirit. It does not mean being afraid of God: we know well that God is Father, that he loves us and wants our salvation, and he always forgives, always; thus, there is no reason to be scared of him! Fear of the Lord, instead, is the gift of the Holy Spirit through whom we are reminded of how small we are before God and of his love and that our good lies in humble, respectful and trusting self-abandonment into his hands. This is fear of the Lord: abandonment in the goodness of our Father who loves us so much.

  1. When the Holy Spirit comes to dwell in our hearts, he infuses us with consolation and peace, and he leads us to the awareness of how small we are, with that attitude — strongly recommended by Jesus in the Gospel — of one who places his every care and expectation in God and feels enfolded and sustained by his warmth and protection, just as a child with his father! This is what the Holy Spirit does in our hearts: he makes us feel like children in the arms of our father. In this sense, then, we correctly comprehend how fear of the Lord in us takes on the form of docility, gratitude and praise, by filling our hearts with hope. Indeed, we frequently fail to grasp the plan of God, and we realize that we are not capable of assuring ourselves of happiness and eternal life. It is precisely in experiencing our own limitations and our poverty, however, that the Holy Spirit comforts us and lets us perceive that the only important thing is to allow ourselves to be led by Jesus into the Father’s arms.[iii]

But we are not alone in this struggle to practice and love the will of our Father. We can count on divine grace, which comes by the seven Sacraments and also of personal effort, fighting those trends to sloth, lust, pride, avarice, envy, wrath, gluttony, practicing the virtues contrary of industriousness, chastity,modesty, humility, selflessness, generosity…

Jesus knew that it wouldn’t be easy for an animal nature with our play us as children of God, adoptive so we deserved to uson the cross of the Holy Spirit for which we are able, and just for him, to say Abba, Father.
Pope Leo XIII in his Encyclical  of May 9, 1897  says about this Gift:

… of an increase in strength and fitness, for easier and more readily obey the voice and the incitement of the divine spirit;have, moreover, such effectiveness that lead the man to the highest degree of Holiness, and are so excellent that remain the same in the celestial Kingdom although more perfect. Thanks to these charisms, the soul feels wooed and stimulated tofeed or clothe themselves in achieving the Beatitudes that Evangelical, which spiked flowers in full spring, foreshadow thebeatitude eternally durable.

Is the gift of the Holy Spirit, especially from the fear and love of God, that we will “in a more perfect and as you effortlesslygood works through which manifested the love of God, Holiness”.

The Gift of Fear of God is supernatural gift, it means we cannot give it to us. It comes from Godhead, but 3 things are necessary:  our spirit of penance;  respect for the sacred and a horror for sin.

Let’s address each one separately.

Fear of God and spirit of Penance

If we have spirit of penance it is one way we demonstrate  we want the gift of Fear of God to be infused by the Holy Spirit in  our soul.

We know that one of the commandments of the Church is to fast and abstain from meat on certain days during the year and there is also the fifth commandment that encourages us to help the Church in its needs by alms, which are acts of penance that the Church provides minimal exterior of pedagogical way.

The Holy fear of God requires that we have that spirit of penance and not only on Fridays but always,  fighting against our tendency to love ourselves and forget God or the next.

Since the original sin our humanity was violated.

The narration in Genesis demonstrates why we need of penance. Adam and Eve’s attitude show us that the fact of having grabbed the forbidden fruit shows us that we need to meditate on the need of a interior penance and exterior penance.

The forms of penance are very varied. More than doing great penances, there are  penances we can practice them on a daily basis, according to teachings of Saint Josemaría Escrivá:

Penance is fulfilling exactly the timetable you have fixed for yourself, even though your body resists or your mind tries to avoid it by dreaming up useless fantasies. Penance is getting up on time and also not leaving for later, without any real reason, that particular job that you find harder or most difficult to do.

Penance is knowing how to reconcile your duties to God, to others and to yourself, by making demands on yourself so that you find enough time for each of your tasks. You are practising penance when you lovingly keep to your schedule of prayer, despite feeling worn out, listless or cold.

Penance means being very charitable at all times towards those around you, starting with the members of your own family. It is to be full of tenderness and kindness towards the suffering, the sick and the infirm. It is to give patient answers to people who are boring and annoying. It means interrupting our work or changing our plans, when circumstances make this necessary, above all when the just and rightful needs of others are involved.

Penance consists in putting up good-humouredly with the thousand and one little pinpricks of each day; in not abandoning your job, although you have momentarily lost the enthusiasm with which you started it; in eating gladly whatever is served, without being fussy.

For parents and, in general, for those whose work involves supervision or teaching, penance is to correct whenever it is necessary. This should be done bearing in mind the type of fault committed and the situation of the person who needs to be so helped, not letting oneself be swayed by subjective viewpoints, which are often cowardly and sentimental.

A spirit of penance keeps us from becoming too attached to the vast imaginative blueprints we have made for our future projects, where we have already foreseen our master strokes and brilliant successes. What joy we give to God when we are happy to lay aside our third-rate painting efforts and let him put in the features and colours of his choice![iv]

 

 

 

Fear of God and respect for the Sacred

We also have a profound sense of the sacred, an immense respect for the Majesty of God and a boundless complacency in his goodness of Father.In virtue of this gift, the Holy souls recognize its nothing before God.

Saint Josemaria Escrivá used to repeat frequently, so it can help us:

Look, my daughter, tell our Lord, really and truly, from the depths of your soul, what I have to tell him with great shame:


‘Lord, I am nothing, I can do nothing, I am worth nothing, I know nothing, I have nothing! I am nothing, and You are everything.’

And then say, ‘But you’re my Father and fathers love their children.’ And when the child is a daughter like you, the fact is that daughters treat their fathers with great daring.[v]

Fear of God and the horror to Sin

The last thing to consider here is the horror to sin, considerating that the SIN just dig a gulf between us and God  Who is Three Times Holy.

The soul understands a bit of transcendence of God, the infinite distance and the gap that sin do between God and us. The gift of fear enlighten us so that we can understand what ´ is at the root of the moral evils that divide and separate society is sin. ´ and leads us also to hate his own deliberate venial sin, to react with energy against the first symptoms of lukewarmness.

This is why the Pope Francisco said the gift of Fear of God is like an alarm. For him, the alarm will sound if we’re practicing incompatible acts=: alarm will sound depending on our way of dressing, the tone of our conversation,our way of acting …

Behold, the words of Pope Francisco about this alarm of the gift of fear:

Yet, we should take care, for the gift of God, the gift of fear of the Lord is also an “alarm” against the obstinacy of sin. When a person lives in evil, when one blasphemes against God, when one exploits others, when he tyrannizes them, when he lives only for money, for vanity, or power, or pride, then the holy fear of God sends us a warning: be careful! With all this power, with all this money, with all of your pride, with all your vanity, you will not be happy. No one can take it with them to the other side: not the money, power, vanity or pride. Nothing! We can only take the love that God the Father gives us, God’s embrace, accepted and received by us with love. And we can take what we have done for others. Take care not to place your hope in money or pride, power or vanity, because they can promise you nothing good! I am thinking, for example, of people who have responsibility for others and allow themselves to become corrupt; do you think a corrupt person will be happy on the other side? No, all the fruit of his corruption has corrupted his heart and it will be difficult for him to go to the Lord. I am thinking of those who live off human trafficking or slave labour; do you think these people who traffic persons, who exploit people through slave labour have love for God in their hearts? No, they haven’t fear of the Lord and they are not happy. They are not. I am thinking of those who manufacture weapons for fomenting wars; just think about what kind of job this is. I am certain that if I were to ask: how many of you manufacture weapons? No one, no one. These weapons manufacturers don’t come to hear the Word of God! These people manufacture death, they are merchants of death and they make death into a piece of merchandise. May fear of the Lord make them understand that one day all things will come to an end and they will have to give account to God.[vi]
Conclusion

Let´s ask Theotokos, the Mother of the second person of the Holy Trinity, all of these reverence, submission to God=and also a great love, which is translated into good deeds She who is also the daughter of God-Father and Temple of the Holy Spirit. Amen.

[i] CARVAJAL. Francisco Fernández. Talk To God. Meditations for every day of the year: 4th. Editing. Volume 2. Lent. Semana Santa (Holy Week). Easter. São Paulo: quadrant, 2000, p. 465.

[ii] http://copiosa.org/church/eternity.htm

[iii] https://w2.vatican.va/content/francesco/en/audiences/2014/documents/papa-francesco_20140611_udienza-generale.html

[iv] Saint Josemaria Escrivá, Friends of God, point 138.

[v] http://www.josemariaescriva.info/article/opus-dei-founder-st-josemaria-escriva-public-relations-on-earth-and-in-heaven

[vi] https://w2.vatican.va/content/francesco/en/audiences/2014/documents/papa-francesco_20140611_udienza-generale.html

Dois homens e um segredo: a santificação do, no e com o trabalho

“Nada atrai mais almas do que o exemplo de uma vida constantemente virtuosa. Um justo, um homem cumpridor do seu dever, é uma pregação contínua…”[i]

 

Dois homens, um segredo

Certo dia, havia dois pedreiros trabalhando em uma construção. “Alguém aborda o primeiro pedreiro e pergunta: “O que você está fazendo?” Ele olha para cima e responde: “Você não vê? Estou colocando tijolos, um em cima do outro. As pedras são pesadas, e levantá-las pode ser árduo. Eu nem tenho certeza se esse projeto será concluído durante minha vida. É um pouco monótono, com certeza”. Cerca de dez metros depois, essa pessoa se aproxima do segundo pedreiro e lhe faz a mesma pergunta. Ele olha para cima e responde: “Você não pode ver? Estou construindo uma catedral.”

 

Que diferença desses dois pedreiros! O primeiro é um cumpridor de obrigações e mais nada. Seu olhar é curto. Não vê finalidade, concentra-se só no seu agir. Não pensa nos outros, é um egoísta.

O segundo pedreiro, que coração grande, que magnanimidade! Coloca amor na sua obrigação, amor ao próximo, vê finalidade no que faz e no quanto o seu trabalho é importante para os outros, aquele mero tijolo colocado em cima de outro, faz parte de uma bela construção, em que outros estarão lá um dia e ele é o colaborador disto.

Qual dos dois pedreiros será capaz de se empenhar por cumpri-lo com perfeição e não com má vontade, qual deles será capaz de demonstrar, embora esteja realizando algo aparentemente monótono e cotidiano, alegria de quem sabe que da sua pequena contribuição é que sairá uma linda catedral, que servirá a muitos no futuro?

Se quisermos, com o nosso trabalho, agradar a Deus, demonstrar a nossa gratidão a Ele, declarar o nosso amor por Ele em cada segundo de trabalho bem feito, devemos adotar a postura do segundo pedreiro.

Mas, não será que o primeiro pedreiro encara o trabalho como algo penoso, daí o seu desânimo?

Existe uma verdade que precisamos entender, o homem foi feito para trabalhar, assim como as aves para voar.

Deus criou o homem para trabalhar, para participar do Seu poder criativo.

A vocação do homem: trabalhar

Dizer que nós estamos aqui, pois Deus quer-nos trabalhadores, cooperadores da Sua Obra, não é uma opinião, um palpite.

A vocação do homem é essa mesma, trabalhar. E isso não veio por causa do pecado. O trabalho já estava nos planos do Criador antes do pecado original em que se diz tirará o homem o seu pão do suor do seu rosto.

É que Deus é trabalhador. Lembremos daquela passagem em que Jesus até comenta sobre isso:

A razão é dúplice:

  • “Proliferai e multiplicai-vos enchei a terra e submetei-a” (Gênesis 1,28).

Eis um dos motivos que dizemos que a nossa vocação é a de trabalhar, pois Deus nos outorgou um mandato: submeter (dominar, exercer um senhorio) a terra (o mundo visível).

Significa que o nosso dever cotidiano, conforme nossa vocação profissional, e nosso estado de vida (casado, solteiro, leigo, padre…) “se endereça para um objeto exterior, pressupõe um específico domínio do homem sobre a terra (…) terra (…) deve entender-se todo o mundo visível (…) submeter a terra tem um alcance imenso. Ela indica todos os recursos que a mesma terra (e indiretamente o mundo visível) tem escondidas em si e que, mediante a atividade consciente do homem, podem ser descobertas e oportunamente utilizadas por ele.” [ii]

  • “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus os criou, homem e mulher” (Gênesis 1,27)

O outro motivo pelo qual extraímos que a nossa vocação é a do trabalho, insere-se neste contexto: somos feitos à imagem de um Deus que é trabalhador (Jesus mesmo dizia: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também – João 5:17), Deus  é Criativo, e quer a nossa coparticipação nos Seus feitos: “Deus criou o mundo para manifestar e para comunicar sua glória. Que suas criaturas participem de sua verdade, de sua bondade e de sua beleza, é a glória para a qual Deus as criou.”[iii]

“…o homem, ao tornar-se – mediante o seu trabalho – cada vez mais senhor da terra, e ao consolidar – ainda mediante o trabalho – o seu domínio sobre o mundo visível, em qualquer hipótese e em todas as fases desse processo, permanece na linha daquela disposição original do Criador, a qual se mantém necessária e indissoluvelmente ligada ao fato de o homem ter sido criado, como varão e mulher ´à imagem de Deus´ “. [iv]

Trabalho e vida interior

São Josemaria Escrivá, o Santo do Cotidiano, diz que qualquer atividade lícita e moral, pode ser uma ocasião de amarmos a Deus, de demonstrar-Lhe a nossa gratidão, de querer agradar-Lhe.

Seria, em suas palavras, a nossa santificação por meio do nosso trabalho, do nosso dever cotidiano, das nossas obrigações familiares, profissionais e sociais.

“Para o Fundador, é preciso reconduzir a Deus toda a criação e, tal como o rei Midas que transformava em ouro tudo o que tocava, fazer do trabalho humano, ´por amor, a Obra de Deus, Opus Dei, operatio Dei, um trabalho sobrenatural.”

Podemos santificar, isto é, elevar os nossos afazeres diários, algo que é humano, podemos elevá-lo a uma ordem superior, a uma ordem sobrenatural.

“Não entenderia a nossa vocação quem pensasse que a nossa vida sobrenatural se edifica de costas voltadas para o trabalho, porque o trabalho é para nós um meio específico de santidade.”[v]

Dessa forma, basta realizar o nosso trabalho, seja ele manual ou intelectual, doméstico ou profissional,  independentemente do cargo, função, etc…com   FÉ,  ESPERANÇA e  CARIDADE.

O que é fé?

Fé é uma virtude (prática habitual do Bem) que nos une a Deus, pois passamos a ter certeza de que Deus existe e de que somos contempladas por Ele e assim, com essa certeza, passamos também a contemplá-Lo, a admirá-Lo, ao longo de todo o dia, desde que acordamos até a hora do nosso repouso.

A fé é dada por Deus, pois não é algo que conquistamos pela prática de alguns atos, mas é infundida por Deus em nossos corações por ocasião do Batismo, mas a fé é como uma semente, se não a cultivamos desde que a recebemos no Batismo, ela vai, pouco a pouco, morrendo em nosso coração. Para ela voltar à vida, precisamos de uma boa confissão e também voltar a frequentar o que a alimenta, que são os Sacramentos, sobretudo, o alimento dado nas Missas: o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O que tem a ver a fé com o nosso trabalho cotidiano?

Tem tudo a ver.

Quem tem fé, passa a realizar o seu trabalho na presença de Deus.

Sabe que Deus, cujos “olhos” vê tudo, está contemplando o seu trabalho.

E assim, quem tem fé passa a contemplar a Deus, enquanto trabalha, realiza seus afazeres diários.

Assim, passa-se mais do que rezar e trabalhar dos beneditinos.

A nossa própria ação que é requerida pelo trabalho, pelo dever cotidiano, passa a ser uma ação contemplativa, uma ação que nos leva a Deus, que nos une a Ele. Assim, como o nosso coração bate e nós nem percebemos, enquanto realizamos o nosso dever diário, aquilo que a nossa vocação profissional e espiritual exige, o nosso coração está pulsando de amor e gratidão a Deus.

Essa é espiritualidade do Opus Dei e que pode ser a de um cristão batizado: uma vida contemplativa a Deus sem deixar de ser ativa, pois feita no meio das nossas ocupações habituais, no meio do mundo. Dessa forma, um cristão corrente, pode e deve se santificar, não precisando, já que não seria a sua vocação, se retirar para um mosteiro, para só aí ter vida contemplativa. A nossa contemplação a Deus pode perfeitamente se dar “no meio do mundo”.

“´A nossa vida consiste em trabalhar e rezar e vice-versa, em rezar e trabalhar. Chega um momento em que já não se sabem distinguir estes dois conceitos, estas duas palavras, contemplação e ação, que acabam por significar a mesma coisa na mente e na consciência.´ Sem o trabalho, sem o cumprimento dos deveres pessoais, não pode haver para o cristão corrente, vida e oração, vida contemplativa…sem vida contemplativa não serviria de nada trabalhar para Cristo.”[vi]

Por isso, quem tem fé realiza os seus afazeres diários com o máximo de perfeição humana possível.

Perfeição humana significa realizar tudo com virtude humana: vivendo a pontualidade, a laboriosidade, a veracidade, a prudência, justiça, lealdade, ordem, fortaleza, sinceridade, generosidade, sobriedade, compreensão, responsabilidade, perseverança, paciência, respeito, amizade, flexibilidade…

Para que o trabalho tenha tais perfeições humanas, atentará aos detalhes, às coisas pequenas. Como diz Jesus: “Quem é fiel no pouco, é no muito”. Quem é cuidadoso nos detalhes de uma obrigação bem cumprida, será cuidadoso em grandes empreendimentos. Uma alma magnânima não despreza os detalhes, coloca amor neles.

Sabe que até o modo de se fechar uma porta, não é de qualquer jeito, é com delicadeza. Que se iniciou um curso de atualização profissional, o fará até o fim, colocando “a última pedra”, se cuida de crianças ou idosos, colocará carinho, se atua com negócios, não irá mentir,  nem trapacear…

Conta-se que São Josemaria Escrivá gostava de subir em uma torre em Burgos, próximo ao Mosteiro de Las Huelgas com alguma pessoa e levava-a para contemplar um rendilhado de pedras na torre da Catedral que não se via lá de baixo e dizia que assim é o trabalho, a Obra de Deus.

Esse “acabar as tarefas pessoais com perfeição, com beleza, com primor destas delicadas rendas de pedra. Diante dessa realidade que entrava pelos olhos dentro, compreendiam que tudo isso era oração, um diálogo belíssimo com o Senhor. Os que haviam consumido as suas energias nessa tarefa sabiam perfeitamente que das ruas da cidade ninguém apreciaria o seu esforço: era só Deus.” E ele arrematava: “Entendes agora como é que a vocação profissional pode aproximar de Deus? Faze o mesmo que aqueles canteiros, e o teu trabalho, será também operatio Dei, um trabalho humano com raízes e perfis divinos.” [vii]

Quem tem fé, sabe que, para o seu trabalho ser perfeito humanamente haverá a satisfação, ainda, de duas exigências: uma material e outra formal.

A material é fazer o que a sua vocação profissional exige, o que você precisa fazer pelo seu estado de vida, cada um devendo analisar o que é o seu fazer para um casado, que certamente será diferente do fazer de um solteiro.

O elemento formal do trabalho bem feito humanamente é estar no que fazes. Não ir para trás e nem para frente. Empenhar a cabeça (inteligência) naquele dever e o coração em Deus.

São Josemaria tinha uma frase que bem resumia isso: “Faz o que deves e está no que fazes”.[viii]

“É este também o natural caminho de santidade que S. Josemaria propõe: “Queres deveras ser santo? – Cumpre o pequeno dever de cada momento faz o que deves e está no que fazes” (Caminho, 815).

As palavras anteriores mostram dois tipos de exigência da santidade: Uma material (“faz o que deves e está no que fazes”: cumprir o pequeno dever de cada momento, e cumpri-lo sem atrasos: hodie, nunc, hoje, agora) e outra formal (“está no que fazes”: cumpri-lo com perfeição e empenho, por amor a Deus). Estas duas exigências confluem numa única: o cuidado amoroso pelas coisas pequenas. Porque, na prática, os nossos deveres não são coisas materialmente grandes, mas “pequenos deveres” de cada momento; e porque a perfeição do seu cumprimento consiste também em “coisas pequenas” (em actos de virtude em coisas pequenas).”[ix]

Quando realizamos esse trabalho, empenhando-nos para que saia do modo melhor possível, sem marretagens e dentro das exigências cristãs,  estamos contribuindo para a edificação do próximo. Estamos não só “santificando o trabalho”, como “santificando-nos pessoalmente no trabalho” e finalmente  “santificando com o trabalho.”

O que significa santificar o trabalho, no trabalho e com o trabalho?

Santificamos o trabalho, porque lhe daremos esse sentido sobrenatural, fazemos o nosso melhor para agradar, louvar, amar a Deus. Aquele trabalho deixa de ter valor só humano, passa a ser uma oferta nossa a Deus.

Santificamo-nos no trabalho, pois nos esforçaremos para exercer ao máximo todas as virtudes humanas que aquele trabalho requer: paciência, prudência, laboriosidade…

Santificamos com o trabalho, pois a força do nosso exemplo, pode ensejar laços verdadeiros de amizade, faremos um “apostolado de confidência” como diria São Josemaria Escrivá, pois teremos ocasião de explicar, com muita naturalidade, de onde vem aquela “força” aquela perseverança em realizar as coisas, pequenas muitas vezes, com tanta dedicação, carinho, empenho, que é Deus, a nossa união com Ele, que somos somente instrumentos do seu Opus Dei, operatio Dei. Quem sabe até contribuiremos para edificar o nosso próximo, não só pelo nosso exemplo, possível pela graça divina, como também pela oferta a Deus desse nosso trabalho pela conversão, santificação e salvação do próximo, em união com o sacrifício de Jesus, o eterno Sacerdote?

Esperança

A esperança é um virtude teologal que inspira-nos a realizar o nosso trabalho, os nossos deveres cotidianos, sem desânimo, ordenando tudo para Deus, com o coração dilatado pois sabe que Deus está vendo tudo e que um dia estará com Ele no Paraíso, pois foi isso que Jesus veio nos trazer, essa esperança de um dia estar vivendo a Vida Dele, a Vida Bem-Aventurada.

A esperança de estarmos caminhando não para a morte, mas para a Vida, e a Vida de Deus,  “nos traz alegria mesmo na provação: ´alegrando-nos na esperança, perseverando na tribulação´(Rm 12,12).”[x]

Se por acaso, sentirmo-nos abatidos, desanimados em nossos deveres cotidianos, nada melhor do que recitar com muita piedade o Pai-Nosso, como nos exorta o ponto 1820 do Catecismo, porque é o “Pai-Nosso, resumo de tudo o que a esperança nos faz desejar.”

Caridade

A Caridade é uma virtude também teologal que vem junto com a fé e a esperança.

Se eu tenho fé, é como se fosse um primeiro degrau, para poder ir galgando os estágios de amor: de um amor egoísta, centrado em mim mesma, para um amor a Deus por interesse (medo de ir para inferno ou só pela recompensa do céu), para um amor a Deus desinteressado, amar a Deus pelo que Ele é, amá-lo com um amor de amizade e gratidão.

O meu trabalho pode ter ligação com a caridade?

Sim, com o meu trabalho diário, o meu dever cotidiano, posso realizá-lo para alguma satisfação pessoal, ou por cobiça, mas posso purificar tudo isso e realizá-lo com o coração posto em Deus, fazê-lo “por amor a Deus, entregando-me com generosidade ao serviço dos meus irmãos, os homens, de todas as almas, pois aquele que realiza a sua tarefa profissional com toda a responsabilidade presta um serviço direto à sociedade, alivia as cargas dos outros e presta obras de assistência a favor das pessoas e dos povos mais desfavorecidos.” [xi]

Transformar o trabalho em oração contemplativa-ativa

São Josemaria dizia que não convertêssemos as nossas vidas “numa espécie de sala de espera das estações ferroviárias…matando o tempo enquanto o trem não chega”, essa não é a atitude de quem deseja unir-se a Deus pelo cumprimento do seu dever cotidiano.

O tempo para amar a Deus é aqui e agora. Não quando…

Podemos transformar o nosso dever bem cumprido em um diálogo amoroso com Deus, contemplando-O e sabendo-se contemplada por Ele, que é Nosso Pai.

Só assim, aquele nosso dever bem cumprido junto com esse diálogo com Deus, transforma-se em oração, fazendo-nos ser pessoas de uma peça só, em uma unidade de vida, da vida exterior e da vida interior com Deus Uno e Trino.

Também dizia o mesmo São Josemaria que de nada adiante realizar o trabalho, sem a presença de Deus, um trabalho feito no anonimato, sem dirigir-se a Deus, não seria esse trabalho, sem presença de Deus, sem oferta a Deus, sem amor a Deus, sem união com Deus, uma Obra de Deus, mas um trabalho no anonimato, como alguém que entrasse em uma Igreja, sem se referir a Deus, mas ocultando-se na oração pública dos outros, sem empenhar a mente e o coração para Deus.

As nossa ocupações “não podem cair na obscuridade anônima de uma tarefa rotineira, impessoal….tem de converter-se num grande colóquio com o nosso Pai do céu.”[xii]

Essa atitude de por-se em colóquio com Deus, em contemplá-Lo e saber-se contemplada…transforma o nosso afazer diário em oração, que sem deixar de ser ativo, é também contemplativo.

Neste ponto vale recordarmos a passagem evangélica de Marta e Maria, em que Maria era contemplativa e Marta não estava sabendo contemplar a Deus, que estava em sua casa, enquanto realizava seus afazeres. Jesus a recorda, que “somente uma coisa é necessária”, essa contemplação amorosa em relação a Deus. Marta estava tendo o privilégio de ouvir da boca do próprio Jesus, mas não estava unindo a sua ação à contemplação daquelas palavras.

[i] Schrijvers, Joseph. O Dom de Si: vida de abandono em Deus, São Paulo: Quadrante, 1993, p. 123-4.

[ii] Carta Encíclica de São João Paulo II, na época Papa, Laborem Exercens – sobre o Trabalho Humano, 1981, página 17.

[iii] Catecismo da Igreja Católica, ponto 319.

[iv] Carta Encíclica de São João Paulo II, na época Papa, Laborem Exercens – sobre o Trabalho Humano, 1981, página 18.

[v] Tournau. Dominique de. O Opus Dei: tradução portuguesa do volume 2207 da Coleção Que Sais-Je?

[vi] Tournau. Dominique de. O Opus Dei: tradução portuguesa do volume 2207 da Coleção Que Sais-Je?

[vii] Escrivá de Balaguer, Josemaria, Amigos de Deus: tradução de Emérito da Gama, 2ª. Edição, São Paulo: Quadrante, 2000, p. 65-6.

[viii] Escrivá de Balaguer. Josemaria. Caminho, ponto 815.

[ix] Fonte: http://www.pt.josemariaescriva.info/artigo/santidade3f-coisas-pequenas, acesso em 04.04.2015.

[x] Catecismo da Igreja Católica, ponto 1820.

[xi] Tournau. Dominique de. O Opus Dei: tradução portuguesa do volume 2207 da Coleção Que Sais-Je?, p. 32.

[xii] Escrivá de Balaguer, Josemaria, Amigos de Deus: tradução de Emérito da Gama, 2ª. Edição, São Paulo: Quadrante, 2000, p. 64.

Jesus of Nazareth: ” He is not here, He has risen!”

São Paulo discusses the sure and certain hope of the resurrection of Jesus saying:

I gave you first what I myself had received: that Christ died for our sins according to the Scriptures; He was buried, and rose again the third day according to the Scriptures; appeared to Cephas, then to the twelve. Then appeared to more than five hundred brothers at once, most of whom still lives (and some are already dead); then appeared to James, then to all the Apostles. And, last of all he appeared to me also.

The Apostle Paul tells us about a truth: Jesus of Nazareth, was resurrected as had predicted.

The resurrection of Jesus prefigures the end of time in which Jesus glorious again and there will be the resurrection of the dead.

This is what explains the so Are John Paul II, at the time Pope, in his apostolic letter Novo Milenio Ineunte: is givenparamount, on which rests the Christian faith (cf. 1 Cor 15.14), a fact which is situated in the Centre of the mystery of time,and prefigures the last day Jesus will return glorious

In fact, as St. Paul says: and if Christ is not risen, it’s useless to your is and you are still in your sins.

Let’s dig in this truth and mystery, in the resurrection of Christ, held that “first day of the week”, that Sunday, to live well ourEaster Sunday.
1-Narrations of the post-resurrection appearances of Jesus

1.1. Gospel of Matthew (28: 10)

In the Gospel of Matthew, Jesus appears to Mary Magdalene and the other Mary on his empty tomb and asks to inform the others that he’s alive and prepends in Galilee.

The eleven disciples go to a mountain in Galilee to meet Jesus, who appears and commands them to baptize in the name of the father, the son and the Holy Spirit, and also to make disciples in all Nations.

1.2. Gospel of Luke (24)

The Gospel of Luke, recounts the apparition of the risen Jesus:

A-the Cleopas and his companion on the road to Emmaus. The principles of “their eyes couldn’t recognize”, but then, at dinner at Emmaus, “their eyes were opened and they recognized him. In this passage, Jesus is recognized to “break bread”.

B-For Simon Peter. This appearance is not described directly by Luke, but is reported by other Apostles. It is unclear whether it occurred before or after the appearances in Emmaus.

C-the eleven, together with some others (including Cleopas and his companion), in Jerusalem. Jesus appears to the disciples and supper with them, demonstrating that he is actually flesh and blood and not a “ghost”. He asks them to waitin Jerusalem at the beginning of his mission by the world and then ascends to heaven.

1.3. Gospel of John (20 and 21)

St. John’s Gospel recounts that Jesus appeared to:

A-For Mary Magdalene. At first, she didn’t recognize him and mistakes him for the gardener. When he calls her, she recognizes. He asks her to do not touch, do not yet ascended to the Father.

B-to the disciples (less Tome) that same day. They were indoors in fear of persecution of the Jews. Jesus went in and wentinto the middle of them, even though the door locked and asks that Tome touch his wounds to demonstrate who is flesh and blood.

C-the disciples, including Thomas, called Didymus “. This appearance occurred a week later, again under confinement, andthe event became known as the doubting Thomas.

D-the “Simon Peter, Thomas called Didymus, Nathanael of Cana in Galilee, the sons of Zebedee, and two other disciples”,on the shores of Lake Tiberias, immediately before the miracle of fishing for 153 fish. The beloved disciple was present in this group and who acknowledged that “it is the Lord”.

1.4. St. Mark’s Gospel
There are three appearances:

  • For Mary Magdalene, Mary the motherof James and Mary Salome.
  • For two of his disciples, when they were walking in the countryside (Jesus “manifested itself in another form”).
  • At the age of 11, during a supper.

1.5. Act of the Apostles

In acts of the Apostles, written by the same author of Luke, Jesus appears:

  • To his disciples after his death and stay with them for forty days before ascending, when he then ascended to heavenleaving the prophecy that would return (acts 1: 1-11).
  • For Saul (Paul), on the road to Damascus, although, according to the text, was a voice and a vision, because the Apostlewas blinded by a light (acts 9: 3-9, Acts 22: 6-11, Acts 26: 12-18). In addition, Paul also would have seen Jesus talking when I was in a trance (acts 22:17 -21).
  • Stephen saw Jesus before his martyrdom (acts 7:55).
  • The vision of Peter a towel with animals (acts 10: 9-16 and Acts 11: 4-10).

1.6. In 1 Corinthians 15

  • «and that appeared to Cephas, then to the twelve. ‘ (1 Corinthians 15: 5)
  • «appeared to more than five hundred brethren at once …» (1 Corinthians 15: 6)
  • «then appeared to James, then to all the Apostles ‘ (1 Corinthians 15: 7)
  • «and finally all appeared also to me “(I Corinthians 15: 8-9) (also in 1 Corinthians 9: 1)
  1. Something new has occurred

The resurrection of Jesus was something new. It wasn’t like the miracle of the resurrection of Lazarus (Jn 11, 1-44) or of the daughter of jairus (Mc-5.22 24.35-43).

As Benedict XVI clarifies:

The New Testament writers testimonials do not leave any doubt about the fact that, in ´ resurrection of the son of man hadsucceeded something totally different. The resurrection of Jesus was the evasion to a whole new kind of life, to a life no longer subject to the law of the die and become, but situated in addition, a life that opened a new dimension to be man(…). In the resurrection of Jesus was achieved a new possibility of being man, a possibility that concerns all and opens afuture, a new genus of future for men. (…) Jesus didn’t come to a normal human life in this world, as happened with Lazarus and others dead resurrected by him. Went out to a diverse, new life: went to the vastness of God and it is from her that manifests their.

This event should change our life. Jesus was born to be able to resurrect, to start a new life from which we will participateand will have no end, a lifetime of love and happiness.

Cause us a lot of hope. Physical death ceases to be an end. Is only a beginning of true life.

The human being is so preoccupied with finding new lives elsewhere. Barely, those who don’t have faith, that Jesus has already ushered in a new life. New heavens and Earth are being prepared for us. Our life, as St. Paul says, is hidden in ChristJesus.

And all this is something new that even the Jews awaited. The Jews who believed in resurrection, thought that theresurrection would be only at the end of times. For us will be that way, but for Jesus, the son of God by nature.

He’s alive and risen. “But a resurrection for a definitive and different condition, in the middle of the old world that continues to exist …”. He’s alive, risen and Present. So much so that there are saints who have had the experience of seeing it in the flesh.

Mary Magdalene, the disciples of Emmaus didn’t recognize

Interesting in the account of the Gospels, that people don’t recognize, very close by the sea, while only John, the disciple whom Jesus loved, recognize saying “it is the Lord”.

Maybe this show who had not understood the question of resurrection which Christ has predissera them, or had no faith,given the horror of watching him die on the cross.

It’s worth meditating on the attitude of the mother of Jesus, Holy Mary, you don’t doubt for a moment, so much so that,although it has remained all the time with Jesus dying on the cross and seeing him die of asphyxiation, agonizing in thosehorrors of the death of the cross, Santa Maria did not follow the Holy women who went to embalm the body of Jesus, aswas the Jewish custom.

It was not because it had absolute certainty of the resurrection of Your Son on the third day as predicted by the same.

The first meeting of the Resurrected Jesus appears to women first

Interesting that both in the narration of the cross and Resurrection, the women have preeminence in relation to men,although, as Benedict XVI explains, “in Jewish tradition, were accepted as witnesses in court only men, the testimony ofwomen was not considered reliable.”

In fact, some people believe that, before any person, Jesus appeared first to his mother.

Anyway, the Emeritus Pope Benedict XVI, analyzing the question of women who have first contact with the risen Jesus,concludes:

“Already the cross – except John – had found only women, so they designed the first encounter with the risen one.”

And then goes on:

On the legal structure, the Church is founded upon Peter and the Eleven, but on concrete form of ecclesial life are alwaysnew women who open their door to you, accompany you to the cross and thus may find it too as risen ”

Georges Chevrot, a 20TH century French priest, also meditates on the apparition of the risen Jesus, firstly, women saying:

These boníssimas women of Galilee well deserved to be the first to acknowledge the victory of Easter. For months andmonths, staying quietly in the shade, had taken care of well material of the disciples who followed the Lord (…)

And after Georges Chevrot also tells us that women have fidelity to God and that we women even in the worst moments of failure, we know that the last word is always of God. Those women, analyzes Monsignor Georges Chevrot, despite their painand knowing that there was no longer to be done, “had thought they could still do something, at least a gesture of affection for honoring the grave of Jesus”, being for such reasons that our Lord had a gesture of great delicacy with the same.
In his new body, it’s not just Spirit, because it eats with the disciples

Jesus, isn’t it, how the disciples were afraid at first, a ghost, a spirit but ´ ´ has meat-and-bone ´ ´ (cf. lk 24, 36-43) (…). Jesus did not come from the dead – that world that He definitely turned his back – but it comes precisely from the world of pura vida, comes from God, like really living that is, himself, the source of life. Lucas put in relief of drastic way the contrast witha spirit, as long as ´ ´ Jesus have asked, the disciples still perplexed, any House to eat and then, in sight of them, would haveeaten a lot of baked fish.

The risen Jesus confirms the new Alliance

And finally, it is interesting that the narration of the acts of the Apostles made by Luke (Acts 1: 4-1) says that Jesus would have eaten with his disciples.

But in the Greek, the word used was “synalizámenos”.

Pope Benedict XVI Emeritus, again, analyzes the term which means that Jesus ate salt with them “:

This eat salt in the old testament, served to ´ seal solid alliances (cf. Nm 18.19; 2 Cro 13.5. (…) Salt is considered asguarantees of durability (…) The ´ eat ´ salt by Jesus after the resurrection, that thereby we find as a sign of new life and permanent refers to the new feast of the risen one with yours. Is an event of Alliance and are in close connection with the last supper, in which the Lord established the new Covenant. Thus, the mysterious cipher of ´ eat salt ´ expresses an indoor-outdoor connection between the banquet before the passion of Jesus and the new convivial communion of the risen one.

As explained by Benedict XVI, salt was added to the deals in the Old Testament (Leviticus 2.13) and in Saint Mark’s Gospel,Jesus tells us the salt, saying that we are the salt of the world, and that we should not miss the “flavor”, indicating howBenedict XVI says that the salt is necessary to make the gift of self to God (Mc -50 9.49).

And I? I have increased my salt, my spice when I realize my actions, my daily duties, always offering a detail well done toGod, as a demonstration of my gratitude to God for his love for me?

Resurrection and his influence in my life: to honor the Lord

What is the practical consequence in my life to take science on the truth of the Ressurrreição of Jesus?

Each one should meditate at this point and come to your own conclusion and make its purpose.

Anyway, there is a concrete purpose stems from all this.

We need to thank him.

Thank you, because Jesus was not a Godly man, or a Superman, a superhero. He was a martyr, died for us, just to be thefirst of the new creation. He is a new Adam. And we, by the grace of God, we are your brothers in this new creation.

Is no small feat.

Translating, we will one day revive him, stand by his side in this new world, we participate in his divine life.

Let’s take a look at the words of Saint John Paul II, when he was Pope: “Jesus is the new man ´ ´ (cf. Eph 4.24; CL 3.10) thatinvites the humanity redeemed to join your divine life (…) to the goal of ´ deification ´ by inserting in Christ the manrescued, admitted to the intimacy of Trinitarian life ”

We know very well that “just because you did truly the son of God, man is that man can, in him and through him, become truly the son of God.”

I propose, then, that we do in order to participate in the Eucharist, Thanksgiving, that Jesus performs at mass, which we need to go, at least on Sundays, because it was on a Sunday that Jesus resurrected (Gospel of Mark 16, 2-9; Lucas 24.1,John 20.1).

Our Thanksgiving joins Thanksgiving perfectly performed by Jesus at the last supper and death on the cross and renewedat mass is going forward “truly, (…) the heart of Sunday ´ ´, irrevocable commitment embraced not only to comply with aprecept, but as need for a truly Christian life conscious and coherent. ”

Our Lady pray for us!

As well as our Lady the mother of Jesus rejoiced with the resurrection of Your Son, let us ask God as the final prayer of the Regina Caeli:

O God, who gave You brighten your world with

Resurrection of your son Jesus Christ, our Lord,

grant us, we pray Thee, who by his mother, the Virgin Mary,

reach the joys of everlasting life.

For Christ, Our Lord.

Amen!

  • 1 Corinthians 15, 3-8.
  • Pope John Paul II, Apostolic Letter Novo Milenio Ineunte, item 35, p. 54.
  • 1 Corinthians 15: 17.
  • Gospel of Saint Luke 24: 1.
  • Easter Sunday is a date that varies each year because it comes right after the first full moon of autumn equinox in thesouthern hemisphere.
  • Benedict XVI, Pope, Joseph Ratzinger, Jesus of Nazareth: the entrance of Jerusalem to the resurrection; translate Bruno Bastos Lins-São Paulo: Editora Planet of Brazil, 2011, p. 219-220.
  • Benedict XVI, Pope, Joseph Ratzinger, Jesus of Nazareth: the entrance of Jerusalem to the resurrection; translate Bruno Bastos Lins-São Paulo: Editora Planet of Brazil, 2011, p. 220.
  • Benedict XVI, Pope, Joseph Ratzinger, Jesus of Nazareth: the entrance of Jerusalem to the resurrection; translate Bruno Bastos Lins-São Paulo: Editora Planet of Brazil, 2011, p. 235.
  • Benedict XVI, Pope, Joseph Ratzinger, Jesus of Nazareth: the entrance of Jerusalem to the resurrection; translate Bruno Bastos Lins-São Paulo: Editora Planet of Brazil, 2011, p. 235-6.
  • Chevrot, Georges. Easter victory: translation of Henry Elfes, São Paulo: quadrant, 2002, p. 48.
  • Benedict XVI, Pope, Joseph Ratzinger, Jesus of Nazareth: the entrance of Jerusalem to the resurrection; translate Bruno Bastos Lins-São Paulo: Editora Planet of Brazil, 2011, p. 240.
  • Benedict XVI, Pope, Joseph Ratzinger, Jesus of Nazareth: the entrance of Jerusalem to the resurrection; translate Bruno Bastos Lins-São Paulo: Editora Planet of Brazil, 2011, p. 243.
  • Pope John Paul II, Apostolic Letter Novo Milenio Ineunte, item 23, p. 34 and 35.
  • Pope John Paul II, Apostolic Letter Novo Milenio Ineunte, item 23, p. 35
  • Pope John Paul II, Apostolic Letter Novo Milenio Ineunte, item 36, p. 54.

Translation: bing

Jesus de Nazaré: “não está aqui, Ressuscitou”!

 

São Paulo discorre sobre a certeza da ressurreição de Jesus dizendo:

Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado, e ressurgiu ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas e, em seguida aos Doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos); depois apareceu a Tiago, em seguida a todos os apóstolos. E , por último de todos, apareceu também a mim…[i]

O Apóstolo São Paulo fala-nos sobre uma Verdade: Jesus de Nazaré, ressuscitou como havia predito.

A ressurreição de Jesus prefigura os fins dos tempos em que Jesus voltara glorioso e haverá a ressurreição dos mortos.

Eis o que nos explica o então São João Paulo II, na época Papa,  em sua Carta Apostólica Novo Milenio Ineunte:  é dado primordial, sobre o qual se apoia a fé cristã (cf 1 Cor 15,14), um fato que está situado no centro do mistério do tempo, e prefigura o último dia em que Jesus voltará glorioso[ii]

Aliás, como diz São Paulo: E se Cristo não ressuscitou, é inútil a vossa é, e ainda estais em vossos pecados.[iii]

Vamos aprofundar nessa Verdade e Mistério, na Ressurreição de Cristo, ocorrida naquele “primeiro dia da semana” [iv], naquele Domingo, para vivermos bem o nosso Domingo de Páscoa.[v]

 

  • Narrações das aparições de Jesus pós-Ressurreição

 

  • Evangelho de Mateus (28:10)

No Evangelho de Mateus, Jesus aparece para Maria Madalena e outra Maria em seu túmulo vazio e pede para informar aos outros que Ele está vivo e os precederá na Galileia.

Os onze discípulos vão para uma montanha na Galileia para se encontrar com Jesus, que lhes aparece e comanda que eles batizem em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e também que façam discípulos em todos os povos.

  • Evangelho de Lucas (24)

O  Evangelho de Lucas, narra a aparição de Jesus ressuscitado:

A- A Cléofas e seu companheiro na estrada em Emaús. A princípio os “olhos deles não o puderam reconhecer”, mas depois, no jantar em Emaús, “seus olhos se abriram” e eles o reconheceram. Neste trecho, Jesus é reconhecido ao “partir o pão”.

B- Para Simão Pedro. Esta aparição não é descrita diretamente por Lucas, mas é relatada por outros apóstolos. Não está claro se ela ocorreu antes ou depois das aparições em Emaús.

C- Aos Onze, juntos com alguns outros (inclusive Cléofas e seu companheiro), em Jerusalém. Jesus aparece para os discípulos e ceia com eles, demonstrando que ele é de fato de carne e osso e não um “fantasma”. Ele lhes pede que esperem em Jerusalém pelo começo de sua missão pelo mundo e então ascende aos céus.

  • Evangelho de João (20 e 21)

O Evangelho de São João narra que Jesus apareceu a:

  • Para Maria Madalena. A princípio, ela não o reconhece e o confunde com o jardineiro. Quando ele a chama, ela o reconhece. Ele pede que ela não o toque, pois ainda não ascendeu ao Pai.
  • Aos discípulos (menos Tomé) naquele mesmo dia. Eles estavam dentro de casa com medo da perseguição dos judeus. Jesus entrou e foi até o meio deles, mesmo estando a porta trancada e pede queTomé toque as suas chagas para demonstrar que é de carne e osso.
  • Aos discípulos, inclusive Tomé, chamado “Dídimo”. Esta aparição ocorreu uma semana depois, novamente em ambiente fechado, e o evento ficou conhecido como a Dúvida de Tomé.
  • A “Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanaelde Caná na Galileia, os filhos de Zebedeu e dois outros discípulos”, às margens do Lago Tiberíades, imediatamente antes do milagre da pesca dos 153 peixes. O discípulo amado estava presente neste grupo e foi quem reconheceu que “é o Senhor”.
  • Evangelho de São Marcos

 

Há três aparições:

  • Para Maria Madalena, Maria, mãe de TiagoMaria Salomé.
  • Para dois dos discípulos, quando eles estavam caminhando no campo (Jesus “manifestou-se sob outra forma”).
  • Aos Onze, durante uma ceia.
    • Ato dos Apóstolos

Nos Atos dos Apóstolos, escrito pelo mesmo autor de Lucas, Jesus aparece:

 

  1. Algo de novo ocorreu

A Ressurreição de Jesus foi algo novo. Não foi como o milagre da ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-44) ou da filha de Jairo (Mc 5,22- 24.35-43).

Como esclarece Bento XVI:

Os testemunhos neotestamentários não deixam qualquer dúvida sobre o fato de que, na ´ressurreição do Filho do homem tinha sucedido algo de totalmente diverso. A ressurreição de Jesus foi a evasão para um gênero de vida totalmente novo, para uma vida já não sujeita à lei do morrer e do transformar-se, mas situada para além disso, uma vida que inaugurou uma nova  dimensão de ser homem (…). Na ressurreição de Jesus foi alcançada uma nova possibilidade de ser homem, uma possibilidade que interessa a todos e abre um futuro, um novo gênero de futuro para os homens. (…) Jesus não voltou a uma vida humana normal deste mundo, como sucedera com Lázaro e os outros mortos ressuscitados por Ele. Saiu para uma vida diversa, nova: saiu para a vastidão de Deus e é a partir dela que Se manifesta aos Seus.[vi]

Esse acontecimento deve mudar a nossa vida. Jesus nasceu para poder ressuscitar, para iniciar uma Vida Nova da qual participaremos e não terá fim, uma vida de amor e feliz.

Causa-nos muita esperança. A morte física deixa de ser um fim. É apenas um começo da verdadeira Vida.

O ser humano fica tão preocupado em descobrir novas vidas em outro lugar. Mal sabem, os que não têm fé, que Jesus já inaugurou uma Nova Vida. Novos céus e terra estão sendo preparados para nós. Nossa vida, como diz São Paulo, está escondida em Cristo Jesus.

E tudo isto é algo novo que nem os judeus esperavam.  Os judeus que acreditavam na ressurreição, pensavam que a ressurreição só se daria no final dos tempos. Para nós será assim, mas para Jesus, o Filho de Deus por natureza não.

Ele está vivo e ressuscitado. “Mas uma ressurreição para uma condição definitiva e diferente, no meio do mundo velho que continua a existir…”.[vii] Ele está Vivo, Ressuscitado e Presente. Tanto que há santos que tiveram a experiência de vê-lo em carne e osso.

Maria Madalena, os discípulos de Emaús não o reconhecem

Interessante no relato dos evangelhos, que pessoas bem próximas, não o reconhecem à beira-mar, quando somente João, o discípulo que Jesus amava, o reconhece dizendo “É o Senhor”.

Talvez isto demonstre que não haviam compreendido a questão da ressurreição da qual Cristo já lhes predissera, ou não tiveram fé, dado o horror de Vê-lo  morrer na Cruz.

Vale a pena meditar na atitude da Mãe de Jesus, Santa Maria, que não duvidou por nenhum instante, tanto que, embora tenha permanecido o tempo todo com Jesus agonizando na Cruz e vendo-O morrer asfixiado, agonizando naqueles horrores da morte da Cruz, Santa Maria não acompanhou as santas mulheres que iam para embalsamar o corpo de Jesus, como era o costume judaico.

Não foi, pois tinha certeza absoluta da Ressurreição de Seu Filho ao terceiro dia como predito pelo Mesmo.

O primeiro encontro do Ressuscitado: Jesus aparece a mulheres em primeiro lugar

Interessante que, tanto na narração da Cruz e na da Ressurreição, as mulheres tenham preeminência em relação aos homens, embora, como explica Bento XVI, “na tradição judaica, eram aceitos como testemunhas em tribunal só os homens, o testemunho das mulheres não era considerado confiável.” [viii]

Aliás, há quem acredite que, antes de aparecer a qualquer pessoa, Jesus teria aparecido em primeiro lugar à Sua Mãe.

De qualquer modo, o Papa Emérito Bento XVI,  analisando a questão de serem as mulheres que têm o primeiro contato com Jesus Ressuscitado,  conclui:

“Já  junto da cruz – exceto João – tinham se encontrado só mulheres, assim a elas se destinava o primeiro encontro com o Ressuscitado.”

E depois prossegue:

Na estrutura jurídica, a Igreja está fundada sobre Pedro e os Onze,  mas, na forma concreta da vida eclesial, são sempre de novo as mulheres que abrem  a porta ao Senhor, O acompanham até a Cruz e assim podem encontrá-Lo também como Ressuscitado”[ix]

Georges Chevrot, um sacerdote francês do século XX, também medita sobre a aparição de Jesus Ressuscitado, em primeiro lugar,  às mulheres dizendo:

Essas boníssimas mulheres da Galileia bem mereciam ser as primeiras a tomar conhecimento da vitória da Páscoa. Durante meses e meses, permanecendo discretamente na sombra, haviam cuidado do bem material dos discípulos que acompanhavam o Senhor (…)

E depois Georges Chevrot  também nos fala que as mulheres possuem fidelidade a Deus e que nós mulheres mesmo nos piores momentos do fracasso, bem sabemos que a última palavra é sempre a de Deus. Aquelas mulheres,  analisa Monsenhor Georges Chevrot, apesar da sua dor e sabendo que já não havia o que ser feito, “tinham pensado que ainda podiam fazer alguma coisa, Pelo menos um gesto de afeto para honrar a sepultura de Jesus”[x], sendo por tais motivos que Nosso Senhor teve um gesto de grande delicadeza com as mesmas.

 

 

Em seu novo corpo, não é só Espírito, pois come com os discípulos

Jesus, não é, como os discípulos temiam num primeiro momento, um fantasma, um ´espírito´, mas tem  ´carne e ossos´(cf. Lc 24, 36-43) (…). Jesus não vem do mundo dos mortos – aquele mundo a que Ele definitivamente deu as costas – mas vem precisamente do mundo da pura vida, vem de Deus, como o realmente vivente que é, Ele mesmo,  fonte da vida. Lucas põe em relevo de maneira drástica o contraste com um ´espírito´, contando que Jesus teria pedido, aos discípulos ainda perplexos,  qualquer coissa para comer e depois, à vista deles, teria comido uma porção de peixe assado.[xi]

Jesus Ressuscitado confirma a Nova Aliança

E finalmente, é interessante que a narração dos Atos dos Apóstolos feito por Lucas (Atos 1:4-1) diz que Jesus teria comido com os seus discípulos.

Mas no grego, a palavra usada foi “synalizámenos”.

O Papa Emérito Bento XVI, novamente, analisa o termo que significa que Jesus  “comeu sal com eles”:

Esse comer sal no Antigo Testamento, servia para ´selar alianças sólidas (cf. Nm 18,19; 2 Cro 13,5.(…) O sal é considerado como garante da durabilidade (…) O ´comer sal´ por parte de Jesus depois da ressurreição, que desse modo encontramos como sinal de vida nova e permanente remete para o banquete novo do ressuscitado com os Seus. É um acontecimento de aliança e por isso está em íntima conexão com a última ceia, na qual o Senhor instituíra a Nova Aliança. Assim, o misterioso cifrado do ´comer sal´exprime uma ligação interior entre o banquete antes da Paixão de Jesus e a nova comunhão convival do Ressuscitado.[xii]

Como explica Bento XVI, o sal era acrescido às ofertas no Antigo Testamento (Levítico 2.13) e no Evangelho de São Marcos, Jesus nos fala do sal, dizendo que nós somos o sal do mundo, e que  não devemos perder o “sabor”, indicando como diz Bento XVI que o sal é necessário para fazermos o dom de si a Deus (Mc 9,49-50).

E eu? Tenho acrescido o meu sal, o meu tempero quando realizo as minhas ações, os meus deveres cotidianos, oferecendo sempre um detalhe bem feito a Deus, como demonstração concreta da minha gratidão à Deus, pelo Seu Amor por mim?

Ressurreição e sua influência em minha vida: honrar o Senhor

Qual é a consequência prática em minha vida de tomar ciência sobre a Verdade da Ressurrreição de Jesus?

Cada um deve meditar neste ponto e chegar à sua própria conclusão e fazer o seu propósito.

De qualquer forma, existe um propósito concreto que decorre de tudo isso.

Precisamos agradecer-Lhe.

Agradecer-Lhe, porque Jesus não foi um homem divinizado,  ou um super-homem, um super-herói. Ele foi um mártir, morreu por nós, simplesmente para ser o primeiro da Nova Criação. Ele é um Novo Adão. E nós, pela graça de Deus, seremos Seus irmãos nesta Nova Criação.

Não é pouca coisa.

Traduzindo, nós vamos um dia ressuscitar como Ele, estar ao Seu lado neste novo mundo, vamos participar da sua Vida Divina.

Vejamos as palavras de São João Paulo II, quando era Papa: “Jesus  é o ´homem novo´(cf. Ef 4,24; Cl 3,10) que convida a humanidade redimida a participar da sua vida divina (…) para a meta da ´divinização´pela inserção em Cristo do homem resgatado, admitido à intimidade da vida trinitária” [xiii]

Sabemos, muito bem, que “só porque se fez verdadeiramente homem o Filho de Deus, é que o homem pode, Nele e por Ele, tornar-se realmente filho de Deus.”[xiv]

Proponho, então, que façamos o propósito de participar da Eucaristia, da ação de graças, que Jesus realiza na missa, a qual precisamos ir, pelo menos aos Domingos, pois foi num Domingo que Jesus ressuscitou  (Evangelho de Marcos 16, 2-9; Lucas 24,1, João 20,1).

Que a nossa ação de graças se una à Ação de Graças perfeitamente realizada por Jesus na Última Ceia e morte na Cruz e renovada na Missa seja daqui para frente “verdadeiramente, (…) o ´coração do domingo´, um compromisso irrenunciável abraçado não só para obedecer a um preceito, mas como necessidade para uma vida cristã verdadeiramente consciente e coerente.” [xv]

Nossa Senhora rogai por nós!

Assim como Nossa Senhora a Mãe de Jesus alegrou-se com a Ressurreição de Seu Filho, peçamos a Deus conforme a oração final do Regina Caeli:

Ó Deus, que Vos dignastes alegrar o mundo com a

Ressurreição do Vosso Filho Jesus Cristo, Senhor Nosso,

concedei-nos, Vos suplicamos, que por sua Mãe, a Virgem Maria,

alcancemos as alegrias da vida eterna.

Por Cristo, Senhor Nosso.

Amém!

Anexo: Tabela extraída do Wikipédia, em que constam as passagens narrando Jesus já Resssuscitado:

Número Evento Mateus Marcos Lucas João
1 Três Marias Mateus 28:1 Marcos 16:1 Lucas 24:1
2 Túmulo vazio Mateus 28:2-8 Marcos 16:2-8 Lucas 24:2-12 João 20:1-13
3 Ressurreição de Jesus Mateus 28:9-10 Lucas 24:1-8 João 20:14-16
4 Noli me tangere João 20:17-17
5 Encontro na estrada para Emaús Marcos 16:12-13 Lucas 24:13-32
6 Aparições de Jesus após a ressurreição Lucas 24:36-43 João 20:19-20
7 Grande Comissão Mateus 28:16-20 Marcos 16:14-18 Lucas 24:44-49 João 20:21-23
8 Dúvida de Tomé João 20:24-29
9 Ascensão de Jesus Marcos 16:19-20 Lucas 24:50-53

[i] 1 Coríntios 15, 3-8.

[ii] Papa João Paulo II, Carta Apostólica Novo Milenio Ineunte, item 35, p. 54.

[iii] 1 Coríntios 15: 17.

[iv] Evangelho de São Lucas 24:1.

[v] O Domingo de Páscoa é uma data que varia a cada ano, pois vem logo após a primeira lua cheia do equinócio de outono aqui no hemisfério sul.

[vi] Bento XVI, Papa, Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré: da entrada de Jerusalem até a ressurreição ; tradução Bruno Bastos Lins – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011, p. 219-220.

[vii] Bento XVI, Papa, Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré: da entrada de Jerusalem até a ressurreição ; tradução Bruno Bastos Lins – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011, p. 220.

[viii] Bento XVI, Papa, Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré: da entrada de Jerusalem até a ressurreição ; tradução Bruno Bastos Lins – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011, p. 235.

[ix] Bento XVI, Papa, Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré: da entrada de Jerusalem até a ressurreição ; tradução Bruno Bastos Lins – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011, p. 235-6.

[x] Chevrot, Georges. A Vitoria da Páscoa: tradução de Henrique Elfes, São Paulo: Quadrante, 2002, p. 48.

[xi] Bento XVI, Papa, Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré: da entrada de Jerusalem até a ressurreição ; tradução Bruno Bastos Lins – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011, p. 240.

[xii] Bento XVI, Papa, Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré: da entrada de Jerusalem até a ressurreição ; tradução Bruno Bastos Lins – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011, p. 243.

[xiii] Papa João Paulo II, Carta Apostólica Novo Milenio Ineunte, item 23, p. 34 e 35.

[xiv] Papa João Paulo II, Carta Apostólica Novo Milenio Ineunte, item 23, p. 35

[xv] Papa João Paulo II, Carta Apostólica Novo Milenio Ineunte, item 36, p. 54.

O Valor do Sofrimento

“Completo na minha carne” – diz São Paulo[i] – “o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja”.

Depois o mesmo acrescenta: “Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa”.[ii]

Por que o Apóstolo consegue se alegrar com os sofrimentos?  Como será possível alcançar esse nível de entrega de vida a Deus?

A alegria na dor

São João Paulo II, quando era Sumo Pontífice, em uma de suas Cartas Apostólicas, a “Salvifici Doloris”, analisou detalhadamente o sentido do sofrimento humano para o cristão e expôs uma verdade consoladora: de que existe um “sentido salvífico do sofrimento”.

E tudo começou com Cristo.

A grandeza do Amor de Deus foi demonstrada pela Encarnação de Jesus, quando se fez homem, capaz de sofrer, assumindo a nossa natureza sofredora.

Deus não é um Deus que “lava as mãos”, não nos abandona em nosso pecado, e aceita sofrer as penas que caberiam a nós, pela Justiça Divina: “…a ele, que não conhecera o pecado, Deus tratou-o, por nós, como pecado.”[iii]

Não há dúvidas de que a  Redenção da humanidade foi operada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Porém, nós podemos oferecer também nossa vida, nossas ações, alegrias e sobretudo os nossos sofrimentos em união com os méritos infinitos de Cristo a Deus Pai, cooperando com essa Redenção.

O nosso sofrimento, em união com o de Cristo, pode contribuir com a conversão, santidade e salvação de outras pessoas. Tornamo-nos corredentores com Cristo. É um modo de correspondermos à grandeza do  Amor de Deus, de lhe mostrar como somos gratos a Ele, por tudo, tentando dar-Lhe a alegria do retorno de muitos outros filhos pródigos a Este Pai tão amoroso quanto aquele narrado por Jesus na parábola do filho pródigo.  Este é o único “presente” que podemos colaborar em dar-Lhe, pois Deus não tem necessidade de nada fora de Si.

Por isso o Apóstolo diz: “completo na minha carne” e “alegro-me”. A alegria de um filho grato, que deseja corresponder ao Amor de seu Pai Deus.

Mas, como conseguir essa correspondência à graça e Amor de Deus obtida pelo Apóstolo Paulo nos sofrimentos, que às vezes, se revestem de circunstâncias tão repugnantes, de injustiças reais, de cruzes reais em nossas vidas, e não ficar apenas na tibieza, ou na resignação morna, ou pior, na revolta e na murmuração contra Deus?

Como digerir o fato, aparentemente incompatível, de que existe sim um Deus de misericórdia por trás desse meu sofrimento humano?

Primeiro passo: Deus não é indiferente ao nosso sofrimento

A primeira coisa a entender é que Deus não é um Ser indiferente.

Embora em sua natureza divina não seja capaz de sofrer, Ele quis sim sofrer como nós.

Ao aceitar formar um corpo para Si mesmo, ao assumir a natureza humana para ser o primogênito da nova Criação, Jesus teve corpo, alma humanos e vale dizer, coração humano.

Esteve sujeito às leis físicas, ao aprendizado experimental humano, sofreu tentações, foi maltratado, e até aceitou morrer de uma forma cruel. Ele “…operou a nossa Redenção mediante a Cruz…ou seja pelo seu sofrimento.[iv]

Em sua vida houve vários sofrimentos e Ele que é o Filho Unigênito, por natureza, Aquele que é consubstancial ao Deus Pai.

E nunca se revoltou, nunca se limitou a uma resignação.

Quis deixar-nos um modelo de amor. Ele nos amou com coração de homem.

Mostrou que se importa conosco. Não estava obrigado a aceitar Encarnar-se ou morrer numa Cruz.

É um Deus compassivo, que se coloca em nosso lugar, caminha junto em nosso sofrimento. São Josemaria Escrivá, um grande Santo dos nossos tempos, em sua costumeira sensibilidade nos demonstra esta verdade relativa ao nosso Deus. No ponto 166, de “É Cristo que Passa” São Josemaria diz que só olhando e contemplando o Coração de Cristo é que saberemos reagir cristãmente perante os sofrimentos alheios e perante a dor. E ele nos recorda quando Cristo andava pelas proximidades da Cidade de Naim e vê a angústia de uma viúva que havia perdido do único filho. Cristo se compadeceu. Na morte de  Lázaro, Ele chorou. Jesus Cristo não é insensível ao nosso sofrimento, conclui São Josemaria Escrivá.

Segundo passo: O sofrimento nos torna mais “humanos”

Não é verdade que nos solidarizamos com o próximo de uma forma mais eficaz se já tivermos uma experiência parecida?

Como é difícil compreender, colocar-se no lugar do outro, quando nunca passamos por aquilo?

Em outras palavras, é o sofrimento que nos torna mais humanos, que faz com que sejamos capazes de nos colocar no lugar do outro, a sentir compaixão, ou pelo menos uma empatia.

Dizia São João Paulo II: “o sofrimento humano suscita compaixão, inspira também respeito..” [vi]

Terceiro passo: A vida é uma sucessão de acontecimentos, uns agradáveis e outros penosos

Ainda que fujamos de alguma circunstância que nos tem causado sofrimento, é impossível eliminar todos os sofrimentos e dores. Faz parte da nossa natureza e do nosso amadurecimento.

O padre redentorista belga Joseph Schrivers, autor de várias obras de espiritualidade como “A Boa Vontade” e “Dom de Si” pela Editora Quadrante, explica muito bem sobre isso:

“Tudo varia sem cessar na natureza: o Criador assim o quis. As árvores frutíferas ficam durante longos meses sem folhas e como que privadas de vida, depois a seiva circula novamente nos galhos e estes cobrem-se de flores e de frutos. A nossa alma também passa por invernos rigorosos…” Aliás, prossegue o padre Joseph Schrivers, “… a fadiga, indisposição, numerosas ocupações que paralisam a imaginação, esfriam o coração e absorvem o espíritos. O mesmo acontece quando a oposição dos homens, os contratempos, os reveses, alteram o nosso bom humor e nos lançam na tristeza e no abatimento.” [vii]

Quarto passo: A capacidade de sofrer indica o grau do amor

Se uma pessoa chega para nós e diz que nos ama, mas, em seguida, for incapaz de ficar do nosso lado, de sofrer conosco em determinada circunstância, não é verdade que chegaremos à conclusão de que ela não nos ama, pois não demonstrou capacidade de sofrer?

É nas dificuldades que sabemos quem é amigo, diz-se popularmente.

Isso é uma verdade.  O outro lado da moeda do amor é o sacrifício.

São João Paulo II dizia que há uma “verdade do amor mediante a verdade do sofrimento.”[viii]

Novamente o padre redentorista belga Joseph Schrivers esclarece essa verdade.

Ele diz que o que nos faz gemer é a nossa inconstância no amor.

“Hoje, são todas de fogo, amanhã são todas de gelo. Hoje sentem-se seduzidas pela oração e pela vida de recolhimento, amanhã são incapazes de reunir dois pensamentos e de exprimir, de coração, um bom sentimento.” [ix]

Quinto passo: Cuidado com as falsas cruzes

Devemos ser maduros, para não dar nome àquilo que não é senão uma falsa cruz.

Às vezes, aquilo que denominamos sofrimento, não é senão o nosso próprio defeito que se evidencia diante de determinado acontecimento, ou pessoa. Por exemplo, pode ser uma incapacidade de perdoarmos uma pessoa, ou pode ser uma preguiça…

Precisamos encarar os nossos defeitos e pecados e lutar contra eles.

“Temos já bastante trabalho com as cruzes que Ele próprio não nos envia. Por que criar dificuldades novas, imaginar obstáculos lá onde o caminho para a santidade é plano?” [x]

 

Sexto passo: Tirar proveito do sofrimento para nós e para os outros

Se o sofrimento causa-nos repulsa, precisamos nos lembrar do que aconteceu com o profeta Jonas.

Deus o encarregou de pregar em Nínive e ele achando a missão totalmente impossível, tentou esquivar-se, fugindo para a Península Ibérica.

Mas, o que ocorreu? Uns marinheiros pagãos simplesmente sacrificaram-no ao “deus do mar”  e ele ficou três dias na barriga da baleia.

Quando finalmente resolveu “encarar” o sofrimento moral que a missão lhe impunha, chegou a Nínive, pregou a penitência e teve sim sucesso.

A pergunta é: não teria ele sofrido menos se tivesse de pronto encarado a sua missão, a Vontade Divina a seu respeito?

Precisamos aprendera tirar proveito até do sofrimento.

É assim que Deus faz.

Ele tira do nada, o tudo e do mal o bem.

Deus é Infinita Sabedoria, basta olharmos a Beleza da Criação e para nós, seres dotados de inteligência e vontade.

É admirável o modo divino Seu de atuar:  apesar de uma mulher ter pecado – Eva – Deus quis que uma Mulher participasse da Redenção,  operada pelo Único Mediador entre Deus e o homem, Cristo Jesus, Sua Mãe, a Virgem Maria.

Poderia ter rejeitado a ideia de uma Mulher desfazer o que uma outra havia feito. Mas, não.

E a Redenção então, operada na Cruz. Não foi Jesus que provocou, que foi um malfeitor para merecer a Cruz. Ele só fez o bem.  Mas, aceitou toda a humilhação desde a injustiça do processo condenatório à Cruz, até a Sua morte propriamente dita,  aceitou TODO AQUELE SOFRIMENTO PARA LOUVAR A DEUS E IMPLORAR-LHE PERDÃO PARA NÓS, SOFRER EM NOSSO LUGAR, PARA NOS “CONQUISTAR A LIBERDADE DE FILHOS DE DEUS” ( como diz São Josemaria Escrivá na página de introdução à Via Sacra).

Numa linguagem bem popular, precisamos aprender a usar dos limões que nos atiram para fazer uma bela limonada.

Aprendamos de quem é a Sabedoria em Pessoa:  Nosso Senhor Jesus Cristo!

Não percamos tempo: aprendamos a oferecer a Deus, como o nosso louvor a Ele, toda contrariedade, todo o sofrimento e aproveitemos para declarar, com isso, o nosso amor a Ele.

Somos livres. Podemos fugir de um sofrimento. Mas, é claro, esde que não implique determinado sofrimento em risco de vida para nós ou para o próximo, não será  este sofrimento, esta contrariedade, uma ótima ocasião para exercer a paciência, o perdão, o amor ao próximo PORQUE EU AMO A DEUS?

Sétimo passo: Tudo concorre para o nosso bem quando amamos a Deus

Não é verdade que Jesus pede-nos uma entrega filial à providência do Pai celeste, que, se permitiu um sofrimento,  em sua Infinita Sabedoria e Bondade, é para nosso bem?

Quem não se recorda da história de José, vendido como escravo pelos seus irmãos, e depois acabou sendo ele mesmo aquele que salvaria os mesmos da fome?

Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus.”[xi]

Conclusão: “Juntos, venceremos!”

Com Jesus, oferecendo a Deus o nosso sofrimento de cada instante, à Sua Perfeita Oblação na Cruz, seremos vencedores com Ele também.

“Nas horas difíceis do Gólgota, o Senhor tinha contra si, todo o poder espiritual do judaísmo e o tremendo poder material do Império Romano; e afinal, vencido aparente, foi o Vencedor. Ora, com Ele venceram os poucos homens que estiveram junto da Cruz, todos aqueles que de bom grado a aceitaram.”

E não nos esqueçamos de pedir o auxílio de Nossa Senhora, Ela que é a Consoladora dos Aflitos, pois daí tudo ficará mais fácil, pois estaremos sob o seu carinho maternal.

[i] Cl 1,24

[ii] Cl 1,24

[iii] 2 Cor 5,21

[iv] São João Paulo II, Carta Apostólica “Salvifici Doloris”, p. 6.

[v] Escrivá de Balaguer. Josemaría. É Cristo que Passa, São Paulo, Editora Quadrante, ponto 166.

[vi] São João Paulo II, Carta Apostólica “Salvifici Doloris”, p. 6.

[vii] Schrivers, Joseph. A Boa Vontade, São Paulo, Editora Quadrante, 2011, páginas 57 e 58.

[viii] São João Paulo II, Carta Apostólica “Salvifici Doloris”, p. 34.

[ix] Schrivers, Joseph. A Boa Vontade, São Paulo, Editora Quadrante, 2011, páginas 56

[x] Schrivers, Joseph. A Boa Vontade, São Paulo, Editora Quadrante, 2011, páginas 56

[xi] Romanos 8,28.

Amar a si mesmo, ao próximo e a Deus enquanto ainda é tempo…

“No entardecer da nossa vida, seremos julgados sobre o amor.  O amor é a diferença  entre céu e inferno”.

O Homem foi criado para ser feliz, tanto que Deus cria Adão e Eva e os coloca em posição privilegiada em relação às demais criaturas e os coloca no Jardim do Éden, um jardim de delícias.

E por ser, diferentemente das outras criaturas, feito à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26)  a intenção de Deus sempre foi a de,  um dia, elevar o Homem à comunhão com Ele mesmo em sua vida íntima bem-aventurada, no seio da  Santíssima Trindade.

Não haveria a morte tal como a conhecemos, que é a separação da alma e do corpo. Não havia sofrimento.

Sabemos que o Homem pecou, foi expulso do Jardim do Éden, e foi privado daqueles dons preternaturais e sobrenaturais que ele estava dotado antes da desobediência a Deus.

Sabemos que o Filho de Deus, por nós e  para a nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou pelo poder do Espírito Santo, no seio da Virgem Maria e, sem deixar de ser Deus, assumiu a carne e a alma humanos. E, desfazendo a desobediência de Adão, foi um Filho de Deus obediente até a morte, e a venceu com a Ressurreição, sendo, portanto, o novo Adão.

Essa morte foi redentora, teve por finalidade restabelecer a nossa dignidade e liberdade como filhos de Deus adotivos. Deus nos adota como filhos,  não como o Filho Unigênito é Filho por ser consustancial ao Pai, mas somos filhos pela graça divina, saída do lado aberto de Jesus na Cruz,  do qual jorraram sangue e também água,  esta última como o símbolo do Espírito Santo (Graça Incriada) e da graça divina.

É muito bonito, porque assim como Eva surgiu da costela de Adão, a Igreja que somos nós saímos do lado aberto do coração do novo Adão.

E é pelo Batismo, recebemos  essa graça divina que jorra do peito de Jesus e o próprio Espírito Santo,  que tem a função de nos transformar, nos divinizar, nos santificar ao longo da nossa vida terrestre. Como o Batismo nos dá essa semente de vida divina, caso a percamos, temos outros Sacramentos para recuperá-la ao longo da vida  como por exemplo a Confissão ou para incrementá-la como o Sacramento do Matrimônio, da Ordem.

Jesus conquista para nós a graça santificante, para que, quando morrermos termos a aptidão da visão beatífica de Deus e da comunhão com Deus. Quanto mais graça santificante em nossa alma, tanto mais será a visão de Deus, melhor o compreenderemos, porque quanto mais graça santificante, maior a luz da glória necessária para a visão beatífica de Deus.

É que “Em razão de sua transcendência, Deus só poderá ser visto tal como é quando Ele mesmo abrir seu mistério à  contemplação direta do homem e o capacitar para tanto. Esta contemplação de Deus em sua glória celeste é chamada pela Igreja de ´visão beatífica´.”(Catecismo 1028).

Jesus, contudo, não restabelece a ausência do sofrimento  que possuíam Adão e Eva, antes do pecado. E isto por motivos de Sabedoria Divina, já que Jesus transformou todo o sofrimento humano,ao tomar a carne humana,  inclusive a morte,  em obra de redenção, pois  se sofrermos como Jesus,  com boa vontade,   com espírito de penitência e sacrifício de louvor e ação de graças a Deus e em união à morte redentora de Jesus na Cruz, também contribuiremos, por meio de Jesus,  para que outros cheguem à fé e se salvem.

Também não há restabelecimento da ausência de morte física, porque tanto a morte de Jesus como a nossa própria morte,  passam a ser um caminho necessário para a Ressurreição, para entrarmos na glória eterna.  Ele já está ressuscitado em novo corpo glorioso como garantia de que um dia isso também se dará conosco.

Assim, sabemos que nós um dia morreremos. “A morte é o fim da peregrinação terrestre do homem, do tempo de graça e de misericórdia que Deus lhe oferece para realizar sua vida terrestre segundo o projeto divino e para decidir seu destino último.”  (Catecismo, 1013).

A morte nunca foi querida por Deus,  pelo contrário “A morte foi, portanto, contrária aos desígnios de Deus criador e entrou no mundo como consequência do pecado.” (Catecismo, 1008).

E sabemos que no final dos tempos,  todos serão ressuscitados , primeiro os que estavam falecidos, depois os que se encontrarem vivos neste dia, pois “Deus, em sua onipotência, restituirá definitivamente a vida incorruptível a nossos corpos, unindo-os às nossas almas, pela virtude da Ressurreição de Jesus.” (Catecismo,  997).

 

Mas, o que acontece com os falecidos? O que acontece logo após a nossa morte?

Há uma retribuição, ensina o Catecismo, imediatamente depois da morte, de cada um em função de suas obras e da sua fé. (ponto 1021).

Essa retribuição será de acordo com a fé e as obras.

Explicando melhor, nossa alma merecerá a separação eterna de Deus (inferno) ou a comunhão eterna com Ele (céu).

É, explica-nos o Catecismo (ponto 1021), a parábola do pobre Lázaro e a palavra de Cristo ao bom ladrão, assim como outros textos do Novo Testamento, que falam de um destino último da alma, que pode ser diferente para uns e outros.

“Cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num Juízo Particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja por meio de uma purificação, seja para entrar de imediato na felicidade do céu, seja para condenar-se de imediato para sempre.” (Catecismo 1022).

Essa retribuição se dará conforme a fé e obras, o que significa que não adiante falarmos “Senhor, Senhor” mas não nos esforçarmos para fazer a Vontade de Deus, que é a nossa santificação pela graça divina, por corresponder ao Amor de Deus.

De nada adiantará ter fé, acreditar que Jesus é Deus e em toda a Revelação Divina operada pelo Antigo e Novo Testamento. Fé, acreditar que Deus existe e em suas obras, isso até os demônios fazem como nos diz São Tiago, e tremem (2 Tiago 19). A fé desses espíritos infernais não é salvadora, porque não é uma fé que os leva a Amar o Senhor Deus.

Assim, se a nossa retribuição dependerá da fé e das obras, precisamos ter uma fé que seja um degrau para alcançarmos o cume da escada do Amor a Deus.

No final da nossa vida terrestre, estaremos diante de Deus Uno e Trino, que é Três Vezes Santo,  como bem se repete na liturgia bizantina de São João Crisóstomo (Santo, Santo, Santo, é Senhor dos Exércitos, o Céu e a Terra estão cheios da Vossa Glória, Hosana nas Alturas, Bendito o que vem em nome do Senhor, Hosana nas Alturas) e como bem repetem os anjos na visão de Isaías (Isaías 6:5) chegando até mesmo a cobrirem-se com suas asas em reverência à santidade de Deus, ou como bem se vê no Apocalipse (Apocalipse 4:8),  em que as criaturas em torno do trono de Deus repetiam o triságio sem cessar.

Estaremos diante de quem foi, é e será nosso Pai, porque:

  • Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” João 1:12-13
  • “Porque não recebeste o espírito de escravidão para outra vez estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai.” Romanos 8:15 –
    “E o mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” Romanos 8:16
  • “E se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo: se é certo que com Ele padecemos, para que também com Ele sejamos glorificados.” Romanos 8:17

E estaremos diante de um Pai que é como Jesus descreve na parábola do filho pródigo, um Pai que nunca feriu a liberdade de seu filho, mas sempre torceu para que ele concluísse que quem sempre o amou de verdade foi seu pai, tanto que no seu retorno todo arrependido, encontra um pai que o abraça, manda fazer festa.

Só que o tempo para haver este retorno, esta conversão é nesta vida. Foi o que Jesus pregou durante a sua vida pública: “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho.” (Evangelho de São Marcos 1: 14).

Estaremos diante de um Deus que é comunhão de Amor entre Pai, Filho e Espírito Santo, dando para perceber que eventuais tendências nossas ao egoísmo, desamor, ódio, rancor, falta de perdão …. tudo isso é incompatível com Ele.

Se não estivermos preparados para a retribuição do Céu, porque existe em nós ainda manchas do pecado, mas também não for caso de separação com Deus, porque morremos na sua amizade, então pensemos na hipótese do purgatório.

Mas afinal o que é o purgatório?

 

Podemos consultar a respeito do purgatório no Novo Testamento: 1 Cor 3:10,15; Lucas 12:58-59; Mateus 12:31,32, 1 Pe 13,18-19 e 4-6; e no Antigo Testamento – 2 Macabeus 44-46.

O purgatório é “um estado pós-mortal de purificação, ou seja, uma  ´purificação prévia à visão de Deus. Como esta purificação tem lugar depois da morte e antes da ressurreição final, este estado pertence ao estágio escatológico intermédio” (em Purificação da alma para o Encontro com Cristo Glorioso, da Comissão Teológica Internacional, 1990).

Na verdade, sempre houve orações pelos defuntos, como podemos ver no próprio Antigo Testamento em 2 Macabeus 12, 44-46.

O homem pode precisar ser purificado posteriormente à sua morte. Essa purificação tem mais a ver com uma dor de amor, pois é como o “amor que vê retardado o momento de possuir a pessoa amada e padece dor e pela dor purifica-se.” (em Purificação da alma para o Encontro com Cristo Glorioso, da Comissão Teológica Internacional, 1990).

 

Interessante a visão do purgatório tida por Santa Faustina Kowalska (anotações do Caderno I, item 20, de seu Diário) em que ela diz:

‘Vi o Anjo da Guarda que me mandou acompanhá-lo. Imediatamente encontrei-me num lugar enevoado, cheio de fogo, e, dentro deste, uma multidão de almas sofredoras. Essas almas rezavam com muito fervor, mas sem resultado para si mesmas; apenas nós podemos ajudá-las. As chamas que as queimavam não me tocavam. O meu Anjo da guarda não se afastava de mim nem por um momento E perguntei a essas almas qual era o seu maior sofrimento. Responderam-me, unânimes, que o maior sofrimento delas, era a saudade de Deus. Vi Nossa Senhora que visitava  as almas do Purgatório. As almas chamam a Maria ´Estrela do Mar´ Elas lhes traz alívio. Queria conversar mais com elas, mas o meu Anjo da Guarda fez-me sinal para sair. Saimos pela porta dessa prisão de sofrimento (Ouvi então uma voz interior) que me dizia: A minha misericórdia não deseja isto, mas a justiça o exige.”

 

Como bem diz São João da Cruz, “no entardecer da nossa vida, seremos julgados sobre o amor.” (Avisos e Sentencias 57).

O nosso juízo particular o que contarão serão os atos de amor a Deus e ao próximo, por isso devemos nos esforçar a cumprir aquele  “Amai-vos uns aos outros como Eu vos Amei” ;  “Amar a Deus sobre todas as coisas de toda a tua força, de toda a tua alma”, como bem nos ensina Jesus.

Em que consiste o amor sobre o qual seremos julgados no final da nossa vida terrestre?

 

Amar a si mesmo

O objeto mais próximo do amor somos nós próprios.

“Isto pode parecer um pouco alarmante, especialmente por encararmos a santidade como a perfeição do amor. Se a santidade é destruição do amor-próprio – assim nos disseram – como podemos, então ,dizer que temos de nos amar a nós mesmos partindo da caridade? De fato, destruir o nosso amor-próprio é destruir o amor por nós mesmos quando este interfere no nosso perfeito amor a Deus.” (DOHEN, Dorothy. Vocação de Amor, Editora Quadrante, São Paulo, p. 15).

Esse amor por nós mesmos será sadio se não é amor-próprio que nos afasta de Deus (amor-próprio, egoísmo), mas um amor por nós próprios que “consiste em querermos participar da felicidade eterna de Deus.”  (DOHEN, Dorothy. Vocação de Amor, Editora Quadrante, São Paulo, p. 15).

Amar ao próximo por amor a Deus e não só por um amor natural, por uma afeição natural. Mas amar ao próximo porque Deus também o ama.

Mas quem é o meu próximo?

“A resposta é simples: devemos fazer bem àqueles que estão perto de nós e àqueles que as circunstâncias, isto é, a vontade de Deus, puseram no nosso caminho…Temos de desenvolver o que Deus nos envia. Na prática da caridade, temos de ter presente a obrigação de servir em primeiro lugar aqueles que estão mais chegados a nós por natureza. Mas se um estranho estiver em necessidade desesperada, devemos ajudá-lo mais do que às pessoas de nossas relações em situação menos difícil.”

Lembrar também da parábola do bom samaritano. “Talvez o sacerdote e o levita, que não se preocuparam de ajudar o homem que caíra no meio dos ladrões, estivessem ocupados a fazer planos para várias atividades de caridade. No entanto, erraram, porque não se preocuparam de manifestar caridade por alguém que estava no seu caminho. “(DOHEN, Dorothy. Vocação de Amor, Editora Quadrante, São Paulo, p. 17).

Amar ao próximo é dar esmola?

Não amar ao próximo é muito mais do que dar esmola.

Caridade não é dar esmola.

Mas,  às vezes ajudar uma pessoa em extrema necessidade com esmola, pode ser um ato obrigatório de amor ao próximo.

Santo Tomás de Aquino diz: “temos obrigação não só de dar esmola do que nos é supérfluo, como também de dar esmola a qualquer pessoa que esteja em extrema necessidade.” (Suma Teológica II, q. 32, artigo 5.)

Necessidades espirituais dos outros  também são importantes

 

“Com efeito, se um homem está com fome, todos estão de acordo em dar-lhe comida; mas se está em pecado mortal, dizem que não têm nada a ver com isso. No entanto, as necessidades espirituais do nosso próximo são mais importantes do que as físicas.” (DOHEN, Dorothy. Vocação de Amor, Editora Quadrante, São Paulo, p. 18).

Antes do amor ao próximo, verificar se estamos sendo injustos com outra pessoa, corrigir isso

O ideal é conjugar a caridade e a justiça. Mas não se pode realizar a caridade com alguém, em detrimento de realizar uma injustiça com outra pessoa.

“…a consciência deturpada de muitos cristãos os levava a fazer atos caritativos enquanto descuidavam os seus deveres de justiça. Davam dinheiro aos pobres e não se preocupavam de pagar aos seus próprios empregados um salário suficiente para viverem.” ((DOHEN, Dorothy. Vocação de Amor, Editora Quadrante, São Paulo, p. 22).

Ser justo não significa que não se possa conjugar justiça com caridade

Explicamos melhor, às vezes  não queremos ajudar alguém, pensando ah, mas não é o meu dever, o meu dever é ajudar meu marido e filhos, não esse estranho.

Só que deixamos de realizar algo de bom para o estranho, não por falta de possibilidade real, mas por pensar só na questão da justiça, que “não é a minha obrigação”.  É preciso amenizar a justiça deixando-o não tão áspera, isso é caridade.

Na realidade, até mesmo essa justiça, deve ser resultado do amor que sentimos.

“A caridade deve vivificar a luta pela justiça. Deve temperá-la pela piedade e impedir que se torne demasiado áspera. Sem caridade, cumprir-se-á a letra da lei, mas perder-se-á o verdadeiro espírito de justiça.” (DOHEN, Dorothy. Vocação de Amor, Editora Quadrante, São Paulo, p. 23).

Caridade e verdade não se opõem: o amor não é cego como dizem

Às vezes a verdade pode doer, mas é preferível à mentira.

Temos de aprender a dizer a verdade com caridade, sem ferir, sem machucar, com prudência.

E às vezes, praticar a caridade, apesar de uma verdade.

“O grande apóstolo da caridade, São Vicente de Paulo, tinha para com os pobres uma atitude muito realista. Reconhecia que eram muitas vezes ingratos, hipócritas, repulsivos. Conhecia essas verdades, mas sabia também que eram seus irmãos em Cristo e amava-os precisamente por isso. Não há contradição entre verdade e caridade. Não é preciso fechar os olhos à realidade para amar. …Assim como Deus, que vê os nossos pecados, se esquece deles na sua misericórdia,  assim acontecerá conosco se amarmos verdadeiramente o próximo, pois o nosso amor se elevará acima do conhecimento que tivermos de qualquer verdade desagradável.” (DOHEN, Dorothy. Vocação de Amor, Editora Quadrante, São Paulo, p. 20).

Amar, algo gratuito

Se formos colocar na ponta do lápis, nenhum ser humano é digno de amor, nem mesmo nós, porque pecamos, somos cheios de defeito, “pisamos na bola” várias vezes…

Mas a questão toda é treinar o amor gratuito. Fazer e querer o bem às pessoas, independentemente do que elas são ou fazem. “Afogar  o mal com a abundância do bem”.

Um motivo, um bom motivo é ensinado por Dorothy Dohen, em seu livro Vocação de Amor:

“Os nossos pecados não nos impedem de desejar a felicidade eterna na companhia de Deus; sendo assim, por que é que os pecados do próximo nos hão de impedir de o amar e de desejar a sua bem-aventurança?” ((DOHEN, Dorothy. Vocação de Amor, Editora Quadrante, São Paulo, p. 2o).

Amar a Deus

Amar a Deus como nossa resposta pessoal a Ele.

Ele nos amou primeiro. Nunca teremos este mérito diante dele. O nosso amor é sempre uma retribuição, uma resposta, algo de retorno e não de origem. Mesmo porque não podemos Lhe retribuir nem esta vida terrena, nem a vida vindoura na glória, nem os dons e inúmeros benefícios conhecidos e ignorados que todos os dias recebemos de Suas Mãos generosas.

Amar a Deus não é mandamento é resposta Àquele que nos ama primeiro.

Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um « mandamento », mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro. (Bento XVI, Carta Encíclica, Deus Caritas Est, n. 1).

Um bom início para esse nosso amor-resposta pode ser exercitarmos em agradecer a Deus por tudo, pelo agradável e pelo desagradável, pelo que é bom e o que é aparentemente ruim, com um coração agradecido de filhos de Deus, tal como é o Coração de Cristo.

Podemos também como nosso amor-resposta, olhar para o outro,  o próximo, e realizar-lhe o bem, para agradar a Deus.

Amor se aprende amando

Vale transcrever, por fim, a lição Aristóteles, em sua obra Ética a Nicômacos:

“As coisas que temos de aprender antes de fazer, aprendemo-las fazendo-as – por exemplo, os homens se tornam construtores construindo, e se tornam citaristas tocando cítara, da mesma forma, tornamo-nos justos praticando atos justos, moderados agindo moderadamente, e corajosos agindo corajosamente.”

Nossas boas obras e seus efeitos

Como diz São Paulo: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3,23).

O pecado mortal, para ser perdoado,  necessita ser confessado, mediante um prévio exame de consciência e arrependimento sincero pelo seu cometimento.  Como regra, se alguém morre no estado de pecado mortal não confessado, morreu em um estado e não amizade com Deus, não terá chances de resgatar essa amizade após a morte e acabará se condenando quando vir a Pureza, o Amor de Deus, as graças que desperdiçou por culpa própria a vida inteira.

O pecado venial, para ser perdoado, por ser pecado, convém que seja confessado, mas, se tal não ocorrer, pode ser perdoado por outros modos, como por exemplo, dependendo do arrependimento da pessoa, na própria Santa Missa.

Seja como for, o pecado, tanto o mortal, como o venial, já perdoado quanto à sua CULPA, deixa uma consequência que não é apagada pela absolvição concedida por um sacerdote devidamente ordenado para isso, e que o faz não por poder próprio, mas por um poder que lhe é transmitido por ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Embora Deus sempre nos conceda na pessoa do sacerdote a absolvição para todo aquele que tenha se arrependido do seu pecado, no Sacramento da Penitência,  resta como um dever de reparação, pela desordem que o pecado causa em nós e nos outros.

Essa reparação é feita por boas obras, como jejum, esmola, oração, prática de piedade e caridade com o desejo de agradar a Deus…

A desordem que o pecado causa em nós tem fundamento pois, todo pecado, seja ele mortal, seja ele venial, diz o Catecismo da Igreja Católica, “acarreta um apego prejudicial às criaturas que exige purificação, quer aqui na terra, quer depois da morte no estado chamado purgatório.”

Em outras palavras, toda vez que cometo um pecado qualquer, isso acarreta uma facilidade, uma tendência para praticá-lo outra  vez.

A desordem que o nosso pecado causa nos outros, vai desde o escândalo (levar outro a se desviar do caminho do bem, imitando nossa conduta, ou praticando o mal por vingança contra nós pois não nos perdoou…) até um prejuízo real e concreto ao próximo (deixar o outro triste, com raiva…) chegando mesmo a prejudicar todo o Corpo Místico de Cristo (formado por todos os batizados) que é o seguinte: a nossa queda em uma luta ascética concreta (exemplo, viver a pontualidade e não conseguir) acarretar a queda de uma outra pessoa às vezes distante de nós e que nem a conhecemos, mas que também estava tentando lutar contra o seu defeito de ser impontual e não conseguirá porque não fomos heroicos…

Mas, se é certo que o meu pecado tem consequências para todo o Corpo Místico de Cristo, quando pratico obras boas como jejum, esmola, oração, pratico virtudes para a glória de Deus…tudo isso também reflete no Corpo Místico de Cristo como um todo.

É que essa boas obras, além de terem valor diante de Deus, a Igreja acaba também concedendo aqui na Terra valor de INDULGÊNCIA para nós que estamos vivos.

E, quando praticados essas boas obras INDULGENCIADAS, se estivermos com o CORAÇÃO CONTRITO perante Deus, essa indulgência é duplicada e pode ser aplicada aos fieis defuntos na forma de SUFRÁGIO.

Assim, existe uma COMUNHÃO SOBRENATURAL entre todos os batizados: entre nós vivos (Igreja militante), entre os mortos que já estão no Céu (Igreja triunfante) e entre os mortos que estão no purgatório (Igreja padecente).

Essa COMUNHÃO SOBRENATURAL forma um Corpo, o Corpo Místico de Cristo. Ele é Místico, porque não o vemos, não sabemos quem nele está ao todo, mas é formado por Nosso Senhor Jesus Cristo (como Cabeça), e nós, os santos do céu e os que estão no purgatório (como Membros):

“A vida de cada um dos filhos de Deus se acha unida, por um admirável laço, em Cristo e por Cristo, com a vida de todos os outros irmãos cristãos na unidade sobrenatural do corpo místico de Cristo, como numa única pessoa mística.” (Papa Paulo VI, Const. Apostólica Indulgentiarum Doctrina 5 e ponto 1474 do Catecismo da Igreja Católica).

Essa COMUNHÃO é feita por um LAÇO DE UNIÃO, que é a Caridade (o Amor a Deus), realizada pelo próprio Espírito Santo que é derramado em nossas almas no Batismo.

Por este laço de união, a Caridade do Espírito Santo, há um INTERCÂMBIO DE BENS ESPIRITUAIS entre todos do Corpo Místico, que são chamados de TESOURO DA IGREJA:

“Na comunhão dos santos, ´existe certamente entre os fieis já admitidos na posse da pátria celeste, os que expiam as faltas no purgatório e os que ainda peregrinam na terra, um laço de caridade e um amplo intercâmbio de todos os bens´. (Papa Paulo VI, Const.  apostólica Indulgentiarum Doctrina, 5).  Neste admirável intercâmbio, cada um se beneficia da santidade dos outros, bem além do prejuízo que o pecado de um possa ter causado aos outros….Esses bens espirituais da comunhão dos santos também são chamados o tesouro da Igreja…” (ponto 1475 do Catecismo da Igreja Católica).

Esse TESOURO DA IGREJA é formado pelas expiações dos nosso pecados feitas por Nosso Senhor, pelas preces e boas obras da Virgem Maria e a dos Santos e as nossas.

Desse TESOURO vêm as indulgências.

As INDULGÊNCIAS são a remissão (perdão) das penas devidas pelos nossos pecados já perdoados e elas são obtidas de Deus “mediante a Igreja, que, em virtude do poder de ligar e desligar que Cristo Jesus lhe concedeu, intervém em favor do cristão, abrindo-lhe o tesouro dos méritos de Cristo e dos santos para obter do Pai das misericórdias a remissão das penas temporais devidas a seus pecados. Assim, a Igreja não só vem em auxílio do cristão, mas também o incita a obras de piedade, de penitência e de caridade” (Papa Paulo VI, loc. Cit. 8, Conc. De Trento: DS 1835, e ponto 1478 do Catecismo da Igreja Católica).

A relação entre as indulgências e os fieis defuntos é que existem atos indulgenciados que a Igreja concede para nós como regra, mas que podem se transformar em SUFRÁGIO aos fieis falecidos se nós, ao praticarmos essas boas obras indulgenciadas, estivermos com o  coração contrito.

Quais são essas obras boas que podemos realizar, indulgenciadas pela Igreja e que podem ser duplicadas na forma de sufrágio para os fieis defuntos?

Eis aqui as normas que constam da Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina do Papa Paulo VI:

fonte: http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/apost_constitutions/documents/hf_p-vi_apc_01011967_indulgentiarum-doctrina_po.html

“N. 1. Indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, que o fiel, devidamente disposto e em certas e determinadas condições, alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica, com autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos.

  1. 2.A indulgência é parcial ou plenária, conforme libera parcial ou totalmente da pena devida pelos pecados.
  2. 3.As indulgências, ou parciais ou plenárias, podem sempre aplicar-se aos defuntos por modo de sufrágio.
  3. 4.Doravante indicar-se-á a indulgência parcial apenas por estas palavras: “indulgência parcial”, sem determinação alguma de dias e anos.
  4. 5.Ao fiel que, ao menos contrito de coração, realiza uma obra enriquecida duma indulgência parcial, é concedida pela Igreja uma remissão de pena temporal igual à que ele mesmo obtém por sua ação.
  5. 6. A indulgência plenária só pode ser adquirida uma vez por dia, ressalvada a prescrição da norma 18 para os que se acham “in articulo mortis”. Mas pode adquirir-se a indulgência parcial várias vezes no mesmo dia, a menos que expressamente seja indicada outra disposição.
  6. 7.Para adquirir a indulgência plenária é preciso fazer uma obra enriquecida de indulgência e preencher as seguintes três condições: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Sumo Pontífice. Requer-se além disso rejeitar todo o apego ao pecado, qualquer que seja, mesmo venial. Se falta essa plena disposição ou não se cumprem as supramencionadas condições, ficando intacta a prescrição da norma 11 para os que se acham “impedidos”, a indulgência será apenas parcial.
  7. 8. As três condições podem ser preenchidas em dias diversos, antes ou após a realização da obra prescrita; mas convém que a comunhão e a oração nas intenções do Soberano Pontífice se façam no mesmo dia em que se faz a obra.
  8. 9.Com uma só confissão sacramental, podem adquirir-se várias indulgências plenárias, mas para cada indulgência plenária é necessária uma comunhão e as orações nas intenções do Sumo Pontífice.
  9. 10. A condição da oração nas intenções do Sumo Pontífice pode ser plenamente cumprida recitando em suas intenções um Pai-nosso e Ave-Maria; mas é facultado a todos os fiéis recitarem qualquer outra oração conforme sua piedade e devoção para com o Pontífice Romano.
  10. 11.Sem prejuízo da faculdade dada aos confessores pelo cân. 935 do CDC de comutarem para aqueles “que se acham impedidos” ou a obra prescrita ou as condições requeridas, podem os ordinários locais conceder aos fiéis sob sua autoridade, conforme as normas do direito, caso morem esses fiéis em lugares onde lhes é impossível ou ao menos mui difícil confessar-se ou comungar, a possibilidade de ganharem a indulgência plenária sem confissão e comunhão imediata, contanto que tenham o coração contrito e estejam dispostos a se aproximarem desses sacramentoslogo que o puderem.
  11. 12.Fica abolida a distinção das indulgências em pessoais, reais e locais, para fazer aparecermais claramente que são as ações dos fiéis as enriquecidas com indulgências, mesmo que às vezes ligadas a um objeto ou a um lugar.
  12. 13.Omanual das Indulgências será revisto a fim de que não sejam enriquecidas de indulgências senão as principais orações e obras de piedade, de caridade e de penitência.
  13. 14.Os catálogos e compilações de indulgências das ordens, congregações religiosas, sociedades de vida comum sem votos, institutos seculares e associações pias de fiéis serão revistos assim que possível, para a indulgência plenária poder ser adquirida só em certos dias particulares, marcados pelaSanta Sé, sob proposta do superior geral ou, em se tratando de associações pias, do ordinário do lugar.
  14. 15.Em todas as igrejas, oratórios públicos ou semi-públicos – para os que legitimamente usam desses últimos – pode-se ganhar a indulgência de 2 de novembro, que só pode ser aplicada aos defuntos. Além disso nas igrejas paroquiais pode-se ganhar a indulgência plenária em duas ocasiões por ano: na festa do titular e no dia 2 de agosto, dia da indulgência da “Porciúncula” ou noutro dia mais oportuno que o ordinário fixará. Todas as supramencionadas indulgências podem ganhar-se nos referidos dias ou, com o consentimento do ordinário, nodomingo precedente ou no domingo seguinte. As outras indulgências, ligadas a igrejas ou oratórios, serão o mais cedo possível revistas.
  15. 16.A obra prescrita para ganhar a indulgência plenária ligada a uma igreja ou oratório é a visita piedosa durante a qual se recitará a oração dominical e o símbolo da fé (Pai-nosso e Creio).
  16. 17.Aos fiéis que utilizam religiosamente umobjeto de piedade (crucifixo, cruz, terço, escapulário, medalha), validamente abençoado por um padre, concede-se indulgência parcial. Ademais, se o objeto de piedade foi bento pelo Soberano Pontífice ou por um bispo, os fiéis que religiosamente ousam podem também obter a indulgência plenária no dia da festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, ajuntando, porém, a profissão de fé sob uma forma legitima.
  17. 18.No caso da impossibilidade de haver um padre para administrar a um fiel em perigo de morte os sacramentos e a bênção apostólica com a indulgência plenária a ela ligada, de que se trata no cân. 468, parágrafo 2, do CDC, concede benignamente nossa piedosa Mãe Igreja a esse fiel bem disposto a indulgência plenária a lucrar em artigo de morte, com a condição de ter ele durante avida habitualmente recitado algumas orações. Para aquisição dessa indulgência é louvável empregar um crucifixo ou uma cruz. Essa mesma indulgência plenária em artigo de morte pode ser ganha por um fiel, ainda que ele já tenha no mesmo dia ganho outra indulgência plenária.
  18. 19.As normas estabelecidas quanto às indulgências plenárias, especialmente a norma 6, são aplicáveis às indulgências plenárias que até então se chamavam toties quoties.
  19. 20.Nossa piedosa Mãe Igreja, em sumo grau solicita pelos fiéis defuntos, resolveu conceder-lhes os seus sufrágios namais ampla medida em cada sacrifício da missa, ab-rogando por outro lado todo privilégio neste domínio.

As novas normas regulando a aquisição das indulgências entrarão em vigor três meses após o dia da publicação desta Constituição nas Acta Apostolicae Sedis.

As indulgências ligadas ao uso de objetos de piedade, não mencionadas acima, cessarão três meses após o dia da publicação desta Constituição nas Acta Apostolicae Sedis.

As revisões de que se falou nas normas 14 e 15 devem ser propostas à Sagrada Penitenciaria Apostólica durante o ano. Após dois anos, a partir da data desta Constituição, cessarão de vigorar as indulgências que não tiverem sido confirmadas.

Queremos que estas decisões e prescrições sejam firmes e eficazes no futuro, não obstante eventualmente as Constituições e Ordenações Apostólicas emanadas de nossos predecessores e outras prescrições mesmo dignas de menção ou de exceção particulares.

Dado em Roma, junto de São Paulo, na oitava da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo, a 1 de janeiro de 1967, quarto do nosso pontificado.

PAPA PAULO VI”

Por fim, a Penitenciaria Apostólica editou o Manual das Indulgências a 29 de junho de 1968,  dia da solenidade de São Pedro e São Paulo.

O download pode ser obtido no seguinte endereço:

http://www.presbiteros.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/Manual-de-Indulg%C3%AAncias.pdf